Capítulo 09: Segredos revelados II
— Sabia que ia te encontrar aqui.
Hinata bufou vencida. Havia sido muito ingênua em achar que ninguém a encontraria ali, naquele parquinho. Ainda mais quando Uchiha Sasuke sabia muito bem de seu esconderijo número um.
E agora ele estava ali, sentado em um dos balanços, ao lado da Hyuuga. Estava com uma expressão séria, mas seus olhos demonstravam certa... melancolia? Hinata assustou-se ao observar a face do Uchiha; Sasuke demonstrando algum sentimento era algo difícil de imaginar para a pequena.
— Hinata, eu... Desculpa, eu fui um idiota! - "E foi mesmo" pensava a jovem que ainda estava irritada com o então amigo.
— Por que Sasuke? Por que escondeu isso de mim?- sua voz estava embargada, Hinata tentava segurar suas lágrimas, não queria chorar na frente dele, não mesmo.
Sasuke ficara em silêncio, sabia o quanto sua amiga queria saber sobre seu passado, e fora um idiota em ter escondido isso dela.
— Foi pelo Naruto. - aquelas palavras a deixaram em choque.
— E-Ele p-pediu q-que escondesse isso de mim?
— Não Hinata, ele nunca pediria isso de mim.
— Então? - Hinata estava confusa.
— Na verdade foi uma promessa. - respondeu fitando o chão.
— Promessa?
— Quando Naruto saiu de Konoha eu prometi a ele que a protegeria de todo o mal.
"— Nós começamos a namorar, não era bem um namoro de verdade, era coisa de criança. Até que um dia a família dela percebeu e nunca mais tinha a visto. Não sabe o quanto fiquei desolado com aquilo, apesar de ter apenas oito anos, eu a amava. Meus pais perceberam a minha tristeza e por isso viajamos de volta para o Canadá. Antes de partir, disse ao Sasuke que, se visse aquela menina outra vez, que a protegesse de todo o mal.
— E ele encontrou essa menina?"
Ele havia encontrado a menina, e era ela Hyuuga Hinata. Não sabia se ficava feliz ou irritada, já que o Naruto teve a cara de pau de contar a história sem ao menos dizer a verdade. O pior é saber que Sasuke fez a mesma coisa, na verdade pior nunca contou nada pra ela, nem fingindo ser outra menina ou omitindo alguns fatos, ele nunca lhe contou sobre a sua infância, talvez por ela fazer parte ou então pelo Naruto fazer parte dela. Lembrou do que Karin havia dito sobre Sakura. Como ela podia ter feito isso com eles, não havia sentido na briga dos dois. Pelo que Itachi disse a amizade dos dois parecia tão forte para ser destruída por causa de uma mulher. Destruída? Não ela não foi destruída - pensava a jovem Hyuuga. Ainda havia algo que ligava aquela amizade, e a Hinata percebeu isso, aquela promessa os ligava de alguma forma. Talvez Sasuke não odiasse Naruto tanto assim, talvez seja uma forma de se desculpar por algo. A promessa era o que os ligava, a promessa de proteger a Hyuuga de todo o mal.
— Sasuke,... você queria me proteger de quê não me falando a verdade?
— Do seu amor pelo Naruto. - respondeu voltando a fita-la
— Como? - ela não entendia o que ele queria dizer com isso, por que protegê-la de um sentimento tão bom?
— Hinata você sabe como perdeu a memória, não sabe?
Hinata assentiu com a cabeça. Seu pai havia lhe falado. Era a única coisa que sabia sobre seu passado, de que havia ficado doente e caiu da janela do hospital, o motivo isso ele não contara e ela também não insistiu, tentou procurar médicos que a ajudassem, fazer terapia, mas nada funcionava.
— Sasuke você sabe o porquê eu fui parar em um hospital?
— Eu soube mais tarde, quando nós nos encontramos novamente. Eu fui atrás do seu pai. Na época eu sabia que você havia perdido a memória, mas eu pensei que havia recuperado. Mas seu pai me contou.
— Contou o quê?
— Que quando você soube que o Naruto havia ido embora você ficou doente, entrou em depressão e não queria comer nada. E acabou parando no hospital, não contente você tentou fugir pra ir atrás do Uzumaki e nisso acabou caindo, batendo a cabeça. Seu pai me contou tudo Hinata, disse para eu nunca falar nada, ele tinha medo de você se lembrar e fazer alguma burrada. Seu pai se importa com você e eu também.
— Meu pai é um egoísta que só pensa nele e naquela empresa, sugou a vida da minha mãe e agora quer sugar a vida do Neji. Eu posso não me lembrar como ele era quando eu tinha dez anos, mas eu sei o que ele é agora. - disse ríspida. — E você não agiu como se importasse comigo.
— Hinata... - voltara a fitar o chão, sabia que havia errado, mas mesmo assim não se arrependia. — O Itachi não devia ter te contado.
Hinata o fitou surpresa, como ele podia dizer aquilo? Ele estava falando da vida dela e não de uma fofoca ou coisa do tipo, ele sabia o quanto ela sempre sonhou em saber sobre seu passado, e ele lhe diz aquilo.
— O Itachi é um canalha. - acrescentou aborrecido.
— Canalha? Por quê? Por ele ter tido a coragem que você não teve?
Um longo silencio se fez. Sasuke não sabia onde enfiar a cara. Sabia que ela tinha razão, no final, ele que foi o canalha.
— Você tem razão. - riu baixo. — Mas sabe... Eu não me arrependo, você teria sofrido muito mais se eu te contasse naquele tempo.
A Hyuuga, pois se de pé, ficando de frente ao Uchiha, suas mãos se encontravam em forma de punho, ela parecia irritada aos olhos do moreno que a encarava sem nenhuma expressão em seu rosto.
— Eu infelizmente te entendo... - disse por fim, surpreendendo Sasuke. — Eu queria te bater agora, ter um ódio descomunal de você... Mas se eu não sou mais aquela menina que abaixava a cabeça e ficava pelos cantos aos choros é graças a você, infelizmente. E, aliás, você fez isso por um amigo né.
— Aquele idiota não é meu amigo. - virou o rosto aborrecido. — Falando nele, ele disse para te levar ao bar do Jiraiya.
— Ele conhece o Jiraiya?
— Ele é afilhado do Jiraiya. - respondeu se levantando. — Vamos.
— Tá, mas para de me estender sua mão, eu ainda estou irritada com você.
Os dois caminharam um pouco distantes um do outro até o carro do jovem Uchiha, uma Ferrari de cor branca. Hinata não deixou de notar no novo carro de seu amigo que há semanas atrás rodava pela cidade com sua BMW prateada.
— Carro novo. - comentou adentrando ao veiculo.
— A Sakura escolheu.
— Hum...
— O que foi? - perguntou percebendo o desconforto da amiga.
— Nada.
Sasuke deu de ombros e logo ligou o carro dando a partida. O caminho não era longe da casa onde estava ocorrendo o noivado, mas era um pouco distante do bar onde haviam marcado de se encontrarem. Pensou em ligar avisando que havia a achado, mas não estava afim de falar com Naruto muito menos com seu irmão mais velho. Fazia um tempo que não falava com os dois, tinha saudade dos tempos em que eram todos unidos; ele, Naruto, Itachi e Hinata. Mas os quatro não eram os mesmos de quando jovens, o tempo havia os afastados, ainda teve sorte de reencontrar a Hinata e naquela noite sentiu um imenso medo de perdê-la, de ela nunca mais querer olhar na cara dele, mas ela foi um anjo, foi compreensiva, mesmo ele a fazendo sofrer. Imaginou se ele conseguisse ser assim, se ele fosse compreensivo. Se ele tivesse perdoado o Naruto e o Itachi, talvez aquela noite fosse diferente, mais alegre, sem tantas magoas. Mas ele não era Hinata, ele era diferente, seu orgulho era maior que tudo, exceto quando se tratava de certa rosada.
— Por que você não se da bem com o Itachi? - perguntou o fitando.
— É uma longa história... - disse após fita-la confuso pela pergunta repentina.
— Eu sei o que aconteceu, foi por causa da Sakura.
— Se sabe então porque pergunta.
— É que eu não entendo. Se você perdoou a Sakura e então porque não perdoa seu irmão?
— O que tem a Sakura? Ela é sua amiga, então o porquê disso agora? - perguntou irritado, parando o carro no meio da rua deserta.
— Não estou te entendendo.
— Eu que não estou te entendo, eu percebi como você ficou quando eu falei que foi a Sakura que escolheu o carro, e agora você fica fazendo insinuações como se ela fosse a culpada e ainda por cima defende o Itachi.
— A Sakura também tem sua parcela de culpa e você sabe disso, eu sei que sabe. Não estou defendendo ninguém só não entendo que você tenha perdoado a Sakura e não o SEU irmão. E pare de elevar a voz desse jeito, eu tive um péssimo dia hoje, e se você continuar me tratando assim eu desço desse carro.
— O Itachi, você o conheceu no Ensino Médio. - disse com a voz mais amena. — Ele era um vândalo. Tinha ate uma gangue, e eu nem sei o que ele faria com você se eu não chegasse a tempo.
— Ele não faria nada. - respondeu a Hyuuga.
— Não seja ingênua.
— Você que devia confiar mais no seu irmão, e tentar me ouvir. Sempre quando eu tento explicar o que aconteceu naquele dia, você simplesmente não deixa.
— Falar o que se eu mesmo vi.
— Viu o quê? Eu chorando em um canto e o Itachi a minha frente, foi isso que você viu. Não sabendo que ele me salvou de um dos valentões da gangue dele.
— O que você ta falando?- questionou incrédulo.
— Estou falando o que realmente aconteceu. Você acha mesmo que o Itachi me faria mal, eu posso não me lembrar, mas sei que você se lembra do Itachi de antes, ele não deve ter mudado tanto assim, alias ele pareceu se importar comigo ao me dizer toda a verdade.
— As pessoas mudam Hinata.
— Por que essa relutância toda, que medo você tem? Medo de perceber que talvez você tenha errado quanto ao Naruto e o Itachi?
O silencio voltou a se instalar por entre os dois. Ele realmente tinha esse medo, medo de ter sido injusto com os dois, com os seus dois irmãos. O orgulho não o deixava enxergar isso, ele não queria ver. Mas Hinata estava cada vez mais lhe abrindo os olhos, e saber de tudo aquilo lhe doía. Virou as chaves do carro, dando a partida e o silencio estendeu-se por todo o percurso.
...
Depois de alguns minutos, haviam chegado ao bar. Os dois não se falavam e Sasuke resolveu ir à frente vendo que a Hyuuga parecia receosa. Hinata ficou parada ali, enquanto via o Uchiha adentrar ao recinto. O bar se encontrava entre um pequeno mercado e um terreno vazio que servia como estacionamento, havia uma placa de Neon escrita "Bar do Jiraiya"; uma pequena "criatividade" de sua esposa Tsunade. Era um lugar bem simples, a frente era pintada de um cinza cimento que pelo horário se notava só estando de perto, e tinha apenas uma porta de madeira. De onde a pequena encontrava-se dava pra ouvir as comemorações e algumas discussões vindas daquele bar barulhento. Ela já estava acostumada com aquilo tudo, afinal trabalhava ali há dois anos. Conseguiu o emprego graças a gerente do bar, Kurenai, sim, naquele bar tinha dessas coisas — outra ideia de Tsunade-sama. Lá ela fez muitas amizades, como o casal ShikaTema, era assim que carinhosamente a loira de seios fartos se referia ao Shikamaru e Temari, antes mesmo de eles se tornarem um casal. Riu ao lembrar-se de como os dois pareciam se detestar no começo, mas mesmo assim Tsunade-sama sempre acreditava que aquilo ia dar em casamento, casados ainda não estão, mas com certeza não ia demorar muito para isso acontecer. Um som de uma batida de porta de um carro qualquer a fez despertar-se, e perceber que ainda se encontrava ali de frente ao bar. Suspirou e foi em direção a porta. Notou que o bar estava cheio o que não era novidade, o lugar sempre lotava. Percebeu que um certo loiro estava sentado em um balcão de costas para ela, era Naruto. Agradeceu por ele ainda não perceber sua presença, não era com ele que ela ia conversar, não ainda. Tinha outro assunto pra tratar e essa pessoa encontrava-se em uma mesa próxima ao balcão sentada ao lado do Uchiha que acabara de trazê-la. Deu mais um suspiro, imaginando como aquela noite ia ser longa, e caminhou em direção a tal mesa. Apressada passou perto de Naruto que quando a viu começou a chamá-la, sendo ignorado pela mesma. Não era com ele que ela queria conversar naquele momento, e sim com a jovem rosada.
— Sakura. - chamou a jovem ao chegar até a mesa.
— Oi Hina, o Sasuke me contou que te achou. Eu fiquei bastante preocupada. - disse com um tom alegre por ver a amiga.
— Hinata. - sua voz saiu quase em um sopro. Naruto estava ali, atrás da jovem, com uma expressão preocupada.
— Naruto. - virou-se na direção dele. — Eu também quero conversar com você, mas não agora. Eu ainda estou chateada com isso tudo, e também preciso ter uma conversa seria com outra pessoa.
— Mas...
— Por favor, Naruto. - suplicou voltando sua atenção para a mesa. — Sakura precisamos conversar.
— Tudo bem, fala.
— Vamos até lá dentro, tem um quartinho por lá. - Sakura e os outros dois ficaram intrigados.
— Então vamos.
As duas andaram em direção a uma porta que ficava aos fundos. A porta dava acesso a um corredor meio estreito onde se encontravam dois banheiros e o quartinho no qual a Hinata se referia.
— Por que esta tão seria? - questionou Sakura não entendendo o jeito da amiga.
— Por que você os enganou? - odiava responder com outra pergunta, mas já estava cansada de rodeios e tinha que ser direta.
— Como?
— Estou me referindo ao Naruto e o Sasuke, a Karin me contou.
Seus olhos arregalaram-se de espanto, sentia que o mundo ia desabar em sua cabeça, não podia deixar isso acontecer, depois de tantos anos isso não podia ir à tona. Não agora, estava tudo tão bem pra ela. Ia concertar o erro que cometeu, sim, mas não dizendo a verdade, pretendia uni-los de outro modo. Não se sentia bem com isso tudo, mas só de imaginar em perder o Sasuke, se sentia sem chão.
— Vo-você não pode acreditar no que a Karin fala. Você sabe... - sua voz saia embargada. — Ela me odeia.
— Não tente me enganar, a sua reação já diz tudo. - disse indignada. — Por quê? O porquê dessas mentiras todas?
— Por que... - lagrimas caiam sobre sua face. — Porque eu era uma idiota, imatura. A Karin tem razão, ela deve ter falado coisas horríveis sobre mim, e ela esta certa.
— Por que você nunca contou pra ele?
— Eu tentei, naquele mesmo ano, eu tentei, mas minha covardia falou mais alto. Eu fiquei sem coragem então... - sentou-se na cama de solteiro que havia por lá cobrindo os olhos com o antebraço.
— Então?
— Eu... Eu bolei um plano.
— Plano?
— É, pedi ajuda da Karin, pra ela dizer que eu estava em uma das salas vazias com o Itachi, assim o Sasuke flagraria eu com o irmão dele e me odiaria pra sempre.
— O Itachi sabia desse plano? - perguntou ainda de pé.
— Não, só eu e Karin sabíamos. Eu percebi que o Itachi era afim de mim na época então...
— Você o usou, assim como usou o Naruto. E graças a esses seus planinhos, o Sasuke odeia tanto o Naruto como o Itachi. Satisfeita?
— Claro que não. Mas se eu contar toda a verdade, o Sasuke vai me odiar. -disse desesperada.
— Você vai ter que contar, ou então eu conto. - disse já de costas, saindo do quarto deixando- a, ali, aos prantos.
Sua cabeça estava fervendo, ainda não acreditava na imaturidade de sua amiga. Gostava muito de Sakura, e sabia que ela tinha um bom coração, mas o que ela sempre reprovou em sua amiga era o seu egoísmo. Estava a alguns metros até a porta de entrada e saída do bar, quando foi interrompida por nada mais nada menos que Uzumaki Naruto.
— Agora não Naruto.
— Hinata, acho que tenho o mesmo direito que o Uchiha.
Ela o fitou incrédula. Será que ninguém respeitava os direitos dela? O direito de saber a verdade, o direito de ficar sozinha, o direito de ignorar... Bufou irritada.
— Tudo bem! Vamos lá pra fora!
...
Seus olhos ônix observavam a conversa de dois jovens que se encontravam próximos à saída do bar, aquele loiro era irritante, era o que pensava. Não gostou nada ao ver os dois saindo do bar juntos, pra onde será que eles iriam... Batucava seus dedos na mesa como forma de distração, estava ficando nervoso, fazia alguns minutos que a Hinata saiu daquela porta e nada da sua rosada. Pela cara da Hyuuga a conversa não fora boa, aquilo estava o intrigando, o que será que tanto conversaram. Vendo que Sakura ainda não saiu de lá, resolveu ir atrás dela.
...
Hinata tentava cobrir-se com as mãos nuas em vão, estava muito frio. Ela ficara parada ali de frente ao loiro, que a olhava meio temeroso. Estava se sentindo culpado por tudo aquilo que estava acontecendo, mas como ele podia saber de que ela não sabia. Sasuke havia lhe dito que havia contado tudo a Hinata, mas ela não se lembrava dele. Mais do que nunca o loiro estava convicto de que devolveria aquele soco que ele dera.
— Não é melhor entrarmos? - perguntou vendo-a tremer de frio.
— Não tem como conversarmos lá dentro.
— Meu carro esta bem ali. Vamos?
Hinata assentiu e os dois logo partiram em direção ao carro do loiro.
— Me desculpa. - desculpou-se a fitando intensamente.
— Por que não me contou que me conhecia?
— Pode parecer idiota, mas... É que... Eu tive medo. Medo de você não se lembrar mais de mim, e eu também imaginava que você já soubesse de tudo, só não se lembrava de mim. O Sasuke me disse isso.
Hinata nada dizia, apenas o observava. Observava sua face que possuía uma mistura de agonia, tristeza, arrependimento. Ficaram ali, os dois, em silêncio, um fitando o outro. Naquele momento não precisavam de palavras, apenas se observavam, só queriam saber os sentimentos um do outro e nada mais. Até o momento em que Naruto, com uma das mãos, tocou a face da Hyuuga acariciando-a com o polegar.
— Eu te magoei não foi?
— É... -respondeu vagamente.
— Você me perdoa?
— Eu não sei... - principiou tirando a mão do loiro de seu rosto. — Eu não sinto raiva nem de você nem do Sasuke, mas ainda estou magoada. Por mais que vocês tenham seus motivos, vocês me esconderam algo que eu necessitava em saber.
— Hinata... - foi interrompido por alguém que batia na janela ao seu lado.
— Tenten?
...
O Uchiha a fitava com um misto de preocupação e uma pontada de curiosidade. A rosada estava com a face quase da cor de seus cabelos de tanto que chorava, por mais que tentava prendê-las, as lagrimas caiam automaticamente por sua face na qual tentava esconder por entre as mãos. Sentia que ele estava ali sentado ao seu lado, ouviu quando a porta se abrira, primeiro pensou que pudesse ser sua amiga que voltara para dizer que estava tudo bem ou então xingar-lhe de todas as formas e palavras esdrúxulas que ela conhecesse, mas ao sentir aquele perfume que ela conhecia tão bem, sabia de quem se travava.
— Sakura, o que houve?
— Sasuke vo-você... - virou-se ficando de frente a ele. — Você me perdoa?
— Perdoar? Do que você esta falando Sakura? O que vocês duas conversaram? Por que você está assim?
Sakura sorriu de canto. Não era de seu feitio ficar a enchendo de perguntas, isso só provava o quanto ele estava preocupado com ela. O sorriso logo se desfez. Ela ia perdê-lo, ali, em um quarto de bar.
— Eu não te mereço, você é bom demais pra mim.
— Por que você esta falando essas coisas? Para de chorar, Sakura!
— Pare de se preocupar comigo, eu não mereço!
— Eu não estou entendendo. - Sasuke a fitava confuso.
— A culpa é minha, foi tudo culpa minha. - sussurrou entre lagrimas.
— Culpa?
— O Naruto, o Itachi, foi tudo culpa minha.
— As pessoas mudam Hinata.
— Por que essa relutância toda, que medo você tem? Medo de perceber que talvez você tenha errado quanto ao Naruto e o Itachi?
— Do que você esta falando?- dessa vez sua voz não saiu preocupada ou confusa, era um misto de raiva e magoa. Queria tampar os ouvidos para o que ela iria dizer.
— O Naruto... e-ele nunca me traiu e não houve nenhuma aposta, eu menti.
Sasuke ficou de pé e manteve uma boa distancia entre eles, estava se segurando, não bateria em uma mulher por mais que pensasse que ela merecesse, não faria tal coisa.
— Eu usei o Naruto para ficar com você, e o Itachi... os dois não tem culpa, eu os usei porque sabia que eles sentiam algo por mim... Eu fiz isso tudo porque eu te amo.
— Ama? - questionou ríspido. — Você acabou com a minha vida, me fez odiar meus dois irmãos. E por sua culpa eles devem me odiar e nunca mais nada será como antes, por sua culpa.
Sua voz estava alterada, as mãos apertadas em um punho tão forte que não se via sangue nem por entre os dedos. Lembrou-se de como era sua vida antes de conhecê-la. Seu irmão sempre implicava com ele e mais tarde o levava para tomar um sorvete como um modo de desculpar-se ou então como um bônus por ele o aturar, com Naruto, quando ele estava no Canadá, se comunicavam por entre cartas ou telefonemas; se tratavam por "apelidos carinhosos" como teme e dobe. Agora não tinham nada disso, praticamente se odiavam. Voltou sua atenção para Sakura que o encarava com uma expressão desesperadora.
— Eu devia estar cego. Trocar uma amizade de anos por uma vagabunda. A partir de hoje suma da minha vida, você me dá nojo. - dito isso, assim como a jovem Hyuuga, Sasuke saiu do quarto deixando a jovem ali, abalada, chorando aos prantos, vendo uma parte de si ir embora.
...
A Lamborghini preta seguia em direção ao aeroporto de Tókio. Nos bancos da frente encontravam-se um rapaz de madeixas loiras concentrado na estrada e uma jovem de olhos perolados com uma expressão triste, logo atrás se encontrava uma jovem aos prantos.
— Fique calma Tenten, nós vamos chegar a tempo. - disse Hinata a fitando pelo espelho do carro.
— Mas Hinata... Ele... Ele me abandonou.
Hinata voltou sua atenção pra sua amiga, observou seu cabelo desgrenhado, seus olhos estavam vermelhos e seu nariz parecia inchado. Nunca a tinha visto daquele jeito. Por um momento desejou que o avião de seu primo caísse, mas sabia que a culpa não era dele, não toda. Entendia os motivos de Neji, ele era do tipo orgulhoso e ter se tornado um dono de restaurante não era algo que fazia parte de seu "destino", como ele costumava dizer. Ainda mais quando o restaurante não dava lucro.
— O Neji te ama, ele só é orgulhoso. Você sabe que não era essa a vida que ele queria para vocês dois, ele só foi atrás.
— Atrás? Como? Abandonando-me? – questionava exaltada. — Eu nunca pedi luxo, talvez o destino dele não fosse comigo.
— Não diga isso. – a repreendeu. — O Neji esta fazendo uma burrada, aposto que o Sr. Hyuuga irá adorar.
— Esta falando do seu pai? – perguntou Naruto se pronunciando pela primeira vez.
— É. Você deve saber que o meu querido pai... – sorriu ironica. — É dono de uma das maiores empresas de todo o Japão.
— É, eu sei. Mas por que fala dele, assim, dessa maneira?
— Ele nunca foi um bom pai, além de usar as pessoas, e é isso que ele vai fazer com o Neji. Ele não tem empregados, tem escravos.
— Meu pai comentou comigo a forma como o seu pai tratava os empregados.
— O Neji não podia ter aceitado, eu pedi pra ele três dias até eu achar uma solução.
— Desculpa te dizer isso Hinata, mas como você poderia achar uma solução? - questionou Ten Ten, ao secar as lagrimas.
— Eu não sei. - sussurrou cabisbaixa.
— Mas eu acho que posso ajudar. - disse o loiro. — Bem, eu disse que vim aqui pra festa de noivado da Ino, mas na verdade vim ver você Hinata. Quando eu descobri onde você estava, disse ao meu pai que ia viajar a negócios e aproveitar para ir ao noivado da minha prima, no começo era apenas uma desculpa, mas acabei vindo a negócios também. Afinal Tókyo é um ótimo lugar pra negócios, acabei comprando um prédio para construir uma filial, e como preciso de empregados...
— Seria ótimo para o Neji. Espero que ele ainda esteja no aeroporto.
...
— O que esta fazendo aqui?
O Uchiha mais velho fitava o mais novo que encontrava-se sentado em um dos degraus da escada de emergência de um dos prédios mais antigos de toda Tókyo. Enquanto o loirinho se refugiava em uma praia, a jovem Hyuuga em um parque, era ali que o moreno de olhos ônix costumava se esconder. Era o lugar que lhe trazia lembranças, o prédio onde morou por alguns anos com seu irmão mais velho.
— Pensei que queria me ver, já que eu ainda moro aqui ao contrário de você. - observou colocando suas mãos ao bolso.
— Pensou errado, pensei que havia vendido o apartamento.
— Pensou errado. - sorriu de canto.
Vendo que o irmão não se incomodara com sua presença, resolveu se aproximar, sentando ao lado dele.
— Foi uma noite agitada. -comentou fitando a noite sem estrelas.
— É.
— Não quer saber o porquê de eu voltar mais cedo pro Japão?
— Não.
— Nunca te vi tão monossilábico, o que houve? A rosada te chutou?
— Você ficaria feliz se eu dissesse que sim, não é?
— Pensei que havia me perdoado.
— Pare de mentir, você sabe que eu nunca iria te perdoar se fosse sua culpa. - disse o fitando.
— Do que você esta falando? - questionou sem entender.
— Eu sei de tudo, a vadia me contou.
— Se ela te contou, não é tão vadia assim. Mas então, está sofrendo?
— Desde quando se preocupa. Não pense que só porque deu uma de bonzinho com a Hinata e não deu em cima da Sakura, você ira virar o super irmão pra cima de mim.
— Continua teimoso. - levantou-se descendo pela escada. — Eu sei que eu fui um péssimo irmão na época do colégio. Eu não era mais aquele irmão protetor de antes, havia me transformado em um idiota que andava por aí com uma gangue enquanto o irmão caçula se virava sozinho. Sei que nunca vai me perdoar por isso. Mas veja, você, antes era um bobo animado, e agora parece um gelo, sei que esta sofrendo por dentro, mas fica com essa pose de o inatingivel. A Hinata era uma chorona, medrosa, e super frágil. Agora ela enfrenta o próprio pai. O Naruto era um baka, e hoje é um brilhante empresário. As pessoas mudam.
— Onde você quer chegar com isso? - arqueou uma das sobrancelhas.
— A Sakura errou, mas eu sei que você a ama.
— Meu sentimento por ela não muda o fato de que ela me enganou, e ainda acabou com a amizade que eu tinha com o Naruto e com você. Por mais idiota que você fosse naquela época, ainda éramos amigos.
Amigos, eram amigos. Itachi lembrava-se bem, era um tempo difícil para os dois, haviam acabado de perder os pais em um acidente de carro. Itachi não conseguia lidar com a perda, e depois, se tornara o responsável pelo caçula, afinal tinham um tutor apenas no papel e só o viam quando o conselho tutelar os visitavam. Os irmãos continuavam amigos, saiam, conversavam, discutiam. Eram uma dupla inseparável, na verdade um trio, contando com o loirinho imperativo. Mas após o episódio da rosada, tudo mudou. Seu irmão nem imaginava o quanto ele se arrependia de ter dado as costas quando ele mais precisava. Encostou-se na parede daquele beco e ficara batendo os dedos.
— Sabe - principiou fitando o mais novo. — Uma vez, quando você era mais novo. Você e o Naruto brigaram, lembro como você chorava naquela noite e disse pra mim que havia perdido um amigo. No outro dia, o Naruto apareceu em casa e falou que nada nem ninguém iria romper o laço de amizade que vocês tinham. Não é uma rosada que vai romper esse laço não acha? - Sasuke apenas ouvia atento a cada palavra do irmão.
— Bem, eu vou indo. É, foi uma noite bastante agitada. - disse ao caminhar para fora do beco deixando o mais novo, pensativo.
...
— Neji! Neji! Neji!
Gritava a jovem Hyuuga ao avistar seu primo na fila de embargue, ao perceber que ele não ouvia, Hinata decidiu correr até onde ele se encontrava, afastando-se de Naruto e Ten Ten que ficaram parados ali no portão do aeroporto. Hinata corria por entre as pessoas até esbarrar em um dos carrinhos de bagagem, caiu e levantou-se em seguida. Pessoas próximas a fitavam um tanto curiosas, mas ela não se importava e antes de seu primo entrar no corredor para embarcar ela gritou mais uma vez.
— Neji!
