—
Consequências
por Miss Dartmoor
—
Capítulo 9.
Foda-se, ele pensou.
E beijou Jared de volta.
Foi como se um imenso peso tivesse sido arrancado de seus ombros. Por um momento, apenas naquele momento, ele se permitiu esquecer o resto do mundo e corresponder ao beijo de Jared; sentir os lábios do mais novo tocar os seus daquela maneira tão característica, que trazia tantas memórias à tona; sentir a mão de Jared tocar sua face, quase cobrir todo o seu rosto enquanto ele aprofundava o beijo que fazia Jensen sentir-se fora do próprio corpo.
Agarrou o tecido da camiseta do moreno. O beijo se tornou mais forte — como tudo o que Jensen sentia naquele instante.
Se parasse para analisar, se parasse para imaginar o que teria dito se tivessem lhe falado que se encontraria nesta situação, talvez Jensen risse do absurdo que tudo era. Diria que tinha passado tempo demais sofrendo por Jared para jogar tudo fora por causa de um dia agradável, por causa de uma declaração barata e um beijo bem dado. Teria rido, porque era mesmo muito absurdo. Jensen não era tão idiota a esse ponto, sempre havia sido muito inteligente e perspicaz, mas parecia que quando o assunto era sua vida pessoal Jensen não passava de um tapado patético.
Mas já que estava aqui... Qual era o grande mal nisso? Qual era o grande mal em parar de lutar contra seus sentimentos?
Puxou a camisa de Jared com mais força do que o necessário e passou a beijá-lo com uma intensidade de tirar o fôlego. As memórias eram tantas que era impossível não se lembrar das maravilhas que Jared podia fazer com aquela boca bonita. Lembrou-se de todas as chupadas, e sentiu a louca vontade de repetir tudo outra vez, porém, num lapso de sanidade, se lembrou que estava fodendo a boca de Jared em plena cozinha e que o quarto de Amie ficava a pouca distância dali.
Ele sussurrou "Amie" contra os lábios do moreno, lembrando-o de que a menina ainda estava na casa. Jared percebeu o que ele quis dizer instantaneamente e, sem tirar seus lábios dos de Jensen, passou a guiá-lo na direção do banheiro mais próximo. "Questão de lógica", Jensen pensou. O quarto do executivo ficava no segundo andar ao lado do quarto de Amie — ele deduziu —, a sala e cozinha estavam fora de cogitação, então só restava o banheiro.
E Jensen não se importava nem um pouquinho desde que tivesse Jared de quatro o mais rápido possível.
Os dois entraram no banheiro e só aí pararam de se beijar. Jared trancou a porta e nesse meio tempo os olhos do loiro percorreram todo o local. Era um banheiro pequeno, mas bonito, bem decorado.
Na verdade um lavabo, contendo apenas uma pia e um vaso sanitário. Os tons de cores variavam entre o claro e o escuro, mas o que mais chamava a atenção era o imenso espelho que cobria toda uma parede, com apenas uma pia arredondada acolhida por uma bancada de mármore de cor acinzentada. Era tudo muito bonito e bem planejado por mais simples que fosse, e parecia ter custado um bom dinheiro — algo que fez Jensen sorrir de lado; não importava o quanto ele achava que Jared tinha mudado, algumas coisas continuavam as mesmas.
O moreno, assim que trancou a porta, se voltou para o loiro. Ele tinha uma expressão esperançosa no rosto, um meio sorriso de quem não acredita que aquilo está realmente acontecendo com ele. Jensen sentiu vontade de rir alto, sem saber muito bem o motivo.
Talvez estivesse enlouquecendo ou algo assim.
— Tira a camisa. — Jensen disse num sussurro rouco de voz. Quando beijou Jared aquele dia na empresa e sentiu o corpo forte do moreno por baixo do terno caro, quis desesperadamente vê-lo sem roupa alguma para poder contornar os músculos de Jared — se possível, com a própria língua.
O tempo, agora, era pouco para isso, mas mesmo assim Jensen precisava vê-lo sem aquela maldita camisa.
Jared, sem pensar duas vezes, arrancou a camisa do corpo num movimento rápido de adolescente prestes a se dar bem pela primeira vez na vida — sexualmente falando —, deixou-a cair em algum ponto no chão e voltou-se para Jensen. Ele respirava rápido e estava muito ansioso, Jensen pôde notar.
Caminhou em direção a Jared sentindo a própria respiração lhe faltar. Se estivesse bêbado, poderia acreditar que estava tendo outro sonho erótico a respeito do moreno e que a qualquer hora acordaria sozinho na cama excitado e frustrado demais consigo mesmo. Porém, quando tocou a pele quente do outro, sentiu que tudo era muito real. Tão real, que era melhor Jensen evitar pensar sobre o assunto.
A realidade conseguia ser incrivelmente cruel quando queria.
— Jensen, eu... — Jared mordiscou o lábio inferior, como que querendo dizer algo sem saber muito bem como escolher as palavras. Jensen deslizou, lentamente, a mão pela pele de Jared até alcançar a região do coração. Pôde sentir os batimentos cardíacos intensos. Deslizou-a de novo, descendo, descendo, em direção ao jeans de Jared. O moreno prendeu a respiração e suspirou quando sentiu Jensen tocá-lo por cima da roupa.
Jared já estava excitado.
Jensen desafivelou o cinto, devagar, e então abriu o zíper da calça. Sentiu a boca salivar quando bateu os olhos no pênis de Jared, ereto, coberto apenas pela boxer.
— Olha só pra você, Jared. — Ele disse, sem perceber. — Você é perfeito. Tão perfeito... Não sei o que vou fazer com você. O que eu vou fazer com você?
A pergunta não era para ter um cunho sexual, afinal Jensen sabia muito bem o que faria com Jared sexualmente, era mais o que ele faria com aquelas coisas loucas que Jared o fazia sentir.
Não esperava uma resposta.
— O que você quiser. — Jared murmurou; a voz entrecortada porque Jensen tinha entrado com a mão por dentro da peça íntima para começar a masturbá-lo. — O-O que... Você quiser... Jensen.
Ele engoliu em seco e Jensen apreciou o movimento da garganta de Jared trabalhando. Era tudo muito surreal, não acreditava que estava ali. Aproximou-se e tocou com a boca o pescoço suado de Jared. Chupou a pele, com a intenção de deixar uma marca. Jared gemeu baixinho, se contendo. Jensen deslizou os lábios até alcançar o ombro, chupando outra vez, marcando toda a pele de Jared.
— Jensen, eu preciso... — Jensen tocou o rosto dele com as duas mãos, sentindo vontade de rir quando Jared deixou escapar um grunhido de insatisfação por Jensen parar de tocá-lo, e beijou-o calando qualquer comentário que Jared estivesse prestes a fazer. Quando se afastou, Jared deixou escapar:
— Eu te amo tanto, Jen.
Num piscar de olhos, foi como se a realidade voltasse a Jensen. Dura e crua. Ele ficou tenso de repente, mas Jared não pareceu notar. Jared tinha que abrir a boca, não tinha? Ele tinha que abrir a boca e falar aquilo; tinha que dizer coisas que Jensen não estava interessado em escutar.
— Quero você em frente aquele espelho, Jared. Quero você de frente para ele. — Jensen disse, apontando para o grande espelho no banheiro. Jared piscou os olhos, confuso. Jensen sorriu, um sorriso enviesado. Colou a boca na orelha de Jared e sussurrou:
— Quero que se veja enquanto eu estiver te fodendo. Quero que veja como é que você fica quando estou dentro de você.
Jared deixou escapar um gemido bem mais alto e ele nem pensou duas vezes antes de ir para frente da bancada, espalmar suas mãos na superfície fria do mármore e espiar Jensen pelo reflexo do espelho. Jensen sorriu, apreciador. Ele se aproximou lentamente de Jared, contemplando a visão. Jared meio arcado, com as mãos na bancada, e o traseiro em sua direção; descoberto da cintura para cima, com a calça jeans aberta quase caindo de seus quadris.
Sua respiração falhou, mas voltou quando Jared fez menção de alcançá-lo com as mãos.
— Não. Parado. — Jensen ordenou, no que o moreno obedeceu. Posicionou-se atrás de Jared, puxando as calças do moreno para baixo e então a boxer. Jared gemeu outra vez quando sentiu sua ereção livre. Jensen encostou seu corpo ao de Jared, e o mais novo fechou os olhos quando sentiu o contato das peças de roupa de Jensen em sua pele tão sensível.
Jensen admirou a vista pelo espelho, tocando Jared; envolvendo a ereção do moreno com sua mão e permitindo que Jared fodesse o buraco que seu punho fazia. O moreno passou a gemer daquela maneira tão deliciosa, e com a mão livre Jensen abriu a própria calça livrando sua ereção que parecia desesperada em obter o alívio. Seu toque podia ser firme e certo, mas Jensen sentia que todo seu corpo estava tremendo. Jared abriu os olhos e o encarou pelo reflexo, olhos esverdeados escuros de prazer e expectativa. Jensen mordeu de leve o ombro do moreno, sentindo seu gosto, deixando outra marca.
Como que provocando, Jared jogou seu quadril na direção da ereção de Jensen e o loiro sentiu a respiração fugir quando seu pênis tocou aquela região sem penetrá-la.
— Jensen. — Jared murmurou. Jensen mordeu o ombro dele com mais força para se impedir de dizer seu nome, e agarrou a cintura de Jared. Seus toques precisos e bem pensados se perderam, e de repente tudo o que Jensen podia ver era Jared e sentir aquele desejo insano que retinha pelo moreno. Não se importava mais com lógica e razão, só sabia que precisava tê-lo.
E agora.
Se fosse em outra época, Jensen tomaria seu tempo, iria devagar. Ele tocaria Jared e o provocaria, ele sentiria prazer em ver o moreno louco de desejo, ele se importaria. Mas não dessa vez, dessa vez Jensen não queria se importar.
Ele olhou ao redor, não havia nenhum tipo de lubrificante, mas havia sabonete líquido numa saboneteira cromada. Não era o lubrificante perfeito, mas quebraria o galho. Jensen alcançou a saboneteira e pressionou o botão, derrubando o produto nas mãos até obter a quantidade suficiente.
Com o indicador, ele tocou Jared naquela região sensível, sentindo o músculo na ponta do dedo. O moreno prendeu a respiração e Jensen o penetrou. Com alguma dificuldade no início. Ele preparou o mais novo para recebê-lo sem muita paciência, dois dedos e movimentos rápidos. Ele quase podia notar que a respiração de Jared estava ficando agitada, mas o loiro não saberia dizer se era prazer ou desconforto ou, talvez, os dois. E quando parou para pensar, algo dentro dele o impediu, dizendo que não importava.
Guiou sua ereção até a região, sentindo seu próprio coração na garganta, batendo extremamente rápido em expectativa e Jensen não acreditava que aquilo estava realmente acontecendo. Ele viu pelo reflexo do espelho Jared fechar os olhos com força e morder o lábio inferior quando Jensen começou a penetrá-lo.
Dessa vez a expressão no rosto do mais jovem era, definitivamente, de dor.
— Qual é o problema, Jared? — Seu lado venenoso retrucou, querendo atingir Jared de mais uma maneira. — Desse jeito vou achar que ninguém te fodeu desde a última vez.
Palavras mesquinhas e cruéis, péssima hora para citar o passado e ainda mais de maneira tão barata, mas Jensen não conseguiu se controlar. Era mesmo muita hipocrisia Jared achar que tudo seria um conto de fadas após todas as porcarias que ele tinha feito Jensen passar. Era mesmo muita hipocrisia e fantasia. Quem sabe assim ele não compreenderia, finalmente compreenderia, o estrago que tinha causado.
O corpo do moreno ficou mais tenso do que já estava, e sua respiração parou. Jensen viu o choque tomar conta do rosto do moreno, seguido de surpresa e então, por fim, tristeza.
Jensen, o próprio, ficou chocado. Jared não deveria ficar chocado com uma frase daquelas, mas de repente... De repente Jensen suspeitou que fosse mesmo verdade. Ninguém havia fodido Jared desde a última vez entre os dois.
Mas isso era impossível, não era? Totalmente absurdo. Jared era uma vadia, pelo amor de Deus!
Evitou pensar naquilo, simplesmente evitou. Não queria se importar e nem dar tempo para seu cérebro assimilar a coisa ou Jensen sentir culpa. Ele não deveria sentir culpa. Não era problema seu. Era absurdo. Jared não importava. Jared era um cretino mentiroso, era isso o que ele era. Só isso.
Começou a se movimentar sem dar tempo para Jared assimilar nada. Agarrou a cintura do moreno e gemeu de prazer quando sua ereção deslizou naquela entrada tão justa. Sua respiração estava acelerada e seu corpo todo febril. Ele fechou os olhos, se recusando a olhar Jared, ver a expressão em seu rosto agora. Mordeu seu ombro outra vez, com força, se proibindo de dizer qualquer merda do tipo "Jared" ou "Eu te amo". Recusando-se a dizer qualquer coisa incoerente com um tom de voz necessitado e cheio de sentimento. Ele deveria estar se lixando, porra! Não era esse todo o propósito daquela merda toda?
Jared não fez nada para impedi-lo, e Jensen o detestou por isso.
Seus dedos apertaram a cintura do mais novo e ele começou a fodê-lo da maneira mais forte, imprecisa e rude possível. Muito diferente da última vez entre os dois, ele tinha certeza que Jared estava se lembrando; muito parecido com a última vez que Jensen transou com alguém, fodendo uma prostituta qualquer sem se importar com o prazer alheio, em proporcionar prazer em alguém que não fosse ele mesmo.
Mesmo assim, Jared continuou a movimentar seu corpo de encontro ao de Jensen, e quando o loiro abriu os olhos, o que viu nos olhos esverdeados de Jared o quebrou em pedaços.
Seu lado mesquinho quis rir. Por que Jared parecia tão desolado e decepcionado? Jensen sabia que ele não era ingênuo a ponto de imaginar que tudo ficaria bem, que Jensen estava bem.
Ignorou a culpa e continuou o que estava fazendo, puxou os cabelos de Jared e a cabeça do moreno fez um movimento para trás. Jared fechou os olhos, contendo os sons que queria fazer. Jensen sentiu vontade de tocá-lo e parar de machucá-lo daquela maneira, sabia que a parte física era nada em comparação a parte psicológica. Sabia que sexo rude não era a pior das coisas, mas sim a maneira fria com que tocava Jared e fazia sexo com ele, como se ele fosse qualquer um na sua cama.
Quis rir mais ainda, por que era isso o que Jensen foi para ele, não era?
Cretino.
Jensen largou o cabelo de Jared e encostou a testa no ombro suado dele, fechou os olhos com força e se detestou de maneiras que não conseguia descrever. Jensen tinha se tornado um ser humano horrível.
"Eu te amo", seus lábios se movimentaram contra a pele de Jared, mas nenhum som realmente saiu de sua boca. Jensen não poderia, não poderia dizer aquilo a Jared. Não poderia confessar a ele que o amava, e que o desejava tanto; que o queria, mas que isso o estava matando; que numa mentira, Jared o tinha feito se apaixonar.
Ele gozou dentro de Jared, não viu se o moreno o tinha acompanhado ou não. Continuou com a testa encostada no ombro de Jared e manteve seus olhos fechados. Após breves segundos, Jensen forçou-se a erguer a cabeça e fitar o mais novo nos olhos.
Prendeu a respiração outra vez.
Culpa.
Que merda Jensen tinha feito?
Jared estava com a cabeça baixa, e suas mãos estavam brancas por culpa da força com que ele havia segurado a pia. O suor descia de seu rosto, de seu peitoral, era uma visão tão simples mas que dizia mais do que mil palavras poderiam dizer. Ele ergueu o rosto e fitou o loiro, abriu a boca para dizer algo, mas se conteve. Em seu olhar havia algo que ele nunca havia direcionado a Jensen antes, não era ódio, não era desprezo, era dor. Confusão, angústia, dor. Dor por ter achado algo, e por ter tido esse algo arrancado de suas mãos de maneira tão insensível.
Jensen retirou seu membro de dentro dele e engoliu em seco. Jared deixou escapar um gemido quando se encontrou vazio. Ele se manteve na mesma posição enquanto as mãos trêmulas de Jensen subiam sua calça e fechavam seu zíper. Seu coração batia descontrolado no peito e ele queria dizer alguma coisa, mas não conseguia. Só conseguia pensar que tinha ferrado com tudo, que tinha machucado Jared e que o moreno não merecia nada daquilo. Não merecia ser tratado como um objeto, por mais merda que ele tivesse feito na vida e por mais que tivesse mentido e machucado Jensen.
Ele não merecia aquilo.
O próprio Jensen não merecia esse seu comportamento, era como se ele não se conhecesse. Jensen não era assim. Jensen nunca machucaria alguém por motivos mesquinhos e pessoais e, mesmo assim, lá estava ele fazendo o que achou que nunca faria: machucando Jared indescritivelmente. E por mais merda que Jared tivesse feito, e por mais que Jensen estivesse ferido e quebrado, nada disso justificava suas ações.
Foi como se o baque de tudo o que fez a Jared nesta noite caísse sobre sua cabeça de uma só vez, sem piedade. Por amor, por uma decepção amorosa, por uma mentira, por ter trancado aqueles sentimentos de rancor dentro do peito durante tanto tempo, era a causa de Jensen ter se transformado nessa pessoa nojenta.
Então por que Jensen não dizia algo a Jared? Por que Jensen não fazia alguma coisa e...?
— Jen. — Jared o chamou, quando percebeu que Jensen estava dando passos hesitantes para trás. — Jen, espera...
— Isso foi um erro — Jensen disse de repente, passando a mão pelo cabelo e sentindo vontade de vomitar. — Um erro.
— Jensen!
Jensen não esperou, não disse mais nada. Já havia arrumado a calça e subido o zíper, então só fechou o cinto e ajeitou sua camisa de maneira apressada e desajeitada. Em sua cabeça corria milhares de pensamentos — aquilo havia sido um erro, um erro sem tamanhos; ficar com Jared aquela noite, machucá-lo assim.
— Jensen, fala comigo. — Jared havia levantado a calça, sem se preocupar em fechar zíper ou cinto. Suas mãos tremiam enquanto ele tentava alcançar Jensen e Jensen se afastava, balançando a cabeça em movimentos negativos. Precisava sair dali. Precisava ficar longe de Jared. Ele foi até a porta e a destrancou, ainda escutou Jared pedindo para ele não ir embora daquele jeito, para falar com ele, dizer qualquer coisa, dizer que aquilo não havia sido um erro.
Mas Jensen não tinha resposta para nenhum desses pedidos.
— Não me segue. — Ele disse, bruscamente e direto. Não queria conversar com Jared, queria sair dali e só.
Então ele saiu, sem olhar para trás.
Seu corpo o guiou para fora da casa, porém Jensen nem notou porque parecia que sua mente estava em outro lugar. Ele queria vomitar, ele queria gritar. Estava sentindo tanta coisa nesse instante e não saberia nem por onde começar para descrever uma por uma. Entrou no carro e segurou o volante com as mesmas mãos trêmulas que tocaram Jared grosseiramente.
Ele não olhou para trás, só voltou para a casa de Lauren.
J&J
O sol invadiu o quarto cruelmente anunciando que a manhã havia chegado. Afundou seu rosto no travesseiro, tentando proteger seus olhos das luzes agora que havia recuperado a consciência. Não havia dormido muito na noite passada. Seu corpo todo doía e protestava a cada movimento, e sua vontade era a de ficar naquela cama pelo resto do dia, mas sabia que precisava acordar e ir trabalhar. Sabia que Genevieve chegaria a qualquer momento para pegar Amie e que a menina deveria estar pronta para a escola e...
— Merda! Cacete! — Jared se levantou, esfregando os olhos e contendo o outro palavrão que estava pronto para sair de sua boca quando sentiu aquela região doer ao se sentar. O dia anterior tinha sido perfeito, mas a noite passada o deixara sentindo-se um lixo.
Resmungou e saiu da cama. Seus olhos procuraram o relógio digital que ficava ao lado de sua cama e ele se assustou quando viu que estava atrasado.
— Porra! Não acredito! — Ele correu atrás de roupas limpas e foi até o banheiro tomar um banho de gato. Não sabia o que pensar sobre a noite anterior, sobre Jensen. O dia tinha sido agradável e divertido, e a noite prometia. Mas tudo tinha caminhado de maneira inesperada, de um jeito que Jared não estava preparado. Ele sabia que Jensen, provavelmente, guardava rancores sobre o que havia acontecido entre eles no passado e Jared não o culpava, mas então Jensen o beijou... Jensen lhe deu esperanças e daí...
Disse que tudo havia sido um erro.
Jared mal conseguia se movimentar pois seu corpo protestava mais ainda. Jensen havia sido rude, grosseiro, insensível; havia-o tocado de maneira diferente, feito Jared se sentir mais raso do que o chão. Ele se sentiu um lixo, se sentiu usado, se sentiu algo. Uma coisa submissa proporcionando prazer a Jensen enquanto o loiro ferrava com seus sentimentos da maneira mais sádica possível.
Respirou fundo e se enxugou, evitando pensar nisso. Precisava correr e arrumar as coisas de Amie enquanto preparava o café dela. A Diretora da escola o xingaria mais ainda pelo atraso e Morgan comeria seu rabo por chegar tarde no trabalho, mas ele não tinha escolha. Precisava levá-la até a escola já que Genevieve não viria, já que Jared havia feito o favor de ferrar com isso também.
Era um idiota que só machucava as pessoas, de verdade.
Acordou Amie quando ficou pronto e a menina foi se arrumar enquanto ele corria e fazia o café. Estava tudo uma loucura e o relógio não tinha clemência alguma. O café ficou amargo e ele viu que não tinha comprado leite. O nó da sua gravata estava horrível e seu terno um pouco amassado, seu cabelo estava em estado crítico e Jared não conseguia fazer a porra do lanche de Amie. Em algum momento ele parou no meio da cozinha, respirando fundo antes que começasse a chorar de nervosismo e raiva. Antes que a avalanche de coisas que estava sentindo explodisse de uma vez só.
A omelete havia queimado.
— Jared? — Alguém chamou da porta de entrada. Jared se assustou e virou com tudo, encarando Genevieve.
— Gene! — Disse, desesperado, aliviado por vê-la ali. Mas daí se lembrou de tudo que havia acontecido entre eles e o alívio passou, sendo esmagado por apreensão, mas a esperança continuou. — Gene, o que... O que você está fazendo aqui?
A morena fechou a porta e entrou, colocando o lanche de Amie em cima da mesa. Ela parecia hesitante, incerta, olhou ao redor e então encarou a pequena fumaça saindo da frigideira que continha o que deveria ter sido uma omelete. Seu olhar pousou em Jared.
— Você está péssimo. — Ela disse. Jared sorriu tristemente.
— A omelete queimou. — Ele respondeu, como se aquilo fosse o motivo para ele estar se sentindo uma perfeita merda. Genevieve encarou-o com piedade.
— Sinto muito. — Ela disse. — Quer que eu... Prepare algo para vocês?
Jared arregalou os olhos, e a surpresa e confusão deveriam ser óbvias em seu rosto, porque a morena prosseguiu:
— Olha, Jare... Eu... Eu realmente sinto muito pelo o que aconteceu. — Ela parou, mantendo seus olhos nos dele. — Sinto muito por ter desaparecido também, é que eu precisava de um tempinho para... Você sabe.
— Não, eu sei. Não precisa explicar. Tudo bem. — Ele disse, rápido demais.
— Você já arrumou alguém? Pra cuidar da Amie? — Ela perguntou, mudando a postura e o assunto. Jared suspirou.
— Eu não tive tempo. Você... Você acha que eu preciso arrumar outra pessoa? — Ele disse, indiretamente perguntando se Genevieve continuaria a cuidar de Amie, a fazer parte da vida deles, ou se cairia fora; ou se fosse impossível demais para ela ficar perto de Jared depois da declaração.
Genevieve mordeu o lábio inferior e encarou o lanche da menina.
— Eu gosto muito da Amie. Ela não tem culpa se eu — "Me apaixonei por você", mas ela não disse nada. — Eu queria continuar cuidando dela, se estiver tudo bem pra você. Eu sei que vai ser um pouco estranho no início, mas mesmo assim eu queria... Eu queria que pudéssemos continuar amigos, Jared. Sua amizade é muito importante pra mim e eu... Não quero perder vocês.
Ele soltou a respiração que nem sabia que estava segurando, e suspirou com alívio. Sentiu vontade de ir até lá e abraçar Genevieve, mas se conteve. Ele sorriu. Genevieve sorriu também.
— Você não vai nos perder, Gene. Eu fico muito feliz em escutar isso. Eu odiaria perder sua amizade.
A morena sorriu mais ainda, acenando positivamente com a cabeça sem dizer mais nada.
— Ótimo. Eu vou fazer algo pra vocês comerem, então, porque essa sua omelete está um desastre.
Jared riu com vontade, mas não precisou dizer mais nada porque Amie havia se juntado a eles.
Sabia que no início seria estranho, constrangedor, mas esperava que pelo menos as coisas entre ele e Genevieve se ajeitassem.
J&J
Genevieve acenou para Jared do seu carro, assistindo o moreno sumir de vista com seu Jaguar. Ela suspirou, exausta. Não porque estava cuidando de Amie ou porque tinha acordado cedo àquela manhã para fazer o lanche da menina; e sim porque acordou cedo já que não conseguiu dormir muito, quebrando a cabeça enquanto pensava se era mesmo uma boa ideia ir falar com Jared ou não.
As coisas estavam tão confusas na sua mente, tudo parecia tão complicado, mas de uma coisa a morena estava certa: não perderia a amizade de Jared por nada nesse mundo.
Disfarçou a expressão no rosto para Amie não notar nada — aquela menina, por mais que não entendesse de assuntos de adultos, tinha uma percepção incrível para notar quando as coisas não estavam certas — e sorriu, dizendo para ela colocar o cinto. Ligou o rádio do carro e começou a dirigir.
Genevieve nunca se deu muito bem nesse lance de amor.
Lembrava-se... Já estava concluindo que morreria solteira com um ou dois gatos quando um carro de mudança estacionou na casa ao lado. Ela estava no computador, no seu quarto, terminando de editar alguns vídeos quando observou um homem descer de um Jaguar que estacionou logo atrás do caminhão. Ele parecia ser muito alto e tinha cabelos castanhos rebeldes por culpa do vento. Genevieve se lembrava dessa cena como se tivesse acontecido no dia anterior, porque o sorriso radiante nos lábios daquele homem quando ele ajudou uma menininha a descer do carro foi o que mais a marcou naquele momento.
O sorriso tirou seu fôlego.
Ela esperou por alguma mulher sair do veículo, e isso aconteceu alguns segundos depois. Era uma mulher bonita, usava um jeans e uma camiseta branca, bem casual. Tinha cabelos loiros presos num rabo-de-cavalo e um sorriso divertido de quem está achando graça de alguma coisa.
Genevieve pensou: "É, homem bonito desse jeito só podia ser gay ou casado"
Voltou ao seu trabalho e tentou esquecer o homem.
Voltou a pensar nele alguns dias depois, quando tocaram sua campainha.
Ela se recordava que passara o dia todo trabalhando, nem se preocupou em tirar o pijama ou arrumar os cabelos. Estava comendo biscoitos quando a campainha tocou, nem pensou em quem poderia ser e já foi abrindo a porta.
Arrependeu-se de não ter se arrumado nem um pouco no momento em que bateu os olhos no homem alto e bonito, seu mais novo vizinho.
"Merda, Deus me odeia, só pode"
— Com licença. — Ele disse, sorrindo. — Eu acabei de me mudar e ainda não tive tempo de ir ao mercado. Será que você poderia me emprestar um pouco de açúcar? Minha sobrinha quer porque quer beber o achocolatado dela com açúcar, porque o que eu comprei não tem açúcar. E há essa hora acho que os mercados da vizinhança já fecharam. Prometo que devolvo assim que fizer compras esse final de semana.
Genevieve piscou os olhos, assustada com a velocidade que aquele homem tinha para dizer palavras. Ele riu, passando a mão pelo cabelo.
— Ah, que má educação a minha, meu nome é Jared. Seu novo vizinho. Muito prazer.
— Muito... Prazer. — Ela disse, piscando outra vez. — Genevieve, mas as pessoas me chamam de Gen por aqui. Hum... Entra, eu vou pegar o açúcar.
Ela deu passagem a Jared e foi até o armário, sentindo o rosto corar porque estava toda descabelada e vestindo pijamas, mas Jared não pareceu ter notado nada.
— Bonita casa.
— Obrigada. — Ela sorriu para ele, enquanto colocava um pouco de açúcar em um vidro. — A sua também é bem bonita. Me lembro da senhora que morava lá.
— É, ela se mudou pro interior, não foi? Bem faz ela. Cidade grande é uma loucura.
Genevieve riu.
— Eu gosto do movimento da cidade grande. Não me acostumaria com um lugar calmo demais, eu acho. Você mora com sua sobrinha? — Ela perguntou, tentando não parecer muito curiosa.
— É, moramos eu e ela, Amie. Está uma loucura, porque eu preciso encontrar uma babá pra ela. Eu trabalho quase o dia todo, então fica difícil cuidar de tudo sozinho. Meus amigos estão me dando uma ajuda, mas não dá mais pra ficar enrolando. Admito que parte da demora seja o receio de contratar alguém que não seja... Honesto ou coisa assim.
— Eu achei que você era casado. — Genevieve comentou sem querer, se amaldiçoando no momento em que as palavras deixaram sua boca. Jared pareceu, inicialmente, confuso. — A garota loira que estava com você. — Ela se bateu internamente por não ter calado logo a boca.
— Ah, você diz a Katie? Não, não. Ela é só uma amiga, um dos amigos me dando uma ajuda.
— Oh... Bem, eu... — "Não, Genevieve, não. Menina má!" — Eu trabalho em casa, então costumava cuidar de algumas crianças. Fazendo um bico de babá. Se quiser posso te dar minhas referências e... Sabe como é, estou querendo começar com o pé direito. Ter inimizade com vizinhos é horrível. — Ela sorriu sem graça.
Jared riu.
— Sei bem como é.
— Então se precisar de alguma coisa, já sabe. — Ela entregou o vidro contendo o açúcar a ele.
— Muito obrigado mesmo, Genevieve.
— Gen. — Ela corrigiu, sorridente. — Disponha, Jared.
Jared apenas sorriu em resposta, saindo da casa e deixando Genevieve para trás com uma sensação estranha no peito e uma vontade esquisita de ficar sorrindo o dia todo. Quando se olhou no espelho, depois, xingou Deus e o mundo porque ela estava simplesmente horrível. Mas, posteriormente, quando Jared veio até ela perguntar se ela queria ser a babá de Amie e quando ela conheceu a menina Amie, começou a pensar que talvez Deus não a detestasse tanto assim.
— Gen! — Amie estava chamando, e a morena foi despertada de seu devaneio quando o carro logo atrás buzinou, relembrando-a de que o farol estava verde.
— Sim?
— Você estava distraída. — Amie disse do banco de trás. Gene olhou para a menina pelo reflexo do espelho e sorriu.
— Estava pensando em algumas coisas do trabalho.
— Você tá legal?
— Sim, sim. Tudo ótimo. — Ela continuou a dirigir. — Seu tio me disse que vocês saíram final de semana pra ver a Era do Gelo.
Os olhos da menina brilharam.
— SIM! — Ela exclamou. — Foi o máximo! Você tinha que ter ido, Gene. O Jensen foi com a gente. Na verdade ele que convidou a gente, lembra? Lá na minha peça de teatro. Foi tão legal. Ele passou lá em casa pra buscar o tio Jared e eu. E daí nós comemos antes de assistir o filme, o tio Jared comeu tanto, Gene! Um hambúrguer enorme! E daí o Jen perguntou pra onde é que ia tudo aquilo. Eu também pensei pra onde é que vai, o tio Jared come tanto, mas continua magro. Nada a ver com o que a professora fala, que quem come muita besteira acaba engordando muito e isso não faz bem a saúde. Mas, daí, o tio Jared meio que falou pra onde tudo aquilo ia, mas eu não entendi. O Jen até ficou vermelho!
Ela fez uma pausa, continuou:
— Foi muito legal. O Jensen é tão bacana e lindo. Ele tem tantas sardas e ele é tão fofo! A gente encontrou um amigo dele depois, mas eu não gostei muito dele não. AH! E a gente jogou vários jogos e ele me deu um ursinho de pelúcia tão cute, Gene! Você deveria ter ido, teria sido mais legal ainda com você lá com a gente! Na próxima você vai, não vai?
Genevieve abriu a boca para responder, mas a menina prosseguiu:
— Porque vai ter uma próxima vez. Eu fiz o Jensen prometer que ia ficar pra sempre comigo e com o Jared. E ele prometeu! Eu estava quase dormindo, mas juro que ele falou sim! — Ela parou de falar, finalmente, e manteve um sorriso enorme nos lábios como se estivesse se lembrando de algo. Genevieve abriu a boca outra vez, mas manteve-se calada.
Amie só falava tão rápido assim quando estava realmente empolgada com alguma coisa e, pelo visto, Jensen a empolgava muito. Genevieve nunca a vira tão animada e feliz falando sobre alguém que não fosse seu tio Jared e sua mãe, como a via falar sobre Jensen; esse tal de Jensen parecia ser bem especial.
Algo nele a incomodava, mas ela não sabia muito bem o quê.
— Prometo que vou na próxima, Amie. Parece ter sido mesmo muito divertido.
A menina continuou narrando sua ida ao cinema até que chegassem à escola. Genevieve estacionou o carro e pegou o celular, verificando suas mensagens rapidamente. Havia uma sobre trabalho, de um dos seus amigos. Ainda estava cedo e Amie não gostava muito de entrar na escola muito antes da hora, preferindo ficar no carro conversando com Genevieve até ver alguns de seus amigos — que geralmente chegavam mais tarde.
Então, de repente, Amie a chamou.
— Sim? — Gene perguntou, enviando a mensagem de resposta e deixando o aparelho de lado, prestando atenção na menina que olhava pela janela para algo lá fora, com a testa levemente franzida.
— Olha, Gene! — Ela disse, espantada, apontando para uma direção na rua. Genevieve olhou na direção, mas só viu duas mulheres rindo e conversando, sentadas lado a lado em um banco. — Elas estavam se beijando, Gene! Eu vi! Aquela se virou e deu um beijo na outra!
Havia sido um beijo rápido, mas o suficiente para captar a atenção de Amie e despertar sua curiosidade e espanto com a cena.
Genevieve outra vez se encontrou abrindo a boca sem emitir qualquer som, era como se seu cérebro tivesse parado de funcionar por alguns minutos. Ela arregalou os olhos e encarou a menina que, neste instante, olhava para ela esperando uma resposta. "Puta merda", Genevieve pensou, "Por que é que isso teve que acontecer justamente comigo e não com o Jared?"
Obviamente, Amie estava esperando uma explicação para tal cena e do jeito que a garota era, não iria esperar até chegar em casa para o tio ter aquele papo com ela. Além do mais, era bem capaz dela contar a história aos amigos de classe e acabar tendo uma ideia toda errada sobre um simples beijo entre duas mulheres. Genevieve fechou a boca e tomou sua decisão, era melhor ter aquela conversa com Amie agora. Assim a menina não teria nenhuma ideia torta no colégio ou no mundo lá fora.
— Bem... — Ela pigarreou, tentando formular as palavras na mente antes de dizê-las a Amie. — Quando se é adulto, você se apaixona. Sabe quando você gosta muito, muito, muito mesmo de alguém? Mas é diferente de gostar de algum parente ou amigo. Você se apaixona pela pessoa, casa, tem filhos ou só mora junto, essas coisas, entende? Como seu avô e sua avó, por exemplo, ou seu tio Jeffrey e a esposa dele.
Genevieve mordeu o lábio inferior, pensando nas próximas palavras com muito cuidado.
— E quando se é adulto e se ama muito alguém dessa maneira em especial, não importa se é uma mulher ou um homem. Quando se ama muito alguém, não é importante se é um casal de mulheres ou de homens. Duas mulheres juntas ou dois homens. Isso é tão normal quanto um casal de mulher com homem. Faz parte da nossa natureza. Eu não acho que seja errado, quando o sentimento é verdadeiro. Aliás, não é errado.
Amie imediatamente fez uma careta. Ela ficou um tempo quieta absorvendo as palavras de Genevieve e quanto mais as absorvia, mais sua careta aumentava.
— Como assim? — Ela disse, parecendo ter chupado limão azedo. — Mas é beijo! Eca! Eu não gosto de beijar meninos. E nem meninas! Beijo é nojento!
Genevieve não se aguentou e riu. Por um momento ela achou que o asco de Amie fosse a respeito do casal gay, mas então se deu conta de que estava falando com uma criança; uma criança que não tinha a maldade de muitos adultos e que, Genevieve esperava, não fosse ter esse tipo de maldade nunca.
Menos tensa, ela disse:
— Ah, Amie, você diz isso agora porque é novinha. Aposto que quando for adulta vai querer beijar alguém! — Havia sorrisos no seu tom de voz. — Mas só quando for adulta, hein! Certos carinhos e gestos só adultos fazem. Beijos na boca, por exemplo, é coisa de adulto. Você não vai precisar se preocupar com esse tipo de coisa por um bom tempo.
— Todos os namorados beijam na boca? — Ela perguntou, desconfiada. Genevieve concordou com um movimento de cabeça.
— Geralmente, sim.
— Jensen é meu namorado. — Ela disse de repente, a testa franzida. Genevieve riu mais ainda, se lembrando da menina pedindo Jensen em namoro aquele dia na escola. — Mas eu não quero beijar ele na boca. Nem nenhum garoto. E nenhuma garota!
Ela fez careta outra vez. Genevieve apenas riu, achando engraçado na reação de Amie sobre beijos na boca. Após um tempo em silêncio, olhando pela janela, a menina tornou a encarar Gene:
— Você já beijou uma mulher? — Dessa vez, ela só parecia mesmo curiosa. Genevieve foi pega tão de surpresa que quase engasgou com a própria saliva.
— Eu... Ahm... — Ela sorriu, se sentindo sem graça. Deveria ter desconfiado que Amie fosse ficar curiosa sobre isso. — Não, não na boca. Mas não teria problema com isso, se realmente gostasse da garota. — Ela sorriu. Amie franziu o cenho e encarou o vidro do carro outra vez, pensativa.
Após algum tempo, ela se despediu de Genevieve e foi encontrar os amigos que haviam chegado. A morena, enquanto esperava a garota entrar na escola, pensou no que tinha acabado de acontecer e que teria que avisar a Jared que havia tido esse papo com sua sobrinha.
J&J
Jensen não dormiu na noite anterior.
Ele chegou em casa, tirou a roupa e foi direto para o chuveiro. Rezou para que a água que caía em seu corpo levasse embora todas aquelas preocupações, todos os pensamentos angustiados e a raiva que estava sentindo de si mesmo por ter feito o que fez com Jared.
Isso não aconteceu.
Ele colocou um moletom e caiu na cama com a esperança de dormir e não ter sonho algum.
Ao invés disso, passou a noite se revirando na cama, observando a hora passar no relógio digital e sem conseguir tirar sua mente de Jared.
De alguma maneira, quando já estava amanhecendo, caiu num sono breve que o acabou fazendo se atrasar. Acordou as pressas, se vestindo sem prestar atenção na roupa ou no terno que estava escolhendo. Foi até a cozinha sentindo uma dor de cabeça terrível e uma necessidade absurda de tomar café. Pegou um remédio para enxaqueca e engoliu um comprimido a seco, e só quando guardou o frasco de volta foi que percebeu que não estava sozinho na cozinha.
Lauren e Misha.
A mesa já estava com o café e o moreno segurava um jornal, mas ele não estava mais lendo e sim encarando Jensen junto com Lauren que parecia um pouco corada. Jensen revirou os olhos, tinha certeza que Lauren estava corando porque era óbvio que Misha tinha passado a noite na casa.
— Bom dia, Jensen. — Misha e Lauren disseram ao mesmo tempo. Jensen deu as costas e serviu-se com um pouco de café preto.
— Bom dia. — Murmurou, com a voz rouca pelo sono. Lauren sorriu, não notando seu comportamento estranho, já que era normal Jensen não conversar muito a essa hora da manhã. Apesar de constrangida, a amiga parecia estar num ótimo humor. Jensen ficava feliz com isso e por ela, pelo menos a vida amorosa de alguém por ali estava dando certo.
— Eu achei que você ia dormir o dia todo. — Ela disse, ainda sorridente. — Não vi você chegar.
— Até aí, não é como se você estivesse prestando atenção nas horas... — Misha comentou, sorrindo de lado de uma maneira sugestiva que fez Lauren corar mais ainda.
— Bobo! — Ela repreendeu, parecendo uma adolescente com seu primeiro namorado. — Como eu ia dizendo, estava contando ao Misha que seu irmão vai vir pra LA daqui a uns dias. Achei que seria uma boa ideia dar uma festa de boas-vindas a ele, assim a gente já reunia os amigos e eles poderiam matar as saudades. Já que desde que você chegou na cidade não falou com quase ninguém, só trabalhou. — Ela pareceu o repreender com o olhar, mas Jensen ignorou. — Além do mais, poderei apresentar meu namorado aos amigos.
Sorriu de maneira radiante a Misha que também sorriu em resposta, inclinando-se um pouco para beijar Lauren rapidamente na boca.
Jensen revirou os olhos outra vez e bebeu o café.
— Então, o que você acha, Jen?
— Sobre o quê?
— A festa! Seu irmão vir pra LA. Ele não te disse?
Estava bebendo o café quando as palavras de Lauren finalmente caíram sobre sua cabeça. O loiro arregalou um pouco os olhos. Joshua não havia comentado em nenhum telefonema que estava pensando em vir para LA e, assim, sem aviso prévio, seu irmão resolvia vir para cá sem mais e nem menos? Nem um "Olá, Jensen. Como vai? Semana que vem vou sair do Texas e ir pra Los Angeles. Então, acho que vai chover hoje"?
De alguma maneira isso o incomodava, tinha problemas demais para lidar no momento para ter que se preocupar com seu irmão também. Principalmente se ele descobrisse que Jensen andou vendo Jared. Joshua faria da sua vida um inferno por causa disso, com certeza.
Massageou a têmpora e deixou o café de lado.
— Tanto faz, Lauren. Faz o que você achar melhor. — Ele disse, sem o menor interesse em festa alguma. Misha olhou sugestivamente para Lauren que também o fitou, como se estivessem tendo uma conversa telepática. Jensen achou melhor sair dali logo antes que fizessem perguntas ou puxassem outro assunto. — Estou atrasado pro trabalho. Vou indo. Até mais pra vocês dois.
Ele saiu da cozinha e foi até o corredor que levava a saída da casa, estava pegando sua mochila com seu laptop e coisas pessoais quando Lauren apareceu subitamente, bloqueando a passagem da porta.
— Lauren, estou atrasado. — Jensen disse, não gostando da expressão no rosto da amiga. Quando ela fazia aquela cara, era porque estava querendo ter um papo sério com ele. E Jensen não estava com o pique para isso.
Misha continuou na cozinha, já não podia escutar a conversa dos dois.
Lauren colocou as mãos na cintura e fitou Jensen atentamente sem dizer uma única palavra. Estava preocupada com ele. Ainda mantinha contato com Joshua e o irmão mais velho do loiro havia lhe falado da fase "galinha" de Jensen; das tentativas do loiro de esquecer Jared; das noites em que saía sem dizer nada a ninguém e ia beber; das vezes em que Joshua foi obrigado a buscar Jensen em motéis baratos. Essa fase, obviamente, havia passado. Jensen já não fazia isso há um bom tempo, mas o loiro não tinha passado a noite em casa e isso deixava Lauren paranoica.
Temia que aquela fase voltasse.
— Você não passou a noite em casa. Eu te conheço, você está agindo de maneira estranha. Jensen, por favor... Não me diga que voltou a fazer aquelas coisas.
Jensen franziu o cenho.
— Aquelas coisas? De que merda você tá falan...?
— Você acha que o Josh não me contou? Jensen, eu me preocupo com você. A gente se preocupa com você, mesmo ele estando longe. Você não conversa mais, não fala mais o que está acontecendo na sua vida. Não quer conversar sobre o Jared e finge que vê-lo de novo depois de tanto tempo não o abalou. Não me diga que voltou a dormir com... Desconhecidos pra esquecê-lo, ou voltou a beber e...
— Lauren, cala a boca.
— Jensen. — Lauren o chamou, impedindo Jensen de sair. — Eu quero saber o que está acontecendo com você. Eu quero te ajudar. Voltar para aquele caminho não vai ajudar em...
Jensen se desvencilhou bruscamente de Lauren, assustando-a. Quando a encarou, só havia raiva e tristeza em seu olhar, impaciência. Estava cansado das pessoas tomarem conta da sua vida e fazerem perguntas, estava cansado de falar sobre Jared ou pensar nele. Estava cansado disso tudo e só precisava ir para a droga do seu trabalho, passar o dia pensando no desfalque da empresa e não em sua vida amorosa ferrada.
Lauren não estava ajudando, só estava piorando tudo.
— Não é da sua conta, Lauren, o que eu faço com a merda da minha vida. Seria maravilhoso se você calasse sua boca e parasse de tentar falar sobre o Jared comigo. Por falar nisso, faz um imenso favor pra mim também: manda o Joshua cuidar da porcaria da vidinha de merda dele e parar de pensar nos meus problemas. — Jensen se exaltou, elevando a voz. A intenção não era magoar Lauren ou dizer nada daquilo, mas ele não conseguiu se parar.
Pegou sua mochila e caminhou até a porta, porém, antes de sair, tornou a encarar Lauren com um sorriso amargo nos lábios.
— Mas se isso te anima, foi com o Jared que eu transei ontem à noite, e não com uma prostituta ou um desconhecido que conheci num bar. Foi com o Jared. Pode parar de se preocupar que não vou voltar a fazer "aquelas coisas" de novo. Agora me dá licença, eu estou atrasado. — Ele não esperou resposta da amiga, saiu da casa fechando a porta com um baque forte.
Lauren levou a mão à boca, assustada. Ela não sabia o que dizer ou fazer; na tentativa de ajudar, acabou piorando. Jensen havia dormido com Jared e pelo jeito que tinha acordado essa manhã, algo muito ruim tinha acontecido entre eles. Aquela história dos dois era tão complicada!
Ela voltou a si quando sentiu as mãos de Misha em seu ombro, fazendo uma leve massagem. Voltou-se para ele.
— Está tudo bem? — Ele perguntou, preocupado. Era óbvio que havia escutado o final da conversa dos dois, Jensen não tinha exatamente se preocupado em manter o tom baixo. Lauren sorriu um pouco forçado.
— Sim, está. — Pausa. Olhou para a porta, pensando em Jensen. — Vamos voltar a tomar café. Estou morrendo de fome. — Disse, disfarçando.
Misha pode ter notado ou não o clima tenso, mas por fim resolveu não dizer nada — e Lauren o agradecia imensamente por isso.
.
NOTA: Olá! *tira a poeira* Alguém aí? Se tiver alguém aí, jogue qualquer objeto afiado no chão! :P Agora falando sério... Vale pedir desculpas mais uma vez pela demora épica? Acho que não, né? Eu espero que vocês saibam que eu pretendo finalizar todas as fics que tenho em andamento, não conseguiria viver sabendo que não terminei alguma. O capítulo chegou e eu espero que vocês tenham gostado dele. Eu estava num pequeno Hiatus, tentando organizar minha vida pessoal e acho que consegui. Agora eu voltei e vocês vão ter que me aturar, porque eu não saio daqui tão cedo! u_ú
Milhares de agradecimentos a todas as pessoas lindas que me deixaram reviews todo esse tempo. Aliás, um imenso OBRIGADA àqueles leitores que estão comigo desde o início e também aos novos. As reviews são, realmente, meu estímulo (porque afinal de contas, quando eu parar de receber reviews vai ser o dia em que vou parar de escrever, porque ninguém quer escrever pro vento — por mais que ele seja um leitor bacana). Eu vou tentar responder todas daqui pra frente, agora que voltei do Hiatus e consegui organizar um pouco minha RL. Um super beijo, gente, e até o próximo capítulo que, eu dou minha palavra, vai chegar mais cedo do que vocês imaginam :3
