Capítulo 09: I Just Want You Around

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Ruki estava inquieto, sentado na arquibancada, os olhos voltados na direção em que Akira tinha ido atrás de Takashima. Não estava mais agüentando ficar ali, esperando-o voltar. Além do mais, aquela vozinha em sua cabeça pertencente a sua curiosidade, não estava ajudando muito.

Sem se agüentar mais, levantou e foi atrás do outro, querendo muito saber o que tinha acontecido. Mas não precisou ir muito adiante. Assim que saiu da área do campo de futebol, pôde ver Akira encostado na parede do vestiário, sendo abraçado por Takashima. E a cena lhe causou uma sensação incômoda e atípica.

Kouyou mantinha o rosto escondido no pescoço do melhor amigo e seu corpo balançava em leves espasmos, enquanto Akira parecia confortá-lo, afagando seus cabelos. E o único pensamento que passava na cabeça de Ruki era, 'seja lá como ele se machucou, não precisava estar assim com Akira.'

Então o loiro da faixa desviou os olhos na direção em que o menor se encontrava e o fitou, fazendo sinal para que esperasse ali, sem reparar na feição fechada e nada satisfeita no rosto dele. Ruki não estava nem um pouco disposto a obedecer e, sem pensar muito, voltou para a quadra com as feições ainda fechadas, deixando o outro estudante sem entender aquela reação.

Takashima notando a inquietude dele, afastou-se um pouco, o fitando com os olhos molhados, piscando diversas vezes em uma tentativa de afastar as lágrimas. Ele havia finalmente posto toda a sua mágoa para fora assim que tinha sido abraçado por Reita. E mesmo que ainda sentisse aquela sensação desagradável - de quem vai remoendo algo aos poucos - pelos menos o fato de ter chorado tinha livrado-o daquele nó enorme na garganta.

Virou o rosto na direção que o amigo olhava a tempo de vislumbrar a silhueta baixinha e os cabelos loiros. Ótimo, além de tudo, tinha estragado seja lá o que Reita tinha com Matsumoto e as malditas lágrimas não paravam de cair. Fungou baixo, quase infantilmente, chamando para si a atenção do loiro que voltou a olhá-lo de forma carinhosa.

- Acho melhor você ir atrás dele – murmurou, com a voz embargada, saindo dos braços de Akira e começando a enxugar as lágrimas para ver se o choro cessava.

- Depois eu falo com ele – Akira afagou as mechas loiras do melhor amigo, ainda tentando confortá-lo. – Ele vai entender. O que o idiota do Shiroyama fez dessa vez?

Kouyou negou com um aceno, contendo o choro e deixando claro que não estava disposto a falar sobre aquilo no momento.

- Eu já estou bem, Kira. E você devia mesmo ir atrás dele. Eu vou pra casa – secou os últimos vestígios de lágrimas enquanto voltava a falar, o tom de voz mais controlado. – Yuu já deve ter ido embora a essa altura, então não tem problema.

- Eu passo mais tarde lá, está bem?

Assentiu, rindo baixo pela preocupação do amigo e se achando um estúpido por ter chorado daquele jeito.

- Traga um pote de sorvete enorme quando vier – pediu se afastando e foi a vez de Akira sorrir concordando, mas ainda o olhando apreensivo.

Acompanhou o amigo com o olhar, deixando de sorrir ao mesmo tempo em que um suspiro cansado escapava dos seus lábios, só voltando para o campo de futebol quando já não podia mais ver Kouyou. Quando chegou perto das arquibancadas Ruki já estava com a mochila nas costas, pronto para ir embora.

Aproximou-se dele, tocando seu ombro, acabando por receber um olhar nem um pouco contente do pequeno.

- Você não vai assistir o treino?

- Por que deveria? – Ruki retrucou de modo ríspido, se arrependendo logo em seguida do próprio tom por não saber exatamente o motivo de estar agindo daquele jeito. Nem por isso suavizou a expressão e tão pouco o tom com que voltara a falar. – Eu ainda tenho que estudar e não tenho tempo pra isso.

Akira arregalou os olhos, ficando ainda mais confuso quando o garoto saiu. Já ia segui-lo, mas foi impedido pela voz alta e grosa do treinador chamando-o.

- Akira! O que pensa que está fazendo? – o homem rugiu, se aproximando dele e apontando para o campo. – O treino já começou e eu não liberei você.

- Desculpe, sensei – resmungou, indo em direção ao campo, mas ouvindo o homem gritar novamente.

- Pro banco, Suzuki. Você fica na reserva hoje, observando os outros jogarem.

Akira xingou baixinho o homem, seguindo para o banco. Se não ia jogar mesmo, por que tinha que ficar ali quando podia ir atrás do seu chibi?


Não era preciso mencionar o quanto Takanori acordou de mau humor no dia seguinte, mas acabou por suavizá-lo um mísero décimo ao ver Akira parado na entrada do pátio do colégio, bocejando e esperando-o chegar mais uma vez.

O pequeno até daria um ínfimo sorriso se estivesse um pouco menos chateado e se a cena de Kouyou com o rosto no pescoço do loiro não estivesse passando repetidas vezes em sua mente.

Ele já sabia o que aquele sentimento incômodo que estava sentindo queria dizer e aquilo só o mostrava o quão estaria ferrado no final daquela história.

Akira se adiantou até ele ao avistá-lo. Parecia sonolento enquanto ajeitava a faixa no nariz, afetando o mais novo de tal forma que o fazia sentir um solavanco, não tão desagradável assim em seu estômago. E ele detestava constatar o quanto estava suscetível ao loiro mais alto.

- Taka, o que deu em você ontem? – Akira perguntou, a voz ainda rouca como se aquela fosse a sua primeira frase desde que acordara.

Ruki se fez de desentendido, dando de ombros e recomeçando a andar, o arrepio já tão familiar o acometendo ao sentir o perfume suave que vinha do loiro ao seu lado.

- Eu já disse, eu precisei voltar pra casa e estudar – respondeu, sem virar o rosto para fitar o garoto mais velho.

- Não foi nada disso – Akira disse, quase rindo por conta do jeito emburrado que o outro tentava a todo custo esconder. – Você me viu com o Kou-chan e ficou assim.

- Você estava abraçado com ele – acusou, já não disfarçando seu descontentamento. – De um modo muito... muito... De um modo nem um pouco próprio para apenas amigos.

Akira arqueou a sobrancelha, entrando com o menor no colégio e o seguindo, mesmo que ele estive indo para o prédio do segundo ano.

- Você está com ciúmes? – indagou levemente divertido.

Ruki o encarou ultrajado. E parou de andar ao compreender as palavras do estudante mais velho.

- Eu não teria ciúmes de você – respondeu, com tanta certeza que Akira desfez o sorriso imediatamente.

Segundos depois o menor se deu conta do que tinha falado e mordeu o lábio inferior, como se assim fosse possível fazer com que as palavras voltassem para sua boca e não fossem escutadas pelo outro.

- Então foi do Kouyou que você sentiu ciúmes? – e a pergunta era mais uma afirmação.

Ruki abriu e fechou a boca procurando as palavras certas. Ele já tinha certeza que não sentia nada por Takashima. Ainda mais por perceber que o que incomodou mais na cena era o fato do sempai estar com o rosto grudado no pescoço que o menor acreditava pertencer a si, ao menos naqueles próximos dias.

Mas era tão difícil vocalizar que sentia algo por Akira quando sabia que os sentimentos do outro não passavam de uma ilusão temporária. Devia simplesmente contar a ele sobra a poção, explicar que aquele súbito arroubo de paixão era uma mentira. Mas quem iria acreditar em uma história como aquela?

- N-não é isso, Aki... Por que eu sentiria ciúmes de Takashima-sempai? Eu nem falo direito com ele...

- Você é apaixonado por ele! – Akira acusou, cansado de ignorar aquilo, acabando por se exaltar. – Sempre olhando para ele, sempre esperando ele chegar aqui no colégio.

Foi a vez de Ruki arregalar os olhos, quase em choque com o que escutara, as palavras ecoando em sua cabeça.

- C-como você...?

- Todo mundo sabe! Ele sabe! Até a semana passada você só tinha olhos para ele, como queria que ninguém percebesse?! – Akira passou a mão nervosamente pelos cabelos espetados, desfazendo um pouco o penteado. – Quando você vai esquecê-lo e parar de dizer para si mesmo que gosta dele, quando na verdade você já não sente mais nada por ele?

Ruki entreabriu os lábios mais uma vez para falar, mas se conteve.

E aquela era uma péssima hora para Takashima aparecer no corredor. O mais novo desviou os olhos para o loiro que acabara de chegar e em seguida voltou os olhos para Akira, as bochechas vermelhas e comprimindo os lábios.

Então todo aquele tempo tinha feito um papel ridículo, e todos, inclusive Takashima, sabiam da paixão que nutria por ele?

Completamente envergonhado e sem saber como reagir, virou-se de costas, sumindo apressadamente pelos corredores, tentando a todo custo não correr e se esconder no primeiro lugar que encontrasse.

- Taka, espera – Akira pediu se dando conta do que havia falado, mas sem coragem de ir atrás do mais novo.

- Cara, você pegou pesado – Kouyou murmurou, só então sendo notado por Akira que ainda olhava por onde Ruki tinha sumido. - Achei que ele fosse desmanchar aqui mesmo.

- Ah, droga! – praguejou, ajeitando a faixa no nariz em um gesto nervoso e virando-se para olhar Kouyou como se pedisse ajuda.

- Não foi tão mal assim. Não tinha ninguém aqui no corredor além de mim.

- O que já é terrível o suficiente – Akira resmungou, recebendo um olhar solidário do amigo antes de ambos irem para a sala.


Ruki tinha se trancado no banheiro, tentando se acalmar e se controlar, o que demorou bastante. Por isso acabou chegando um pouco atrasado na primeira aula, pedindo desculpas ao sensei e dizendo que não tinha se sentido bem.

Ele esperou pelo término das aulas no primeiro período sem conseguir se concentrar, apenas digerindo o fato de Takashima saber que tinha sido apaixonado por ele até pouco tempo atrás. Se pudesse desejaria se esconder por tempo indeterminado, sabendo que só assim não correria o risco de se encontrar com o outro.

Assim como queria se esconder de Akira fosse por vergonha ou receio. Por isso estava nesse momento no telhado do prédio do colégio, sozinho e pensando seriamente na possibilidade de se mudar para ali porque só assim resolveria todos os seus problemas.

Mas ele sabia o quanto o pensamento era idiota.

Ao menos por hoje ele podia escapar do almoço feito por Akira. Não que aquilo o deixasse realmente feliz àquela altura.

Só queria que as coisas dessem certo uma única vez. Que não tivesse aquela poção no meio da sua vida e que Akira tivesse se apaixonado por ele pelo que era, assim como tinha se apaixonado pelo jeito sempre atencioso e carinhoso com que o loiro da faixa o tratava.

E saber que todo aquele sentimento vindo do outro não era verdadeiro, o machucava. Mesmo assim ele não podia negar que gostava da sensação de estar perto de Akira.

Suspirou pesadamente, trazendo os joelhos para perto do peito e encostando a cabeça neles. Ao mesmo tempo, a porta que dava para o telhado abriu e Akira surgia por ela, sorrindo aliviado ao ver o menor ali.

- Até que enfim achei você – ele se aproximou como se nada tivesse acontecido de manhã, mas quando sentou ao lado do menor que sequer o fitava, suspirou, deixando os bentos de lado e levando uma mão à nuca como se pensasse. – Desculpe por mais cedo, Taka.

Takanori negou com um aceno, levantando o rosto e fitando-o.

- Você só disse a verdade – murmurou. – Eu... eu só fiquei meio assim por saber que todo mundo sabia... Mas eu não gosto mais do Takashima-sempai mesmo, então decidi não pensar nisso.

- Eu exagerei quando disse que todo mundo sabia... Eu e ele sabíamos, porque bom... sinceramente, você não é lá muito discreto. - Ruki riu, meio triste, acenando em concordância. – Você não gosta mais dele, mesmo? – perguntou ainda em dúvida e o menor virou o rosto novamente para olhá-lo diretamente, assentindo.

Akira manteve os olhos cativos ao dele como se buscasse a verdade, algo batendo tão forte em seu peito, que ele até podia dizer que conseguia ouvir as batidas não muito ritmadas.

- E de quem você gosta? – perguntou, a garganta seca, ansiando pela resposta do mais novo, o rosto próximo ao dele.

Ruki mordeu o lábio inferior contendo as palavras que tinha tanta dificuldade em vocalizar, seus dedos formigando, desejando tocar Akira de alguma forma.

E seguindo seus instintos, deixou exteriorizar o que sentia da forma que considerava mais prática e eficiente. Aproximando ainda mais o rosto até seus lábios roçarem aos de Akira, sem tirar os olhos dos dele, vendo o exato momento em que o mais velho cerrou as pálpebras.

- De você, Aki – sussurrou, se surpreendo com o fato das palavras terem escapado, segundos antes de pressionar seus lábios contra os do outro estudante carinhosamente.

E então ele sabia que não tinha mais volta.

Continua...