Décimo Nono Dia


Martha abriu a porta de casa cantarolando, carregando mais sacolas do que deveria – afinal o dinheiro que Richard ganhava com os livros tinha que ser gasto de alguma forma. Surpreendeu-se em encontrar o filho deitado no sofá, com o computador exibindo a interface do Google no colo e o telefone devidamente colado em seu ouvido pelo que ela imaginava serem horas. De certo era uma pesquisa para o novo livro. Começando cedo, desta vez...? Ele só fazia aquilo quando tinha que ocupar a cabeça com algo...

– O que faz em casa, mocinho? – Perguntou largando as compras no sofá e se sentando ao lado de Castle assim que ele desligou o telefone.

– Na verdade eu ia te perguntar algo parecido, do tipo "porque você não está em casa". Mas dai vi o logo da Harold's. – Ele apontou para as sacolas, com uma sobrancelha levantada. – Depois não venha me pedir para aumentar o limite do seu cartão de crédito...

– Não seja bobo, Richard. Foram só umas comprinhas. Faz bem renovar o armário, de vez em quando. Devia tentar.

– Eu tenho roupas o suficiente, mãe. – Replicou ele, voltando sua atenção para o computador novamente. – E você também.

– Pois não parece, você esteve usando a mesma blusa por dias, quando Beckett foi internada. Não me espantaria se ela tivesse saído andando pela casa assim que você a tirou do corpo... – Ela ignorou o último comentário dele, assim como ele ignorou o último dela. – O que me trás de volta à última pergunta. O que o trás de volta ao lar tão cedo? Como está a detetive?

– Bem, eu acho...

– "Eu acho?"

– Não posso ter certeza, não fui até o hospital hoje. Nem ontem. Ou antes.

– Muito trabalho? – Perguntou a atriz, com esperanças de que ele lhe contasse a verdade, mas dando-lhe uma escapatória caso ele quisesse apenas fugir do assunto.

Por mais que Castle quisesse enterrar tudo o que havia acontecido bem fundo, num pedaço obscuro de sua mente, imaginou que a mãe estenderia o assunto até retirar dele alguma informação assim que ele respondesse à sua pergunta de forma negativa. Não iria sair daquela conversa sem explicar a ela ao menos uma parte do que havia acontecido, portanto desviou os olhos do computador mais uma vez. Pensou alguns segundos, ainda hesitante, mas cedeu ao semblante preocupado de Martha.

– Na verdade não...

– Josh te expulsou do hospital não foi? Eu até gosto daquele garoto, mas ele não-

– Não, não... Não foi isso o que aconteceu, eu só... Não acho que seja certo que eu apareça lá todos os dias.

– Como de repente você se importa com o que é certo, Richard Castle?

– A questão aqui não sou eu, mãe, mas Kate. Ela precisa de uns meses de descanso do mundo, e de mim; Josh desistiu de salvar o mundo por ela, deixemos os dois sozinhos um pouco. Eles já tem interrupção suficiente de Seth, indo e voltando daquele quarto. Se pensar bem, é estranho que eu apareça por lá dia após dia, nem Esposito e Ryan fazem isso. Porque diabos eu estava fazendo isso, mesmo?

– Você mesmo já disse isso, querido. – Respondeu a atriz, compreensiva, relembrando-o de algo que ambos já sabiam: – Não é pelos livros... É por ela, não é?

Era. – Respondeu o escritor, com veemência. – Vai tudo voltar ao normal, eu prometo.

Ele voltou a olhar para o computador e a bater no teclado, escrevendo uma sequência de "ovos e bacon" e esperando que Martha visse naquilo a deixa para levar as compras para o quarto e deixa-lo em paz. Após a quinta linha de um texto sem sentido a atriz achou melhor continuar a conversa em outra hora. Em um momento em que ela o pegasse mais desprevenido. Um pouco mais emotivo era o ideal. Talvez fosse hora de desenterrar a velha garrafa de Scotch do fundo do armário de bebidas.


– Como vai uma das minhas pacientes favoritas? – Anunciou Seth, entrando no quarto de Katherine Beckett sem o menor decoro para a visita do almoço.

A detetive deu um pulo, sendo pega desprevenida.

– Você me assusta, entrando desta forma, sabia? – Disse ela, dirigindo ao médico um olhar de reprovação e ignorando os risos de Lanie e Josh, que faziam companhia a ela desde que acordara, há menos de meia hora.

– Acostume-se, vai acontecer por muito tempo.

Kate rolou os olhos, odiando ser lembrada de que ficaria ali por vários e vários meses. O médico adorava provocá-la com comentários do gênero, e a cada dia ela odiava ainda mais a medicação que a deixava letárgica demais para responder à altura.

– Como foi a noite? – Começou ele, sorrindo pela cara amaçada de Kate. Ainda se sentia culpado por fazê-la perder o sono por causa da dor, e gostou de ver a expressão descansada em seu rosto e suas bochechas ainda marcadas com as linhas do travesseiro.

– Bem. Na verdade acho que eu dormir mais do que deveria...

– Você não está de serviço, Kate, não precisa acordar às seis da manhã. – Lembrou Josh.

– Acordar tarde me dá a sensação de que eu perdi alguma coisa. – Uma referência direta às visitas do parceiro, que passou despercebida à própria Beckett.

– Você não perde nada, só atrasa um pouquinho. – Comentou a legista.

Se por um lado Beckett odiava perder qualquer segundo do dia que tinha disponível, por outro ela se lembrou de que não dormia noites inteiras daquela forma há anos. Nem mesmo nos finais de semana em que não estava na delegacia, ou em suas raras e curtas férias ela conseguia se desligar do trabalho. Além do mais, não havia muito que fazer ali a não ser dormir. Mas a falta do que fazer era só mais um ponto que a irritava naquilo tudo.

– Alguém sabe de Castle? – Perguntou, subitamente curiosa pela ausência do escritor. – Não vejo ele há dias.

– Se você não sabe... – Respondeu Lanie. Kate lhe lançou um olhar questionador. – Querida, é você quem passa o dia todo grudada nele, se não sabe onde Richard está, provavelmente nem Alexis tem essa informação.

– Não seja boba. –Retrucou a detetive.

Josh engoliu em seco. Castle estivera ali poucos dias antes, deixando um beijo apaixonado demais em sua mão, e agora simplesmente sumira como vapor no ar. Pensando bem, aquilo não lhe parecera uma... despedida? Deveria ele contar isso à namorada?

– Talvez Ryan e Esposito saibam... – Apressou-se ele. – Lanie pode perguntar a eles.

– Posso? – Ela olhou para o médico, curiosa. Viu de relance que tanto Josh quanto Seth balançavam sutilmente a cabeça em uma resposta positiva. – Melhor. Arrasto os dois para cá, amanhã.

Os outros dois suspiraram, cada um por seu motivo. Josh por ter se livrado do problema e Seth por não querer que Beckett voltasse a ter pesadelos. A verdade é que, para ele, ainda não estava clara a ordem dos acontecimentos: ela tinha pesadelos por que tinha dor, ou tinha dor porque tinha pesadelos?

Por via das dúvidas, decidiu não arriscar.

– Só não tire os dois do meio de um caso, ok? – Pediu Kate.

– Ok, encerremos a conversa, então. – Disse Josh. Castle, Castle, Castle. O assunto sempre voltava para ele. – Creio que Seth está aqui para saber como vai a sua respiração.

– E seus batimentos cardíacos. – Completou Lanie Parish.

– Ah, chega. Todo mundo aqui tem um diploma de medicina, é isso? Estou me sentindo em desvantagem!

– Com licença, o médico oficial sou eu...? – Anunciou Seth, com um tom indignado. – Fora, os dois. Eu preciso examinar a paciente com cuidado.

Era, em parte, uma brincadeira. Ele realmente precisava examinar Kate, mesmo não precisando que os outros dois saíssem do quarto. Mas o local do ferimento de Kate, um pouco acima do seio direito, a obrigava a retirar a camisola do hospital, o que a deixava visivelmente desconfortável – mesmo na frente do namorado. Não foram poucas as vezes em que ele tinha sido expulso pela própria Kate.

Quando os dois saíram do quarto, Seth se aproximou e riu da cara de Beckett. Sua expressão era um misto de desanimo e vergonha.

– Você vai ter que tirar, – ele apontou para as vestimenta da detetive. – eles esqueceram de me entregar meus óculos de visão Raio-X novamente.

Beckett bufou e puxou a camisola pela cabeça. Seth se concentrou em retirar as bandagens que cobriam o ferimento de Kate e a própria se concentrou em não enrubescer. Não precisou de muito esforço, entretanto. Sua mente ainda estava presa no assunto anterior.

– Você não sabe de Castle, sabe?

– Não confia em Lanie e em Josh?

– Confio, mas você é uma fonte melhor. – Admitiu ela. – Sabia que ele esteve aqui quando ninguém mais sabia.

Ele ponderou as palavras da detetive. Era verdade.

– Bom, posso te dizer que Richard não esteve aqui, nos úl-

Ai!

Me desculpe. ...Últimos dias.

– Nem quando eu estava dormindo?

– Não. – Seth constatou com alivio que ela não tinha infecções, trocou os curativos de Beckett e ela rapidamente se enfiou dentro das roupas novamente.

– Foi ele quem te pediu para cuidar de mim. – Quem te disse que eu sou especial... – É amigo de Castle, não?

– Ah, então você realmente sabia. – O médico pegou a prancheta com os arquivos de Kate e folheou as páginas. Tudo em ordem. Se ela deixasse de ser teimosa, poderia voltar para casa em tempo recorde.

– Porque não me disse?

Porque você já sabia. – Ele sorriu. – Seria pleonasmo. – Mas então uma pergunta lhe veio à mente – Como sabe que sou amigo dele?

– Ele também odeia pleonasmos.

Seth sorriu. Ele e Castle tinham muito em comum. Não era de se espantar que ela percebesse.

Vários segundos foram tomados pelo silêncio, enquanto ele revia informações e prescrevia novas doses de medicamento, rabiscando coisas no papel sem que Beckett nem mesmo percebesse. Um pensamento continuo não a deixava em paz.

É estranho não ter ele comigo a todo segundo. – Murmurou ela, pensando mais alto do que queria. – Espera, porque eu te disse isso?

– Por que não pode dizer a mais ninguém. – Filosofou o médico.

A detetive riu.

– Quer dizer que você é minha válvula de escape, agora? – Brincou.

Seth deixou a prancheta de volta no lugar, clicou a caneta e chacoalhou os ombros.

– Se você quiser... – Disse ele, sorrindo.

Beckett não respondeu. Apenas observou o médico sair do quarto com um tchauzinho de "até mais tarde". Antes que pudesse pensar seriamente no que ele dissera, Josh e Lanie invadiram o quarto novamente. Mas a proposta do médico ficaria impressa na mente da detetive. E seria aceita mais cedo do que ela imaginava.