Capítulo Nove
Ginny caminhou até o grande salão. Estava vazio com exceção de Hugh que amaldiçoava na cozinha e Joanne que estava sentada sozinha perto da lareira. O café da manhã era uma idéia atrativa, mas podia esperar. Joanne parecia muito desamparada para ser deixada sozinha. Ginny andou através dos juncos, fazendo uma careta pela centésima vez ao senti-los sob seus sapatos, e se sentou no banco ao lado de Joanne.
— Bom dia, sir Joanne. — ela disse.
Joanne sorriu em seu cansaço.
— E para você também, lady Ginny.
— O que há de errado, querida?
— James esta lá fora treinando.
— Ele não faz isto freqüentemente?
— Aye. — ela disse desanimadamente. — Mas Laird Harry não me deixa mais ficar lá fora com os homens. Ele diz que não é lugar para uma garota.
Ginny meditou sobre aquilo alguns instantes. Era encorajador saber que Harry começava a abrandar-se no que concernia a Joanne.
— Não há nenhum lugar onde pudéssemos observá-los sem que eles soubessem disso?
Os olhos do Joanne iluminaram.
— Poderíamos ficar nas ameias. Mas James não me deixa subir até lá sem ele. Ele tem medo que eu caia. — ela franziu o cenho. — Ele se preocupa como uma velha.
Ginny sorriu.
— Ele a ama, querida, e não quer que você se machuque. Se eu subir com você, estou certa de que ele não se importará.
— Laird Harry disse que você tampouco pode ir ali. Ele acha que você pode ficar amedrontada pela altura que é do chão.
Ginny desejou desesperadamente que pudesse levar Laird Harry ao topo do Empire State. Isso o ensinaria uma ou duas coisas sobre altura. Ela tomou a mão de Joanne entre as suas.
— Eu não tenho medo de altura, querida. Vamos procurar um lanche, e teremos um piquenique no telhado enquanto assistimos os homens trabalharem.
— Querida? Lanche? Piquenique? — Joanne parecia completamente confusa.
Ginny mordeu a língua. Ela faria com que o castelo inteiro falasse como os americanos se ela não fosse cuidadosa. Ela deu um aperto na mão de Joanne.
— O que eu quis dizer é que nós iremos buscar uma ou duas maçãs e tomaremos o café da manhã nas ameias. Como isso soa?
— Estranho, — disse Joanne lentamente. — mas eu penso que acharei isso muito agradável.
Ginny quase lamentou suas palavras corajosas quando ela e Joanne abriram a porta para o telhado e saíram na manhã ensolarada. Era uma grande distância até lá embaixo. Joanne segurou sua mão firmemente.
— Olhe para seus pés, milady, e eu a levarei para a parede ao longo do campo. Então você pode segurar-se na pedra e olhar para baixo com segurança.
Ginny mostrou um débil sorriso enquanto assentia e permitiu que Joanne tomasse a iniciativa. A moça caminhava segura, obviamente estava acostumada a vagar pelos passadiços de não mais que noventa centímetros de largura. Elas alcançaram seu destino rapidamente, e Ginny deixou escapar uma respiração irregular. Então ela levantou os olhos e ofegou.
A vista era impressionante. Estava olhando para o norte, para as montanhas. O topo dos picos já estavam polvilhados com uma leve cobertura de neve. O que ela originalmente pensou ser um prado era na realidade o topo de uma montanha plana. Existiam certamente montanhas mais altas do que a que sustentava o castelo de Harry, e existiam também profundos vales, apenas insinuados pela maneira em que as montanhas se faziam mais profundas na distância. A forte beleza do lugar ante ela a deixou sem palavras. Era duro e áspero, e completamente indomado. Muito parecido ao Laird que invadia seus pensamentos de forma tão freqüente. Não era de estranhar que Harry tivesse pouco tempo para gentileza. Como podia ele, quando este era o ambiente que enfrentava cada dia?
Mas certamente a beleza de seu lar o emocionava. Por que ele trabalharia tão arduamente para protegê-lo se não? Ela desejava ter sido uma artista. Capturando a magnificência da cena antes dela ter sido digna de qualquer espaço de tempo.
— Ginny!
O retumbar do bramido de Harry quase a fez perder o equilíbrio pela surpresa.
— Não se atreva a se mover daí! — gritou.
Ginny olhou por sobre a parede a tempo de ver Harry lançar sua espada para James e correr de volta para casa. Ginny olhou para Joanne e estremeceu.
— Creio que estamos em apuros.
Joanne empalideceu.
— Você acha? — ela começou a tremer. — Laird Harry é tão feroz quando grita.
— Não se preocupe. — disse Ginny de forma segura. — Eu vou acalmá-lo.
Ela mordeu seu lábio enquanto girava e esperava por Harry irromper através da porta da ameia. Tranqüilizá-lo era a menor de suas preocupações. Evitar que ele a estrangulasse era a sua primeira prioridade.
Harry não precipitou-se, ele atravessou calmamente a porta. Pôs seus dedos nos lábios e caminhou lentamente até elas, como se tivesse medo que elas se arremessassem a menor provocação. Ginny olhou para trás, perguntando-se se teria mais alguém andando sorrateiramente atrás delas.
— Não se movam. — ordenou Harry em um sussurro alto.
Seu tom urgente a pôs nervosa.
— Por quê? — ela sussurrou em resposta. — O telhado vai cair?
Ele estendeu sua mão para ela.
— Só não olhe para baixo, Ginny. Veja a minha mão. Eu estarei aí para buscá-la antes de você perceber.
Ginny olhou para Joanne boquiaberta. Joanne pôs a mão sobre sua boca para esconder seu sorriso.
— Ele pensa que estamos com medo. — ela sussurrou no ouvido de Ginny.
— Seria melhor não dizer-lhe o contrário. Poderia envergonhá-lo.
Joanne assentiu, seus olhos cintilavam. Ginny voltou a tempo de encontrar Harry quase ao lado delas. Ele se aproximava com cuidado, seus olhos concentrados nos dela. Mais três passos e ela foi esmagada contra seu peito. Bem como Joanne.
— Eu vou bater em você por isso. — ele rosnou em seu ouvido. — Maldita seja, Ginny, você me assustou muito!
— Se você planeja me bater, eu ficarei melhor aqui, obrigada assim mesmo.
Harry gemeu e pôs Joanne em seu quadril.
— Ponha seus braços em volta do meu pescoço e segure-se com força, Joanne, — ele disse com calma. — Assim, boa garota. Ginny, segure minha mão e não olhe para baixo. Entendeu?
— Sim, Harry. — ela disse obediente, trocando um olhar solene com Joanne. Ela o seguiu todo o caminho das escadas até o grande salão. Ele as sentou em um banco e passeou diante delas uma ou duas vezes. Finalmente ele parou e as olhou furiosamente.
— Vocês duas vão me levar à loucura! — ele berrou. — O que em nome do céu estavam fazendo rastejando sobre o telhado?
— Observando você e James. — disse Ginny docilmente.
— Vocês podiam ter caído e morrido! — ele gritou. — Estou tão furioso, que não posso decidir qual das duas vou virar sobre meus joelhos primeiro!
— Pare de gritar tão alto. Você está assustando Joanne.
— Antes assustada que morta! — ele trovejou. — E isso serve para você também, Ginny. Está proibida de subir no telhado, está me entendendo? Vocês duas!
— Mas a vista é tão linda, — protestou Ginny.
Harry moveu suas mãos, desgostoso.
— Sua vida significa tão pouco para você que a arrisca para olhar uma montanha que você pode ver facilmente do chão?
— Nós não teríamos caído…
Seu rugido a cortou na metade da frase. Ele apertou seus punhos ao lado do corpo e olhou para elas como se realmente estivesse tentando segurar-se para não bater nelas de modo insensato. Ele finalmente dirigiu uma carranca feroz para ambas.
— Vocês não vão pôr um pé naquele telhado sem mim. Entenderam, Joanne?
— Aye, meu Laird — ela gritou.
— Ginny?
— Sim, Harry.
Ele grunhiu.
— Obediência afinal. Talvez agora, vocês duas, possam ficar longe dos problemas tempo suficiente como para que eu possa treinar um pouco?
— Claro, Harry. — disse Ginny.
— Joanne?
Joanne pulou como se a tivessem espetado com um alfinete.
— Aye, meu Laird.
Harry murmurou algo ininteligível e saiu pisando duro do salão. Quando ele se foi, Ginny deixou escapar um suspiro de alívio e relaxou.
— Isso foi por pouco.
— Ele ficou furioso. — disse Joanne com voz aguda.
Ginny pôs uma mão sob seu queixo e ergueu seu rosto.
— Você sabe por quê?
— Por que ele não gosta de nós?
— Porque ele gosta muito de nós. Se ele não se importasse, não estaria tão furioso porque algo ruim podia ter acontecido conosco.
— Verdade? — ela perguntou, com os olhos arregalados. — É por isso que James gritou comigo outro dia quando tentei montar o novo garanhão?
Ginny ofegou.
— Você fez o quê?
— Um dos rapazes me desafiou. Eu estava fazendo uma bela exibição até que James me puxou para baixo. — seus olhos se arregalaram outra vez. — Ele bateu no meu traseiro, lady Ginny, ali mesmo nos estábulos. Então ele me abraçou, e depois gritou comigo.
— É exatamente a mesma idéia, amor.
Ginny sorriu para si mesma. Talvez os gritos de Harry fossem uma coisa boa afinal, se era isso o que estavam disfarçando.
O banho foi um grande sucesso, tanto quanto Ginny estava preocupada. Debaixo de todas as camadas de sujeira, Joanne era uma menina muito bonita. Ginny fez o melhor que pôde para acertar o corte de Joanne com a faca mais afiada da cozinha de Hugh. Era um pobre substituto para a tesoura, mas serviu.
Um vestido também foi facilmente obtido. Hugh tinha uma filha da idade de Joanne e enviou seu filho para procurar um vestido, assim que foi solicitado. Ginny dificilmente podia esperar para ver o rosto de James quando visse seu pequeno rapaz transformado em uma encantadora moça. Joanne ainda era demasiado jovem para ser cortejada por ele, mas nunca era muito cedo para começar a pensar sobre casamento. Nada teria agradado mais a Ginny que ver os dois juntos.
Depois de esperar até que os homens estivessem sentados e berrando pela ceia, ela e Joanne fizeram sua grande entrada. Ginny hesitou e permitiu que Joanne caminhasse à frente dela. Harry olhou, esfregou os olhos e, voltou a olhar. Mas era pela reação de James que Ginny estava esperando.
Ele estava sentado de frente para a cozinha, conversando com Ian. Ele olhou para Joanne e sorriu e, logo continuou com sua conversa. Então, de repente ele se levantou, bateu as palmas das mãos na mesa e olhou boquiaberto.
— Por Nossa Senhora, quem é você? — ele trovejou, em uma boa imitação de seu pai. — Desde quando este pobre castelo acolhe a esses dois anjos de beleza?
As mãos de Joanne estavam firmemente apertadas atrás de suas costas, e ela se girou rapidamente para olhar Ginny, com os olhos arregalados.
— Vá em frente. — disse Ginny.
James saltou por cima da mesa. Veio diretamente para Joanne e fez uma breve reverência.
— Milady Joanne, você me daria a honra de ser minha acompanhante esta noite?
— Tenho de lhe servir?
— Iria este simples rapaz pedir a uma dama de sua criação que o servisse? Acredito que não. — ele ofereceu-lhe o braço. Ela o olhou inexpressivamente, e Ginny sorriu ao ver o longo suspiro de sofrimento dele. — Joanne, é para você colocar a mão no meu braço, e eu a levarei para a mesa. Assim é como se faz.
— Ah... — disse Joanne, ruborizando-se. Ela timidamente pôs a mão no braço de James e percorreu timidamente todo o caminho até a mesa.
Harry não se incomodou em oferecer seu braço para Ginny. Ele puxou sua cadeira e acenou para ela com um gesto nobre. Ela suspirou e caminhou pisando duramente nos juncos, jurando ensinar para Harry algumas coisas sobre boas maneiras.
— Isto é o que estava sob toda aquela sujeira e esterco de cavalo? — ele perguntou, quando ela tomou seu lugar.
Ela assentiu.
— Incrível, não é?
— É melhor eu ter uma conversa com James. É muito cedo para aquela pequena moça carregar um filho dele.
— Perdão?
Harry lhe deu um sorriso divertido.
— Ele é um homem, Ginny, e teve mais que sua cota de moças da aldeia.
Ginny agarrou sua taça de vinho e tomou tudo, sem querer saber mais.
Ela voltou para sua refeição. Era haggis1. Simplesmente não podia comê-la. Harry finalmente tomou sua tigela e terminou ele mesmo.
Quando ele se dispôs a levantar, ela colocou a mão sobre seu braço. Ela podia fazer pelo menos uma tentativa para salvar a inocência de Joanne.
— Harry, onde é que Joanne vai dormir?
Ele se recostou sobre o respaldo de sua cadeira.
— Com James, claro.
— Temos que encontrar uma cama para ela. Ela é muito velha para ser…
— Mulher, — murmurou Harry perigosamente. — você soa desconcertadamente como uma esposa resmungona. Não vou tolerar que me digam o que fazer em minha própria casa.
— Mas…
— Vá para a cama, Ginny.
— Harry. — ela começou lastimosamente.
— Agora! — exclamou ele.
Ela se levantou sem dizer outra palavra e subiu as escadas para sua câmara. Joanne não iria dormir com aqueles homens, não importava o que disse Harry. Ginny ia dormir com ela antes dela permitir que isso acontecesse.
Ela cruzou a câmara de Harry, esperando que ele chegasse. Enquanto o fazia, ela fumegava. Maldito fosse por ser tão teimoso. Ela pegou sua adaga do console da lareira e deparou-se com a porta. Embora isso não fosse exatamente seu tipo de defesa contra assaltos, e não era exatamente spray de pimenta o que ela segurava em sua mão. Ela podia fazê-lo. O importante era ensinar a Harry algumas coisas sobre como criar uma adolescente.
Ela tocou a adaga de forma resoluta e esperou.
1 Haggis: Prato escocês que consiste em vários órgãos de ovelhas, são cortados e acrescentado cebola e especiarias, cozinhado dentro do estômago da ovelha.
