Capítulo 8: Penas.
Minerva parou por um segundo e consultou o relógio enquanto se aproximava da sala de Transfiguração, com a esperança de que talvez ainda desse tempo de recuperar o malfadado pergaminho. Quem sabe com um pouquinho de sorte ele ainda estaria intocado no meio da sua tarefa? Afinal de contas ele tinha vários dias até a próxima aula e... Não, ela nunca foi tão otimista assim.
Mesmo assim, não podia simplesmente ficar parada esperando a reação do professor. Tinha que fazer alguma coisa!
Na noite anterior, depois de voltar pra cama sem jantar, ela se torturou com as possibilidades durante horas antes de conseguir finalmente dormir. Por isso naquela manhã decidiu encarar o perigo de frente e acabar logo com isso. E foi assim, resoluta, que a garota nadou corajosamente contra o cardume de segundanistas que saíam da aula aos risos, se empurrando porta afora, correndo para o Salão Principal (era quase hora do almoço e todos convergiam pra lá) e entrou na sala sem bater.
Só havia mais uma pessoa lá. Sim, ele.
Era o fim de uma das aulas mais divertidas que Dumbledore já ministrara e o fim também de uma manhã maravilhosa. Seus alunos, jovens, curiosos e doidos pra ver um truque engraçado, aprendiam tudo com uma facilidade adorável. E ele os adorava. Adorava lecionar. Adorava Hogwarts. Adorava sua vida. De repente o mundo parecia perfeito como jamais fora antes e ele já não conseguia se preocupar com mais nada. Estava mesquinhamente muito satisfeito com tudo isso.
Mas a sala estava numa bagunça terrível, com as carteiras fora de lugar e penas das mais variadas cores e tamanhos se espalhando por toda a parte, colorindo os móveis e o chão, ou flutuando com a brisa suave que entrava pela janela aberta. E naquele momento o professor buscava remediar isso usando um feitiço simples que conjurava uma espiral de vento que sugava tudo com varinha enquanto os móveis voltavam aos seus lugares como se tivessem vontade própria. Então, sentindo uma presença atrás de si, ele se virou na direção da jovem e deve ter aberto o maior sorriso de sua vida.
Albus estava terrivelmente feliz. Minto, ele estava eufórico.
Em sua cabeça a cena se passava toda em câmera lenta: a garota, linda como sempre e ainda mais séria que de costume, vindo em sua direção, os cabelos longos se chocando contra a mochila enquanto andava, a luz do sol entrando verticalmente pela janela aberta dando um toque ligeiramente avermelhado aos seus olhos castanhos, o batom rosa muito discreto nos lábios finos. Também parecia receosa, mas abrandou-se ao ver como ele estava contente.
Talvez ela entendesse toda essa alegria como um sinal de que seus temores não haviam se concretizado. Ah-ha, ledo engano!
– Olá, Minerva – distraído, ele baixou a varinha por um momento e a espiral de vento que sugava as penas se desfez, caindo sobre o professor e cobrindo-o por completo. E por um instante Dumbledore ficou parecendo uma gigantesca ave exótica.
– Oi, professor – ela respondeu e largou a mochila sobre uma das carteiras vazias na fileira da frente. Depois riu com gosto quando ele sacudiu a cabeça, gargalhando e espalhando penas coloridas em volta. – O senhor quer uma ajuda?
– Não é necessário, eu já estou terminando por aqui – mais um movimento de seu pulso e a varinha recriou o redemoinho que engoliu toda a bagunça, embora ainda restassem uma ou duas penas menores presas em sua barba e uma longa e vermelha que tinha voado e se prendido no cabelo da morena. – Pronto.
– O senhor transformou o fiuum em uma chuva de penas de novo?
– Pensei que seria um exemplo divertido – Dumbledore encolheu os ombros. – Não notei que estava me repetindo.
– Tudo bem, eu adorei quando tive essa aula – Minerva se explicou depressa, afinal aquilo não fora uma crítica. Enquanto falava aproveitou para dar uma boa olhada em volta. – Tirando o fato de que na época levei o maior susto achando que o senhor tivesse matado o passarinho.
– Não, nunca. Mas, ah, isso me lembra... – ele fez um floreio com a varinha apontando-a para a cabeça, então tirou seu chapéu cônico, pegou uma pequena ave que estava confortavelmente aninhada na sua cabeleira acaju e afagou-a com carinho. Então o bichinho levantou vôo e aterrissou direto dentro de uma gaiola de latão que estava pousada sobre uma pilha de papéis na escrivaninha. – Bem, você encontrou o livro que queria?
– Não, mas mesmo assim obrigada por me dar a permissão de usar a sessão restrita – a aluna respondeu distraída, olhando com muito interesse para o lugar onde estava o fiuum.
O pássaro não parecia muito aborrecido, pois já deveria estar acostumado a ser desmaterializado nos exemplos do dono. Na verdade ele esticava-se muito ereto, como que para afirmar que sua dignidade sobrevivia muito bem ao desrespeito de ficar escondido e meio depenado debaixo de um chapéu de bruxo. E por meio segundo McGonagall se pegou pensando se Fawkes não ficaria com ciúmes de seu dono, mas foi só até se dar conta de que a fênix devia estar bem contente de não ter de se sujeitar pessoalmente a esse tipo de trabalhinho sujo.
– Por nada – os olhos azuis e brilhantes seguiram a direção que os dela apontavam e ele sorriu misteriosamente. Então guardou a varinha e elevou um pouco o tom de voz, como que para atrair novamente a atenção da moça. – Mas não foi sobre isso que você veio conversar comigo.
– Não.
– Então? – o professor incentivou, uniu as pontas dos dedos longos e mirou-a com interesse.
O olhos castanhos da garota o encararam, procurando por alguma coisa diferente de sua normal serenidade, qualquer coisa que indicasse uma mudança de atitude. Mas o sorriso de Dumbledore continuava uma grande incógnita, aliás, uma incógnita grande demais. De qualquer forma, já não tinha nenhuma escolha senão falar logo de uma vez.
Já que toquei no assunto dos olhos de Minerva, me reservo aqui de um tempinho para descrevê-los. Sim, vocês por certo já estão cansados de descrições sobre o azul elétrico e tão peculiar de Dumbledore, mas nunca ninguém se deu ao trabalho de falar dos dela, exceto talvez para ressaltar sua capacidade torná-los duros e firmes quando necessário. Eu mesma já devo ter dito uma ou duas vezes algo a respeito de sua inteligência vivaz, porém ainda não disse o mais importante, o que tornava aquele castanho-escuro (que é de longe a tonalidade mais comum do mundo) tão especial para Albus Dumbledore. Se os dele eram capazes de desvendar as pessoas, os dela faziam exatamente o contrário: revelavam todos os seus mistérios. Eram expressivos demais, sinceros demais. Para quem soubesse lê-los com atenção era como se neles estivesse escrito mui claramente irritação, felicidade, melancolia, ternura, impaciência, ou seja lá o que fosse.
E nesse momento eles gritavam angústia.
– É, bom... – ela vacilou um pouco, gesticulando inconclusivamente com ambas as mãos. – O senhor se lembra das tarefas que pediu para gente entregar na última aula?
– Perfeitamente, estão sobre a minha mesa. Ainda não terminei de corrigi-las – o sorriso dele se alargou ainda mais enquanto apontava displicentemente para o papéis sob a gaiola. – Ontem eu acidentalmente derrubei chocolate quente por cima delas e me deu algum trabalho para limpar tudo.
Minerva assentiu forçando um sorriso e o outro se aproximou, embora ainda mantivesse uma distância bem respeitosa.
– Talvez seja por isso que quando você entrou escondida no meu escritório noite passada não as tenha encontrado – a voz do professor era um tanto baixa e ele tinha se inclinado um pouco, como se estivesse lhe contando um segredo.
Ah ótimo, ele sabia! Perfeito. Só tinha um jeito das coisas ficarem piores agora e ela sabia que isso era inevitável.
– Certo... – a garota concordou, ficou completamente lívida e suspirou profundamente antes de prosseguir. - O senhor por acaso já... Já teria corrigido a minha?
– Por que você está me perguntando isso? – ele arqueou uma sobrancelha com cara de quem estava divertindo bastante.
A aluna engoliu à seco e apertou os punhos com tanta força que suas unhas machucaram a palma da mão. Mas um pouquinho de dor física até que era bom para distraí-la da aflição que vinha sentindo desde o dia anterior.
– Bem, é que sem querer um outro pergaminho meu foi junto. Eu não sei como foi acontecer.
O bruxo assentiu pensativo, enfiou uma mão no bolso das vestes e com a outra ficou alisando demoradamente a barba. Ele não conseguia acabar simplesmente com aquele suspense, pois estava apreciando muito o modo como ela mordia de leve o lábio inferior quando estava nervosa assim.
– E você o quer de volta?
– Se o senhor não se importar, eu mesma poderia procurar e... – Minerva pediu, indo rapidamente na direção da pilha de papéis sob a gaiola.
– Não perca seu tempo, minha cara – ele interrompeu, fazendo assim com que ela parasse na metade do caminho e se virasse de volta. – Não está aí.
Então Albus novamente caminhou até ela sem pressa, tirou de dentro do bolso uma folha de pergaminho dobrada em quatro e elevou-o à altura dos olhos, sob o olhar pasmado da garota.
– O senhor leu – a morena exclamou baixinho, como se falasse para si mesma.
Isso é claro, estava mais que óbvio. Mas sempre existem aquelas situações em que a narração de um fato concreto o torna, senão ainda mais evidente, cem por cento irreparável. Como se dizer em voz alta fosse tão irresistível como a natural compreensão do fato em si. Algo que flutua sem querer pra fora da boca, assim como uma exclamação de surpresa ou até mesmo um palavrão.
Como que para evidenciar ainda mais a conclusão dela, o professor desdobrou o papel com cuidado e o examinou através dos oclinhos de meia-lua. E McGonagall mesmo do lugar onde estava conseguiu enxergar, escritas com a própria caligrafia, palavras como amo, desejo, esperança e, pior de tudo, Albus, e repetido várias e várias vezes.
Maldita carta de amor!
– Oh sim, algumas vezes – Dumbledore admitiu, corando um pouquinho.
– Mérlin, não! – ela murmurou entre os dentes, o olhos agora fixos nos próprios sapatos.
– E confesso que fiquei muito surpreso.
– Foi uma estupidez escrever isso. Jamais tive a intenção enviar, não queria que o senhor lesse... – sua voz foi morrendo aos poucos, a extrema vergonha inflamando-lhe a garganta, misturando-se com o choro a muito custo contido.
– E o que você pretende fazer com ela? – Albus indagou, fingindo voltar a analisar a carta com interesse, apenas para observá-la melhor por sobre os óculos.
Como ela parecia frágil agora! Adorável. Digna de se colocar em um pedestal para admirar eternamente sem correr o risco de causar nenhum dano.
– Agora? Pensei em rasgar, queimar e atirar as cinzas no lago. Mas só depois que eu encontrar um buraco bem grande pra enfiar a minha cabeça, é claro.
– É uma pena, porque eu gostaria muito de guardá-la comigo – Dumbledore disse e suspirou, em seguida voltando a dobrar cuidadosamente a folha de pergaminho.
– O senhor quer ficar com isso? – ela falou, surpresa, levantando o olhar e dando de cara com o sorriso mais radiante que podia ter desejado na cara de seu professor de transfiguração.
– Como recordação – o outro completou com as faces risonhas da mesma cor de seu cabelo vermelho. Aproximou-se ainda mais e falou bem baixo, para ter certeza de que ninguém mais escutasse. – Sabe, não é sempre que meus sentimentos são correspondidos.
McGonagall o escutou, apesar de ter certeza de que não tinha entendido direito. Não tinha como ter entendido direito. Ele não diria uma coisa dessas. O bruxo mais poderoso da Grã-Bretanha se apaixonar por uma pirralha que nem sequer tinha concluído os N.I.E.M.s ainda? E justo Minerva, que se julgava tão desinteressante e sem atrativos!
Mas ele havia sido bem claro. Por que mentiria sobre isso?
Por sua vez, Dumbledore não conseguiu fazer nada para impedir as palavras de deslizarem pra fora da sua boca, nem tampouco tinha como pegá-las de volta. Jamais havia planejado dizer nada daquilo, ou ao menos não naquele momento específico. Na verdade ele não havia planejado coisa alguma, sequer cogitara que essa conversa seria possível tão de imediato, pois tinha plena certeza de que se a garota jamais teria coragem suficiente de vir procurá-lo a esse respeito.
Um grave erro, sem dúvida. Mais tarde ele aprenderia a jamais subestimá-la novamente.
Por um longo momento os olhares de ambos se encontraram, cheios de significado. Carinho, esperança, contentamento, felicidade, até mesmo timidez. E se eu pudesse resumir tudo isso numa palavra só, apenas quatro letrinhas seriam necessárias. Amor.
Então a jovem abriu a boca para dizer algo, mas infelizmente a cabeça do professor Slugorn apontou impaciente na porta da sala, interrompendo-os.
– Albus, você não vem almoçar? – a voz do professor de Poções perguntou, porém Minerva não olhou para ver a quem ela pertencia. Ela tinha medo de quebrar o contato visual e perder mais alguma revelação importante.
– Vá na frente, Horace – gritou Albus de volta ao amigo. – Eu já te alcanço.
Slugorn sumiu novamente no corredor e Dumbledore sorriu constrangido e entregou o pergaminho de volta para sua autora. Então ele estendeu o braço lentamente e pegou uma última pena, vermelha e longa, que havia ficado presa no cabelo negro da garota. Só então McGonagall notou que já não era tão mais baixa que ele como no ano anterior.
– Mas se você preferir, pode ficar com ela – ele disse e enfiou a pena no bolso. Lançou ainda um último olhar, muito brilhante, e deu meia volta. – Eu já decorei.
Minerva pensou em responder-lhe algo, mas as palavras se perderam em algum lugar entre a sua garganta seca e a boca entreaberta. E ficou parada lá, segurando o pergaminho e observando-o se afastar lentamente, ainda sem entender direito o que tinha acontecido. Levou involuntariamente a mão livre até o topo da cabeça, como se esperasse que os dedos que a tocaram tivessem deixado algum rastro de sua passagem por ali.
Então ele sentia o mesmo por ela... Ou seus ouvidos a teriam enganado? Não, fora o calor intenso que tomara seu rosto, havia outra prova irrefutável do que ele dissera, dobrada em quatro, pesando em sua mão mais do que o maior troféu do mundo.
Por fim o viu atravessar a porta cantarolando, e em seguida desaparecer em meio a um grupinho de quintanistas corvinos retardatários. E se tivesse ido atrás dele rápido o suficiente, o teria visto dobrar o corredor na direção contrária e apoiar-se na parede de pedra, sacudindo incrédulo a cabeça e rindo em silêncio.
NanaTorres: precisa ter dó não, a Min sempre encara o problema de frente! Coragem grifinória, baby. ;)
n/a: Esta, senhoras e senhores, foi a primeira cena que imaginei quando comecei a escrever essa fic. Literalmente sonhei com ela. E a reescrevi pelo menos cinco vezes: em 3° pessoa, pov do Albus, em 3° pessoa de novo, pov da Minerva e por fim do meu jeitinho especial... E mesmo assim ainda não consegui transcrever tão bem quanto a tinha idealizado!
Em todo caso, cá está nosso romance se intensificando.
Obrigada por ler e, por favor, comenta aí!
Bjs e até +.
