CAPÍTULO 8 – ESQUEMAS E CHANTAGENS

"Alegre-se, minha jovem, porque hoje é um grande dia! Você acaba de ser designada como procriadora do Mestre Tsuruga!"

Cara de Setsu. Cara de Setsu. Cara de Setsu.

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Ainda que eu soubesse que a decisão estava tomada, ouvir as palavras de Lory, dirigidas a ela, fez meu coração disparar.

Mais uma vez eu me pergunto diante de quem eu estou. Desde que voltamos para junto de Kyoko, após uma longa, surpreendente e extenuante reunião, eu observo como ela novamente me aturde com uma completa mudança de postura e linguagem corporal.

À exceção de um breve olhar para Rick e Yashiro, no qual ela demonstrou perceber que a estávamos cercando, e de um ligeiro espasmo no olho esquerdo pela novidade trazida por Lory, ela permanece calma e exalando tédio.

"Hm? Acho que não entendi o que você disse"

Todas as minhas previsões acerca da reação dela caíram por terra. Eu esperava gritos, xingamentos, mais daquela estranha explosão e nós dois novamente engalfinhados no chão. Eu esperava até um sorriso sarcástico, palavras ásperas e acusações, mas a tranquilidade que ela está demonstrando agora jamais me passou pela cabeça.

"Ora, então eu repito: você partirá para o território Tsuruga como procriadora de Ren!"

Será que meu coração vai disparar toda vez que eu ouvir esta afirmação?

Lory reiterou a notícia com um largo sorriso e os braços abertos, como se esperasse reconhecimento. Como se fosse a pessoa mais magnânima da face da maldita Terra e Kyoko, a mais sortuda.

Ela põe a mão no quadril, apoia-se na outra perna, inclina a cabeça para o lado e olha de Lory para mim. Ela me examina lenta e minuciosamente, da cabeça aos pés, e eu nem consigo começar a enumerar como tal comportamento é bizarro.

Mulheres não examinam homens. As mais audazes os olham nos olhos, mas nunca por muito tempo. Aceita-se que meninas, quando muito jovens, encarem os adultos, mas é esperado que elas aprendam rapidamente a serem cordatas. Procriadoras seduzem os nobres quando é do interesse delas serem tomadas como esposas, mas sempre de maneira submissa.

Kyoko me examina, contudo, como se fosse ela o Mestre e eu o candidato a procriador, o que inusitadamente me excita.

"Não, obrigada"

Não sei se Rick se engasgou pelo choque ou tentando conter uma risada. Provavelmente uma risada.

"Oh? Você não gostou de Ren?"

Eu deveria imaginar que Lory não perderia a oportunidade de me infernizar.

"Não é questão de gostar ou não gostar..."

Agora ela caminha lentamente ao meu redor, avaliando-me mais uma vez, e eu me pergunto se os presentes estão sequer percebendo como o comportamento destoante dela representa um risco com qual precisamos lidar com cautela, ou se eles estão entretidos demais com a minha "humilhação pública" para perceberem que tal comportamento não pode ser sequer tolerado, quanto mais incentivado.

Afinal, estamos longe de realizar as mudanças que queremos fazer para que seja seguro a qualquer mulher agir de tal maneira, especialmente com um Mestre.

"...mas eu já tive o desprazer de lidar com membros de Clãs antes. Um herdeiro e um Mestre, para ser mais exata"

"Sim? E a experiência foi desagradável?"

Lory, que inferno, você conhece a história melhor do que ninguém! Pare de enrolar e encerre logo o assunto! É isto que eu preciso me conter para não dizer, mas estou no território dele, não posso ser (mais) desrespeitoso. Principalmente diante de outras pessoas.

Tal cortesia, contudo, não se estende a mim. Especialmente porque agora, graças a Rick e Yashiro, ele sabe que eu já tive a intenção de matar o Conselheiro dele. Mesmo eu sendo um Mestre de Clã, não conseguirei escapar da punição de Lory.

Não, eu serei ridicularizado na frente do meu irmão, meu Conselheiro, Ruto e... Kyoko. E devo suportar placidamente.

"Desagradável é eufemismo: um não sabia foder, o outro não sabia matar. Não posso dizer que tenha ficado impressionada"

Rick não estava preparado para as palavras de Kyoko, daí a estrondosa gargalhada. Yashiro se esforçava para não rir, preocupação não compartilhada por Lory, cujas gargalhadas se uniram às de Rick. Inferno, eu sei que estou com um mal contido sorriso no rosto, mas não podemos permanecer aceitando que ela se expresse livremente, por mais que eu queira nada além do que conhecer todos os pensamentos dela.

Mas não é seguro. Ela precisa aprender a controlar a própria sinceridade para não atrair mais atenções sobre si mesma.

"Sim, sim, compreendo. Bem, eu entendo que você não confie em Clãs, Mestres... homens! Mas eu lhe garanto que você estará mais segura com Ren"

"Ora, quanta bobagem!"

Parece que, no instante em que Lory se recuperou da galhofa, Kyoko também resolveu falar a sério.

"Não perca seu tempo tentando me convencer que vocês estão pensando na minha segurança, porque eu não vou cair nessa conversa fiada! Muito menos que eu tenho que me resignar a ser uma procriadora só porque você está dizendo! Ora, não importa quantos Mestres se juntem, vocês não têm autoridade para me designar como procriadora ou o que quer que seja!"

Como Lory imaginava, ela conhece as leis. Mas eu torcia para que não fosse o caso.

Eu desejei profundamente não precisarmos usar o trunfo que Lory guarda para convence-la a cooperar com nosso plano para ela.

Um trunfo que deixou minha cabeça rodando desde que Lory o revelou horas atrás.

"Vocês acham que eu não sei que uma mulher só se torna procriadora se for oferecida como tal pelo guardião legal? Pois bem, meu guardião legal é o patriarca Fuwa. Vocês pediram a permissão dele antes de decidirem o meu futuro?"

"Não, claro que não! Kyoko, se fizéssemos isso-"

"Eu não dou a mínima, Ren!"

"Você precisa de proteção, não entende?"

Eu vagamente percebo que estamos gritando um com o outro e que somos observados atentamente, mas não tenho tempo para me importar. Mulher teimosa e enfurecedora!

"Claro que eu entendo! E não há proteção melhor do que ficar escondida onde eu estava antes, fazendo o que eu fazia antes! Antes dessa baderna toda começar, antes de vocês me manterem prisioneira aqui!"

"Oh, então a culpa é nossa? Você invade o palácio de Lory como se fosse uma maluca..."

"Como você se atreve!"

"...sem considerar o fato de que o local estava cheio de nobres, cria uma verdadeira balbúrdia e ainda diz que a culpa é nossa?"

Ela abre e fecha a boca algumas vezes, arfando. Gagueja e balbucia. Eu não consigo evitar a expressão triunfante que destino a ela, mesmo sabendo que estou apenas enervando-a mais.

Até que, sem argumentos, ela parte para o ataque.

"...Eu não abriria as pernas para você nem se você fosse o último homem da face da Terra!"

O tom de voz, mais do que as palavras, são como navalhas afiadas.

"Cuidado, Kyoko. Do jeito que o mundo está, não é uma hipótese tão improvável assim"

Eu preciso de uma dose, urgentemente. Eu dou as costas para ela e me afasto para onde eu sei que Lory guarda um frasco. Sinto que continuo sendo observado, portanto faço minha a missão de não permitir que vejam minhas mãos trêmulas.

Não é fácil para mim discutir assim com uma mulher. Eu nunca precisei e duvido que até mesmo Lory, o mais velho dentre nós, tenha precisado. É exaustivo, já que toda a minha educação foi voltada para proteger a saúde e a integridade das mulheres, mas há algo em Kyoko que é exasperante e me deixa constantemente ansioso.

"Kyoko, eu sei que você entende que sua cabeça estará a prêmio caso o Clã Fuwa descubra que você está viva. E por mais que você ache que ficará segura no seu esconderijo habitual, a sua incursão no meu palácio e a comoção que se seguiu tiveram testemunhas importantes. O Conselho me convocou e eu não tive alternativas senão confirmar que um Escavador havia invadido o meu palácio, que ele foi capturado e que acabou morrendo após Yashiro e Ruto extraírem dele a verdade"

"Qual... verdade?"

"Que ele apenas tentou se aproveitar da distração da festa para furtar, nada mais"

"E o Conselho acreditou? Sem ver o corpo?"

Não diga a ela, Lory.

"Os Clãs não revelam as próprias técnicas de interrogatório, minha cara. São segredos muito bem guardados"

Merda.

A expressão de desprezo de Kyoko diante da nova informação me incomoda profundamente. É um mundo cruel, eu diria até desumano, por ironia. Ainda assim, eu não queria que ela conhecesse a crueldade do mundo em que eu vivo.

Já é demais que ela conheça a crueldade do mundo em que ela vive.

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"Então, se eu estou acompanhando corretamente, vocês esperam que eu aceite qualquer destino que vocês tenham traçado para mim, em gratidão por terem me mantido em segredo. É isso?"

"Exatamente!"

O sorriso de Lory é quase infantil.

"Isso é um disparate! Você acha que eu vou acreditar que estão tendo tanto trabalho por minha causa? Pft, certo! Eu sei bem que vocês apenas não querem que o mundo saiba que eu estou viva para não enlamear o currículo impecável do 'Mestre Tsuruga', que não só falhou fabulosamente em seu trabalho como juiz como ainda por cima recebeu condecorações indevidas!"

"Bem, isto seria um problema para nós, sem dúvidas. Como também seria um problema para você se o Clã Fuwa a exigisse de volta"

"Eles não vão me exigir de volta"

"Oh?"

Eu sorrio. Será possível que eu tenha me antecipado ao Mestre Lory?

"Eles não vão admitir que eu sou Kyoko. Se eles o fizessem, teriam que também admitir o meu testemunho e enfrentar o julgamento por estupro e tentativa de assassinato"

É a vez de Lory sorrir, o que faz um calafrio incômodo percorrer meu corpo. O que eu deixei de ver?

"Não teriam, não"

"...O quê?"

"Kyoko, você é uma mulher que passou seis anos vivendo como um Escavador, um fato inédito e mal visto pelo Conselho. Bastaria o Clã Fuwa alegar que você perdeu o juízo ao ter sido atacada pelo Desterrado que Ren puniu para o Conselho rotula-la como louca e desacreditar suas palavras"

Eu sinto a bile me subir pela garganta e por pouco não vomito.

"Já seria difícil o Conselho acreditar em suas palavras em contraponto à palavra do Clã Fuwa e de Ren; com seu histórico de vida criando uma situação incômoda para o Conselho, você se tornaria o exemplo perfeito de 'como uma mulher não deve ser' caso eles a desacreditassem publicamente. Diante das duas escolhas, o que você acha que eles prefeririam? Punir dois Clãs, ou rotular sua história como fantasiosa e ainda usarem seu caso para ilustrar às mulheres como a independência é prejudicial para elas?"

Meus olhos ardem e meu corpo treme. Acho que nunca senti tanto ódio em toda a minha vida.

Ouvir Lory me dar mais uma demonstração de como este mundo é corrupto apenas aumenta minha vontade de acabar com todos eles.

"Ou seja, a palavra da vítima não vale nada, se a palavra de dois Mestres de Clã for de acordo com a vontade do Conselho. É isto que você está me dizendo, Mestre Lory?"

Eu espero que eles percebam ao menos uma fração de todo o desprezo que eu sinto por eles.

"Infelizmente sim, minha cara"

"Infelizmente? Infelizmente? Não finja que se importa! E eu não sou cara a você, e muito menos sua!"

"Kyoko, acalme-se!"

"Calma? Calma? Diz o homem que matou a única pessoa que jamais me ajudou!"

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Eu cerro o maxilar e deixo cair a mão que impulsivamente estendi em direção a ela. Sei que peço muito pedindo a ela para se acalmar, quando meu próprio sangue está fervendo, mas ela parece tão desesperada que eu temo por sua sanidade mental.

"Kyoko, minha cara, você não está em posição de recusar"

Lory, pare.

"O diabo que eu não estou! Agora que o Conselho acha que o invasor está morto, não há motivos para eu precisar de proteção. Não pense que gratidão vai me motivar a aceitar o plano esdrúxulo de vocês, quando é evidente que vocês têm tanto a esconder quanto eu, já que mentiram descaradamente para o Conselho!"

Kyoko, apenas pare.

"Não temos, não"

Lory, já chega.

"Heim?"

"Eu disse que não temos tanto a esconder quanto você"

Tsk.

Depois de observar Kyoko e suas "várias faces", finalmente eu consigo decifrar alguns sinais em sua expressão. E a expressão do momento é de cautela e medo.

"Do que você está falando?"

"Estou falando de um acordo: da sua cooperação e da nossa cooperação"

Eu queria poder fugir daqui, mas minha posição não me permite. Raios, eu não posso sequer demonstrar o quanto acossar Kyoko desta forma me incomoda.

"Eu já disse que não tenho motivos para-"

"Maria"

Minha respiração está presa. A respiração de Kyoko está presa. Lory destina um olhar indulgente a nós dois.

"Como membro do Conselho, há certas obrigações das quais eu não posso me furtar. E ocultar informações acerca das linhagens dos Clãs é uma delas"

"...Eu não sei do que você está falando"

Eu preciso conceder que Kyoko quase conseguiu ser convincente. Talvez, se ela conseguisse usar uma voz mais alta que um sussurro...

"Você coopera conosco, e eu juro que o Clã Fuwa jamais colocará as mãos em Maria. Eu juro que sua filha ficará em segurança"