Sombras do Passado

Capítulo 9

Quando voltaram para casa já passava da hora do jantar e Jeffrey os esperava, impaciente.

- Da próxima vez que forem se atrasar, pelo menos liguem avisando. – O homem mais velho falou assim que colocaram os pés na porta de casa.

- Você está ficando rabugento, Jeff. – Jensen brincou, e logo percebeu que seu irmão tinha notado que havia algo de errado, quando olhou de um para o outro e sua expressão mudou totalmente.

- Aconteceu alguma coisa que eu deva saber? – Jeffrey perguntou, enquanto terminava de colocar o jantar na mesa.

- Não, nada. – Jared respondeu rápido demais, e Jensen apenas baixou os olhos, sem dizer nada.

- Certo. – Jeffrey bufou. – Então vão lavar as mãos porque eu estou morrendo de fome. – Falou simplesmente, sabendo que nenhum dos dois iria falar o que quer que tivesse acontecido. Mas não lhe tinha passado despercebido que ambos estavam com cara de quem tinha acabado de chorar.

Os três jantaram num silêncio perturbador. Jensen de repente passou a mão pelos cabelos e suspirou. Seu irmão merecia saber a verdade, mesmo que corresse o risco de se colocado pra fora daquela casa. Não era mesmo digno de estar ali, então o mínimo que podia fazer era ser verdadeiro e aguentar as consequências.

- Jeffrey, eu... Depois do jantar, eu gostaria conversar com você. – Jensen remexia com o garfo em seu prato, sem de fato comer alguma coisa, então olhou para Jared que consentiu com a cabeça, lhe dando coragem.

Depois de terminarem a refeição, Jared tirou os pratos e foi para o seu quarto, deixando os dois irmãos a sós para conversarem.

Ambos foram para a sala e Jensen se sentou em uma poltrona, de frente para o sofá onde Jeffrey se sentara.

Começou contando sobre sua vida assim que saíra de casa, há cinco anos, e o mais velho apenas o ouvia com atenção. Então, depois de respirar fundo e criar coragem, contou sobre Ian e sobre as drogas, ficando com o coração apertado ao olhar a mudança no semblante do seu irmão.

Jeffrey fizera uma e outra pergunta, tentando assimilar toda aquela informação, então se levantou do sofá e andou até a janela da sala, passando a mão pelos cabelos.

- Por isso você deixou de me ligar? – Por fim perguntou. – Andava chapado demais pra pegar um maldito telefone e ligar pro seu irmão pra dizer ao menos que estava vivo? – Jeffrey alterou a voz, coisa que Jensen tinha visto poucas vezes em sua vida.

- Jeffrey, eu...

- Mas que porra, Jensen! Você conseguiu jogar cinco anos da sua vida fora, como se não fosse nada! Onde você estava com a cabeça? Quantas vezes nós conversamos, quantas vezes eu te orientei pra ficar longe das bebidas e das drogas, será que foi tudo em vão? – O mais velho cuspia as palavras, com raiva.

- Eu sabia que estava errado, mas... Eu sempre achava que podia parar quando quisesse. Quando eu me dei conta que estava viciado já era tarde, e...

- Por quê? Por que alguém escolhe fazer uma merda dessas com a própria vida? Você pode me explicar?

- Jeff, me desculpe! – Jensen implorava, com lágrimas nos olhos, mas no fundo, sabia que não merecia o seu perdão, e aquilo doía tanto...

- Você tem ideia do que eu passei nos últimos anos? Eu já não tinha mais notícias suas, você tinha saído da faculdade, mudado de endereço e ninguém sabia pra onde tinha ido. Eu já não sabia mais o que esperar. Então o Jared... – Jeffrey não finalizou a frase, apenas mordeu o lábio e balançou a cabeça, as lembranças sufocando o seu peito. – Eu tive que ser forte por ele, e... Por muitas vezes eu tive vontade de dormir à noite e nunca mais acordar. Eu só queria poder ter um pouco de paz... Eu queria a Amy de volta, eu queria que você de repente entrasse por aquela porta, eu queria poder apagar as memórias do Jared pra que ele pudesse voltar a ser feliz... Eu devo ser um filho da puta, mesmo! – Jeffrey socou a soleira da janela e deixou as lágrimas caírem...

- Você é a melhor pessoa que eu já conheci, Jeff. Eu sei que não mereço o seu perdão, eu sei que você vai me odiar por isso, mas... Eu precisava te falar. Eu já não aguentava mais ficar escondendo o meu passado, eu... – Jensen chorava, se sentindo a pior criatura do mundo.

- E como você conseguiu? – Jeffrey de repente perguntou, já parecia mais calmo.

- O quê?

- Você está limpo, não está?

- Estou. Depois que o Ian... Eu passei os últimos oito meses em uma clínica de desintoxicação. Eu te liguei assim que saí de lá e voltei...

- E como você está quanto a isso?

- Bem, eu... Eu estou bem.

- Ótimo. Agora vá dormir, eu... Eu preciso de um tempo sozinho.

- Está bem. – Jensen ia saindo, então se voltou. – Jeff?

- Hmm?

- Eu me arrependo demais por tudo o que eu fiz. Eu queria muito poder voltar atrás, mas... – O loiro engoliu em seco.

- Jensen... Eu jamais viraria as costas pra você, mas... Você sabe que foi até o fundo do poço por escolha própria, não sabe? Nem o Ian, nem mesmo o traficante que te vendeu as drogas tem culpa, você escolheu este caminho.

- Eu sei disso. E eu vou provar pra você que eu aprendi a lição. – Jensen falou com sinceridade. Faria o possível para tentar consertar seus erros, já não aguentava ver o olhar de decepção e a dor do seu irmão.

- É o que eu espero. Agora vá dormir. - Jeffrey falou sem sequer conseguir olhar nos olhos de Jensen.

O loiro foi para o quarto, arrasado. Viu que Jared ainda estava acordado, sentado em sua cama com um livro nas mãos.

- Você conseguiu deixá-lo puto. – Jared comentou quando Jensen se sentou na cama.

- É, consegui... – O loiro suspirou, cansado.

- Ele só gritou comigo duas vezes até hoje, uma delas foi depois que eu fiz isso aqui – Jared apontou para o seu pulso – e a outra você estava junto. – O moreno sorriu com a lembrança.

- Mas você foi o culpado. – Jensen sorriu, se lembrando também. – E também foi um exagero, nós só fomos dar uma volta de carro, nada mais.

- Sim, só que você tinha doze anos.

- Você me pediu pra te ensinar a dirigir, não pediu? – Jensen deu de ombros e os dois caíram na gargalhada. – É, naquele dia o Jeff gritou mais do que a sua mãe quando estava zangada.

- Ela torceu a minha orelha e me sacudiu, além de uma semana de castigo.

- Que só durou três dias.

- Porque eu fingi que estava doente... – Jared riu ainda mais.

- Você era terrível, Jay!

- Eu tinha um bom mestre. – Os dois apenas se olharam, cúmplices.

- Será que algum dia ele vai me perdoar? – O loiro não conseguiu disfarçar sua tristeza.

- Claro que vai. Ele só precisa de um tempo.

- Como alguém pode fazer tanta burrada em tão pouco tempo, Jay? Eu acho que por mais que eu tente reparar os meus erros, as lembranças sempre vão estar ali... Droga! – O loiro bufou, frustrado.

- Você contou tudo a ele? Inclusive sobre o Ian?

- Eu não entrei em detalhes, mas... Basicamente sim.

- E como ele... Ele falou algo sobre isso?

- Sobre eu ter me relacionado com um homem? Não. Acho que ele estava puto demais com o lance das drogas. Ou ainda não caiu a ficha, sei lá...

- Jen... Aquele dia que você saiu e voltou só na madrugada seguinte, você não...?

- Não! Não, eu... Eu encontrei alguns amigos e depois... Eu estive com a Katie.

- A sua ex? – Jared perguntou sem pensar. Não queria demonstrar que se incomodava com aquilo, mas no fundo estava morrendo de ciúmes.

- Não era exatamente minha ex, já que nós nunca namoramos. – Jensen sorriu. – Foi só uma noite, Jay. Eu precisava aliviar toda aquela tensão.

- Claro. – Jared quis parecer indiferente, mas sua voz falhou.

- Hey, você ficou chateado? – Jensen perguntou se levantou e foi até a cama do moreno, se sentando ao eu lado.

- Não. Claro que não. Por que ficaria? – Jared sorriu sem graça.

- Não sei... Ciúmes, talvez?

- Deixa de ser idiota, Jensen.

- Está vendo? Você me chamou de Jensen, é porque está chateado. – O loiro brincou, bagunçando o cabelo do mais novo com sua mão.

- Para! – Jared resmungou e os dois ficaram em silêncio por alguns minutos.

- Jen? Posso te perguntar uma coisa? – Jared perguntou meio tímido e Jensen sorriu, sabia o quanto o outro podia ser curioso, e isto era um sinal de que as coisas estavam voltando ao normal entre eles.

- O que é?

- Você saiu com outros caras, além do Ian?

- Não. Ele foi o único com quem eu saí. Mas... Bom, ele não foi o primeiro a me despertar o interesse. – Jensen sentiu seu coração bater mais rápido, sem saber se contava a Jared ou não. Não sabia se ele estava preparado para isso.

- Hmm... – Jared não perguntou mais nada e Jensen se sentiu aliviado.

- Jay... Aquele beijo ontem à noite... O que...

- Foi um erro. – Jared o interrompeu. – Eu não sei o que deu em mim, aquilo não devia ter acontecido. Me desculpe. – O moreno falou rápido demais, sem coragem de olhar nos olhos de Jensen.

- Não. Não foi um erro, foi tão... Natural. Eu quis, você quis... Não pode ter sido um erro. – Jensen falou simplesmente, esperando que Jared entendesse.

- Você devia ter me impedido. – Jared tentou se levantar da cama, mas Jensen o segurou, fazendo com que o encarasse. O loiro tocou o rosto de Jared com carinho, deslizando seus dedos pelos lábios do moreno, querendo senti-los mais uma vez.

- Por que te impedir, se eu também queria? Se eu ainda quero?

- Por que você está fazendo isso, Jensen? – Jared falou com lágrimas nos olhos.

- E por que você tem tanto medo? Você sabe que eu jamais te faria algum mal, não sabe? – O loiro já não sabia o que fazer para que Jared confiasse nele.

- Eu sei, mas... Querendo ou não, eu vou acabar me machucando. Você não devia brincar com isso, Jen.

- Eu não estou entendendo...?

- Você é tão lindo, Jen... Pode ter quem você quiser, pode beijar quem você quiser... A Katie, por exemplo. Ela é linda, ela...

- Eu não acredito que você está fazendo ceninha por ciúmes da Katie.

- Não é ciúmes, é só... – Jared engoliu em seco. – Tem pessoas muito mais interessantes por aí, eu não sei por que você... Por que você teria interesse em mim?

- Mais interessantes do que você?

- Eu sei que eu não passo de um cara esquisito e problemático, e... Não tem nada em mim pelo que você possa se interessar. – Jared afastou a mão de Jensen do seu rosto e se levantou, quando sentiu Jensen puxá-lo de volta com força.

- Esquisito e problemático? – Jensen sorriu com sarcasmo. – Quem falou isso pra você?

- Ninguém. Eu tenho espelho em casa, Jensen. – Jared mentiu, pois não queria falar sobre aquilo.

- Seu espelho só pode estar com defeito, então. Porque o que eu vejo quando olho pra você, é o cara mais bonito e atraente que eu já conheci. Olha pra mim, Jay! – Jensen ergueu seu queixo, fazendo com que o olhasse nos olhos. – Tudo em você é lindo e perfeito! Seu rosto, seus cabelos, seu corpo... Eu não mudaria nada em você. Seus olhos são tão expressivos e o seu sorriso é capaz de iluminar o mundo ao seu redor. Uma pena que você sorri tão pouco agora. A sua voz, o som da sua risada... Eu podia passar o dia inteiro te ouvindo tagarelar e gargalhar daquele seu jeito único...

- Jen...

- Eu sei que eu já errei muito com você Jay, mas eu não mentiria sobre isso. E falando em ser problemático, agora você sabe que eu não estou muito longe, não é? – Jensen sorriu. - Cada um com seus fantasmas. Quem sabe eu possa te ajudar a esquecer os seus, e você possa me ajudar a lidar com os meus... O que você me diz?

- Eu não sei... Não sei se eu consigo...

- Eu estarei do seu lado, Jay. O tempo todo. Nós podemos tentar, não podemos? – Jensen entrelaçou seus dedos aos do moreno. – Muito devagar... Um passo depois do outro... – Jensen o olhava, esperançoso.

- E o meu pai?

- Isso é um problema pra mais tarde, eu acho... – Jensen fez uma careta, fazendo Jared rir.

Jared concordou com a cabeça, sentindo os dedos de Jensen percorrendo os fios de seus cabelos, num leve carinho.

O loiro envolveu seus braços em torno da nuca do mais novo, muito devagar, pois não queria assustá-lo e tampouco que ele fugisse do seu contato. Sentiu os braços de Jared envolverem sua cintura, com certa hesitação, quando seus lábios se encontraram num beijo tímido, mas cheio de sentimentos.

Continua...


Resposta às reviews sem login:

Sol: Pois é amore, ainda bem que o Jensen conseguiu sair do fundo do poço, né? Infelizmente, o Ian não teve a mesma sorte. Você já está pensando em como o Jeffrey vai reagir quando descobrir sobre os dois? Ai, ai, ai... Ownnn... Está viciada na minha fic? Cuidado, hein! rsrs. Beijos, linda! Obrigada por comentar!

Luluzinha: Sim, o Jensen também sofreu muito, e tem um grande fardo pra carregar. Quem sabe eles consigam ajudar um ao outro, não é? Beijos e obrigada por comentar!

Pepezitro: Claro que eu acertei, acha que eu não conheço meus leitores lindos? rsrs. Obrigada por ler e comentar. Beijos!