No dia seguinte, a manhã havia chegado nublada. As nuvens tampavam o céu, deixando-o com a aparência de branco. Mas alguns raios de sol conseguiam perfura-las, despejando aqui e ali feixes de luz dourada que desciam tocando suavemente o chão. Parecia a resistência do sol contra as nuvens pesadas.

Clímene observava o cenário quietamente. O horizonte parecia aguardar em suspense a partida dos 300, embora tudo nele fosse calmaria: o céu, o vento que balançava as espigas de trigo fazendo desenhos dourados no campo que logo desapareciam, o próprio movimento nas casas era calmo. Talvez por isso ela sentia o seu coração também calmo. Não sabia o quanto isso iria durar, quanto tempo até ele começar a bater descompassadamente, mas não havia por que pensar nisso. Seu olhar deteve-se por um instante no escudo que segurava nas mãos. Sentindo o vento no rosto, deixou-se não pensar em nada. Apenas fechou os olhos e sentiu o bronze, o metal em sua pele, e o peso que, surpreendentemente, ela conseguia levantar por alguns segundos.

Abriu os olhos ao ouvir os passos dele se aproximando. Stelios já estava com o elmo dado pelo filho, Egídio, que estava agora ao lado da mãe e quase na idade de começar a agoge. Clímene levantou a cabeça para olhar Stelios: era um perfeito soldado de Esparta. Manteve-se olhando para ele, com o olhar mais digno que pôde. Ele a olhava de volta, os olhos vivazes mesmo que levemente ofuscados pelo elmo. Ela não pôde evitar dar um pequeno sorriso, fugidio, talvez para evitar sentir uma incerteza agora. Deu a ele o escudo, que Stelios pegou sem dificuldade. Com a cabeça baixa, como se não soubesse agora o que fazer, Clímene deu um passo na direção dele e pôs as mãos em seus ombros. Viu que ele também se aproximou. Erguendo um pouco o olhar para as próprias mãos, ela hesitou, como se ensaiasse o que iria dizer. Mas por fim olhou-o nos olhos e disse:

"Volte com o seu escudo... ou sobre ele".

Soava estranho vindo dos lábios dela. Talvez tivesse tido de forma muito gentil...


Stelios mantinha o olhar fixo nela. Nos olhos negros que o fitavam, ligeiramente disfarçados pelos fios de cabelo que voavam sobre o rosto dela, o que a deixava com uma aparência juvenil. A sua Clímene. Sempre ela, tão destoante, e que havia acabado de dizer a frase mais típica de todas as esposas e mães espartanas... Soava doce, como se ela não soubesse como dizer. Soava como uma gentil advertência, não era nada como a frase cheia de orgulho que ele imaginava ouvir mesmo antes de sequer pensar em uma esposa. Mas gostava do que havia ouvido. Vindo dela, não poderia ser de outra forma.


Clímene já não estava muito certa se fizera bem dizendo aquela frase, porque certamente não havia soado como deveria. E mesmo que houvessem passado apenas segundos, parecia que o tempo havia ficado mais lento para que Stelios avaliasse o tom em que ela havia falado. Ela já não conseguia manter a sua pose segura, sentia que até seus olhos começavam a trai-la. Mas foi aí que ele a surpreendeu assentindo com a cabeça, e teve a impressão de que por um instante também ele deu um pequeno sorriso. E a surpreendeu outra vez, beijando-a. Com a mão livre ele a pegou pela cintura e chegou a fazer com que os seus calcanhares saíssem do chão. Era um beijo intenso, como se ele quisesse ter bem viva a lembrança dos lábios dela. E quebrando todo o protocolo. Clímene abriu furtivamente os olhos e viu que alguns vizinhos os olhavam – mas era como se ele quisesse que olhassem também.

Findo o beijo, ele devolveu seus calcanhares ao chão. Ela estava meio desorientada, mas fixando o olhar nos olhos dele logo sentiu o chão firme de novo sob os pés. Os olhos dele, que refletiam uma miríade de cores; azul, um pouco de marrom, de dourado, de verde, quando ela os olhava bem de perto, como agora. E refletiam também os seus olhos. Nesse reflexo ela se sentia mais segura, mais calma, mais certa de que ela poderia ser forte. Esses olhos firmes a haviam assegurado disso, esses olhos a haviam apreciado. E sob eles, ela se sentia tranquila agora. Sentiu ele tirar a mão de sua cintura e dizer, com a voz perfeitamente calma:

"Sim, minha senhora".

Olhando para o filho, assentiu com a cabeça, e ele repetiu o gesto. Stelios voltou os olhos para Clímene ainda uma vez, e levantando o escudo, pôs-se a caminhar em direção aos limites da cidade, onde estava o restante dos 300 aguardando o rei. Clímene deteve-se nos olhos dele até que eles se fixaram no horizonte. Naqueles últimos instantes ainda admirou-os e deixou que eles a absorvessem. Seguiu Stelios com o olhar até que ele e os outros começassem a marcha. Iam para o norte.

E então eles se foram.