Capítulo 09.

Dúvidas.

Após ficar alguns segundos estupefatos, Harry deu os ombros e achou melhor seguir Draco e nesse exato momento sentiu vários pés marcharem no andar de baixo, o que significava que o jantar tinha acabado de terminar.

Harry não teve muito tempo para pensar em muita coisa, apenas não queria ser visto por ninguém, muito menos por Rony que provavelmente ia fazer um bilhão de perguntas, Harry não teria como mentir e o ruivo ia querer participar da caçada, Harry meteu a mão no colarinho de Draco e o puxou com violência para dentro do armário com toda a força que tinha. Ele e Malfoy tropeçaram e já estavam totalmente embolados ali dentro, na maior bagunça, onde Harry sentiu as pernas enroscadas em algum lugar das vestes molhadas de Draco, e assim ficaram por um bom tempo constrangedor, quando um número sem fim de alunos que fofocavam passaram, eles saíram do armário ajeitando as vestes e se encarando de modo rancoroso entre alguns intervalos de segundos, mas logo desceram para o Saguão de Entrada sem trocar muitas palavras torcendo para não serem flagrados por ninguém, estava tudo fácil, apesar de alguns archotes ainda estarem acesos, os professores conversavam ainda na mesa do Salão Principal.

- Tenho a nítida impressão de que teremos uma péssima noite! – reclamou Harry olhando a floresta quando terminou o degrau que davam acessos aos jardins e pisando no gramado sentindo a lama subir até metade de sua canela.

- Jura? – perguntou Draco com sarcasmo mas logo respondeu – Já eu me sinto como acampar no fundo de casa. Sabe, Potter, ao contrário de você, eu moro numa mansão...

Draco foi à frente, já que segurava um lampião nas mãos, Harry estava atrás tentando não pisar nas poças, mas isso já era praticamente impossível, estava encharcado e precisava se acostumar com o tipo de sujeira aos pés, arriscou um olhar rápido na direção da cabana de Hagrid e viu que a luz estava acesa, o que significa que ele não havia participado da seleção das casas nesse ano, e sendo que os professores ainda se encontravam conversando no Salão Principal, com exceção do gigante.

Harry achou melhor focalizar sua atenção na Floresta Proibida, já que estava entrando na mesma, juntamente com seu pior inimigo, o que tornava a situação um pouco pior.

Harry e Draco andaram por muito tempo sem falar nada e a floresta estava imensamente escura, dando uma impressão tenebrosa, e a chuva já estava mais leve depois de alguns minutos de caminhada.

- Bom, vamos andar bastante, armar algum tipo de barraca e amanhã vamos à caçada. Que tal? Porque pelo visto, não vamos achar nada nessa escuridão...

- Ótimo – reclamou Harry vendo suas vestes lameadas até à cintura – Mas que droga!

- Não reclame, Potter, estamos salvando a vida da sua amiguinha sangue ruim!

- Você veio porque quis – retrucou Harry ajeitando os óculos no nariz para que não escorregasse.

- Já disse, coisas de monitor e você não deveria se meter, ou posso lhe aplicar uma detenção – e soltou uma risadinha marota.

Harry se odiou por vários segundos por estar vivenciando aquele momento em que Draco levara a melhor por ser monitor e ele não podia fazer nada a não ser calar a boca e concordar, isso era no mínimo estressante.

Eles andaram por mais algum tempo sem olhar para trás e quando já estava absolutamente ainda mais escuro do que antes, a ponto de que suas varinhas estavam praticamente sendo inúteis com o lumus, eles decidiram que era melhor ficar por aquelas redondezas.

- Vamos parar por aqui Potter... – ele puxou a varinha e com um barulho parecido de uma lona sendo estendida ao longo da noite, uma enorme barraca azul-piscina se formou à frente deles, com as pontas bem definidas e bem pregadas ao chão, parecendo uma cabaninha.

- Ah, legal, e eu vou dormir onde?

- Não vai me dizer que não sabe fazer esse feitiço? – zombou Draco levantando com as mãos à janelinha para adentrar na barraca, antes fazendo um feitiço para secar todo o seu corpo da água molhada.

- Ah, sinceramente, não sou muito bom em transfiguração, talvez em feitiços, mas desconheço esse – para Harry isso lhe custou a sua vida inteira, não era bem o que pretendia dizer, além de que tinha falado quase num sussurro, e por fim Draco acabou escutando, e Harry apostaria toda sua fortuna em Gringotes que ele havia colocado o ouvido na parada da cabana para ouvir essa declaração.

- Ah tudo bem – ouviu a voz bizarra de Draco vinda de lá de dentro – Você pode dormir nos meus pés... Tem um espaço aqui...

Harry rangeu os dentes uns aos outros antes de entrar na barraca se segurando para não xingar o garoto, de fato a barraca era um pouco maior do que imaginava, não era bem uma barraca de bruxos e sim de trouxas, onde só havia colchões cujo cabia apenas duas pessoas e nada mais do que isso.

As vestes de Draco estavam totalmente sujas e como conseqüências sujou uma parte do colchão também, o garoto loiro preferiu tirar os sapatos e deixar jogados em um canto, tirou também às vestes lambuzadas de barro, e enfiou os dois dedos no nó da gravata para afrouxá-lo, em seguida desabotoou sua camisa branca, revelando um peito branco porém forte e bem definido. Harry viu tudo às peças de roupas sujas, puxou a varinha e repeliu isso com um feitiço que deixou Draco um pouco sem graça por não ter feito isso antes, e acabou arrancando risadas internas de Harry.

- Olha Potter, é o seguinte, você dorme daqui pra cá, e eu daqui pra cá – disse montando com as mãos linhas imaginárias de separação – E se ficar com medo, nada de me agarrar...

- Há há há – riu Harry em tom de falsete.

Harry conjurou um travesseiro que na verdade ficou um pouco maior do que deveria, e Draco fez o mesmo tendo um travesseiro maior do que uma almofada, o que fez atirá-la pra fora da barraca e conjurar outra.

- Se precisar de ajuda para fabricar uma almofada, é só chamar – falou Harry virando as costas para o garoto e deitando de lado no colchão bem macio.

- Tudo bem, Potter, eu sei me virar sozinho – resmungou fazendo a terceira almofada – Droga de varinha – reclamou algum tempo mais tarde em que Harry estava pegando no sono.

E assim passou a noite, a chuva fina caindo sobre a barraca deles, eles encolhidos na barraca um tantinho apertada, já era dia e não parecia assim ser, porque o sol estava escondido por trás do topo das árvores, e o ar noturno ainda predominava, parecendo mais estarem na madrugada. Dormiram assim, e separados por uma divisória imaginária.

O dia seguinte amanheceu sem nenhum raio de sol atingir o local, Harry e Draco se vestiram rapidamente achando que era ainda era noite mas descobriram no relógio que o dia já havia começado há algumas horas, e assim foram para a caçada.

Desarmaram a barraca e botaram fogo nela já que não ia mais usarem e caso precisassem, era só estralar os dedos e fazer outra, com uma ajuda particular de Draco, já que Harry havia confessado não ser muito bom nesse feitiço.

Foram arrastando os pés pelas folhas secas e galhos na escuridão, com as varinhas acesas em punhos, olhando cada raiz e cada árvore que tinham em volta.

Eles resolveram que era melhor caminhar de volta em direção ao castelo que até o caminho havia vários tipos de árvores e que possivelmente em algum lugar havia plantas de Urtigas, e foi o que fizeram, pararam para se alimentar perto de um lago que serpenteava no meio da Floresta, e logo voltaram a procurar pelas plantas, em direção à claridade na Floresta.

- É quase de tarde e até agora nada – reclamou Harry com a varinha em punhos.

E dali uns cinco minutos Draco parou para observar um galho e gritou pelo nome de Harry que ecoou pela floresta, ele tropeçou em algumas raízes e quando estava chegando perto de Draco que observava lentamente os frutos com as mãos, uma flecha riscou o ar no meio deles, longe de acertá-los, mas porém, dava o ar de alguém que queria ameaçar.

- Não permitimos a entrada de humanos!

Harry e Draco trocaram um olhar rápido e assustado, o garoto loiro deu uma risada de deboche e cruzou os braços e encarou o centauro como se fosse Rony nas épocas de briga.

- Quem você pensa que é? Sabe com quem está falando...

- Malfoy! – cortou Harry arregalando os olhos e sentindo o coração arder no peito, Draco estava desafiando o centauro como se ele fosse ligar para que tipo de cargo o pai de Malfoy ocupava no ministério – Malfoy! Não!

Draco puxou a varinha na direção do centauro e não houve tempo de Harry fazer muita coisa, um lampejo cortou o ar, cruzando com uma flecha, e depois de um longo clarão, que provavelmente chamou a atenção de todos os centauros das redondezas, Harry viu ao longe, Malfoy tinha se abaixo no meio da plantação para não ser atingido pela flecha, porém, o centauro foi atingido com o feitiço cortante bem no peito e só parou de voar porque colidiu contra um tronco muito grande, batendo a cabeça e desmaiando.

- Malfoy, você acaba de fazer a pior besteira da sua vida... – estremeceu Harry correndo em sua direção, com a varinha em punhos, ajudando o garoto a se levantar já que parecia imóvel – Vamos, vamos sair daqui porque a essa altura os centauros estão vindo na nossa direção.

Draco não teve tempo de estudar mais a planta, agarrou algumas folhas, e socou por dentro do bolso das vestes, correndo ao lado de Harry, jogando barro por todos os lados, mas então vultos surgiram às pressas no meio da Floresta, de frente aos dois, e eles souberam identificar no mesmo momento que eram os centauros.

- Oh não – gemeu Harry grudando nas vestes de Draco e puxando ele por trás de uma árvore para que pudessem cobrir os dois. Harry não percebeu mas puxou Draco com uma velocidade muito forte, e ele desequilibrou indo parar no meio de seus braços, ele não teve outra alternativa a não ser abraçar Draco com força para que não pudessem ser visto pelos centauros.

- Humanos! Matem-nos! – gritava os centauros armados.

E eles começaram a buscar nas redondezas pelos tais humanos, só então que um rugido surgiu de longe, Harry e Draco não se encararam para não se mexerem e serem vistos, mas nesse exato momento árvores foram arrancadas à força abrindo um caminho para algo gigante como um balão passar, e os raios de sol ultrapassaram o buraco das árvores indo atingir os olhos dos garotos, e eles sentiram que iam ficar cegos, colocando as mãos no rosto para tampar a visão ardente. Nesse exato momento, os centauros perceberam o movimento e correram na direção dos dois com as flechas em mãos, mas não houve tempo de atirar, porque a mão do gigante fora mais rápida e atingiu os centauros de tal modo que eles voaram por metros longe dali.

- Obrigado Grope – agradeceu Harry depois, com os olhos brilhando em lágrimas.

- ARRÊ! – gritou o gigante em tom de cumprimento acenando para os dois encolhidos ali no canto.

Harry soltou Draco que escorregou pelo barro, e desequilibrou, caindo de quatro aos pés da árvore, sujando as mãos e vestes.

- Você o conhece – tossiu Draco com a voz trêmula – Você é amigo desse gigante? – ele levantou se apoiando no tronco da árvore, com uma expressão de nojo no rosto, e os cabelos loiros agora marrons, cheios de galhos e folhas caindo sobre seus olhos.

- Sim, ele é o irmão de Hagrid – suspirou Harry acenando para Grope que dava socos no peito e rugia como se fosse algum tipo de gorila, ou até mesmo o Tarzan, fazendo o local tremer levemente, e das árvores as folhas caíram com mais rapidez do que com uma ventania.

- Acho que é hora de voltar, Malfoy – lembrou Harry olhando em volta para verificar se a barra estava limpa – Estamos no território dos inimigos.

- Acho que torci o pé – reclamou Draco colocando as duas mãos acima do tornozelo – Está doendo pra caramba!

- Tudo bem, eu te ajudo – falou Harry solidário, não ia deixar Draco sozinho na floresta, apesar de ainda ser considerado seu pior inimigo.

Harry passou o braço pelos ombros de Draco e o ajudou a levantar do chão, andando nos mesmos passos que o garoto.

- Potter, pega a varinha de volta! – avisou Draco feroz – Para o caso de algum centauro aparecer...

- Bem lembrado – disse Harry que já havia se esquecido desse "mínimo" detalhe, meteu as mãos nas vestes e puxou o seu artefato de madeira.

- Você conhece a pior das maldições perdoáveis, não é?

- Malfoy! – reprimiu Harry achando que ele estava entrando em delírio, mas então riu, porque sabia que esse era somente um tipo de atitude de algum "Malfoy".

- Eu estou falando sério, Potter, antes a vida deles do que a sua.

- É, você tem razão – concordou Harry tentando andar mais rápido, já que estavam bem mais pertos do castelo e já podiam enxergar através das frestas os jardins de longe do castelo.

Em menos de meia hora de caminhada, eles já estavam atravessando os jardins atraindo olhares curiosos dos alunos que partiam para as aulas de Trato das Criaturas Mágicas ou Herbologia.

- O Potter e o Malfoy!

- Juntos!

- Abraçados!

- Saindo da Floresta Proibida!

Harry não deu ouvido, e só na luz solar notou que suas vestes estavam rasgadas e seus braços estavam arranhados pelos galhos.

A parte mais difícil foi chegar com Draco até a enfermaria, passando por todas as escadas e lugares sendo apontados pelas pessoas e comentários idiotas e maldosos, assim que bateram na porta da enfermaria, Madame Pomfrey pareceu desmaiar de preocupação, e chorava com as duas mãos no rosto.

- Meninos! Vocês voltaram! Que bom! Que bom! Aonde é que eu estava com a cabeça! Por Merlin! O que eu fiz! Oh, Merlin é pai!

- Tudo bem, Madame Pomfrey, tudo bem, estamos bem – disse Harry soltando Draco e sentindo o braço arder por ter ficado nessa posição por muito tempo, sem o sangue circular dentro de seu braço – Trouxemos as folhas de urtiga!

Minerva e Snape saíram por trás das cortinas e estavam muito zangados, foram nas direções de seus alunos lhe aplicarem broncas que deixou Harry sem rumo, Madame Pomfrey pousava Draco em uma maca e ajudava a rançar as folhas de suas vestes.

- Foi a última vez que você aprontou, Potter, última vez, eu sei que foi pelo bem da Srta. Granger, mas não custava nada ter nos consultado, e acho que já estamos conversado, não é Papoula?

- Sim, sim – gemeu ela por trás do choro com as mãos no rosto – Eu prometo não fazer mais isso, foi a primeira e última vez.

Minerva deixou outro olhar severo escapar de esguelha e voltou para Harry.

- Eu não sei bem o que o professor Snape vai decidir o que acontecerá com o Sr. Malfoy, mas suas obrigações cabem a mim decidir, Potter, e você terá de cumprir uma semana de detenção, ouviu bem?

Harry concordou de cabeça baixa, não disse nada até a professora sair batendo os sapatinhos no piso da enfermaria, e fechar as portas. Olhou para o lado e viu que Snape ainda mantinha a voz firme com Draco, e desejou não ser ele naquele momento, pois o professor parecia enraivecido, mais pelo fato dele estar ajudando uma "sangue ruim" e ainda por cima, da grifinória.

- Madame Pomfrey, será que eu posso tomar um banho?

- Não, Sr. Potter, vou te segurar na enfermaria para tirar esses arranhões em seus braços, pedidos da escola, e não me olhe torto...

Harry pegou seu pijama bem dobrado nos pés da maca e foi para o banheiro tomar um banho e tirar todo aquele barro misturado com sangue pelo corpo, ficou por horas embaixo do chuveiro onde a água saia quentinha, e as cenas de hoje ainda passavam lentamente por sua cabeça. O rugido. As árvores sendo derrubadas. Ele puxando o Malfoy em sua direção. Grope dando um tapa no ar. Os cabelos perfumados de Draco misturados em seu nariz. Os centauros apontando as flechas em sua direção. Os raios de sol atingindo seu rosto. Tinha passado por tanta coisa...

Harry estava sentado, embaixo do chuveiro, vendo o mundo girar diante de seus olhos, decidiu que era hora de voltar para enfermaria ou Madame Pomfrey ia começar a gritar por ter dormido no banho, assim que abriu as cortinas viu uma figura branca saindo do banho também, com os cabelos encharcados, e a toalha enrolada na cintura, deduziu que fosse Draco já que Harry estava sem óculos.

- E então, quanto tempo de detenção? – perguntou Harry indo até a pia pegar seu conjunto.

- Acho que certas coisas não são do seu interesse, Potter... – retrucou Draco com sua voz arrastada, com um toque mínimo, de choro.

- Achei que fosse ficar tudo bem entre a gente...

- Não! Nunca seremos o que você está pensando! Não foi porque você salvou minha um centauro estúpido, isso não significada nada! – Draco alterou um pouco o tom de voz – Sim, obrigado por ter me salvado, mas isso não quer dizer que seremos amigos, até porque você me meteu nessa enrascada!

- E-Eu... S-só... – gaguejou Harry estupefato, esperava outra reação de Draco, sei lá, talvez amigável, Harry tinha ajudado o garoto atravessar a floresta com o pé machucado, havia salvado sua vida e simplesmente recebia um "obrigado" seco e forçado – T-tudo b-bem, não precisa falar comigo...

Draco abaixou a cabeça e entrou com suas roupas, fechando as cortinas, indo se trocar, Harry ficou algum tempo incrédulo, parado ali no mesmo lugar, mas então foi se trocar também, e quando voltou a olhar pelo banheiro, viu Draco jogando água no rosto e encarando seu reflexo no espelho.

- Quando meu pai descobrir...

- Seu pai não precisa saber – disse Harry prontamente.

- E você acha que o professor Snape vai ficar de bico fechado? – gritou Draco furiosamente voltando o olhar para Harry pelo reflexo no espelho.

- Você ainda tem chance de escolher, Malfoy, você ainda tem a chance de optar, Dumbledore com certeza te aceitaria numa boa, você sabe, não há com que se preocupar... Dumbledore tem reforços onde pode esconder você...

- Cala a sua boca, Potter! – gritou ele segurando a pia com as mãos, e os dedos já estavam brancos de tanta força que ele apertava.

- Okay, eu não vou dar mais palpite em nada, mas a decisão está em suas mãos, Malfoy, e você pode mudar o seu destino, a sua vida, é só decidir pelo caminho certo – Harry abriu a porta para enfermaria e saiu jurando que escutou um lamento de choro vindo de Draco.