FULL MOON by Sue Hellen

9. Perseguidos

Deixamos Dallas às sete e meia da manhã do dia seguinte, e seguimos para Fort Worth.

Durante todo o caminho, Hendrik, Leonard e eu conversamos sobre aquele inesperado encontro da noite anterior. Novas indagações surgiram na minha cabeça, vindas não se sabe de onde, e inexplicavelmente, começaram a me perturbar. O vampiro que nós atropelamos na estrada havia morrido mesmo? Será que ele não teria se recuperado e fugido para delatar onde estávamos? E se toda a corja de vampiros caçadores norte-americanos estivesse se movendo para o Texas agora mesmo atrás de nós? E se a feiticeira que estávamos indo encontrar tivesse morrido com a passagem do furacão Katrina* por New Orleans? Será que eu estava ficando louca por conseguir pensar em tantas coisas para dar errado?

O fato era que eu me sentia extremamente agitada quando paramos para almoçar ao meio-dia, num restaurante asiático escolhido por Hendrik. O vampiro continuava determinado a melhorar os nossos hábitos alimentares, e nós não reclamávamos, já que ele havia passado a patrocinar toda a viagem. Naquele dia, contudo, eu estava sem a mínima fome.

"Você não gosta desse tipo de comida, Sandra?" o vampiro perguntou me vendo torcer o nariz para os pratos do balcão self-service.

"Gosto!" eu disse depressa "Eu só estou sem fome."

"Se você quiser podemos ir a outro restaurante..." ele insistiu e eu reparei Leonard parar de se servir, esperando pela resposta também.

"Não, não tem nenhum problema com esse aqui! É que, realmente, eu..."

"Realmente eu, o quê?" inquiriu Leonard, vendo que eu perdera a fala.

"Ah, querem saber? Me deixe vocês dois!" explodi do nada, e saí andando em direção à mesa que havíamos escolhido. Estava com a garganta comprimida e uma repentina vontade de chorar naquele momento. Só podia ser TPM, pensei, mordendo os lábios e reprimindo o choro. Imediatamente, vi os dois homens se sentando à mesa junto comigo.

"Sandra... O que foi? Fala comigo!" Leonard surgiu me abraçando e me puxando para seu peito. As duas safiras azuis brilhantes que eram os olhos de Hendrik estavam do mesmo modo sobre mim, alarmados.

"Nada oras!" eu me soltei dos braços que pareciam duas algemas ao meu redor, e esfreguei as pálpebras para que as lágrimas se espalhassem "Eu to bem! Parem de me tratar como se eu fosse criança!"

"Você é que está se comportando como uma criança aqui, minha cara..." sussurrou Hendrik com sua costumeira amabilidade "Dessa forma, eu serei obrigado a descobrir por mim mesmo o que está deixando-a alterada assim." ele ameaçou.

Droga... praguejei comigo mesma. Já tinha que esquecido que ele podia fazer isso com facilidade.

"Não!" protestei com veemência "Será que uma garota não pode simplesmente acordar de cara virada de vez em quando?" continuei a brigar.

Como que por reflexo, os dois se entreolharam, e se desgrudaram de mim. Aquele perfeito entendimento masculino entre eles me deixou ainda mais irritada.

"Foi mal... Só queríamos saber se você estava bem." disse Leonard, voltando a atenção para a comida em seu prato.

"Mas eu estou bem!" eu respondi, procurando me acalmar "Estava só... pensando em algumas coisas sem importância." desconversei.

"Eu não estou particularmente ocupado, e poderia ouvir suas teorias se você quisesse." propôs o vampiro esticando os braços por sobre aos outras cadeiras, e fingindo estar pouco interessado.

Eu desisti de continuar fazendo mistério sobre minhas ruminações, e embora achasse que eram ruminações bem estúpidas, resolvi verbalizá-las.

"Eu estava pensando que, talvez, fosse melhor deixarmos o país."

"Han?" Leonard tossiu, engasgando.

Hendrik apenas ficou me encarando, esperando por uma explicação lógica para tal frase.

"Você tinha razão..." eu me virei para o ruivo ao meu lado "Isso aqui está mesmo perigoso."

"E desde quando você concorda comigo em alguma coisa?" ele contestou.

"Desde quando eu me dei conta que nós não conferimos se aquele vampiro que pulou no carro morreu de fato... Ou se ele sobreviveu." eu disse com sarcasmo.

"Isso faz diferença?" ele não entendeu o meu ponto.

"Claro! Lembra que a recompensa era por nós dois, capturados, ou por informações nossas?"

"Você acha que o vampiro de Chicago vai mandar seus próprios homens atrás de vocês quando souber que estão aqui?" o loiro interferiu. Eu o lancei um olhar obscuro.

"Diga-me, Sr. Vampiro, isso não é exatamente o que você faria?" eu sugeri, com a voz baixa.

"É, provavelmente sim." ele concordou.

E daquele ponto em diante, o silêncio se fez entre nós.

Leonard comeu demoradamente seu yakisoba com frango xadrez, mastigando sem muita vontade, com o olhar vago. Eu acabei aceitando as maçãs carameladas que foram servidas em nossa mesa ao final da refeição, e nós deixamos o restaurante pouco depois.

"Pra onde você acha que deveríamos ir?" perguntou-me o irlandês enquanto entrávamos no carro para retomar a viagem.

"Para o Brasil, é claro." eu respondi me sentando ao lado de Hendrik.

"Porque lá é mais seguro do que aqui?" Leonard se opôs com desdém.

"Não. Porque lá estaríamos muito bem escondidos." eu expliquei, impaciente.

"Se for só pra esconder, podemos ir pra Irlanda." Leonard estava começando de novo com aquela nossa velha mania de discutir por nada. E mesmo eu sabendo disso, eu não podia deixar passar.

"E ficarmos onde? Na fazenda do seu pai?" eu perguntei em tom cético.

"Sim, na fazenda. Ele vive dizendo que eu posso voltar para lá a hora que eu quiser. Já a sua mãe..." ele fez questão de mencionar que eu não era muito bem-vinda em minha própria casa. Depois daquele dia fatídico, eu já havia ligado para minha mãe mais umas duas vezes, e em nenhuma delas havia conseguido fazê-la esquecer as idéia de que eu estava mais a salvo nos Estados Unidos do que no Brasil.

Obviamente, eu não tinha relatado a história toda. Para ela eu estava simplesmente fazendo turismo com o meu namoradinho novo.

"Minha mãe não pode me segurar aqui a vida inteira." eu retorqui, decidida. Afinal, não seria a primeira vez que eu faria algo que me desse na telha ao invés de fazer o que meus pais consideravam certo.

"Nesse ponto, contudo, eu concordo com Leonard." interveio o vampiro "Sua mãe tem razões muito fortes para mantê-la aqui, e você deveria ouvi-la."

Bem, quanto àquilo, eu não podia argumentar.

"Poderíamos continuar com a idéia do México." eu propus.

Hendrik balançou a cabeça "Ah, não façam isso... O México esta infestado de vampiros. Vocês seriam uma presa fácil se a notícia se espalhasse por lá."

"Então?" eu perguntei, desanimada.

"Irlanda. Eu to dizendo que é uma boa..." Leonard comentou novamente, e a persistência dele piorou o meu humor que já não estava muito bom.

"Pra morar numa fazenda, Leo? Acordar com o barulho das galinhas e dormir com o das cigarras?" eu disse, indignada com a mera hipótese "Eu cresci na maior cidade da América do Sul, você acha que eu conseguiria viver assim? Rodeada por mato?"

"Qual o problema? É um ambiente calmo, protegido... Não teríamos que nos preocupar com nada lá." ele prosseguiu, se enfezando.

"Ok, garoto do campo, parece lindo. Mas eu já disse que NÃO!" eu devolvi, furiosa.

"Ótimo, então vamos para o lugar onde podemos trocar os meus inimigos pelos seus! Que idéia perfeita!" ele ironizou.

"Pelo menos eu não ia ter que esperar você ordenhar a vaca todos os dias de manhã antes de tomar o café!" eu disse numa entonação muito acima do normal.

"É melhor do que ir até a padaria correndo o risco de tomar um tiro, eu posso te garantir!" ele disse erguendo a voz também.

"Isso não tem nada a ver! As coisas nem são desse jeito!" eu cuspi, já quase gritando.

"Ah, não? Puxa, não é bem o que aparece nos jornais, sabe..." ele prosseguiu com o deboche, me fazendo esquecer totalmente que estávamos dentro de um carro, e acompanhados.

"Jornais? Você nem lê os jornais! O que você pensa que sabe sobre o meu país? Nada!" bradei cheia de raiva, me virando para trás para fita-lo.

"Eu sei que sua família teve que te tirar de lá para que você continuasse viva! Isso já é suficiente pra mim!" avançou ele do mesmo modo, apontando o indicador na minha cara.

"Você não sabe nada sobre os motivos da minha família também, então CALA A SUA BOCA, LEONARD!" eu berrei a poucos centímetros do rosto dele. Subitamente, porém, senti um peso gelado tocando o meu ombro.

"Hey! Se acalmem vocês dois! Essa discussão não tem o mínimo sentido!" disse o vampiro com um forte tom de comando "Até parece que Brasil e Irlanda são os dois únicos países do mundo! Já pararam para pensar que existem aproximadamente cem outros espalhados por aí, e que você estão brigando à toa?" reprovou, e nós dois tivemos que admitir que ele tinha razão.

Sem pressa, eu fui voltando a me acomodar no meu assento, com os olhos ainda nos de Leonard, sabendo que os meus fumegavam tanto quanto os dele.

Minha atenção se focou na estrada, e pouco a pouco minha respiração retomou seu estado normal.

"Será que nós podemos apenas concordar que essa é uma decisão para ser tomada depois que encontrarmos a feiticeira de New Orleans?" o vampiro indagou, cheio de diplomacia "Afinal, Leonard vai precisar estar livre do condicionamento do vampiro antes de partir para qualquer lugar, lembram-se?"

Eu fiz que sim com a cabeça, enquanto que o Leonard apenas soltou um muxoxo.

"Ótimo." Hendrik deu-se por satisfeito. E vendo que a atmosfera de desarmonia ia demorar a passar por ali, decidiu colocar uma música suave para tocar no mp3 player do carro.

A noite havia caído a poucas horas, quando nós paramos num hotel de uma pequena cidade que havia se desenvolvido próxima à highway. Era um estabelecimento até bonitinho para um lugar abandonado como aquele, com uma cerca branca na entrada, e vasos de flores violeta. Infelizmente, eu estava azeda demais para reparar naquilo logo de início.

"Boa noite." disse a recepcionista com um sotaque forte do sul, assim que passamos pela porta, soando um sininho estridente. O vampiro aproximou-se do balcão, e nós dois o seguimos, ainda embirrados, e com os braços cruzados.

"Boa noite. Dois quartos de casal, por favor." pediu o vampiro com gentileza, e quando a moça ergueu os olhos para encará-lo, eu tive a impressão de que ela ia desmaiar.

"P-perdão...?" murmurou ela depois de ter ficado alguns instantes babando de boca aberta perante ele.

Francamente, os humanos exageravam de vez em quando.

"Eu pedi dois quartos de casal, senhorita... Lucy." repetiu ele lendo o nome dela no crachá. A mulher quase se liquefez sobre a cadeira.

"C-claro..." ela gaguejou novamente, me fazendo exalar o ar com força e rolar as órbitas "Os dois são para o senhor?" perguntou ainda, confusa.

Hendrik deu uma de suas belas risadas "Não, não... Um deles é para os meus dois amigos aqui." ele se virou para nós, e eu fiz uma careta, custando a acreditar que só agora ela tivesse nos notado "Vocês vão continuar dormindo no mesmo quarto, eu suponho." certificou-se ele, considerando que não havíamos trocado uma única palavra, um único olhar, desde aquela manhã.

Leonard buscou a resposta nos meus olhos.

"Nós precisamos conversar." eu disse, secamente, e o vi assentir com a cabeça.

"Se vocês vão discutir a relacionamento de vocês é melhor não o fazerem aqui na recepção." brincou o vampiro, e depois se voltou para a atendente "Reserve três, por cautela." ele sorriu, e ela sorriu também, abobalhada.

Sem muito ânimo, eu tirei minha mochila pesada das costas e larguei-a junto ao balcão, me dirigindo outra vez para o lado de fora. Leonard me seguiu, e logo o sininho da porta voltou a soar atrás de mim.

Havia pouca luz ali, apenas as que vinham das janelas do hotel. Há alguns metros de nós estava a estrada silenciosa, e acima, o céu azul escuro, totalmente límpido. Era uma noite relativamente quente, sem vento, e o único cheiro que eu pude sentir foi o de Leonard, quando ele parou ao meu lado.

Eu amava aquele cheiro. E não podia negar isso.

"Me desculpe." eu suspirei, enfim.

"Me desculpe também." ele devolveu.

"Eu estava atacada hoje."

"Eu posso entender." ele riu baixinho.

"Você não ajudou muito!" reclamei.

"Eu sei. Foi mal por isso também..."

"Tudo bem." eu sorri para ele, e ele fez o mesmo. Não demorou muito para que estivéssemos nos braços um do outro, com os corações batendo juntos, num compasso tranqüilo.

"Sandra, tem certeza que você quer continuar nessa viagem comigo? Você ainda tem escolha!" arriscou ele depois de um tempo, deslizando a mão sobre os meus cabelos.

"Se você me perguntar isso mais uma vez, Leo, nós vamos brigar de novo..." respondi, fazendo graça. Eu não o vi rir, todavia.

"E se eu repetir o quanto você é importante para mim, também vai ficar brava?" ele desconversou, cheio de candura.

"Não, nesse caso, não." eu disse amolecida, movendo a cabeça na direção da dele.

"Você é muito importante para mim." ele falou me olhando diretamente nos olhos, entoando cada palavra, e me causando um arrepio instantâneo.

"Você também é muito importante para mim." eu devolvi, e o vi juntando as pálpebras e aproximando os lábios dos meus, enquanto suas mãos quentes tocavam meu rosto.

Aquele foi o beijo mais afetuoso que eu me lembro de ter recebido, em toda minha vida.

**

Três da manhã.

Eu já havia caído miseravelmente no sono, quando senti Leonard se afastar de mim com um movimento brusco e se elevar sobre o colchão, como um cão de guarda em alerta.

"Leo? O que foi?" resmunguei atordoada, reparando em meio à penumbra que ele olhava para a janela de um jeito estranho.

"Tinha alguém nos espionando..." disse ele, saindo da cama para checar alguma coisa.

"Alguém? Quem?" perguntei ainda sonolenta, me erguendo sobre o cotovelo.

"Não deu pra ver." respondeu ele afastando a cortinas semitransparentes que pouco cobriam as vidraças, e girando as traves que trancavam a janela tipo guilhotina.

"Tem certeza que não é imaginação sua?"

"Tenho." ele confirmou, levantando vagarosamente a base de madeira, fazendo barulho fino. Com cuidado então, ele colocou a cabeça para fora e conferiu ambos os lados do corredor, parecendo desapontado ao notar que estava vazio. Depois, farejou os batentes, parando por alguns instantes num ponto especifico.

Aquele suspense já estava me matando.

"Encontrou alguma coisa?" indaguei.

Leonard voltou-se para mim, sua expressão estava séria e preocupada "Cheiro de vampiro." ele disse sombriamente "Você estava certa. Estamos sendo seguidos."

***

De manhã, na sala do café, eu tentava desesperadamente buscar uma falha em tal constatação, qualquer coisa que pudesse me fazer acreditar que aquilo não estava acontecendo.

"Será que não era só um curioso que parou para dar uma espiadinha em nós dois?" disse andando atrás de Leonard como uma sombra, enquanto ele se servia de browniese suco de laranja integral.

Ele empertigou-se "E por que um curioso teria aquele cheiro?".

"Talvez o Hendrik tenha passado perante a nossa janela... Talvez ele tenha encostado a mão no batente!"

"E por que ele faria isso? O quarto dele é no andar de baixo!"

"Talvez ele tenha, sei lá, pensado em nos dizer alguma coisa... Daí ele olhou pela janela e viu que estávamos dormindo e desistiu!" eu argumentei, criativa, mas nesse exato momento, vi o vampiro entrando no recinto e andando na nossa direção.

"Hendrik, você passou perante o nosso quarto ontem à noite?" interrogou Leonard, assim que ele se aproximou da nossa mesa.

"Não." o outro respondeu franzindo as sobrancelhas, sem entender do que se tratava.

"Viu?" Leonard virou-se para mim, vitorioso, se sentado numa das mesas em seqüência.

"Será que eu poderia ser colocado a par do assunto?" Hendrik pediu, sentando-se também. Nós nos fechamos numa rodinha, evitando os outros poucos hóspedes que estavam por ali.

"Leo disse ter visto alguém nos espionando pela janela de madrugada, e sentiu um cheiro de vampiro no batente." eu cochichei depressa, mordendo o meu cookie e dando um gole no café logo em seguida.

"Hmm..." o vampiro se afastou pensativo, e levou um tempo para retomar a conversa "Você viu se era alguém conhecido, Leonard?"

"Você quer saber se era o cara do bar? O que atropelamos?" sugeriu o ruivo.

"Precisamente."

"Bem, não deu para ver direito. Ele sumiu assim que percebeu que eu estava acordado. Mas era um homem, com certeza, e tinha cabelos muito curtos. Resumindo, pra mim, era ele."

Hendrik não replicou de imediato. Seu semblante estava ilegível enquanto ele pensava.

"Acho que devemos tomar mais cuidado a partir de agora." disse ele finalmente, taciturno. E minutos mais tarde, nós voltamos para o carro.

Os dez dias que levamos para deixar o estado o Texas e atravessar o de Louisiana foram bastante instáveis, e não parecia que houvesse algo que pudéssemos fazer a respeito.

A sensação de estarmos sendo seguidos de perto se intensificou já nos primeiros dias, contudo, o nosso perseguidor não nos deu brechas para uma captura, e o jogo de gato e rato – no qual, mesmo em maior número, nós estávamos em desvantagem – continuou. Talvez devido a isso, Leonard e eu continuamos nos estressando gratuitamente um com o outro, fato que ele atribuía à minha TPM, cuja duração estava se estendendo por muito além do que o normal, sem que eu notasse. Contrariamente, para mim, o problema era a postura excessivamente protetora que ele havia adquirido comigo, a ponto de não me deixar sozinha em momento algum. Até entrar no quarto de hotel sem que ele desse uma rápida checada antes, eu não podia.

Caso de neurose crônica, digna de psiquiatria.

Ademais, nós não fazíamos mais nada além de viajar. Nossas paradas eram sempre cautelosas e as saídas à noite para dar uma volta pelos arredores foram proibidas por Hendrik – proibição essa que eu tive que contestar sozinha, já que Leonard concordou com ele sem objeções. Sintetizando, eu me sentia praticamente numa prisão domiciliar, e deixara de me divertir com a viagem como acontecia antes. Se não fosse pelos momentos românticos com meu namorado, sempre que ficávamos sozinhos à noite, eu já teria desistido. Entretanto, nem mesmo isso foi o suficiente para conter o meu mau-humor quando paramos para dormir na grande capital sulista, Baton Rouge, à apenas algumas milhas de New Orleans.

Usando o roupão branco e felpudo do hotel após o banho, eu me sentei sobre a cama, com a cara emburrada e os braços cruzados. Vendo-me daquele jeito, Leonard veio se sentando de mansinho do meu lado.

"Não fica assim, Sandra... Falta pouco agora, muito pouco." disse sorrindo, tentando me animar.

"Isso é ótimo, porque eu já não estou agüentando mais!" reclamei, deixando-o sozinho, e andando até a janela. Suspirando, parei para olhar a bela cidade lá embaixo, construída às margens do Rio Mississipi, e tentei dissipar a vontade de chorar que, nos últimos dias, me acometia sem necessidade.

Imediatamente então, meus olhos se fixaram num ponto não muito longe de nós. Um parque de diversões, montado num espaço enorme a poucos metros do hotel onde estávamos hospedados. Parecia um lugar imaginário, tão iluminado e tão cheio de pessoas andando de um lado pro outro, risonhas.

E eu ali, trancada. Como uma prisioneira.

"O que foi com você, hein? Tem estado tão esquisita esses dias..." ele se aproximou de mim pelas costas, e me abraçou apertado, cruzando os braços perante meu corpo.

"Nada." respondi me deixando apoiar nele "Só estou cansada, eu acho."

"Tem certeza?" ele insistiu "Você sabe que pode falar comigo se houver algo, não sabe?"

"Eu não estou escondendo nada. Por que está perguntando isso?" eu me virei, tentando decifrar suas palavras.

Ele tomou uma posição defensiva "Não sei. Eu só acho que você está chateada com alguma coisa... e que não quer me dizer."

"Hmm..." eu abaixei os olhos, e fui aos poucos me escolhendo em seu peito "É essa situação... de não poder sair, ver pessoas, me divertir com você como fazíamos no começo."

Leonard fez uma pausa e inspirou profundamente antes de falar "Eu sei. Tem sido chato pra mim também."

"Pois é, por exemplo," eu decidi prosseguir até chegar ao ponto onde pretendia "você viu aquele Parque de Diversões bem aqui do lado do hotel? Eu queria muito que pudéssemos ir lá, passear um pouco, comer alguma coisa gostosa tipo... pipoca." miei, sentindo-me até mesmo um pouco infantil.

Leonard riu "Pipoca?"

"É, pipoca. Eu estou com tanta vontade de comer pipoca..." confirmei, fazendo biquinho.

"Bem, se for um mero saquinho de pipoca, eu não vejo problema." ele aprovou, sorridente.

Eu senti meu rosto se abrindo "Mesmo? Você vai me levar lá?"

"Se for pra te ver feliz de novo... eu levo!" ele respondeu, e me agarrou pela cintura, me girando no ar, quando pulei alegremente em seu pescoço, celebrando.

"Mas, e quanto ao Hendrik?" eu me dei conta de súbito quando ele voltou a me colocar no chão.

"É claro que ele vai ser contra, então, é melhor a gente nem avisar pra ele!"

"Ok!" assenti entusiasmada, me soltando e saindo andando pelo quarto "Eu vou me vestir! O que você acha que eu deveria usar?"

"Tanto faz. Algo que não seja quente, eu acho." ele comentou, e foi pegando sua mochila também.

"Que tal esse short? Eu não usei ele ainda..." perguntei, tirando a pequena peça jeans, ainda etiquetada, da minha mala.

"Pode ser." ele deu de ombros, começando a vestir uma camiseta preta e uma calça qualquer.

"Eu posso colocar ele, essa blusinha branca, e as minhas botas... Daí eu vou ficar parecendo o povo daqui!" tagarelei comigo mesma enquanto separava as roupas, realmente contente. Em menos de quinze minutos, já estávamos prontos.

"Vamos?" Leonard perguntou ao me assistir terminar de passar um pouco de gloss sobre os lábios. Dando uma ultima conferida no espelho, eu ajustei melhor o rabo de cavalo, e segui com ele.

"Vamos!" sorri, lhe entregando uma das mãos. Eu praticamente saltitava enquanto andávamos pelo corredor do hotel, rumo à saída.

A noite estava linda, e muito agradável, quando chegamos lá fora. O parque tinha um grande arco na entrada, que piscava com luzes fluorescentes em várias cores, e estava repleto de pessoas de todas as idades. Dos alto-falantes presos aos mastros, ouvia-se uma música dançante, que embalava os gritos do público nos brinquedos e nas barraquinhas de competição de tiro ao alvo.

Leonard me levou para comprar um saco enorme de pipoca e, em seguida, nós saímos andando e comendo juntos, olhando as atrações mais de perto. Havia várias coisas para se fazer, porém, só de estar ali em meio àquela movimentação toda, eu já estava achando maravilhoso.

Quando a pipoca acabou, eu pedi para comprar uma maçã do amor. Depois, sem precisar de ajuda, comi um pacotinho inteiro de amendoim torrado e, mais tarde, um algodão doce. Estava mesmo com fome naquela noite, e super agradecida por ter alguém tão disposto a fazer todas as minhas vontades... E não só as gastronômicas, pois bastou eu dizer que havia achado fofo um cachorro de pelúcia exposto como prêmio para quem derrubasse um palhaço numa piscina de bolinha, que logo lá estava eu, andando com um mimo tamanho gigante debaixo do braço.

"Tem certeza que não vai andar em nenhum desses brinquedos? Ainda dá tempo, se você quiser..." questionou ele me apontando alegremente uma montanha-russa.

Eu sacudi a cabeça "Ah, não! Só de me imaginar rodando nesse troço já dá vontade de vomitar!"

Ele me olhou com as sobrancelhas arqueadas "Mesmo? E eu que achava que você era uma garota de estômago forte..." caçoou.

Eu me enfezei "Mas eu sou uma garota de estômago forte! Só não estou de estômago forte hoje."

Leonard deu um risinho "Sei bem." desprezou, e eu lhe dei uma mordida na bochecha como resposta, fazendo-o protestar e rir ao mesmo tempo.

Nós continuamos dando o nosso passeio, até que eu tive que entrar num assunto que havia me acometido já há alguns dias "Sabe o que eu tenho notado?"

"O que?"

"Que você parou totalmente de implicar com o Hendrik, e que vocês parecem até meio 'amiguinhos' de uns tempos pra cá."

"Eu não diria 'amiguinhos'." discordou ele, achando graça.

"Ah, não?" eu cutuquei.

"Não. A gente se suporta agora, eu acho. E eu não gostava muito dele antes porque achava que ele tava dando em cima de você."

"Ah, é? E o que te convenceu de que ele não estava?"

"Oras, ele não poderia, não é?" ele respondeu sorrindo de canto.

"Não? Por quê?" eu guichei.

Leonard torceu o nariz "Porque ele gosta de outra coisa..."

Meu queixo se escancarou com tal afirmação "De onde você tirou isso, Leo?"

"Ah, Sandra, dá pra ver! O cara é todo delicado, gosta de arte, odeia esportes... Fora aquelas roupinhas sempre arrumadinhas que ele usa e o jeito que ele come!"

"Leo, quanto preconceito!" eu o censurei.

"Preconceito nada! O jeito que ele age com você também é estranho. Gentil demais."

"Eu realmente não estou acreditando no que estou ouvindo!" eu continuei boquiaberta.

Ele soltou uma risada.

"Tudo bem, não quer acreditar, não acredita! Eu só estou dizendo que acho que o cara é gay, não disse que não ia mais conversar com ele por causa disso..." concluiu ele, e eu não disse nada, meio pasma.

Nós prosseguimos andando, calados, eu ainda pensando naquela hipótese absurda, quando de súbito tive que parar para conferir uma certa figura que surgia em meio à multidão.

E para o meu espanto, sim, era ele. O Perseguidor. E sua atenção estava totalmente, diretamente, virada para mim.


N/A:

* O furacão Katrina atingiu New Orleans em 29 de agosto de 2005, e foi categorizado inicialmente como um furacão de Categoria 5, a mais destrutiva na Escala de Furacões de Saffir-Simpson. Os ventos chegaram a 200 quilômetros por hora, e cerca de 40% da cidade foi alagada pelas águas do Rio Mississipi.