Marcha à destruíção

Olhe a sua volta, menina dos olhos! O que vê? Paraíso repleto de felicidade? Ou ilusão... eu digo o que vejo: Castelos de areia brigando para se manter de pé na ventania do destino. Esse mesmo destino que me levou para uma escuridão repleta de sussurros que tranformam a minha culpa em dor. O mesmo que levou o meu castelo a ruina.

Já fazia horas que caminhavam, alcançando dominios fora do Santuário. O meio-dia já ia lonje e ainda não haviam encontrado se quer uma pista de onde Amanda poderia estar.

De comum acordo não disseram a ninguém o que ocorrera e o porque de saírem juntos. A grande desculpa é que iriam treinar em outra parte, não levantando suspeitas pois sempre haveria alguém para dizer que a ideia surgira daquele rapaz estranho que Aioros treinara.

Durante a caminhada, não trocavam grandes palavras. Urin era homem de poucas falas, caminhando sempre determinado e sem dar explicações. Quando falavam era sempre por iniciativa do ruivo que se derá conta do caminhar do companheiro, que parecia até qual o caminho certo a percorrer. Pensara em protestar quando pegaram um transporte que os levaria para o litoral, mas em cima da hora desistira. Já estavam próximos de mais. O barulho das ondas já se faziam ouvir e um precentimento lhe invadiu a alma indicando que estavam no caminho certo.

- Ela viria para longe do Santuário – Murmurou Kiki, fitando a extensão da praia, assim que saltou do transporte, logo atras de Urin. Este limitou-se a fitar o ruivo.

A passos largos estrou no dominio arenoso e começou a caminhar. De vez enquando irritava-se com os gritos de Kiki, chamando pelo nome da italiana.

- Você bem que poderia me ajudar – Kiki protestou quando começou a sentir a garganta seca.

- Não adianta gritar – O outro disse por fim parando bruscamente enquanto estreitava os olhos.

Uma briza fria levantou areia enquando Kiki se perguntava porque da brusca paragem. Mas logo teve sua resposta ao ver o outro tomar a dianteira correndo. Seus olhos claros fitaram um mancha a beira mar, que fora ficando mais nitida a medidad que se aproximava rapidamente.

Era ela. Deitada em posição fetal estava desacordada. Estranhou a situação. Amanda estava nua. Sem pensar duas vezes e antes que Urin tomasse quanquer providencia, tirou a própria blusa e abaixou tomando a moça nos braços. De mal jeito conseguiu vestila sem prestar atenção no outro. Pegou Amanda no colo, só então fitando Urin que permanecia no mesmo lugar fitando a cena. No seu intimo sabia o que tinha acontecido.

- Você acha...? – Kiki não conseguiu terminar, pois que Urin lhe deu as costas começando a caminhar.

- Temos que leva-la para um lugar seguro – Disse calmamente sem se voltar para tras.

Sua mente o tranportava para o dia em que estiveram todos na praia, em que todos estavam tão transtornados com o incidente com Trista, que se quer prestaram atenção no interesse do Deus dos Mares por Amanda e o pequeno confronto deste com Kanon.

E agora vendo o mar tão calmo em contraste com a cena deplorável da italiana nos braços de Kiki, temia pelo pior.

Vendo que Trista estava dispersa, Kamus a liberou do treino, a garota voltava para casa, mas no meio do caminho resolveu tomar outro rumo. Seguiu em direcção a uma pequena passagem que levava a fonte de Atena. Sentou em baixo de uma arvore passando a fitar a agua que caía do chafariz que trazia uma estatua grega. O dia anterior havia sido horrível, ouvir aquelas coisas a respeito do padrinho e vindas de seu pai doeu, ainda mais por saber que Amanda estava envolvida. Ela não merecia ouvir aquilo daquela maneira.

- "Ela deve me odiar." – Abraçou as pernas.

O sentimento de frustração fez presente, ficara decepcionado com o pai e com o padrinho. Podia esperar qualquer coisa dele, menos aquilo. Lembrou-se que ouvira boatos que Shion os chamaria para um conversa no templo. Como conhecia as regras do santuário tinha certeza que Mask não seria perdoado, ocorrendo inclusive sua possível expulsão.

- "Não sei o que fazer..."

De longe um par de olhos azuis a fitava. Era Miro que encontrara com Kamus no meio do caminho e logo depois de ouvir um longo sermão, foi atrás dela. O aquariano comentara com ela sobre uma "possível" mulher em seu templo.

Era um problema pequeno diante do que surgiria nas próximas horas...

Como previsto por ambos, quando chegaram ao Santuário, ninguém suspeitava de nada, não tendo nem um cavaleiro no caminho visto que era possível estarem todos no final do treinamento. Ou quase todos.

Na entrada da primeira casa Mu fitava com surpresa Urin e Kiki sem camisa, com Amanda desacordada nos braços.

- Kiki...?

- Mestre – O Ruivo cortou Mu que tinha em sua cara a pura expressão preocupada e de dulvida – A encontramos na praia, desacordada.

- Como? Pensei que ela estivesse em Sagitário – Disse surpreso fitando Urin. Seu olhar não era reprovador, apenas estranho. Um olhar sem maldade que foi tomado com indiferença por Urin, que nada disse em resposta. Não tinha que dar satisfação do que se passava em seu templo.

- Nós também – Kiki interveio quando percebeu que o companheiro não responderia.

- É melhor subirmos – A voz fria de Urin se fez sentir pela primeira vez.

- Não! – Kiki protestou vivamente – É melhor leva-la para o quarto aqui mesmo – Completou não esperando a reação de Urin que lhe fitou feio enquanto entrava para a primeira casa. O ruivo desapareceu na primeira porta a direita.

- Porque ela estava com a camisa do Kiki? – Mu indagou de repente, surpreendendo Urin, que lhe fitou com interesse. Os olhos como sempre não acusavam nada de mais, apenas sua simples preocupação. Estaria ele pensando...? Será que o pacato ex-guardião da primeira casa teria seu pupilo em tão baixa consideração? Estreitou os olhos.

- É melhor perguntar a ele – Respondeu por fim voltando a sua habitual indiferença.

Mu não estranhou a resposta. Na verdade, já estava a espera de algo assim vinda do Cavaleiro de Sagitário. E também não estranhou quando este lhe virou as costas sem aviso e caminhou para a saída.

Não fazia ideia de até onde iria a sua indiferença, mas não esperou para pensar em tal ou para ver o outro chagar a saída, entrou pelo corredor a passos determinados, entrando sem cerimonia no quarto onde Amanda fora depositada a uma cama a tres passos encostada na parede, debaixo de uma janela aberta.

Kiki, abaixado perto da cabeceira fitava a amiga.

Mu não esperou que dessem por sua presença. Caminhou até a cama onte de mal jeito conseguiu chegar a janela e fecha-la.

Se recompondo fitou o pupilo. Estava a menos de um passo mas resolveu não seder espaço.

- Talvez seja melhor chamar alguém – Só então Kiki pareceu dar pela presença do mestre.

Voltou a cabeça para cima. Suspirou.

- Ela só parece estar dormindo – Disse com uma expressão que Mu jamais esperaria ver do brincalhão Kiki.

Os olhos verdes do ex-cavaleiro fitaram a moça. Realmente parecia apenas estar dormindo, longe de toda a confusão que acontecera nos ultimos tempos. Talvez o que todos ali nas 12 casas deveriam estar fazendo.

Era nisso que Urin pensava quando alcançou a sala de Gêmeos, encontrando Ana deitada no sofá com um dos braços tapando seus olhos.

- Ana! – A voz fria de Urin fez a mulher levantar de imediato.

- Urin? – Ficou susrpresa o rapaz a sua frente. Demorou a compreender que se aquele rapaz que não se movera pacientemente desde então, estava ali, era porque havia acontecido algo – Amanda? – Não precisava da pergunta completa. O piscar lento do outro já lhe deu a pista – Onde ela está? – Indagou levantando e se aproximando.

- Aries...

- Venha – Ordenou já se dirigindo para a saída. – Me conte pelo caminho...

Continuava abraçada as pernas, quando sentiu um cosmo aproximar. Escondeu o rosto entre as pernas.

- Está tudo tão calmo. – o cavaleiro sentou ao lado dela.

Ela não disse nada.

- Encontrei com Kamus, ele te dispensou do treino então pensei que estivesse aqui. – Sabia que aquele lugar era o preferido dela desde criança.

Continuou calada, por algum motivo que desconhecia estava com raiva dele.

- Não se preocupe a Amanda não está com raiva de você.

- Passei na sua casa hoje de manha. – Disse por fim.

O escorpião arregalou os olhos, não era possível que ela tinha visto...

- Fico feliz que esteja seguindo o meu conselho. – O fitou sorrindo.

- Trista... ela...

- Por que está se justificando? – Ainda sorria. – Só pegue mais leve, Tio Kamus quase teve um treco. – Riu. – É melhor eu voltar, mamãe deve está preocupada.

- Trista... – não sabia se ficava abatido por ela ter visto a cena, ou se a consolava com a historia da Amanda. – O que aconteceu... o seu pai...

- Não quero falar dele. – disse ríspida. – Nem do cavaleiro de Câncer. – Levantou. – Ate logo.

Miro assustou-se, Trista nunca referia-se ao seu padrinho nesses termos.

- Trista espera. – a segurou pelo braço.

Ela o fitou. O tempo pareceu parar naquele momento, uma brisa suave balançava os cabelos negros, Miro acompanhava os movimentos dele lembrando-se de cenas do passado.

- Me desculpe... – murmurou, pedindo por causa da cena que ela provavelmente viu. – Queria poder fazer algo por você e pela Amanda.

- Agradeço.

- Quero que fique preparada.

- Para que? – Estranhou.

- Bruno vai ser castigado, duramente castigado. Prepare-se para o pior.

- Uma expulsão? – A voz saiu entristecida.

- Não uma simples expulsão, banimento. Ele deixará de ser um cavaleiro e se transformará num homem comum, alem do mais nunca mais poderá por os pés aqui e nem conversar com alguém daqui.

Engoliu a seco, por mais monstruoso que fosse o gesto, ainda no fundo gostava dele, sabia que por baixo daquela postura cruel havia sentimentos e a possibilidade de não vê-lo mais...

- Eu... – Os olhos encheram de água. – eu...

Miro sorriu, era notável que Mascara da Morte era importante para ela. Num gesto carinhoso a abraçou, não colocou na frente seus sentimentos entre homem e mulher e sim o fraterno. Ela era a sua menina e como tal estaria sempre por perto para ajuda-la.

Era esse apoio que Amanda necessitava naquele momento...

Mal chegaram na entrada da primeira casa perceberam que algo não estava bem. O primeiro a entrar pela casa fora Saga que mal sentiu o cosmo de sua mulher não hesitara. Os de mais também não perderam tempo, encontrando na sala um Mu agitado e os dois jovens cavaleiros Urin e Kiki sentados no sofá, um ao lado do outro, pensativos.

- Onde está Ana? – A voz de Saga saiu mais alta do que pretendia, acordando os que já se encontravam presentes.

- Lá dentro – Um iniciou, mas não completou pois saga já se encontrava na porta do corredor. Sua agilidade e velocidade lhe ajudaram a chegar a tempo de barrar o mais velho – Espere Saga – Disse fazendo o outro lhe fitar contrariado – Ela está lá dentro com Amanda.

- O que Amanda está fazendo na casa de Áries – Kanon se precipitou para o centro do salão fitando Kiki.

- Pensei que ela estivesse em Sagitário – Shura comentou.

O rapaz com cara de poucos amigos se limitou a fitar, sem interesse, todos os olhares que vieram em sua direcção, pois não importava os devaneios daqueles homens, estava mais interessado no que estava se passando lá dentro do aposento privado daquele templo, onde Ana esperou paciente que Amanda acordasse.

A ruiva despertou sem pressa e não estranhara o local onde estava, o que fez Ana desconfiar.

A boca seca lhe incomodava e a escuridão com que sonhara abandonava sua mente, dando lugar a uma luz fraca que entrava a sua esquerda.

Mordiscou o lábio inferior, enquanto tentou se mover, mas uma forte dor no interior de suas coxas a fez gemer, retorcendo os músculos de seu rosto.

- Estava começando a ficar preocupada – Ana comentou mais para que a moça percebesse que não estava sozinha. Amanda voltou o olhar para onde vinha aquela voz tão seria.

Mas a imagem da mulher fora ofuscada pela lembrança de um mar revolto que invadia seu corpo e lhe arrastava para uma dança que não queria participar. E junto com essa lembrança a dor intensa que parecia lhe rasgar…

- Amanda! – A voz calma de Ana lhe chamou de volta. Mas não queria saber de estar ali com ela. Se sentia tão sozinha e perdida como da primeira vez que colocou os pés naquele lugar, de tal forma que não conteve a vontade de chorar.

Tinha clara percepção do que de facto havia acontecido que se sentia envergonhada e suja. Ana vira a moça se sentar na cama, apoiando as costas no travesseiro encostado na parede. Em um gesto rápido, abraçou as pernas afundando o rosto entre os joelhos.

Ana sentiu o coração apertar. Se aproximou com cuidado e com delicadeza acariciou a cabeça da moça que nem se quer lhe fitava.

- Eu estou aqui minha querida – Disse num sussurro – sempre que quiser falar…

- Eu não quero – A ruiva dissera com a voz embargada. Não queria falar com a mulher de Saga.

Ana ponderou se afastar. Claro que Amanda não lhe falaria… para todos os efeitos, ela e Trista tinham tudo que Amanda não teve e mais desejava ter.

Diante deste facto Ana não sabia como reagir. O pranto da moça parecia por segundo descontrolar-se, assustando a mais velha. Tentava imaginar o que poderia causar tal sofrimentos. Tinha certeza que algo mais havia se passado, além do que acontecera no dia anterior. Via Amanda tão desesperada e acuada que apenas sabia que tinha que chamar alguém. Trista não poderia ser por motivos óbvios, além de ter partido logo cedo para uma viagem com as amigas.

- Amanda, quer que vá chamar alguém? – Indagou ainda baixo, como se não a quisesse assustar.

Vira a menina balançar a cabeça positivamente, sem levantar o rosto ainda escondido.

Ana mordiscou os lábios.

- Quer que chame Afrodite?

Vira que a resposta foi negativa.

- Kanon?

Novamente recebera um não como resposta.

- Minha linda eu não sei o que fazer se você não conversar comigo… - Disse emoldurando a cabeça de Amanda em suas mãos.

- Chame o Bruno – A voz saiu tão baixa que Ana teve a impressão de não ter ouvido direito.

- O que?

- Meu pai. Eu quero meu pai!

A mais velha demorou a processar a informação. Seu coração disparou, ao mesmo tempo que sentiu as mãos suarem.

- Tudo bem – Disse sem conter um pequeno sorriso que despontou no canto direito de seus lábios. Não tardou a sair com medo que Amanda pudesse mudar de ideia. Por segundos pensou que a italiano pudesse ter, com tudo que lhe aconteceu, fosse o que fosse, esquecido o dia anterior.

Quando entrou na sala, não se assustou com a recepção que teve, de olhar atentos a espera de uma notícia. Seu marido se encontrava mais a frente, lhe fitando serio.

- Ana…

- Onde está Urin? – Ignorou Saga, olhando para todos os lados.

- Na cozinha com Kanon – A voz de Aioria saiu disparada.

- Como ela está? – Kiki quis saber.

- Não sei ao certo – Disse constrangida – Abalada…

- Como assim?

- Ela não quis falar comigo – Voltou-se para responder Afrodite. Saga pode perceber um pouco de mágoa na voz da brasileira e, logo percebeu que era mesmo o grande culpado, pelo olhar frio que recebeu logo em seguida.

- Talvez ela fale comigo – Afrodite se aproximou, mas foi barrado pelas mãos de Ana, que se puseram na altura de seu peito.

- Não. Ela quer o MM.

- O que? – A indagação de Saga sobrepôs-se a dos de mais.

- Afrodite – Ana começou ignorando os olhares, alguns ásperos – Você poderia ir chama-lo?

Um sorriso satisfeito foi a resposta que esperava.

Como era tolinha aquela menina por achar mesmo que poderia odiar Mascara da Morte, esquecendo que apesar de tudo seu amor já tinha raízes muito mais profundas. Apostara logo que ela não demoraria a perdoa-lo, só não imaginou que seria tão rápido.

Kanon também sabia isso, apesar de não ser tão optimista quanto Afrodite e, mal soubera que Urin e Kiki a resgataram, chamara o Cavaleiro de Sagitário para uma conversa franca na cozinha de Áries.

Urin, sentado ao redor da mesa redonda de frente para Kanon demorou a se sentir minimamente confortável.

O homem a sua frente parecia lhe examinar minuciosamente.

- Onde vocês a acharam? – A voz grossa quebrou o silêncio como um trovão, fazendo Urin estreitar os olhos. O rapaz sabia que no momento que respondesse, o irmão de Saga saberia o que tinha ocorrido antes da sua chegada e a de Kiki.

Mordeu os lábios ao constatar que o mais velho estava ficando sem paciência.

- Na praia… - Não precisou completar. Kanon deu um murro na ponta da mesa, estilhaçando esta. Levantou furiosos e começou a andar de uma lado para o outro, enquanto o mais novo lhe fitava com interesse.

- Kanon…

- Como ela foi parar lá, Cavaleiro de Sagitário? – Kanon parou bruscamente para fitar o mais novo que desviou o olhar, voltando a fita-lo quando ouviu um sonoro suspiro. Vira o homem serrar os punhos. Estremeceu os membros e arregalou os olhos como que levado um choque.

- Poseidon! – Disse entre dentes.

Sabia perfeitamente do porque de Amanda ser encontrada no estado que fora encontrada. Apenas os outros não haviam se dado conta. Nem mesmo Afrodite que chegara rapidamente na escada que dava acesso ao templo de Câncer. Mascara da Morte como previsto não fora treinar e o Cavaleiro de Peixes sabia que, provavelmente, este estaria dormindo ou na sala ou em seu quarto, provavelmente, aparentando uma tranquilidade extrema.

Sim, aparentando, pois Afrodite sabia, também, que com o passar dos anos Mascara da Morte fora aprendendo a se apegar naquela menina chorona por mais difícil que isso lhe pudesse parecer.

Primeiro com Ana, no qual foi um choque para todos, mas, principalmente, para ele mesmo que conhecia bem as faces do Cavaleiro de Câncer.

Psicologicamente ele deveria ter alguma perturbação no qual Afrodite sabia que o nome científico não era muito agradável: sociopatia. Não no seu extremo, mas considerável.

Perguntava-se se Mascara da Morte era realmente incapaz de amar? Se não era, era incapaz de demonstrar. Mas como isso não se reflectia em relação a Trista?

Ele era capaz de matar qualquer ser, de qualquer idade sem mostrar arrependimento. Mesmo com o perdão de Athena, ele não mostrou que se arrependeu de tudo o que fizera. Incrível, apenas agora se recordar deste facto.

Apenas conseguia admitir que Trista, Ana, Amanda… três pessoas que não sabia exactamente o que representavam para Mascara da Morte, tinham algum significado. Talvez apenas vontade de se sentir mais humano, algo que ainda lhe integrasse na elite de Athena para conseguir um propósito.

Bem, não era caso de pensar nisso agora. Já se encontrava na porta do quarto., estranhando a presença de mais um cosmo.

Sem cerimónia abriu a porta e mirou a cena com raiva. Deixou-se levar por ela quando a mulher de corpo nu se voltou deitando a cabeça no ombro de Mascara da Morte.

Com rapidez foi para o lado da cama onde se encontrava Mascara da Morte e arrancou o lençol com força, fazendo os dois sobre a cama saltarem.

O escândalo feminino iniciou-se com insultos enquanto tentava cobrir o corpo com as mãos. Afrodite jogara o lençol para a mulher que continuava a injuriar alto…

- CALE A BOCA! – Mascara da Morte voltou-se com violência, fazendo o silencia retornar.

- Mas…

- Se não quiser ter a cabeça pendurada no lustre, fique calada! – Ordenou com os olhos estreitos. A mulher pasmou, enquanto os olhos azuis furiosos se voltavam para Afrodite que continuou no mesmo local – O que pensa que está fazendo?

- Vista-se – Afrodite disse imperativo

Mascara da Morte pensou num insulto.

- Amanda está com problemas – Completou e por segundos o semblante de Mascara da Morte se alterou para algo que Afrodite considerou preocupado.

- Parece que é grave Mascara da Morte

Essa foi frase que despertara algo em Mascara da Morte que o fez reagir de imediato, recolhendo algumas roupas pelo chão e saindo rapidamente pela porta. Afrodite ainda mirou a mulher com desprezo antes de sair.

- Mascara da Morte! – A mulher chamou, mas não adiantou.

Por mais que Afrodite tentasse puxar assunto não conseguia arrancar uma palavra da boca de Câncer que seguia caminho a passos largos.

Ao contrário das outras psicopatias Mascara da Morte mostrava sentimentos que se aproximavam do amor, no qual poderia ser diagnosticado como dependência. No caso Trista seria seu único refugio para aquilo que o atormentava. Precisava se sentir normal? Sentir-se mais humano? Se fosse, seu sentimento mudara com a chegada de Ana.

Ah, grande criança assassina. Nada sentira pela própria irmã, além dos harmónios fervilhantes da puberdade. Conseguira fingir ser algo que não era para obter o que queria.

Então qual era o papel de Amanda na vida dele?

Um pensamento fizera Afrodite parar bruscamente: Teria Amanda o mesmo papel de sua mãe?

O outro não se deteve com a falta de Afrodite, que engolira a seco sem conseguir se mover. Sua cabeça doía enquanto via Mascara da Morte se afastar cada vez mais.

Foi para a surpresa dos presentes que Mascara da Morte passou pela porta de acesso a sala e não olhara ninguém. Dirigiu-se directamente a Ana, fazendo Saga lhe fuzilar com os olhos.

- Ela está no quarto lhe esperando – A voz doce pareceu oscilar.

Não obteve resposta. Mascara da Morte seguiu directo pelo corredor parando diante da única porta que se encontrava fechada. Colocou a mão cuidadosamente na maçaneta, sem conseguir logo abri-la. Tinha dúvidas se queria de facto entrar naquele quarto. A imagem daquela manhã na Itália começava a lhe pairar na mente. Ana lhe assombrava não apenas nos sonhos como acontecia antigamente, mas estava em tudo o que fazia, o que olhava. Desgraçada!

Com força de vontade, virou a maçaneta e abriu a porta. Não teve tempo de reacção. A única coisa que não esperava daquele simples acto, não teve tempo se quer de respirar e perceber o que se passava. Apenas pode sentir um impacto em seu peito, enquanto dois braços lhe rodeavam fortemente.

Enquanto arregalou os olhos, moveu a cabeça, morosamente, para baixo, até encontrar a cabeleira vasta e ruiva de Amanda que enterrara seu rosto no peito largo de Mascara da Morte, soluçando baixo enquanto molhava a camisa branca e mal arranjada.

Não soube definir quanto tempo se passou até perceber quando foi a ultima vez que a sentira tão perto de si.

O cheiro de rosa que emanava de seus cabelos o faziam recordar o quão próxima era de Afrodite. Como era possível o Cavaleiro de Peixes ter se encantado com aquela menina boba tão facilmente? Logo ele, que não se interessava por nada que não fosse as suas estúpidas rosas e sua própria aparência. Todos pensavam que Afrodite tinha mudado de alguma forma, mas Mascara da Morte sabia que essa transformação não foi tão radical assim. Porém, Amanda era estimada por ele tanto quanto sua própria beleza. Estreitou os olhos. Claro, não era para menos. Sentindo-a nos seus braços, agora realmente tomara consciência de como aquela menina crescera… e de que maneira…

- Pai... - a voz saiu abafada, mas o suficiente para fazer o coração do canceriano estremecer. - pai...

Foi um gesto que jamais pensou em fazer, aconchega-la em seus braços. De olhos fixos nas cortinas que esvoaçavam com a brisa, apertou a moça em seus braços como que para não deixa-la escapar. Não iria deixa-la escapar nunca mais. Nem mesmo Afrodite conseguiria ter seu lugar.

Estreitou os olhos, voltando-os para baixo. Não era seu hábito baixar a cabeça de modo que não o fez. Ela continuava ali chorando e algo penoso invadiu sua alma. Porque chorava tanto?

Sem pressa afrouxou seus braços e segurou os ombros da moça para poder lhe afastar. Amanda hesitou antes de soltar o italiano. Ainda de cabeça baixa, tentava prender o choro. Passava a se recriminar por ter feito aquilo. Sabia perfeitamente o quanto Mascara da Morte odiava ouvir seus choros e ladainhas. Achava-a tão fraca que a desprezava. Trista era muito mais forte e durante muitas vezes na sua vida ouviu ele dizer isso frontalmente.

Ainda respirava descompassado quando sentiu a mão do homem segurar seu queixo e ergue-lo sem dificuldade.

Mascara da Morte lhe olhou nos olhos. Algo estava diferente. Não controlou os músculos do rosto que retorceram de forma nervosa, enquanto uma lágrima dela escorrera para a ponta de seu dedo.

Mas uma vez foi rápido mas não bruto, segurando Amanda pelos ombros e encaminhou-a para a cama, onde ela caiu sentada. O italiano não sentou, apenas se afastou um passo para lhe fitar bem.

- O que aconteceu, Amanda? – Pela primeira vez sua voz não saiu indiferente e Amanda pode perceber sua preocupação.

Ainda tentou se controlar enquanto ele aguardava impaciente a resposta.

- Não sei – sussurrou fazendo o homem estreitar os olhos – Desculpe lhe incomodar. Eu não sabia o que fazer…eu só… - Balançou a cabeça negativamente – Estava com medo.

A cabeça de Mascara da Morte moveu-se um pouco para o lado. Parecia desconfiado.

- Medo de que?

Novamente a vontade de chorar tomou Amanda de assalto e não pode se conter.

- De te perder!

Uma resposta tão simples e repentina que Mascara da Morte desarmara por completo.

Rápido, abaixou perante a moça, e a segurou pelos dois braços.

- Está louca! – Sussurrou lhe dando um pequeno abanão – Ainda ontem disse que não era minha filha…

- Eu não posso – A ruiva continuava a lutar contra as lágrimas – Eu não consigo. Eu te amo de mais…

Os olhos azuis se arregalaram.

- Eu sempre te dei o melhor de mim. Por mais que soubesse que você me odeie… - Dois dedos lhe calaram as palavras.

Rapidamente as duas mãos do italiano seguraram o rosto da ruiva. O rosto voltou a uma expressão normal…sádica? Amanda conhecia tão bem aquele sorriso que se formava.

- Você é minha, Amanda! – A voz voltava a um tom típico daquele homem, fazendo Amanda encolher – Nada vai mudar isso. Ninguém vai te tirar de mim.

- Bruno…

- Você ira comigo para onde eu for – Ignorou – Ninguém pode te defender como eu. Sabe porque?

- Por… - Foi impedida pelo dedo de Mascara da Morte.

Não era questão de perguntar. Ela deveria saber.

Nessa altura Amanda se mostrava perplexa. O que ele quis dizer com aquilo?

Ele não responderia. Rápido a pegou no colo, levando-a para a sala. Os olhos voltaram-se para a cena com dúvida.

- Ela volta para Câncer – Disse ríspido olhando para Urin que estava perto da porta da cozinha.

Este ia falar algo mas fitando a ruiva que não se movia, agarrada no pescoço do italiano, percebia que era isso que ela queria. Afinal ela precisava tanto dele como ele dela. Engoliu as palavras duras.

- Ela não vai a lado nenhum – Saga deu passo.

MM não respondeu.

E Saga não pode fazer nada, pois Ana se colocara na sua frente.

- Ana?

- Deixe – Disse calma – Deixem ele leva-la. – Vocês têm que se preocupar com a reunião com Athena e Shion.

- Quando ele for punido – Kiki começou preocupado, depois de ver Mascara da Morte sair do templo de Aries – O que acontecerá com Amanda?

Responda Ana. O que acontecerá? Eu diria que o pior está por vir. De nada adiantará se esconder atrás destes cavaleiros. De nada adiantará correr. Não há tempo…não há local…não haverá sorte no seu caminho ou de quem te cerque.

Você que sabe tanto…que sente tanto, ela é apenas uma outra face minha. Aquela que pretendo perder para sempre.

Nem você poderá salva-la…ninguém poderá. E ela te arrastará para o abismo.

Eu estarei aqui para ver!

Continua…