IX

Assim que o criado chega à entrada do recinto, atendo-o apenas abrindo uma fresta na porta suficientemente grande para pegar os alimentos.O serviçal pode muito bem estranhar meu comportamento, e é bem provável que o faça, mas eu não lhe devo satisfações.

Com alguma dificuldade, levo as coisas até a mesa, e assim que a porta se fecha, Saga me auxilia. Depois, ainda com certa dificuldade, sirvo o vinho nos cálices e faço um brinde junto com ele.

- Ao... nosso amor! - digo, ainda com certa hesitação, mas sem medo. Eu o amo, sim; eu o amo, e é apenas a ele e a mim que isso importa.

- Ao nosso amor - ele replica, e logo em seguida nós dois tragamos o conteúdo dos cálices. Eu, de uma única vez; meu amigo, ao que parece ser pelo contorno que a escuridão deixa ver, sorve-o lentamente.

- Como você qualifica o vinho da adega real? - indago, com um gracejo no tom de voz.

- O mais doce que já provei em minha vida.

- Ora, vamos! Não faça hipérboles apenas porque sou o rei.

- Não é hipérbole. É... a verdade. Talvez uma constatação subjetiva, porém genuína. Porque...

Ele faz uma pausa, hesitando novamente. Não me agrada esse tipo de... conversa suspensa! Tento incitá-lo a continuar:

- Porque... ?

- Porque... finalmente me sinto acolhido. Em casa...

- Em... casa?

- Sim. É raro para mim sentir-me assim.

- Nunca me falou nada sobre sua família, por falar em casa afinal; você tem uma ou não?

- Já não sei...

- Não... não sabe?

- Não...

-É uma resposta muito vaga. Ou tem, ou não tem. Sabe do paradeiro de algum parente seu?

- Sei. Mas... fui deserdado.

- Deserdado! Um homem tão honesto e cordial! Pode ter certeza de que, caso você fizesse parte de minha família, eu o aceitaria sem demora.

- Obrigado!

Saga arrebata minhas mãos com as suas, com comoção, aproximando-as de seu rosto. Agora entendo o porquê de ele ter dado tanto valor à relação que eu deveria devotar ao irmão o qual ainda sequer conheço! É porque ele não tem uma família que o ame...

- Ande... eu o aceitarei - digo, aproximando minha cadeira da dele, até elas ficarem praticamente coladas - Infelizmente, não podemos escolher os primeiros membros da nossa família. Tive um pai ausente, mais preocupado com a administração do reino do que comigo, e uma mãe que morreu quando eu ainda não contava três anos de idade. Além disso, um irmão do qual só agora tenho ciência de que existe!

- Creio que... pior ainda do que não possuir família, é ter uma ausente.

- É verdade! No entanto, a "segunda família", a que formamos depois de crescidos, é de certa forma a que nós escolhemos. Quando... nos casamos...

Sinto um leve tremor em suas mãos, as quais estão sendo amparadas pelas minhas.

-Às vezes, principalmente quando somos nobres, nos vemos obrigados a participar de joguetes políticos através do matrimônio - continuo afinal - Mas eu, felizmente, não fui coagido a tal. E agora, com a morte de meu pai, não o serei nunca mais. Por isso, a minha família escolherei eu...

- Vai... se casar?

- Não. Se você fosse uma mulher, eu casaria. Mas é homem. Portanto, nem que eu tenha de vê-lo às escondidas pelo resto da vida, mas meu coração será apenas seu. E é no coração, muito mais do que nos vínculos de sangue, que está a verdadeira família...

Nossos lábios se aproximam e realizam um ósculo novamente. Apenas nesse instante... eu gostaria que ele fosse uma mulher. Para eu poder assumir publicamente que o amo...

- Bem! Não importa meu passado - ele diz, lépido, assim que nossas bocas se separam - Agora eu me sinto melhor do que nunca. Estou com você, Kanon...

Saga deita a cabeça em meu ombro, exalando a mais pura satisfação. Alguém para genuinamente amar... é o segredo da felicidade. Ainda bem que eu consegui descobri-lo a tempo, pois muitos, ao procurar grandeza excessiva ou bens estritamente materiais, jamais percebem tal dádiva. Que transformação este homem tem feito em meu espírito nos últimos tempos!

Terminamos de comer em seguida. Chamo os criados para levarem os talheres, mas apenas mantenho contato com eles da porta para fora. Passo o resto da noite conversando trivialidades com Saga, e ele permanece bastante vago no que concerne a si próprio. É uma pena... todavia, sua companhia e seu afeto me bastam; nunca antes o escuro me pareceu tão benéfico, pois ele traz Saga em seu bojo!

- Ainda está cedo para irmos dormir - digo a ele afinal - Se você não fosse tão... determinado em esconder sua aparência, nós poderíamos... andar em meu jardim.

- Bem... o máximo que eu poderia fazer seria colocar meu capuz... o qual sempre uso para vir até aqui. Mas... num local público, às vistas alheias, creio que será estranho.

- Hum... uma solução seria ficarmos à sacada, tomando algum ar... é bastante ampla, como se fosse um cômodo por si só. O que acha?

- Bem... de qualquer modo, ainda é ao ar livre. Mesmo assim, posso aceitar. Porém, terei de reiterar minha condição de...

- Sei, de usar o capuz. Use-o! Mas vamos; os criados não nos importunarão lá.

Meu amigo cobre-se novamente com seu capote e em seguida dirigimo-nos ao alpendre. Tomo sua mão outra vez, depreendendo seu calor, sua energia benéfica. Nossas almas se comunicam, mesmo que não haja palavras a serem ditas.

Tomo, eu mesmo, duas cadeiras mais ou menos amplas e levo até a varanda. O início de noite, invernal, está frio porém bastante claro, iluminado pelo luar. Tal situação deixa Saga um tanto quanto receoso.

- Venha! - digo a ele - Não se incomode; eu sequer repararei em sua aparência.

Temeroso, pé ante pé, ele vem aos poucos. Minha vista aguça-se, por mais que eu não queira demonstrar. É tão fantástico finalmente ver seus contornos claramente expostos à luz, mesmo cobertos pela capa! O luar apenas torna-os mais belos, mais perfeitos e formosos a mim.

Enlaço sua cintura no exato momento em que ele senta-se em uma das cadeiras, ao meu lado. Por estar ao ar livre, ele parece contrair-se de nervoso em meus braços, como se a luz da lua simplesmente o ferisse.

- Calma, Saga... calma... ninguém vai descobri-lo aqui.

- Meu receio não é pelos demais... e sim por você! É... a si a quem não posso mostrar-me, principalmente.

- Por que? Diz que desconfio de você, mas não age de maneira diversa em relação a mim.

- Não é questão disso; é.. é a minha própria vida a qual depende disso, no ponto em que as coisas chegaram!

- Hum... sua vida? Não compreendo. Mas enfim... eu jamais deixaria que o matassem.

Tomo seu corpo e aproximo-o ainda mais de mim, aspirando o aroma de seus cabelos, cobertos pelas roupas. É estranho ver como não me importa se ele é loiro ou moreno... não sei se sua pele é trigueira ou pálida, ou se seus olhos são claros ou escuros. Simplesmente não é relevante...

Saga, de início ainda tenso pela expectativa de expor-se, aos poucos e lentamente solta-se e deixa seu receio de lado. Enlaça-me, deitando a cabeça de rosto escondido e completamente incógnito em meu ombro.

- Não há problema, Kanon... já não há problema em eu ser descoberto, ou mesmo morto. Caso tais coisas ocorram, poderei fechar os olhos em paz... pois tive seu amor, ao menos por alguns momentos.

- Sempre terá meu apreço e afeição! Ademais, se é amigo do rei, não há quem seja capaz de matá-lo. Tenho inimigos políticos, mas eles não têm razões para visar você propriamente dito.

Beijo suas mãos, cobertas por luvas. Seu mistério e omissão apenas atiçam ainda mais minha curiosidade. Todavia, eu respeitarei seus limites.

Passamos o resto da noite conversando sobre os pequenos detalhes do jardim que se estende abaixo da varanda. Um mundo de vida, de equilíbrio, como eu mesmo fui capaz de constatar há poucos dias atrás.É incrível... os detalhes são muitas vezes desapercebidos em detrimento de coisas desagradáveis e por vezes desnecessárias.

- Tudo é um milagre... - constato em voz alta, surpreso - Antes, meu ceticismo não me deixava ver... mas com você eu posso enxergar o que antes não me era concedido.

Alegramo-nos juntos, até por volta das dez da noite. Convido-o para vir deitar-se a meu lado, na cama, sem receio mais. Subitamente, vêm-me à mente algumas cenas da primeira infância; há uma brincadeira no jardim, o mesmo que atualmente serve-me de reflexões. Nele, brincam eu e... mais uma criança, de quem não lembro o rosto.

- Saga... posso fazer mais uma pergunta?

- Faça... não posso garantir que a responderei, mas pode fazê-la.

- Você diz me conhecer há vários anos, não?

- Sim, é verdade.

- E... por um acaso chegou a... brincar comigo quando éramos crianças?

O já famigerado impulso de hesitação e temor tomam-lhe. Dentro de algum tempo, responde:

- Sim, vim. Mas antes dos quatro anos de idade. Após isso... houve a deserção, da qual eu lhe falei.

Nós dois nos despimos, ficando apenas com as roupas de baixo, deitando a seguir em minha cama. O inverno torna a ocasião propícia... pois apenas nos estimula a ficarmos próximos um do outro. O calor que trocamos através de nossos corpos... dá a mim uma impressão de reencontro.

- Boa noite, meu querido Saga...

- Não precisa desejar boa noite... pois esta foi e está sendo a melhor de toda a minha vida!

Beijo sua testa com carinho, sorrindo. Gosto muito do modo dele de falar, de agir... o seu corpo... e junto com esta admiração obtenho também algumas conjecturas. Saga me conheceu na infância, é de alta estirpe por seus modos e cultura, foi fadado a uma espécie de ostracismo... as peças aleatórias deste quebra-cabeças ainda não formam uma figura concisa para mim.

- Saga...

- Sim, Kanon?

- Por acaso... me ama desde quando éramos crianças e brincávamos naquele jardim?

- Amo-o desde antes de nascermos ambos.

O gentil terapeuta afaga meus cabelos, abraçando-me e mantendo, com tal resposta, o enigma de sempre. Enlevado com o fascínio que Saga exerce por mim, tento não pensar... e apenas me concentrar no que sinto por ele e em como é bom dormir acompanhado... nunca antes, como homem solteiro que sempre fui, deixei quem quer que fosse dormir a meu lado. E agora... é um reencontro sublime, uma peça a qual deveria estar aqui em minha vida. Sempre...

Felizes pelo nosso amor, dormimos ambos até de manhã, quando os acontecimentos vindouros viriam para, de maneira cruel, tirar-nos do idílio de paixão e dizer-nos friamente: "A vida é dor! Acordem, ó bem-aventurados, pois perene tal condição não pode ser!"

To be continued

OoOoOoOoOoOoOoOoO

Não resisti e coloquei um pouco mais de "doce" nessa fic! XD No entanto, o próximo capítulo será bem mais angst.

Beijos a todos e todas!

EDIT: Ontem não deu tempo de revisar tudo. Hoje, reli o capítulo e vi um monte de palavras grudadas, seja pelo fatodo meu botão de backspace ter preguiça, seja por alguma outra razão desconhecida. Já "separei" todas as palavras. Desculpem pelos eventuais erros e falta de betagem em algumas fics ou capítulos.Abraços!