Em algum lugar no centro da cidade, Kanon Abnara pegou o telefone e discou o número do irmão. Precisava conversar com alguém ou morreria, e quem melhor para lhe ouvir que seu irmão?

O gêmeo mais velho acordou com o barulho do telefone e o atendeu, indo para a sala para não acordar Shura que dormia tranquilamente ao seu lado.

– Alô?

– Saga, eu preciso de você. Vem aqui em casa agora.

– Kanon são duas da manhã, o que você quer? Fala logo. – Saga tentou conter um bocejo.

– Só queria o meu irmão aqui comigo, pode ser ou tá difícil? Acho que entrei em uma roubada!

O mais velho suspirou

– ok, já estou indo – Saga então desligou o telefone e se trocou rapidamente. Escreveu um bilhete para caso Shura acordar e não o encontrar e pegou as chaves do carro, indo até a casa do irmão logo em seguida.

Ao ouvir a campainha, Kanon correu para a porta e abraçou o irmão em desespero.

– Mano, eu to perdido!

O mais velho abraçou seu gêmeo e falou em uma voz calma e reconfortante:

– Calma, calma, o que aconteceu?

– Saga, você não vai acreditar, é uma tragédia!

– Para de fazer drama e fala logo!

Kanon fechou os olhos e respirou fundo, tentando criar coragem para falar.

– Saga, eu estou envolvido com um garoto bem mais novo que eu!

Percebendo que se dependesse de Kanon eles ficariam ali fora o resto da noite, Saga entrou na casa, fechando a porta atrás de si. Puxou Kanon para sentar no sofá, sentando-se ao seu lado

– Um garoto? Quantos anos mais novo?

– Dezoito. Ele tem dezoito anos, eu tenho o dobro da idade dele. E isso não é tudo.

– Dezoito anos, Kanon...? – Suspirou - E o que mais?

– Ele é estagiário da empresa – Falou rápido. Sabia que quando Saga soubesse que se tratava de Ikki, o irmão o repreenderia. Afinal o moreno era bem chegado em Milo, que era amicíssimo de Saga.

– Estagiário...? Espera, não é o Ikki, é?

Kanon engole em seco, Zeus... estava ferrado!

– Sim é o Ikki, mas antes que você fale alguma coisa essa nem é a pior parte. Eu fui pra cama com ele, Saga. Ou melhor, pro carro, mas isso não vem ao caso.

O mais velho se levantou, encarando o mais novo

– Você transou com ele, Kanon?!

– Qual é Saga, não vai bancar o moralista agora, não é?

Saga cruzou os braços, olhando para o gêmeo.

– De TODAS as pessoas, você tinha que transar com ele, Kanon?!

– E o que tem demais? Ele já é maior de idade Saga. E de inocente ele não tem nada, isso eu posso lhe garantir. Aquele moleque é mais safado do que nós dois juntos!

– Vocês tem dezoito anos de diferença, para começar. E ele ainda está na escola Kanon! Você é um advogado, ele um estudante!

– Correção, ele está na faculdade! E bem... Ele também quis, não o peguei a força Saga! Mas agora...

Saga respirou fundo, pedindo calma aos deuses.

– Mas agora o que?

– Bem... Eu quero mais. Eu o quero Saga, você entende isso? Eu nunca antes quis ninguém desse jeito. Sempre foi apenas uma transa sem compromisso, e se rolasse de novo ótimo, mas eu não ia atrás. Agora eu o quero. - Suspirou frustrado, encostando-se no sofá, jogando a cabeça para trás - Não sei o que fazer mano...

O mais velho tentou disfarçar um sorriso.

– Está me dizendo que esta apaixonado, Kanon?

– Claro que não! - Quase gritou.

Saga riu baixinho, sentando-se ao lado do gêmeo.

– Pois eu acho que é exatamente isso que está falando.

– Você enlouqueceu? Eu, Kanon, apaixonado por aquele fedelho? Não mesmo. Eu só o quero em minha cama. E como quero. Mas é uma questão de pele, não de amor!

– Irmãozinho, não sei se você é idiota ou se não quer admitir o obvio...

– Ah qual é Saga, você está do meu lado ou contra mim? Eu não posso me apaixonar Saga, não de novo, não mais uma vez! E menos ainda por aquele pivete irritante e prepotente!

– Quando vai entender que não escolhemos quem ou quando amar, irmãozinho? - O olhou - E como assim de novo? Está escondendo algo de mim, Kanon?

– Eu disse de novo? Você está ouvindo demais Saga! – Kanon então levantou e foi até o irmão, deitando com a cabeça em seu colo - Saga, eu quero colo, tô carente.

Saga suspirou, sorrindo.

– Ok, ok. Mas continuaremos essa conversa depois – Começou então a fazer um leve carinho em Kanon, cantando uma musiquinha de ninar qualquer.

Kanon acaba relaxando ouvindo a voz melodiosa do irmão. Parecia estranho, mas o único jeito que tinha de se acalmar era ficar junto de Saga, daquele jeito se sentia protegido. Acabou dormindo deitado no colo de seu gêmeo

Quando viu que o irmão dormiu, Saga o pegou nos braços e o levou para o quarto, colocando-o na cama e o cobrindo. Voltou para a sala, pegou as chaves do carro e voltou para casa. No dia seguinte conversaria com Ikki

OoOoOoOoO

Hyoga acordou com raios de sol lhe tocando a face. Já passava das seis e meia da manhã e normalmente Milo chamaria as seis e quinze, por que será que o loiro não veio hoje? Será que ainda se sentia mal? Levantou com esse pensamento e seguiu para o banheiro, iria se banhar e em seguida descer para o café.

Na cozinha, Milo fazia o café-da-manhã um pouco apressado. Havia dormido demais e acabou se atrasando com tudo.

O loiro mais novo desceu as escadas e viu Milo preparando o café, sem perceber sorriu aliviado.

– Bom dia - disse frio, logo se recompondo de seu momento de fraqueza.

– Ah, bom dia Hyoga – Milo sorri para ele - Desculpe não ter te acordado, é que ontem não estava me sentindo bem e acabei tomando um remédio que me fez dormir demais.

– Não precisa se preocupar, eu sei me virar sozinho e não preciso de ninguém pra me acordar! – Hyoga falou friamente, em seguida abrindo a geladeira e pegando uma caixinha de leite, preparando um copo de achocolatado.

– Sei que sabe. Bem, tome café que logo irei te levar para a escola – O escorpiano disse, colocando as panquecas que fez para ele na mesa.

Hyoga se sentou, revirando os olhos.

– Ainda continua com essa idéia ridícula?

– Sim, continuo.

O aquariano resmungou algo ininteligível e passou a saborear a refeição, que por sinal estava divina. O ruivo cozinhava bem, mas para si ninguém fazia uma panqueca melhor que Milo.

– E o Camus? - Só agora notara a ausência do ruivo

Milo sorriu, se sentando na frente de Hyoga, apoiando a cabeça nas mãos.

– Teve de ir mais cedo para uma reunião. E então, as panquecas estão boas?

– Está comível - Tentou mostrar desdém, apesar de seu prato estar quase vazio

– Fico feliz que tenha gostado.

Hyoga bufou e terminou de comer, levando a louça á pia logo em seguida.

– Vamos? Estou atrasado! - Estava ansioso para ir pra aula, quem sabe hoje veria Shunny. Além do mais, queria falar com Masck.

Milo sorri, se levantando e pegando as chaves.

–Vamos sim. Hoje Shun irá conosco, tudo bem? Albion teve de ir trabalhar e Ikki foi para a faculdade.

Hyoga sorriu largamente, seu dia não poderia começar melhor.

– Certo, então vamos.

Os dois então saíram de casa e Milo trancou tudo. Entrou no carro e esperou Hyoga entrar também. Ligou o carro e foi até a casa de Shun que, como era perto, logo chegaram.

Buzinou para ele notar que ele estava ali.

Após alguns instantes, Shun saiu de casa com a mochila no ombro e alguns livros na mão. Trancou a casa e sorriu ainda mais ao ver Hyoga, sentando-se ao seu lado no banco traseiro.

– Oi Mi! Oi Oga! – Ele cumprimentou, colocando o cinto.

– Oi Shunny, senti sua falta ontem, por que não foi pra escola? Aconteceu alguma coisa? - O aquariano tinha um sorriso estampado no rosto.

Milo sorriu ao ver Hyoga tão feliz e começou a dirigir.

– Não aconteceu nada de importante, é que papai me deixou faltar. – O virginiano respondeu, após um tempo.

– Ahh então seu pai deve ser muito legal, eu adoraria que me deixassem faltar também.

– Eu não queria ter faltado. Estou com saudades dos meus amigos. – Shun suspirou - Como foi seu primeiro dia na escola?

Hyoga ficou em silencio por um momento, lembrando-se das meninas que nem ao menos recordava os nomes, do que fizera com elas, e da bebedeira. Não podia contar isso a Shunny.

– Err... Normal

– Fez algum amigo?

– Sim, conheci um garoto até legal, mas ele não me disse o nome, só o apelido, Masck. Você o conhece?

– Se o conheço? Conheço até demais! Eu odeio aquele homem!

O silencio predominou por alguns minutos. Foi cortado apenas por Milo que estava parando o carro em frente a escola.

– Bem crianças, vou deixá-los aqui - Sorriu, olhando-os - Venho buscá-los na hora da saída.

– Fazer o que né? – Hyoga já estava conformado que teria que aturar aquele chato em seu pé nas próximas semanas, então saiu do carro sem falar mais nada, batendo a porta com força.

–Tchau Mi! - Shun sorriu para o escorpiano e saiu do carro, começando a andar junto de Hyoga - O que foi? Tá parecendo irritado...

– Não foi nada, é que o Milo me irrita pelo simples fato de respirar - Era estranho mas aquelas palavras não pareciam mais tão verdadeiras vindo de si, por algum motivo estava amolecendo com o loiro intrometido e isso não era bom. Tinha que dar um jeito nisso urgente, lembrar a si mesmo que não gostava de gays.

Shun bufou, visivelmente irritado.

– Sabe Hyoga, não te entendo! O Milo é uma pessoa incrível, é bondoso e muito alegre. Como você não vê que ele só quer seu bem?

– Vamos parar com isso Shunny, não quero falar sobre ele. Não agora.

– Certo, como quiser. – Suspira - Vou encontrar uns amigos meus, quer vir?

– Não, vou procurar o Mask, nos vemos mais tarde, no intervalo?

– Não se aproxime muito daquele homem, Hyoga. Ele não é boa influencia – Shun disse, sério, mas logo voltou a sorrir, dando-lhe um beijinho no rosto dele e começando a se afastar logo em seguida - Estarei te esperando.

Hyoga corou um pouquinho e ficou olhando-a até ir embora, mas logo começou a andar, indo até sua sala na esperança de encontrar Mask. O moreno ainda fazia o segundo ano, mesmo já tendo quase dezoito anos de idade, estava atrasado, fora reprovado algumas vezes.

Mascara da Morte estava sentado em uma das cadeiras próximo a janela. A sala estava vazia por causa do horário.

O loiro logo percebeu que o mais velho fumava.

– Sabia que é proibido fumar na sala? – Falou, sentando em uma cadeira do lado do amigo.

– E dai? – Respondeu ele, abrindo os olhos e olhando para Hyoga - Quer? - Oferece o cigarro

– Não. Tenho uma idéia melhor, Mask. Eu pensei em algo bem divertido para fazermos hoje.

– Hm... E o que seria?

– É o seguinte... - Passou a explicar todo o seu plano para o amigo, com certeza esse dia seria bem divertido.

Tinha um olhar enigmático e cruel ao terminar seu relato

OoOoOoOoO

Shura havia saído de casa correndo. Por causa de Saga havia se atrasado, e ainda era seu segundo dia de aula. Saiu correndo do carro faltando apenas dois minutos para o sinal tocar, e ele sequer havia preparado a aula do dia... Estava ferrado.

Amaldiçoava o noivo mentalmente. Primeiro aquele cretino saia de casa no meio da madrugada para ver o louco do seu irmão, e ainda por cima, chegara em casa com um desejo louco, fizeram amor ate o amanhecer, agora estava ele ali naquela correria toda.

Correu até a sala do segundo ano, sem ao menos deixar suas coisas na sala dos professores. Ao chegar na sala estava um barulho terrível, mas algo em especial chamou sua atenção.

Olhou para um loiro que só por algumas diferenças não era uma copia mais nova de Milo. Não havia visto o filho deles no dia anterior e estranhou. Mas o que realmente chamou sua atenção foi ver com quem ele estava conversando... Aquilo não era bom, aquele menino era encrenca. Já havia sido expulso de varias escolas e lugares diferentes, sem contar as inúmeras vezes que foi mandado para o reformatório...

Observou os sorrisos e sentiu um arrepio percorre seu corpo, realmente, coisa boa não viria daquela amizade. Hoje mesmo conversaria com Camus sobre aquilo, ele precisava saber com seu filho estava andando.

– Turma, silencio, vamos começar a aula. - falou colocando sua pasta sobre a mesa e pegando um livro - Abram os livros na pagina 10. Agora!

As conversas logo cessaram e todos começaram a estudar. Hyoga ficou mais que surpreso ao ver Shura ali, aquilo poderia estragar seus planos...

oOoOoOo

O sinal acabara de tocar e Misty foi o primeiro a sair da sala. O intervalo era a melhor parte do dia para si, pois poderia ver certa pessoa que habitava seus pensamentos, tendo em vista que o rapaz estudava em outra sala.

Sorriu com a possibilidade de vê-lo. Talvez hoje fosse falar com ele. Quem sabe até se declarasse.

Riu consigo mesmo. Até parece que teria essa coragem.

Mas como olhar não pagava imposto, ficava o intervalo inteiro o admirando de longe, observando cada gesto, cada olhar...

De repente uma trombada o tirou de seus pensamentos, quase o derrubando no chão. Demorou um pouco para assimilar quem era o trator.

–Ora ora, o que temos aqui – Falou Mascara da Morte, cínico - Se não é a Barbie fajuta! Não te vejo desde ano passado, viadinho.

Hyoga, que estava ao lado de Masck, observa a cena com um sorriso nos lábios. Tinha sido melhor do que o esperado. Por sorte viram Misty se afastar do pátio e o seguiram para um lugar um pouco mais afastado, ali só tinham eles três

– Hunf, preferia continuar sem te ver – Misty levanta e começa a se afastar deles.

–Aonde pensa que vai, boneca? - Hyoga fala, se colocando rapidamente na frente de Misty, o impedindo de prosseguir.

Misty estreita levemente os olhos

– Sai da minha frente.

– Ora, mas a gente nem começou a se divertir... – Falou o italiano, atrás de Misty, sorrindo.

O aquariano leva a mão ate a face do loiro.

– Adoraria marcar essa pele de bebê, sabia?

Misty dá um tapa na mão de Hyoga, a afastando de si.

– Me deixem ir!

Masck Segura Misty por trás, com um sorriso sádico.

– Ora, por que?

– Agora é que vai começar a festa boneca, vamos te ensinar umas coisinhas...

O loiro de aparência andrógena se debatia a fim de se soltar dos braços do moreno. - Me solta! Me deixem ir! Não me toque!

O mais velho do grupo segurava Misty sem grande esforço.

– Quer começar, Hyoga?

O aquariano leva uma mão ao pescoço do loiro, apertando com certa força.

– Sinta-se a vontade Mask, pode começar.

Os olhos do mais novo mostravam puro pavor. Tinha medo do que aqueles dois podiam fazer consigo. Se debatia querendo se livrar dos braços do italiano, sem grande sucesso.

– Como quiser – Masck responde, segurando o pulso de Misty e o puxando, fazendo-o cair no chão, começando a chutá-lo.

– Vai com calma Mask, assim não vai deixar nada pra mim – O aquariano disse, segurando Misty pela gola da camisa o levantando sem dificuldade, desferindo um soco que abriu o supercílio do loiro - Gostou de sentir a mão de um homem sobre você sua bichinha estúpida?

– O que eu fiz para vocês?! – Indagou o loiro mais novo, entre lagrimas.

– Você nasceu sua bicha maldita! Quem sabe agora você aprende a ser homem! – Hyoga respondeu, desferindo outro soco na face do loiro, agora acertando os lábios, vendo o sangue espirrar.

Misty sentia dor. Muita dor. Queria revidar, sair correndo dali, qualquer coisa, mas não conseguia. Só lhe restava chorar e esperar aquilo acabar.

Justo naquele momento, Shura estava passando ali perto e ouviu alguém chorar. Resolveu ir ver o que estava acontecendo e a cena que encontrou o chocou.

– O que vocês pensam que estão fazendo?! – Gritou

– Que merda! O que aquele maldito estava fazendo ali?! Não era para ninguém ter visto, droga! – O aquariano indagou mentalmente, soltando Misty.

– Tsc – Foi o único som que Masck proferiu, antes de sair andando na maior calma do mundo.

Shura pegou Misty nos braços. Precisava levá-lo para o hospital, depois cuidaria dos outros dois. Hyoga e Matteo seriam punidos, ah se iam!

– Hyoga, vá para a diretoria!

Hyoga, sem mais o que fazer foi para obedeceu ao professor.

– Merda, merda, inferno, e agora? Bem, pelo menos dessa vez aqueles dois desistem de mim neh? - Sussurrou para si mesmo enquanto ia para a diretoria, não fugiria, não era covarde.

O italiano levou Misty para a enfermaria, o deixando sob os cuidados da enfermeira, e chamando um médico e os pais do garoto em seguida. Ligou também para Camus, pois sabia que com Milo seria mais complicado.

Um pouco longe dali, Shun andava até a diretoria. O professor havia pedido que entregasse alguns papeis lá. Já ia embora quando viu Hyoga chegando.

– Hyoga? O que faz aqui? – Estranhou.

– Não é nada Shunny, não se preocupe. - Não levaria aqueles problemas para a amiga.

– Se não é nada, por que esta na diretoria?

– Boa pergunta! – Camus quase gritou, enquanto entrava na sala. Por sorte estava em horário de almoço e estava indo ver se estava tudo bem com o filho quando Shura o ligou - O que aconteceu dessa vez Hyoga? Já não basta ontem ter fugido da escola e bebido até cair, tinha que aprontar hoje de novo? O que você fez?! – O ruivo parecia se segurar. Estava verdadeiramente nervoso.

– Bebido até cair?! Hyoga, o que você fez?!

– Eu lhes digo o que ele fez. – Falou um homem que saia da sala do diretor, indo em direção a eles. Shura o havia contado tudo pelo celular. Em situações normais não permitiria o uso do aparelho nem pelos professores, mas aquilo seria uma pequena exceção, pois o professor havia levado um aluno ao hospital - É o pai dele? - se dirigiu a Kamus.

– Sim, sou o pai do Hyoga! Camus – O ruivo falou, estendendo a mão para o loiro a sua frente, que correspondeu ao cumprimento rapidamente.

– Sou o diretor da escola, Shion. Sabe o que seu filho fez? Ele bateu em um de nossos estudantes até desmaiar!

Ao escutar aquelas palavras, Shun não conseguiu acreditar.

– Hyoga... Por que fez isso? - Perguntou baixinho para ele, não querendo desrespeitar o diretor.

– Ele mereceu! – Respondeu em um tom um pouco mais alto que a amiga– Shunny, por favor, isso não é assunto pra você. - Queria poupar Shunny dos detalhes. Sabia que ela meio que defendia os gays, teve a prova disso ao vê-la defender ferrenhamente Camus e Milo, e por isso tinha certeza que ficaria chateada consigo. Por um momento deu graças aos deuses ser Camus ali e não Milo, se fosse o loiro, a essa altura já estaria se desmanchando em lágrimas, escandaloso do jeito que era.

Camus, por sua vez respirava fundo e mantinha os olhos fechados, sentindo-se derrotado. Quando pensava que as coisas enfim estavam se resolvendo, acontece algo desse tipo. Quê que esse garoto tinha na cabeça?! Voltou a abrir os olhos somente quando a voz de Shun se fez presente outra vez.

– Não é assunto para mim?! Eu achei que você era uma boa pessoa Hyoga! Eu pensei que depois daquele dia na sorveteria, eu podia te dar outra chance! E você retribui isso batendo em alguém aqui da escola?! Me diz em quem você bateu! Pelo menos me diga quem foi!

Shion permanecia calado. Deixaria eles se resolverem e depois resolveria com o pai de Hyoga

– No Misty, aquela bicha maldita. Quem sabe agora ele aprenda a ser homem!

Camus serrou o punho com aquelas palavras, tentando controlar-se. Sua vontade naquele momento era surrar Hyoga, fazê-lo sentir a dor que o garoto que foi agredido por ele sentiu, mas não era certo. Pensou em Milo... Ah Milo ficaria péssimo quando soubesse daquilo.

–No Misty?! O Misty é um dos meus melhores amigos, Hyoga! – A voz do virginiano mostrava toda sua raiva - Não acredito nisso! Eu nunca mais quero te ver na minha vida, entendeu?! – E então foi embora. Ia procurar Misty para ver se ele estava bem.

O aquariano mais novo fechou os olhos, os apertando com força. Era só o que faltava, Shunny era amiga da bicha mor. Que droga. Agora teria que enfrentar a pior parte. Camus parecia estar realmente bravo consigo... Ou seria decepcionado?

Após a saída de Shun, o diretor pigarreou levemente para chamar a atenção dos dois

– Bem, senhor Kamus, em circunstâncias como essa, o certo seria a expulsão.

– Eu entendo e não me oponho. Que seja dada a punição justa que o caso requer.

–" mas que belo pai eu fui arrumar, nem para tentar impedir minha expulsão"´– Pensou Hyoga, revirando os olhos.

– Sim, porém dada a circunstâncias da ficha que me mandaram de Hyoga, creio que não vá fazer muito efeito. – Continuou Shion - Além disso, o professor Shura me falou que Matteo o acompanhava durante o incidente, então creio que Hyoga pode ter sido induzido a isso. Ele apenas será suspenso pro três semanas e me certificarei de manter ele afastado de Matteo. E também terá de ajudar Misty a se recuperar durante o tempo que ele ficará em casa. E caso faça algo contra ele novamente, irei providenciar que ele vá para um reformatório. E caso algo assim aconteça novamente, não irei pensar duas vezes, irei chamar a policia!

– Isso é justo. E não se preocupe, eu farei com que ele se comporte – O ruivo olhava ameaçadoramente para Hyoga - Não pense que escapou de um castigo Hyoga, o que você fez é muito grave e será punido. Em casa conversaremos melhor.

– Ótimo – O diretor apertou a mão de Kamus - Foi um prazer conhecê-lo, senhor Kamus, apesar das circunstâncias.

– Idem. E me desculpe pelo comportamento do meu filho, isso não se repetirá!

– Assim espero. – Foram as ultimas palavras do mais velho, antes de voltar para sua sala.

Assim que viu o diretor sair da sala, Camus segurou Hyoga pelo braço, o levando dali. O menino já estava com a mochila. Teria três semanas para por um pouco de juízo na cabeça daquele moleque desequilibrado. Sabia que o trabalho seria árduo, mas Hyoga aprenderia a respeitar as pessoas. Ah se aprenderia.

OoOoOooOoO

Na casa do casal, Milo cuidava distraidamente do jardim. Esse era sua forma de descontrair, relaxar.

Camus apareceu andando a passos largos, segurando Hyoga com certa força pelo braço. Nem notou Milo. Entrou batendo a porta e jogou o loirinho no sofá com certa brutalidade, o encarando com os olhos crispados de raiva

O escorpiano, surpreso pela atitude de Camus, entrou correndo atrás dele.

– Camyu? O que aconteceu?

– Ele enlouqueceu! - Hyoga estava com medo do ruivo, ele realmente parecia nervoso. A única pessoa que vira tão zangada assim, era seu pai. Por um momento sentiu um profundo medo de ele lhe bater.

Milo se aproximou de Camus e lhe toca gentilmente o ombro.

– Camyu? O que aconteceu?

– Pergunta para ele Milo! Pergunta o que ele aprontou dessa vez! – Camus olhava para o loirinho com um misto de decepção e culpa. O que será que o Hyoga passou para ter uma personalidade perversa assim?

O loiro fez isso. Se virou para Hyoga e perguntou com uma voz confusa, porém calma:

–Hyoga? Por que não me fala o que aconteceu?

– Eu não fiz nada demais! Só quis ensinar a uma pessoa como ser homem de verdade! Talvez se alguém tivesse feito isso com vocês, agora fossem homens normais!

– Eu acho melhor você ficar calado moleque! O que ele fez Milo, foi espancar um garoto até o mesmo desmaiar!– Camus se controlava para não começar a gritar.

Já Milo não sabia o que fazer ou falar. Estava muito chocado e abalado.

– Hyoga... - Suspirou, abatido - O que quer que agente faça, hein?! Agente tá aqui, tentando, e muito, fazer você ser feliz aqui com agente e você retribui assim? Eu realmente não sei o que falar ou fazer nesse momento... – Ele tinha a voz chorosa.

– Sabe o que vocês podem fazer? Me deixar em paz e me esquecer para sempre! Me deixem ir... Não é perfeito?! - Falou de forma descompassada, estava nervoso e com... Medo.

O escorpião olhou para Camus, suplicante.

– Camyu...

– Hyoga, não adianta tentar, nós não abriremos mão de você! Pais não abrem mão dos filhos só por que eles dão trabalho. Pais tentam educar e conscientizar os filhos!

Milo suspirou, se sentando no mesmo sofá que Hyoga. Tentava se fazer de forte, segurando as lágrimas.

– E o que o diretor disse?

– Milo, ele espancou um aluno até o garoto desmaiar! Você tem noção da gravidade? - Camus falava com Milo mas olhava para o loirinho, que agora estava calado, com cara de enfado.

– E o diretor ligou para a policia? Casos como esse pode ser levados até a lei... – Milo falava com grande peso no peito.

– Isso seria o correto! Mas ele resolveu dar outra chance ao Hyoga... Só ficará suspenso, não será punido com expulsão. Quanto a policia, fica a cargo dos pais do garoto. Nós pagaremos todas as despesas médicas, mas o resto eu ainda não acertei com eles. Quero estar junto de você quando isso acontecer!

Milo sorriu, visivelmente cansado.

– Certo. E quanto tempo de suspensão?

– Três semanas. Até que o diretor foi muito complacente!

– ...Três semanas... – A voz do grego saiu temerosa - Mas a assistente social vem nos ver em duas semanas... Se ela vir e souber disso, vai tirar Hyoga de nós!

Hyoga olhava de um para outro, vendo como eles estavam preocupados com a visita da assistente social. Um brilho passou por seus olhos diante da fala do grego. Essa era sua chance.

– Ela vai saber de qualquer forma Milo. Temos que nos preparar para o que está por vir – Camus falou, tentando se manter firme.

– Ah Kyu... – O escorpião colocou o rosto por entre as mãos, chorando em silencio - Não sei o que fazer...

O ruivo se aproximou de Milo e o abraçou.

– Calma mon ange, vamos dar um jeito! Não o perderemos!

Hyoga sorria de canto, finalmente conseguia ver uma luzinha no fim do túnel. Essa era a chance de se livrar daqueles dois. Ao ter esse pensamento sentiu algo apertar dentro de si. Mas não entendeu bem o que e por que, então resolveu não pensar a respeito

O grego abraçou Camus e escondeu o rosto na curva do pescoço dele, soluçando levemente

–Não quero perde-lo, Camyu... Não quero que ele cresça sem ninguém... - Milo sabia que só queria proteger Hyoga de crescer sem pais, como ele praticamente cresceu, já que os pais estavam sempre ausentes. Queria poder cuidar do pequeno e transmitir todo o cuidado e atenção que seus pais não lhe deram para Hyoga. Fazer com que Hyoga sentisse o amor que ele mesmo não pode desfrutar.

– Shhh... Não chora anjo! Daremos um jeito, você vai ver – O ruivo abraçou o amado mais forte. Daria a vida para nunca mais ver Milo derramar uma única lagrima. Mas as coisas nem sempre são como queremos. E Camus tinha consciência disso.

– T- Tá - Milo afastou levemente dele, enxugando as lagrimas com as costas das mãos.

O pequeno aquariano olha a cena e revira os olhos. Até poderia fazer um pequeno escândalo diante daquele ato de extremo carinho daqueles dois, mas nesse momento estava feliz! Teria sua liberdade, e nem a bichisse de Camus e Milo o tiraria do serio.

Após alguns minutos de palavras de consolo do francês, Milo respirou bem fundo e se levantou.

–Bem... Vou ter que ir buscar Shunny na escola. Prometi isso a Albion...

-Certo ange. Eu te espero em casa... Não volto mais pro trabalho hoje

–Tem certeza? Você anda faltando muito, Camyu...Posso levar Hyoga comigo, se quiser. Mesmo que ele não vá sair do carro...

–Não! Eu vou conversar com ele agora. não se preocupe – Camus deu um leve beijinho em Milo, para transmitir-lhe confiança

– Certo... - Deu uma ultima olhada magoada para Hyoga, pegou as chaves e foi para a escola buscar o filho do amigo.

Após ouvir o barulho do carro ir se afastando aos poucos, Camus sentou-se no sofá de frente para Hyoga e o olhou nos olhos, estudando-o por uns segundos.

–Agora somo só nós, Hyoga...

O mais novo, por sua vez, apenas virou o rosto e bufou. Estava com medo dele, mas não o deixaria perceber isso por nada nesse mundo.

– Pode começar a explicar Hyoga... Sou todo ouvidos!

– Não tenho nada para falar.

– Certo... Então deixe-me reformular aqui as coisas: O que diabos deu em você para espancar um aluno? Qual o motivo que sua mente doente julga plausível para cometer tal atrocidade?

– Ele é um veado, um gay. Preciso de motivos maiores que esse? Quem sabe ele aprenda a ser homem de verdade agora.

– Ele é um ser humano antes de tudo! E você, quando vai aprender a ser homem Hyoga?

– Talvez eu aprenda a ser homem quando sair de uma casa cheia de veados!

Camus estreita os olhos se segurando para não dar uns bons tabefes em Hyoga. Talvez fosse isso que aquele moleque estava precisando. Mas não podia fazer isso.

– Hyoga... Você nos odeia mesmo, não é?

– Ora, só agora percebeu isso?! - O tom era irônico, mas em seu intimo parecia que as palavras não soavam mais de forma tão verdadeira como antes.

– Na verdade sim. Eu nutria esperanças que você mudaria seu conceito sobre nós. Mas agora vejo que talvez eu tenha me enganado. Enfim... Acho melhor você ir para o seu quarto. Quando Milo chegar conversarei com ele e juntos decidiremos o que fazer. Até lá, continue no quarto!

O loiro se levantou, porém antes de ir para seu quarto, se virou para Camus para falar uma ultima coisa:

– Se quer saber a verdade Camus, eu nunca vou aceitar vocês. Vocês nunca vão ser minha família, nunca vou aceita-los, e sabe o por que? Porque eu tenho nojo de vocês. Tenho nojo pelo simples fato de estar no mesmo ambiente que vocês. Se dependesse de mim, a morte seria o melhor. E para aquele idiota do Milo, que ele morra de forma muito dolorosa. Que quando a assistente social aparecer, me leve embora e que eu nunca mais tenha que ver a cara de nenhum de vocês dois! Pois adivinhe, eu preferia estar morando na rua a estar aqui! - Falou tudo com pura raiva, antes de sair e se trancar no quarto.

Camus cerrou os dentes e se serviu de uma dose de uísque, precisava se acalmar ou acabaria esmurrando Hyoga até o jovem perder a consciência. E isso não era uma opção pra ele. Não gostava de perder a calma dessa forma. Precisava ser paciente, pelo bem de sua família e de seu casamento.

Continua...