Dear Insanity
Capítulo 9
Conversa
Oito anos depois...
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Cerca de seis horas da tarde, enquanto o sol despedia-se de mais um típico entardecer frio de inverno, os muitos demônios que povoavam o submundo, voltavam para suas residências após mais um duro dia — porém gratificante — de serviços prestados ao rei ou, simplesmente, de seus negócios particulares.
O clima álgido fazia com que todos recolhessem-se com antecedência e, ainda que inacreditavelmente, isso aplicava-se ao castelo Uchiha e todos que o habitassem, consequentemente.
No quarto principal da família imperial, um pequeno acúmulo de movimentos poderia facilmente atrair atenção, mas as figuras animadas e esfuziantes, para se dizer no mínimo, não pareciam ligar para tal fato e tão pouco demostravam ter percebido incutir a tal.
Em meio ao quarto gélido devido à queda brusca de temperatura, uma bela e animada menina, na plenitude de seus dose anos, mantinha-se eufórica, porém receosa por motivos desconhecidos das duas outras presentes no cômodo.
Sakura permanecia parada com ambos os braços erguidos ao ar, para que Tenten tivesse fácil acesso aos detalhes de vesti-la adequadamente, enquanto Hinata mantinha-se atarefada em pentear e trançar seus longos cabelos róseos.
Devido ao nervosismo, a menina ora mordia o lábio, ora sacudia o pé em impaciência. Não que fosse mal agradecida — afinal, adorava ser mimada pelas mulheres que a cercavam de carinhos e caprichos —, mas estava cada vez mais aflita para conversar com Sasuke. Submersa em seus devaneios, acabou mais uma vez por mexer nervosamente os braços, ocasionando uma sutil pinicada no mesmo com a agulha que a castanha empunhava.
— Ai!
— Me desculpe querida, mas você não fica parada. - As morenas lhe lançaram um olhar repreensor. Sorriu envergonhada.
— Desculpe, é que...
— É que... - Incentivou a Uzumaki.
— Nada. - Mordeu a ponta da língua ao quase deixar escapar o motivo de tanta apreensão. Hinata estreitou os olhos perolados.
— Ai ai ai. Começou, agora termine dona Sakura. - Tenten exigiu após terminar o processo de ajustar algumas partes do vestido azul fino que a garota trajava no momento. A rosada suspirou, dando-se por vencida, logo depois colocou uma mecha do cabelo longo atrás da orelha antes de começar.
— É que estou um tanto nervosa.
— Com o quê? - Indagaram ao mesmo tempo.
— Há um assunto que preciso tratar com o seu moreno. É importante! - Mordeu o lábio ao constatar o semblante de confusão que ambas direcionavam a si.
— E o que seria? - Mais uma vez, demandaram juntas.
— Deve ser algo relativo ao aniversário dela. - Uma voz muito bem conhecida por todas, reverberou no recinto. As três volveram-se em direção à porta, a qual era aberta por uma simpática e sorridente ruiva de orbes azuis petróleo.
Não era segredo para ninguém que Sakura era muito querida e tratada por todos no castelo e inclusive fora deste — o que de algum modo desagradava certo moreno —, então para comemorar o décimo terceiro aniversário da hana no hime — como a rosada fora apelidada carinhosamente por Juugo desde pequena, no entanto, mais tarde, todos aderiram a tal —, não era esperado menos do que um baile para o reino todo.
— Olá Kushina-san!
— Oyasumi* Kushina-sama! - Cumprimentou mais formalmente, Hinata ao dirigir-se à sogra.
— Atrapalho? - Inquiriu delicada ao passar os dedos pálidos e delicados pelo emaranhado cor-de-rosa.
— De forma alguma. Na verdade, só queremos saber o que Sakura-chan está aprontando. - Tenten apontou ao partilhar o olhar entre uma e outra.
— Não estou aprontando nada! - Defendeu-se encolhendo os ombros.
— Então o que quer conversar com Sasuke-sama à essa hora, que não pode ser deixado para amanhã? - Hinata falou logo após terminar a majestosa trança nos fios delicados de cabelo da garota.
— É que o assunto é importante e não posso esperar.
— E que assunto importante é esse que não pode aguardar? - A ruiva indagou achando graça da menina falando como adulta.
Amava tanto aquela garotinha que era impossível por em palavras. Fora ela, somente ela, uma humana tão frágil e tênue, capaz de tirar seu menino das travas que ele mesmo o era. E como consequência, tudo o que conseguia fazer era amar, cuidar e ajudar a educar aquela pequena luz de esperança que brilhava initerruptamente diante de seus olhos.
Claro que Sasuke continuava frio, distante e indiferente, contudo mais receptivo e dialogável. Alguém que se era possível conviver — algo que jamais se poderia ponderar a oito anos atrás. Quase como o Sasuke de antigamente.
Antes da traição.
Antes da perda.
Antes da dor.
— Quero falar sobre algo, decorrente de meu aniversário amanhã. - Explicou ao andar calmamente, porém levemente trêmula — as mais velhas facilmente perceberam — em direção a imperiosa cama de casal.
— Sabia! Algum problema com os detalhes? O vestido? - A ruiva enumerava levemente preocupada ao lado das outras morenas que não ficavam atrás neste quesito.
— Não, está tudo perfeito. - Tranquilizou-as. — Na verdade é sobre um presente. Um que recebi hoje.
— Presente? Qual? Não vi nenhum por aqui. - O que era comum visto que todos os presentes eram somente recebidos e abertos durante a festa. Ordens explícitas de Mai — esposa de Itachi.
— Este!
A Haruno puxou levemente o tecido de seda azul marinho da colcha que cobria a cama, mas o suficiente para que o mesmo arqueasse, dando a visão do tapete felpudo e finamente composto por fios de linhos nobres e fios de ouro. Não obstante, oque causou espanto não fora o pedaço caríssimo de tecido posto abaixo da cama, e sim o que estava em cima deste. As fêmeas arregalaram tantos as orbes que Sakura pensou que as mesmas continham vida própria.
— Meu Jashin! - Tenten levou as mãos suscetíveis ao lábios rosados, em espanto.
— Mas como...? - As palavras fugiram à Kushina enquanto Hinata estava em um estado letárgico lastimável.
A rosada encolheu-se levemente. Espera ser difícil conversar com o Uchiha sobre aquele assunto, mas as três não a estavam ajudando em nada com sua coragem. Ou, neste caso, a falta dela.
A morena de orbes chocolate, após alguns instantes utilizados para recuperar-se, deu início ao interrogatório:
— De onde você tirou isso Sakura? - "Sakura? A coisa está feia", pensou após reparar seu nome desacompanhado do sufixo carinhoso que a Hyuuga tanto fazia questão em por ao referir-se à ela.
— Eu ganhei, lembra?
— Mas... Terá que devolvê-lo! - Decretou a enquanto acompanhava a amiga voltar ao normal.
— O quê? Não posso, foi um presente de alguém importante!
— Mas você não pode ficar com... - Hinata falava calmamente ao ver a ex-Mitsashi quase explodindo, mas não de raiva. Medo era a palavra correta. Parou bruscamente de falar ao ver a cena à sua frente.
— E também - Declarava ao acariciar o amontoado sob o tapete. — eu já me apeguei à ele. - Confessou tristemente. Sabia que Sasuke iria negar por causa do ciúmes incontrolável que o habitava quando a questão era ela.
— Quem lhe deu? - Tenten indagou mais calma.
— Naruto. - Kushina deixou escapar em um cício, mas logo explicou diante da clara inquisição na faces das duas adultas. — Isso é claramente coisa dele. Dar à ela um presente que irritaria Sasuke.
Sakura suspirou exausta.
— Vou indo. Quanto mais cedo for, mais cedo termino esse martírio.
A garota pôs-se de pé sustentando sobre os braços frágeis, um pequeno volume aveludado. Puxou um pouco do tecido superior do vestido sem decote, para depositar a bolinha imóvel dentro deste, assim ficando saliente um pequeno volume por sobre este. Ajeitou-o de forma mais confortável possível antes de apanhar uma capa branca suspensa em um fino biombo de bambu perto da sacada, logo o jogando sobre os ombros tendo o efeito desejável. A saliência em seu colo, sumira encoberto pelo tecido claro.
— Boa sorte querida. - A matriarca Uzumaki desejou-lhe. Perguntava-se se havia motivos para tanta preocupação.
— Obrigada. - Agradeceu para logo retirar-se do cômodo, mas tendo um rápido vislumbre de faces preocupadas e temerosas. Engoliu com dificuldade a saliva em sua boca ao notar que sim, era exorbitantemente necessário tal receio.
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Passava das dez da noite quando absorto em seus devaneios, notou com desinteresse, um amontoado inquietante de papéis que deveria terminar de assinar ainda naquele dia, para que o dia seguinte pudesse ficar livre para celebrar mais um ano ao lado de sua pequena rosada.
Suspirou com uma carranca ostentando em sua face. Odiava isso. Odiava burocracia. Odiava ter de ficar trancado no escritório enquanto poderia relaxar e divertir-se torturando Kabuto. Odiava Hydras. Odiava mais ainda os planos de uma em particular. Odiava o fato do maldito manter-se em silêncio por mais de oito anos. Odiava ser deixado na ignorância dos fatos. Odiava ter que trabalhar lendo e assinando papeis enquanto poderia estas alisando cabelos sedosos e rosados. Odiava ter que dar sua atenção para algo que não fosse digno da mesma — ou seja, algo que não tenha haver com Sakura. Mas acima de tudo, odiava saber que em breve o conselho, os anjos, os bruxos e até os mestiços iriam querer tê-la.
Até mesmo ele. Especialmente aquela cobra peçonhenta que estava fora de seu alcance a tempo o suficiente para recuperar-se de séculos sendo torturado em uma masmorra. Aquela maldita hydra que fugira debaixo do suas vistas. Orochimaru.
Rosnou para algo invisível enquanto amassava os papéis em suas mãos perante ódio que o acometera ao imaginar ele a sequestrando. A tocando. A possuindo.
Eletricidade acumulava-se na palma de sua mão inconscientemente, pronta para perfurar o desgraçado, como se o mesmo estivesse à sua frente. Mas não somente ele. Qualquer um que ousasse tirá-la de si pagaria com a vida.
Precisava preparar-se psicologicamente para a constante perseguição de posse e submissão para com Sakura assim que vazasse a informação de que tinham em "fácil" alcance a primeira nefillin em séculos. Seu sangue corria freneticamente ao imaginar quando descobrissem a quantia absurda de poder que ela seria capaz de proporcionar...
Suas orbes escarlates correram para a porta de mogno após escutar uma suave batida atrás da mesma. Sabia que era ela. A forma suave e calma —ainda que demasiadamente exitante desta vez — pertencia somente a ela.
Soltou um grunhido, autorizando sua entrada no âmbito. Logo uma figura feminina e esguia de traços meio infantis, meio adolescentes, ultrapassaram o batente e cerrou a porta pesada com certa dificuldade.
O corpo pequeno e gracioso era coberto por uma suave e aveludada capa branca, mas era perceptível a cor escura do vestido por conta da saia do mesmo, a qual era arrastando ao chão conforme seus movimentos sutis. Os cabelos estavam presos em uma graciosa trança longa, onde a ponta da mesma chegava ao fim de suas costas. Alguns fios rosados escapavam da parte da frente, emoldurando seu rosto e deixando-a com um ar mais desmazelado, contudo cativante.
Estava linda.
Maldição, ela era tão linda. Tão delicada. Tão feminina. Tão perfeita para si que faltava-lhe o ar.
A Haruno caminhou meigamente até si, logo dirigindo-lhe o olhar esverdeado penetrante — que fora retribuído à altura —, contudo logo fora desviado para a mesa. Travou o maxilar. Odiava ser ignorado, mais ainda por ela. Entretanto, logo percebeu que sua fronte havia detido-se não na mesa em si, mas mais especificamente em sua mão, esta que estava com suas garras fincadas na madeira rústica de carvalho.
Puxou a mão ao dar-se conta de que deveria tê-la assustado. O barulho agudo das garras afiadas sendo arrastadas contra a madeira não deveriam ter ajudado também. Mas, para seu alívio, a menina parecia não ter abalado-se com o ato, pois voltou a fitar-lhe ao mesmo tempo em que suas mão perpetuavam unidas sob o peito — logo acima do colo pequeno sobre a capa.
Ela sorriu-lhe docemente ao andar para sua frente — já atrás da mesa — e, como sempre fazia quando ia visita-lo naquele ambiente, sentou-se em seu colo para a seguir, aconchegar-se melhor em seu abrigo preferido.
Pousou uma mão calidamente em algumas de suas mechas rosadas, em seguida as colocando algumas atrás da orelha esquerda. Sorriu de canto ao reparar nas pernas balançando para frente e para trás, em gesto pueril, como sempre fez desde mais nova.
— Sabe seu moreno...
— Hn. - Resmungou distraidamente. Sempre relaxava em sua presença, algo que ocorria — e secretamente permitia-se — somente quando com ela.
— Queria conversar.
— Sobre? - Tão monossilábico quanto possível. Algo constante.
— Meu presente de aniversário. - Mordeu o lábio macio de forma nervosa enquanto segurava mais fortemente a capa sob seu peito.
— Já falamos sobre isso. - Afirmou de cenho franzido em desagrado pelo rumo do assunto. — Só vou te dar amanhã.
— Não é isso. - Virou-se de lado para fita-lo nos olhos ônix.
— Então?
— Queria fazer uma troca! - O moreno arqueou uma sobrancelha negra, um pedido mudo para que fosse mais específica. —O presente que vai me dar, por um favor. O que me diz?
— Depende. - Fora cauteloso.
— Você não precisa dar-me meu presente e em troca, como favor, me permite ficar com um presente que Naruto-kun me deu.
— Não. - Lhe era claro que o que quer que o loiro tenha lhe dado, era somente para aborrecê-lo e a única coisa que o Uzumaki tinha consciência de o irritar profundamente, era o ciúmes — sentimento que só Sakura conseguia despertar.
— É só um favor. - Afirmou com incredulidade estampada em sua face.
— Não. - Retirou a mão da cabeleira macia para pegar alguns papéis à sua frente.
Precisava manter-se distraído, pois sabia o que viria a seguir. Colocou os papéis diante da face, porém captou de canto de olho, Sakura cruzar os braços abaixo do busto e manter as bochechas infladas em birra. Claro, sem esquecer o bico manhoso nos lábios que era capaz de desarmar qualquer um.
Desviou o olhar de forma apressada.
Espiou novamente.
Fechou-os com força.
Tarde demais!
— O que ele lhe deu? - A pergunta saiu antes que conseguisse raciocinar corretamente.
A rosada por sua vez sorriu largamente antes de abraça-lo. Suspirou por perder tão rapidamente. Acompanhou o processo da menina esbaforida retirar desajeitadamente a capa de seu corpo como se a mesma estive coberta de escorpiões. Nem parecia a figura disciplinada e cortês que adentrara seu cômodo de trabalhos com extrema elegância minutos atrás. Pode notar um pequeno — mas bem visível — volume na parte superior do vestido ao qual não pertencia à aquela região.
— Olha! - Delicadamente, ela colocou as mão por dentro do decote para logo puxar o tal volume que estava... Se mexendo? Uma pequena bolinha de pelos sonolenta fora tirada de seu refúgio para logo ser aninhada afavelmente ao peito da menina, porém agora em cima do tecido do belo vestido. — Ele não é fofo?
Franziu as sobrancelhas em desgosto imaginado a morte mais lenta e dolorosa possível para o execrável loiro que deveria estar rindo de sua cara uma hora destas.
Voltou ao mundo real ao ouvir uma sonora risada provinda de Sakura que achava graça no pequeno embrulho preguiçoso em seus braços. Reparando melhor, agora que o bicho inútil estava de barriga para cima lambendo os dedos da Haruno que ria, os tufos de pelos negros eram sedosos e bagunçados, o curto rabinho balançava de um lado para o outro, as orbes vermelhas — incomuns em animais até no submundo — alegres em conjunto com orelhas peludas seria até fofo se não fosse sua Sakura que ele estivesse lambendo. Se bem que duvidava que achasse essa sena fofa com quem quer que seja senão ela.
Sakura o observou em expectativa e levemente nervosa ao reparar que seus olhos estavam cravados nos rubros do pequeno filhote de lobo que o observava curioso.
— E então... Posso ficar com ele? - O verdor de seu olhar estava quase transbordante e leves gotículas de lágrimas acumularam-se nos cantos de seus olhos, em medo. Fechou as pálpebras com força.
— Hn. - "Disse" por fim.
Malditas lágrimas.
Maldito sentimento de felicidade que o preencheu tão logo ela chocou o corpo magro e sinuoso contra o seu em um abraço de gratidão.
Maldita saudade que o fez retribuir.
Maldito Naruto!
• ✤ •
Oyasumi = Boa noite
