Separados

"As coisas que eu te fiz

Fazem do espelho o quadro mais feio desta casa."


Theodore teve ímpetos de ir atrás de Luna, mas não o fez. Ele era a causa do nervosismo dela, de sua tristeza, e o melhor a fazer era privá-la de sua presença indigna.

Sentou-se no sofá, refletindo. A imagem de Luna caída no chão o castigava segundo após segundo.

Revendo suas atitudes desde o momento em que Christine Umbridge entrara em sua sala, viu quantos erros tinha cometido naquele dia. Foi burro ao deixar-se afetar pelo sarcasmo dela. Foi tolo ao se descontrolar. Mas nenhum erro foi maior do que o cometido contra Luna e contra ele próprio.

Não devia ter ido para casa naquele estado... Tinha que ter parado em algum lugar, bebido alguma coisa, conversado com alguém, e não ter ido para casa explodindo de ódio e descontado sua raiva em cima da esposa que só queria o seu bem. Tinha gritado com ela, xingado, insultado a criança que ainda ia nascer. Por Merlin, tinha batido nela! A vergonha o corroia. Ele sabia que tinha ultrapassado qualquer limite tolerável. E agora tinha a certeza de que seu casamento estava por um fio. Se é que ele ainda existia.

Um cheiro de terra invadiu a casa: estava chovendo. Theodore ficou olhando para a janela, imaginando onde Luna estaria. Os pingos de chuva no vidro o fizeram lembrar da primeira noite em que se amaram. Uma noite chuvosa e linda, em que ela procurou proteção em seus braços, assustada com os relâmpagos. Uma noite em que sua mão percorreu o corpo dela e lhe mostrou uma nova face do amor. A mesma mão que agora representava violência, decepção e dor.

Perdido em seu labirinto de arrependimento e angústia, Theodore viu a chuva tornar-se mais forte. Imaginou aonde Luna poderia ter ido, já que não voltou quando começou a chover. Estaria na casa de algum vizinho trouxa? Ou talvez em alguma loja, refugiando-se até a chuva passar?

Levantou-se para espiar pela janelinha da porta, querendo ver quando ela estivesse voltando. Levou um susto.

Luna estava sentada no banquinho do jardim em frente à casa. Completamente ensopada, tinha seu olhar perdido e a expressão triste, exatamente como estava antes de sair.

Theodore lembrou-se de outra vez em que Luna ficara exposta à chuva e das consequências que isso trouxe. Receoso de que acontecesse outra vez, ignorou a possibilidade de ser enxotado por ela e foi até o jardim. Ela não notou sua aproximação.

Ainda envergonhado, segurou as mãos dela, que não reagiu.

-Venha, Luna. Saia dessa chuva.

A loira levantou-se e seguiu em direção à casa, amparada pelo marido, sem dizer nada. Parecia não notar a presença dele. Ao chegarem ao pequeno hall de entrada, Theodore convocou toalhas que vieram voando do quarto. Pegou uma delas e enxugou os cabelos da esposa. Depois enrolou a outra no corpo dela, esperando que reagisse e começasse a se secar.

Angustiado pelo silêncio da mulher, sentiu a necessidade de falar alguma coisa, qualquer coisa, na esperança de que ela falasse.

-Luna, você está bem? - Indagou, ciente de que era a pergunta mais idiota a ser feita naquele momento.

Luna pareceu despertar ao som da pergunta. Fechou os olhos com força, inspirando profundamente, e depois tornou a abri-los. Então, encarou Theodore e com os olhos transbordando desapontamento, disse:

-Você foi o maior erro que cometi em toda a minha vida.

E se afastou lentamente em direção ao quarto.

Theodore a observou se afastar, sentindo-se completamente despedaçado.

Nada que tinha ouvido em toda a sua vida o feriu tanto.


Theodore ficou horas no sofá, pensando nas palavras de Luna. Doeu muito ouvi-las. Mas doía muito mais saber que ela tinha razão.

A angústia não passava e ele começou a rondar a porta do quarto, na esperança de conseguir conversar com a esposa. Mas Luna não saiu. Ele bateu na porta uma vez, e só a ouviu responder: "Me deixe, Theodore." Esperou, esperou e nada de Luna sair do quarto.

Começou a se preocupar seriamente, pois ela não tinha feito nenhuma refeição desde a briga, que tinha sido na parte da manhã. Chegou a chamá-la para comer, mas ela não respondeu.

Decidiu então procurar ajuda. Mesmo sem saber a quem recorrer, foi para a frente da lareira, e com a mão cheia de pó de flu, refletiu por alguns instantes.

-O ideal seria chamar a Ginny, mas eu não sei o endereço dela. Droga! Quem posso chamar então?

Pensou em chamar Xenophilius, mas imaginou que ele o fulminaria logo que soubesse o que aconteceu. Não, não poderia ser ele. Alguém mais neutro. Mas quem?

-Talvez o Weasley. Ela gosta tanto dele. – pensou, com uma pontada de ciúme. – Acho que não vai se recusar a falar com ele.

Atirou o pó de flu e disse o endereço da casa de Ron e Hermione. Depois enfiou o rosto nas chamas esverdeadas, tentando falar com o ruivo.

-Ron! Ron! – Chamou.

Segundos depois, apareceu Hermione, com a filha no colo.

-Olá Theodore! Que surpresa!

-Olá, Hermione. Desculpe por incomodar, mas gostaria de falar com Ron. Ele está?

-Não. Ele saiu e ainda deve demorar. Se eu puder ajudar em alguma coisa – respondeu, solícita.

Theodore pensou um pouco.

-Bom. Talvez possa. É sobre Luna.

-Algum problema com ela? – Preocupou-se Hermione. – O bebê está bem?

-Creio que sim. – Theodore estava constrangido, sabendo que teria que falar sobre o ocorrido. – Acontece que tivemos uma briga, e ela se trancou no quarto e não saiu nem para comer, está há horas lá. Sei que é chato envolver terceiros na vida de um casal, mas estou preocupado e não sei o que fazer.

Hermione refletiu.

-Bem, não é anormal casais brigarem de vez em quando. Espere mais um pouco. Ela deve estar chateada, mas logo sairá para comer. Não fique tão preocupado.

-Você não está entendendo – ponderou Theodore. – Não foi uma briga simples. Foi muito sério. Discutimos muito e eu... Eu...

O bruxo murmurou tão baixo que Hermione não conseguiu ouvir uma única palavra.

-Perdão, Theodore, mas não entendi.

Theodore engoliu em seco. Com muito esforço, conseguiu repetir a frase:

-Eu bati nela.

Hermione arregalou os olhos:

-Você o quê?

Profundamente envergonhado, Theodore disse:

-Isso mesmo que você ouviu.

Hermione saiu andando apressada. Instantes depois voltou, sem a menina e vestindo um casaco.

-Saia da frente. Estou indo aí.

Segundos depois ela apareceu, rodopiando na lareira.

-Francamente, Nott! Como pôde fazer isso com Luna? Ela está grávida! O que é que você tem na cabeça? – Ralhou Hermione, sem medo de ser intrometida.

-Sei que fui deplorável. Ela está com raiva e tem toda a razão.

-Isto é óbvio! Pobrezinha, deve estar uma pilha de nervos! Onde ela está?

-Lá em cima, no quarto.

Theodore conduziu Hermione até o quarto. Chegando lá, ela bateu na porta três vezes e esperou resposta. Depois de alguns segundos ouviu a voz de Luna, alta e clara:

-Vá embora, Theodore. Não quero falar com você.

Hermione disse, dirigindo-se a Theodore:

-Prepare alguma coisa para ela comer.

Depois, chegou bem perto da porta e disse:

-Não é Theodore, Luna. Sou eu, Hermione.

Segundos depois, a porta se abriu. Theodore viu Luna abraçar Hermione com força, como se a presença dela lhe trouxesse grande alívio.

-Ah, é tão bom ver você! Estava precisando conversar com alguém que não fosse o bebê – comentou. – Entre!

Hermione lançou um olhar para Theodore, indicando que ele deveria fazer o que ela pediu, e entrou no quarto. Ele então foi para a cozinha e preparou uma refeição para Luna, sentindo-se engolfado pela angústia. Minutos depois, subiu com a bandeja contendo um sanduíche, suco e uma fruta.

Enquanto se dirigia ao quarto, pensava no que Luna e Hermione poderiam estar conversando. Desejava intimamente que a amiga acalmasse sua esposa. Mal podia esperar pelo resultado da conversa entre as duas.

Ao chegar ao andar de cima, notou que a porta estava entreaberta. Sem querer assustar as duas, aproximou-se lentamente, e antes que pudesse chegar à porta, ouviu Luna dizer:

-Dessa fez ele foi longe demais, Hermione. Ele me bateu! Não foi só a mim que agrediu, mas ao bebê também. Não posso ignorar isso. Não tem perdão.

Theodore engoliu em seco. Sentiu seu rosto esquentar e suas mãos começarem a tremer. Com esforço conseguiu sustentar a bandeja e chamou Hermione, que levou o objeto para dentro do quarto. Livre dele, voltou para a sala.

"Não tem perdão". A frase ficou martelando sua mente. "Não tem perdão". O veredicto estava dado. Finalmente ele tinha cometido o erro fatal. Estava sem saída. Não havia defesa. "Não tem perdão". "Não tem perdão". "Não tem perdão". Como um mantra amaldiçoado, a voz de Luna repetindo aquela frase não saía de seus ouvidos, e Theodore mergulhou em um abismo de dor e culpa.

Ouviu sons vindos do andar superior. Certamente Luna estava levando Hermione ao quarto da criança. O quarto que ele não conhecia e no qual se recusava a entrar. Esperava a cada minuto que Hermione aparecesse e lhe dissesse alguma coisa sobre Luna. Sem nada que diminuísse seu nervosismo, serviu-se de uma dose de firewhisky.

Algum tempo depois, tempo que lhe pareceu uma eternidade, Hermione desceu, com uma expressão preocupada. Theodore imediatamente se aproximou dela.

-E então? Como ela está?

Hermione ergueu as sobrancelhas, com ar crítico:

-Está muito triste e chateada, é óbvio.

Theodore corou, envergonhado.

-Mas ela está bem? Está chorando? Doi alguma coisa?

-Não se pode dizer que esteja bem, não é? Uma mulher que apanha do marido estando grávida não supera isso de um minuto para outro. Mas está calma agora.

Hermione mordeu o lábio, como se refreasse o ímpeto de falar alguma coisa. Encarou Theodore e disse:

-Melhor você não a procurar hoje. Ela não quer nem ouvir sua voz. Está muito magoada. Se você insistir, vai deixá-la nervosa.

Theodore suspirou, conformado.

-Que pena. Queria me entender com ela. Pedir desculpas. Eu não sabia o que estava fazendo.

-Mas isso agora não tem o menor valor. – Cortou-o Hermione. – Deixe-a quieta. O máximo que eu recomendo é que você leve mais uma refeição para ela. De resto, espere até amanhã e se ela quiser falar, vocês conversam.

-Tudo bem. Farei isso.

-Ótimo. – Aprovou Hermione. – Bom, agora preciso ir. Minha filha está com a minha mãe e eu preciso amamentá-la. Boa sorte para vocês e juízo, Theodore. Ela está muito fragilizada.

Theodore acenou positivamente com a cabeça. Quando Hermione ia entrando na lareira, Theodore a chamou.

-Sim?

-Obrigada por vir. Desculpe-me pelo incômodo. Estou profundamente agradecido.

Hermione sorriu serenamente e apenas recomendou:

-Cuide bem dela.

E entrando na lareira, voltou para casa.

Theodore retornou à cozinha e preparou mais uma refeição para a esposa. Dirigiu-se ao quarto com a bandeja e deu duas batidas na porta.

-Luna, estou deixando uma bandeja com comida para você aqui na porta. Pode sair para pegá-la. Eu não estarei aqui.

Engoliu em seco e desceu. Alguns instantes depois, ouviu o som da porta abrindo e fechando.

Acomodou-se no sofá e tentou dormir, lamentando cada minuto vivido durante aquele dia.


Na manhã seguinte, Theodore acordou com o corpo dolorido e sentou-se no sofá, esfregando o rosto para despertar. Nos primeiros segundos do seu dia, lembrou-se do ocorrido no anterior. Pensou em Luna e no que estaria fazendo agora.

Mal havia se perguntado isso, ela apareceu na sala. Usava um vestido preto largo e seus cabelos estavam presos em um rabo-de-cavalo. Não usava adornos, exceto um relógio e brincos. A produção a deixava estranhamente sóbria. Sua expressão era tensa.

A loira cruzou a sala, sentando-se em uma poltrona, sem cumprimentar Theodore. Ele a olhava pelo canto do olho. Ela contraía os lábios frequentemente e apertava as mãos, lançando olhares para a lareira.

Minutos depois, as chamas na lareira esverdearam. O rosto de Hermione apareceu.

-Olá Luna! Bom dia. Oi Theodore! – Cumprimentou a morena. Theodore acenou. – Vamos, Luna. Estou pronta.

Sem se despedir de Theodore, Luna atirou pó de flu nas chamas, esperou que esverdeassem e entrou na lareira. Theodore se perguntou aonde estariam indo. Mas sabia que não tinha o menor direito de questionar. Amargurado com o desprezo que Luna acabara de lhe dar, foi procurar algo com que se ocupar.


Muitas horas mais tarde, Luna retornou e seu rosto parecia ainda mais tenso. Em silêncio, subiu as escadas, sem cumprimentar Theodore.

O homem resolveu procurá-la e tentar conversar. Entrou no quarto, disposto a iniciar um diálogo. Mas ela não estava lá.

Procurou no banheiro do quarto e ela não estava. Olhou na salinha que agora servia de escritório e nada. Então, concluiu que ela só poderia estar no quarto do bebê.

Chegou bem perto da porta e pensou em abri-la. Esperou por um minuto. Dois minutos. Três minutos tentando criar coragem para abrir aquela porta.

Finalmente desistiu.

Não estava preparado para encarar o que encontraria lá.


Os dias transcorreram na mais profunda tristeza dentro daquela casa. Theodore e Luna pareciam dois estranhos.

Ela dormia no quarto, ele na sala. Não ficavam juntos no mesmo cômodo mais tempo do que o necessário para terminar o que estivessem fazendo. Não faziam refeições juntos. Não se falavam.

Luna agora não acordava cedo para tomar o café com o marido. Preparava o almoço e o jantar para os dois, mas ia para o quarto comer sozinha. Não dirigia a palavra a ele.

Certo dia, ela estava na cozinha e Theodore entrou, sem saber que a encontraria. Luna parecia estar falando sozinha e o bruxo ouviu parte do que falava:

-... E estou quase completando o sétimo mês. Preciso resolver logo, mas vai dar tudo certo, é só burocracia mesmo. Quanto ao bebê, os exames que fiz mostraram que... –Nesse momento ela notou a presença de Theodore e disse: -Um minutinho, Hermione, vou para o quarto, não estou te ouvindo bem. – E saiu do aposento.

Theodore olhou para a lareira na cozinha, tentando ver Hermione. Mas ela não estava ali. Mas também, pensou Theodore, se ela foi para o quarto, Hermione não poderia estar na lareira. Como estavam se falando, então? E como ela podia não estar ouvindo bem, se a casa estava no mais absoluto silêncio?

Alguns minutos depois, ele descobriu. Luna retornou à cozinha e pôs sobre a mesa um pequeno objeto negro, com números e uma tela brilhante.

-O que é isso? – perguntou.

-Um telefone celular.

Theodore observou, intrigado.

-Isso é um objeto trouxa, não?

-Sim. Hermione me deu, para falar com ela caso precise de ajuda.

O bruxo pensou por alguns instantes. Por que ela precisava de um meio de contato com Hermione, se ele estava ali para ajudá-la no que fosse preciso?

Então percebeu. E sentiu o coração apertar ao perceber.

Luna simplesmente não contava mais com ele.

Ela buscaria ajuda com outras pessoas, mas não com ele. Se apoiaria em outros, não nele. Luna não confiava mais na presença de seu marido para quando precisasse de alguém.

A constatação doeu profundamente em seu coração, mas ele sabia que não podia contestá-la. Que argumento teria? O que poderia dizer à Luna, depois de tudo o que aconteceu?

Theodore viu Luna sair para o trabalho, sem se despedir. E pensou, amargurado, que cada vez que via aquela cena, parecia ser a última vez que veria a sua mulher.


A cada dia que passava, havia menos sinais da chegada de um bebê àquela casa. Tudo o que havia à vista indicando o acontecimento, sumiu.

Não havia mais fotos de Luna grávida. Foram substituídas por outras, mostrando cenas corriqueiras recortadas de revistas.

O porta retratos em que antes se viam exames que mostravam a evolução da criança, sumiu.

O livro de nomes de bebê não foi mais visto na mesa de centro.

Não havia mais mantas ou roupinhas sendo bordadas na sala.

Até as conversas de Luna com sua criança tinham cessado completamente.

Com tudo isso, Theodore passou a sentir um vazio dentro de si. Antes ele se irritava com qualquer menção ao bebê. Mas agora, que não tinha informação alguma sobre ele, parecia-lhe que faltava algo. Sentia-se incomodado, mas não se atrevia a perguntar nada.

Muitas vezes surpreendeu Luna falando ao telefone com Ginny ou Hermione, mas invariavelmente Luna desligava o aparelho logo que notava sua presença.

A lua cheia chegou, e com ela a agonia de ser trancado na jaula.

Desta vez, Luna não o acompanhou, embora estivesse em casa. Ciente de que era o causador da mágoa dela, entrou na jaula completamente infeliz, sentindo falta de seu abraço e do seu beijo de boa sorte.

Durante aquela semana, muitas coisas aconteceram na casa. Theodore não saberia, mas alguns móveis novos chegaram ao lar naqueles dias. Muitas sacolas de roupinhas, sapatinhos e mantas entraram na casa, levados por uma mãe preocupada, mas orgulhosa. E algumas colegas de trabalho de Luna, além de suas amigas, se reuniram para um chá, celebrando o bebê que chegaria em breve.

Ao fim da lua cheia, Theodore sabia que não deveria bater na porta, pois Luna não estaria lá para abrir. Sentindo-se abandonado e amaldiçoado, abriu a porta, com uma ponta de esperança de rever a loira surgindo em seu coração.

Mas ela não estava lá.

Porém, havia uma cadeira. E sobre ela, um roupão e a poção revigorante que ela sempre levava para o marido na hora de libertá-lo.

Theodore sentiu-se agradecido. Mas trocaria tudo pelo olhar dela. Olhar que ele agora não sabia onde encontrar - isso se reencontrasse algum dia.


Após vestir o roupão e tomar a poção, Theodore desceu as escadas para ver Luna. Ela estava sentada na sala, lendo seu livro de nomes de bebês e conversando com o filho. Mas ao ouvir os passos de Theodore, calou-se. O bruxo notou que ela fez menção de levantar-se, parecendo ansiosa, mas acabou se mantendo no lugar e disfarçadamente colocou o livro ao lado, escondendo-o com uma almofada, e pegou o jornal.

Ele a observou antes de se aproximar. A respiração dela estava um pouco acelerada e ela mordia o lábio. Ele não sabia, mas na verdade ela estava se controlando para não ir até ele, verificar se estava tudo bem.

"Luna está diferente", pensou Theodore. "O que há com ela?"

Observando mais atentamente, notou que o rosto dela estava inchado, ela inteira parecia ter inflado. Achou estranho. Aproximou-se dela e a cumprimentou.

-Olá, Luna.

-Oi Theodore. Está bem? - Ela não o encarou ao perguntar.

-Sim. Obrigado por ter deixado as coisas para mim lá em cima.

-Não foi nada. Tem comida na cozinha para você.

-Obrigado. Como você está?

-Bem.

-Eu vim perguntar se posso dormir um pouco lá no quarto. Você se importa?

-Claro que não. Fique à vontade.

Theodore foi até a cozinha buscar a comida e depois subiu para o quarto, olhando furtivamente para a loira, que agora parecia prestes a pegar no sono ali mesmo, sentada na sala, enquanto lia o jornal. Desejou intimamente que ela também fosse para o quarto dormir, mas sabia que isso não ia acontecer.

Enquanto se dirigia ao quarto, sentia um buraco no peito, como se algo tivesse faltado na curta conversa que teve com a esposa. Pensou por alguns instantes. Logo percebeu o que estava lhe fazendo falta.

Luna não tinha feito nenhuma menção ao bebê.

Como vinha acontecendo desde a briga, ela não acrescentou nenhuma informação sobre a criança. Nenhuma novidade, nenhum acontecimento, nada. Como se aquilo não lhe fizesse falta alguma.

-É assim que ela se sente, seu idiota. – Disse para si enquanto fechava a porta. - Como se você não se importasse. Porque foi isso o que você demonstrou para ela o tempo todo.

E aquele aspecto inflado dela, o que seria? Não entendia dessas coisas, só sabia que ela não era daquele jeito. Seria normal ou ela estaria com problemas?

Mas ela disse que estava bem. Ela não queria a atenção dele. Ela não precisava que ele se preocupasse.

"Você está fora, Theodore. Ela não precisa mais de você. Para nada. Eis o que você conseguiu com sua estupidez. Palmas para você, imbecil!", pensou desanimado.

Comeu sua refeição e deitou-se, sentindo a solidão e a tristeza que a falta do abraço de Luna estava lhe causando.


Horas mais tarde, Theodore acordou e notou que havia escurecido. Procurou um relógio e verificou que já era madrugada.

-Essa não! Dormi demais! Luna deve estar querendo se deitar e eu estou aqui atrapalhando!

Saiu do quarto tropeçando, em busca da loira. Não viu sinal algum dela, então imaginou se ela estaria na casa de alguma de suas amigas.

Voltou ao quarto e verificou se os objetos dela ainda estavam por lá. Tudo estava em ordem. Sentiu a falta apenas do travesseiro dela.

-Oras, onde ela estará levando apenas um travesseiro? – Perguntou-se, e logo chegou à conclusão de que ela estava no quarto da criança. O que inviabilizava qualquer possibilidade de se verem agora.

Chateado, deitou-se outra vez e dormiu.

Na manhã seguinte, encontrou Luna na sala. Ela lia o rótulo de um frasco, que ele reconheceu como um vidro de poção. Observando atentamente, viu outros dois frascos, cujo conteúdo estava quase pela metade.

-Luna? – Chamou baixinho, temendo a reação dela. Ao ouvi-lo, a loira recolheu apressadamente as poções e as guardou na bolsa.

-Oi Theodore. O que quer?

-O que é isso que você guardou aí? Que poções são essas?

-Não são nada demais. – Ela respondeu de um modo esquivo.

-São poções medicinais? Você está com algum problema?

-Eu já disse que não é nada demais. São coisas minhas.

Theodore sabia que ela estava omitindo alguma coisa, mas não insistiu. Resolveu mudar de assunto e tentar continuar falando com ela.

-Tudo bem. Entendo. Onde você dormiu?

-No quarto menor. – Respondeu sem encará-lo e evitando mencionar que era o quarto do bebê.

-Você não precisava ter feito isso. Era só ter me acordado.

-Eu preferi assim.

Theodore queria conversar mais, ouvi-la mais um pouco, mas neste momento o telefone tocou. Luna o pegou e foi até a cozinha atender.

Ele sabia que ela falaria alguma coisa relacionada ao bebê e por isso saiu da sala. Então, sentiu-se tentado a ouvir atrás da porta e tentar saber alguma notícia, qualquer informação que lhe indicasse como ele estava. Estava arrependido, depois de todos os insultos proferidos contra a criança, mas ainda assim, foi lentamente até a porta da cozinha e tentou entreouvir.

-... E já está quase no fim, só faltam alguns documentos que ainda estão lá. Mas voltarei na semana que vem, acho que não terá problema. De qualquer modo, o tempo de licença está acabando e eu vou mesmo ter que voltar. Então termino tudo e já posso ficar tranquila.

Theodore esperou que ela voltasse a falar, enquanto refletia sobre o que ouvira.

-Sei disso, mas não posso deixar de cumprir as ordens. Quanto antes eu terminar, melhor. Quero tudo resolvido quando o neném nascer. Também estou receosa, mas vai dar tudo certo. Estou seguindo as orientações dos medi-bruxos."

Theodore ficou preocupado ao ouvi-la. Então, de fato, havia algum problema, mas ela não queria lhe dizer. Não queria dividir suas angústias com ele.

A voz de Luna se aproximou da porta e Theodore saiu de lá, apressado. A loira se despediu de quem quer que estivesse do outro lado da linha, foi até o local onde deixara sua bolsa e a recolheu, levando para o quarto. Theodore sentiu-se tentado a interrogá-la, pois a ideia de que ela estivesse sozinha passando por problemas o incomodava. Mas resistiu. Sentia-se completamente desencorajado a tentar falar com ela e voltar ao dia da briga. Assim, mais uma vez, o medo o calou e ele deixou Luna seguir seu caminho.

Durante toda aquela semana, Luna dormiu no quarto do bebê. Sempre se recolhia mais cedo que ele, que não a encontrava no quarto do casal e deduzia que ela estava no quarto ao lado. Aquilo o angustiava. Mas o que ele podia fazer? Limitava-se a respeitar a vontade dela.

Em uma manhã, Theodore entrou no quarto e viu Luna sentada na cama, tentando afivelar uma sandália.

- Ai, que coisa! Assim vou ter que andar descalça! Mal consigo alcançar meu pé! – Reclamava, zangada.

Ao vê-la, o bruxo imediatamente foi em seu socorro.

-Deixe-me ajudá-la. – Abaixou-se, pegou a sandália e começou a tentar calçá-la no pé da esposa. Ela ficou quieta observando. Theodore notou que estava bem difícil encaixar o objeto.

-Esta sandália está pequena para você. Não tem outra?

-Não está pequena. O pé é que está inchado demais. E essa é a única que ainda me cabe.

-Por que está assim?

Luna contraiu o lábio, olhou para Theodore furtivamente e respondeu simplesmente:

-Não sei.

Sabendo que ela estava novamente omitindo alguma coisa, Theodore ia iniciar uma conversa, mas neste momento uma coruja entrou e deixou cair uma carta sobre Luna.

Theodore terminou de afivelar a sandália e disse: "Pronto." Luna murmurou um agradecimento e saiu de perto dele, abrindo a carta apressadamente.

Sua expressão foi ficando preocupada a cada linha lida. Ao terminar, parecendo realmente apavorada, ela disse:

-Não. Outra vez não. De novo não!

Theodore a olhou em tempo de vê-la lançar-lhe um olhar furtivo.

-O que houve? – Perguntou, preocupado.

-Nada. Preciso sair. – Respondeu, apressada. Pegou a bolsa e saiu. Theodore a seguiu e ainda a viu olhar com ar de dúvida para a lareira, mas em seguida atirar pó de flu e sumir por ali.

E durante vários dias Luna manteve essa rotina: saía muito cedo, pela lareira, e voltava tarde, tão cansada que passava vários minutos descansando no sofá. Seu aspecto inflado se agravava a cada dia.

Theodore estava preocupado com Luna, mas a distância entre os dois era muito grande. E assim os dias seguiam, o bebê crescia indiferente na barriga da mãe, sem que seus pais conseguissem se entender.

Em um desses dias, Luna chegou tão cansada que ficou horas sentada no sofá, sem disposição para ir até o quarto. Theodore chegou do trabalho e a viu com uma expressão de sofrimento.

-Luna? O que houve?

-Nada, Theodore. Estou cansada. Só isso.

-Você não parece nada bem.

-Estou faminta, é só. Mas já vou preparar alguma coisa para comer. – Disse, tentando se levantar, com grande esforço. Porém desistiu: com uma careta de dor, continuou sentada.

Theodore a amparou e disse: - Pode deixar comigo. Eu preparo algo para você.

Ele foi até a cozinha, intensamente preocupado. Sem dúvida, Luna estava mal. Mas não queria dizer nada, não queria sua ajuda, e ele não sabia o que fazer para acabar com o sofrimento dela.

Preparou um sanduíche e levou para ela com um copo de suco e uma xícara de chá. Levou até ela, que mantinha os olhos fechados, encostada no sofá.

-Aqui está, Luna.

-Obrigada.

Ele a observou comer com dificuldade e depois tornar a se recostar no sofá.

-Não quer subir e se deitar um pouco?

-Eu já vou. – Respondeu Luna, com um fio de voz. Cada vez mais preocupado, Theodore disse:

-Vou buscar roupas e uma toalha para você. Assim pode tomar um banho aqui embaixo mesmo e quando subir, se deita logo. Tudo bem?

A loira concordou.

Quando Theodore voltou, ela já estava dormindo.

O bruxo a olhou com piedade. "Deve estar mesmo exausta". Pensou por alguns instantes e decidiu levá-la até o quarto.

Com alguma dificuldade, conseguiu carregá-la. "Nossa, como está pesada!"

Acomodou-a na cama e a cobriu com um lençol. Depois ficou observando seu rosto, agora sereno, descansando.

Theodore fitou seus lábios rosados com saudade. Por Merlin, há quanto tempo não beijava aquela boca? Os beijos deles tinham um significado especial, eram mais do que simples beijos. Eram o símbolo máximo da união entre os dois. E ele daria tudo para tocar naqueles lábios outra vez.

Quase inconscientemente, aproximou seu rosto do de Luna. Sentindo-se como uma criança desobedecendo as ordens dos pais ou alguém cometendo um pecado, encostou seus lábios nos dela. Desejou poder fazer mais do que isso, mas sabia que não podia. Então ficou ali por quase um minuto. E poderia jurar que sentiu Luna corresponder levemente...

Depois deitou-se ao lado dela, desejando que ela não se irritasse ao vê-lo ali ao acordar. Decidiu correr o risco, pois já estava cansado de deixar Luna sozinha quando precisava dele.