Ato IX: Conto de Fadas
Oh minha querida,
Agora eu não posso conter meu choro
Minhas lágrimas me afogaram
E me recuso a perceber
O que resta em minha volta, é tudo tão estranho, é
tudo tão escuro
Estou completamente sozinho aqui
Para juntar os pedaços do meu coração
Senhorita, seu conto tem um fim
Para o céu, o seu amado foi mandado
Ele se transformou em faíscas que brilham com as
estrelas...
...E à noite ele sempre estará lá
Para sua cuidar de sua fada
E assim ele nunca morrerá.
(Fairy Tale – Shaman)
p /p
Zz'Gashi ergueu-se, mas se manteve curvado. O padre parecia petrificado de pavor, enquanto Lílian não conseguia ter uma reação imediata. Por outro lado, os mexicanos se aprontavam para um confronto com o demônio recém chegado.
Manuel Bandeira parecia insanamente realizado, e gargalhava, os braços abertos. Desceu o olhar para Zz'Gashi, aos seus pés:
- Seja bem vindo, meu escravo! Zz'Gashi! Eu lhe saúdo, meu servo!
Ele esticou o amuleto para a criatura, sorrindo. Foi quando Zz'Gashi ergueu o furioso olhar brilhante e violeta, e, com um forte rosnado, lançou a mão direita para o alto, num potente golpe que acertou o queixo do bruxo em cheio. Por um instante quem estava na praia achou que Manuel tinha sumido no céu. Mas não, ele apenas foi violentamente arremessado pro ar, para cair metros atrás, na areia da praia, quase abrindo um buraco. Imediatamente Zz'Gashi se pôs a caminhar até onde estava Manuel. Até o jeito de andar sobre a ponta dos pés, veloz, balançando o corpo, lembrava algo como um dinossauro.
Foi quando Lílian reagiu, e disparou numa corrida até o bruxo desacordado. Em linha reta, ela saltou nas costas de Zz'Gashi, derrubando-o, e de novo saltou, chegando até Manuel Bandeira, que estava desmaiado, com o maxilar torto, quebrado, sangrando, sem alguns dentes. Imediatamente Lílian arrancou de sua mão o amuleto, e deu alguns passos para trás, girando o corpo para ficar de frente para o demônio. Mas Zz'Gashi não estava mais lá, onde caíra. No seu lugar, apenas o fofo monte de areia feito pelo seu corpo ao cair.
- ...Pra onde ela foi? – murmurou Lílian, olhando para os lados.
- ...Na... na areia! – gemeu Joaquim, suando. Sua careca reluzia de suor sob a luz da lua, tamanha aflição – Ele... ela... encovou-se!
Lílian prendeu a respiração. Não moveu um músculo. Deixou seus sentidos á flor da pele, os olhos deslizando pela areia atrás de qualquer movimento. Foi quando pressentiu alguma coisa debaixo de seu pé esquerdo. Bem a tempo, Lílian saltou de lado, quando, da areia, fazendo um estridente barulho, uma série de espinhos grossos e afiados como navalhas apareceram cortando a areia numa linha reta e curta. Aquele ataque estraçalharia sua perna num piscar de olhos. Agora, ela tinha certeza do perigo que corria ali, sozinha.
Dois mexicanos saltavam para a areia, correndo na direção de Lílian. Onde eles carregavam seus instrumentos, também servia para guardar armas pesadas, muito parecidas com as armas dos trouxas, mas que, obviamente, eram enfeitiçadas.
- Donzela! Afaste-se!
- Amigo, cuidado! – exclamou um segundo, saltando para o lado e apontando a arma para a areia. O amigo foi esperto o suficiente para saltar para frente, no exato instante em que uma fileira de espinhos rasgava a areia, e seu companheiro despejava uma série de tiros no lugar. Sem sucesso, ele esbravejou – Demônio dos infernos! Apareça, covarde!
"Covarde" foi a ultima palavra pronunciada pelo pobre latino. Porque duas fileiras de espinhos apareciam ao seu lado, se cruzando em "X" no chão, literalmente rasgando e moendo o homem da cintura pra baixo.
- Minha Nossa Senhora de Guadalupe... – murmurou os outros, que ficaram na praia.
- GABRIEL! – gritou o amigo, virando-se e correndo até o companheiro morto. No instante seguinte Lílian saltava no ar, agarrava-se à gola do homem e os dois pulavam para longe de outro ataque de espinhos.
Os outros mariachis, com suas armas, corriam para a praia. Lílian, por sua vez, correu na direção deles:
- Isso irá irritá-la ainda mais! – gritou – Não a ataquem, eu posso tentar...!
Uma fileira de espinhos roçou sua perna, e ela saltou, tão alto que foi agarrar-se ao topo de um dos coqueiros da praia, inclinado por ter nascido entre algumas rochas. Imediatamente ela percebeu que o espinho tinha rasgado a calça que usava, e cortado sua pele. O ferimento ardia sem parar. Voltou a olhar para a praia, onde os mexicanos se espalhavam, disparando suas armas pela areia, sem parar, escapando de um ou outro espinho que surgia aleatoriamente. Reverendo Joaquim veio correndo na direção de Lílian:
- Senhorita Evans! – exclamou, aflito – Feriu-se! Ele pode ser venenoso!
- Não se aproxime, reverendo! – gritou Lílian – Fique longe!
Um espinho surgiu veloz, do chão. Joaquim soltou um agudo gritinho e se encolheu. Deu dois passos para o lado e outro espinho cortou a areia. Ele, de novo, deu outro gritinho, girou e escapou de outro terceiro ataque. E, assim, cambaleando e dando gritinhos, o padre escapou de inúmeros ataques de Zz'Gashi, e Lílian teve certeza de que, de fato, Deus estava ali empurrando o padre de lado para outro. Ou ele já teria sido cortado há tempos.
Os mexicanos perceberam a concentração dos ataques e correram com suas armas em punho, apontando para o chão abaixo do padre. E dispararam sem dó.
- EM NOME DO SENHOR, PAREM! – gritou o padre, agora saltando muito mais que antes – PAREM! PAREM DE ATIRAR NUM POBRE SERVO DE DEUS!
Os mariachis, de fato, pararam. Ao redor do ofegante padre, inúmeros sinais dos tiros e dos espinhos de Zz'Gashi. O padre, arfando, gemeu, com raiva:
- Pelo amor de Deus, senhores! Estão achando que sou o quê, um mexican jumping bean!
- Perdão, senhor. – pediu um dos homens. Eles se olharam e se afastaram. Silencio na praia. – Onde foi aquele demônio...?
Lílian, que assistia tudo de camarote, do coqueiro, olhou para o alto e percebeu que agora as nuvens haviam voltado a serem os comuns grandes blocos de nuvens, e pairavam no céu, empurrados pelo vento. E, no momento, a lua azul estava escondida por uma das nuvens.
- Ela não vai sair enquanto a Lua estiver assim! – disse Lílian.
Os homens então formaram um círculo, recarregando suas armas. A lua lentamente voltava a brilhar. Lílian saltou ao chão. Imediatamente Zz'Gashi surgiu da areia, saltando veloz, na frente de um dos mexicanos, que usava uma enorme escopeta de cano duplo. Ele imediatamente armou a arma e - BUM! - atirou bem no peito da criatura, num barulho e num impacto muito maior que até mesmo uma bazuca de um trouxa. Mas Zz'Gashi girou no ar, e caiu de pé, sem sequer ter arranhado a grossa casca que tinha protegendo seu peito. Com um bote, agarrou o homem pelo pescoço e o ergueu. Ele colocou a pesada arma na barriga do bicho e atirou. A arma explodiu, acabando com as mãos do pobre coitado, e mais uma vez apenas chamuscou a barriga do poderoso demônio. Zz'Gashi rosnou e enterrou os dedos no pescoço do bruxo, largando-o no chão, agonizando. Ergueu o olhar para os outros dois bruxos, que descarregaram a munição nele. O impacto das balas, que brilhavam e riscavam o ar feito feitiços mágicos explodiam no corpo dele, e o envolvia em uma grande nuvem de fumaça cinza.
Por um instante eles pararam, sem munição. Olharam a fumaça, se dissolvendo lentamente. Nenhum movimento.
- ...Nós o matamos? – perguntou um deles.
Obviamente, não. Zz'Gashi avançou, saindo da nuvem cinza, saltando para o ar. Pulou no peito de um deles, perfurando-o com incontáveis espinhos, de tamanhos e espessuras diferentes. Em seguida mais uma vez saltou para o ar, fazendo os espinhos desaparecerem, e pousou com os dois pés sobre o peito do outro mexicano. Enterrou os espinhos que saíram de suas pernas nas costelas dele, e jogou o peso do próprio corpo no chão, pondo as mãos na areia e lançando o outro homem com força no terreno, espalhando areia para todo lado. Mais uma vez saltou, girando no ar, pousando suavemente na areia. Curvado mais uma vez, Zz'Gashi olhou ao redor, como se procurasse a próxima vítima.
Tinha três opções: Padre Joaquim, tremendo dos pés à cabeça, agarrado ao seu crucifixo; o último mexicano, curiosamente aquele que havia conversado com Leah na festa; e Lílian. O demônio preferiu aquele que também estava atacando, o mexicano. Diferente do caminhar ou andar depressa, para correr Zz'Gashi curvava-se e corria usando as quatro patas, por assim dizer. E corria como um felino, movendo dois membros quase ao mesmo tempo, imprimindo um grande impulso. O mexicano carregou sua arma, mas não parecia ter coragem de atacar aquela criatura que pouco tempo atrás era aquela divertida bruxa no baile.
- Yo no quiero ferir-te, doncela! – exclamou o homem.
Zz'Gashi saltou, mas no meio do caminho foi atingido por um poderoso feitiço, que o jogou de costas. Lílian gritou, se aproximando:
- Tire o Senhor Bandeira daqui, mexicano! Ele está vivo, fuja com ele e fique em segurança!
O homem fez que sim com a cabeça, e correu até o português. Imediatamente Lílian virou-se para Zz'gashi, que se erguia, bravo. Respirava ofegante, olhando a bruxa fixamente, com as presas à mostra, como um animal feroz.
Lílian respirou profundamente, sentindo-se tremer, e murmurou:
- ...Agora, Leah, somos só nós duas.
Zz'gashi chiou, e começou a andar em círculos. Lílian, também. Ela percebeu que a cauda da criatura, cheia de perigosos espinhos, balançava de um lado para outro, jogando muita areia para os lados, arrastando no chão, já que estava na posição ereta, sobre os membros traseiros. Ele inteiro era uma arma, pensou Lílian. Das suas costas saíam pares de longos espinhos que se mexiam como membros adicionais, igualmente afiados e rígidos. De seus braços, costas, mãos, pés, caudas, outros inúmeros espinhos ameaçavam quem poderia se aproximar. Fora os infinitos espinhos que ele fazia surgir e desaparecer de qualquer lugar do seu corpo, ao seu comando.
Ele atacou. Curvou-se e correu na direção de Lílian, que se preparou para defender. Sacou a varinha e, com um desenho á frente de seu corpo, fez sua roupa dar lugar ao mágico e poderoso uniforme de Auror Supremo, fazendo o padre soltar um "ooohhh". Foi bem a tempo, pois Zz'Gashi enterrou os longos braços no chão, e ao invés de ataca-la com as garras, lançou as pernas, usando os braços de alavanca, atingido o peito de Lílian com os dois pés, lançando-a a alguns metros de distância.
Lílian, por reflexo, desaparatou, e Zz'Gashi rasgou apenas a areia com suas afiadas garras. No instante em que Lílian reaparecia, o demônio voltava a se encovar.
- Fugir é feio! – gritou Lílian, no instante em que lhe ocorria uma idéia: talvez ele não pudesse surgir num terreno mais duro. E, assim, correu na direção das ruas da cidade - Fugir é feio, mas... FUJA, reverendo! – exclamou Lílian para o padre, que já corria pra longe da praia.
Lílian saltou para uma das ruas da cidade, e parou entre os armazéns do cais. O padre parou na mesma rua, porém, duas quadras à frente.
- ...Acho que ela não vem. – murmurou Lílian.
Mas veio. Zz'Gashi lançou ao ar as pedras maciças da rua sem esforço algum. E saltou sobre Lílian, que se virou bruscamente. Mas ele a ignorou, e correu atrás do padre, que ao ver aquela aterrorizante criatura saltar pelo chão na sua direção, caiu de costas, tentando fugir, apavorado.
- Não faça isso! – exclamou Lílian, disparando na direção de Zz'Gashi – LEAH!
- ..A senhorita está lhe chamando, Leah... – murmurou o padre, arrastando-se de costas no chão. Zz'Gashi cada vez mais perto – Não escutou Lílian, senhorita Leah? Não é você, a nossa Leah? Escute Lílian! – e apontou para Lílian.
Após ver o padre indicar suas costas, Zz'Gashi saltou, e ficou no ar, com a cabeça virada para o chão, literalmente de cabeça para abixo, durantes alguns instantes, no ar. Sorriu ao ver Lílian correndo e moveu as mãos violentamente na direção dela. E como esperado, inúmeros e velozes espinhos espirraram na direção de Lílian.
Lílian pôs as mãos na frente do rosto, e defendeu os ataques com o bracelete de auror, que, para sua felicidade, resistiu aos espinhos. Mas, ao tirar os braços da frente, percebeu que Zz'Gashi estava á sua frente, de pé, a esperando. E, em pleno ar, dois espinhos grossos como lanças na sua direção. Um ela desviou. O outro atingiu em cheio seu ombro, a jogando de costas no chão. Com um gemido abafado de dor, ela arrancou o espinho, e viu Zz'Gashi pronto para lhe atacar no chão.
- Você está aí, em algum lugar, Leah! – exclamou, dolorida.
O demônio a agarrou pela gola da blusa branca e a ergueu no ar.
- Por favor... – murmurou – Acorde, Leah.
A resposta foi dada por um sorriso malvado. Zz'Gashi, com o outro braço, segurou a cintura de Lílian, e, sem dó, a lhe jogou contra a parede grossa de pedra do armazém. A parede inteira se rachou, e Lílian gemeu de dor. Não satisfeito, Zz'Gashi a jogou na parede oposta, sem larga-la, e assim saiu, espremendo a jovem contra as paredes, as caixas de madeira, os barris, o chão. A largou no chão, se contorcendo de dor. Lílian virou-se de bruços, se erguendo. Foi quando, para sua surpresa, escutou a voz de Zz'Gashi. Uma voz grossa, rouca, completamente diferente de qualquer voz que se possa ouvir. Se havia um tom de voz para um demônio, era exatamente aquela. Lílian sabia que, mesmo se alguém tapasse os ouvidos ou perfurasse os tímpanos para ficar surdo, aquela voz iria ressoar em sua própria alma, fazendo a pessoa se arrepiar de pavor:
- A quem você tanto chama, menina?
Lílian, por um instante, olhou fundo nos olhos violeta de Zz'Gashi, e sussurrou, mesmo percebendo o imenso vazio que havia detrás daquele brilhante olhar:
- ...Leah. Era quem... você foi, um dia.
Zz'Gashi riu, de boca fechada. Lílian se levantou, e ele completou:
- Tens certeza de que chamas por alguém que eu já fui um dia?
Lílian sentiu um sopro de pavor lhe percorrer a alma. O sorriso do demônio desapareceu, e ele bateu a palma da mão no peito de Lílian. O que outrora faria explodir o tórax da vítima e espalhar pelo chão e pelo ar o que tinha em sua caixa torácica, limitou-se apenas a uma violenta explosão, que lançou Lílian de costas na parede do armazém. A parede cedeu. E a próxima. E a próxima. E a próxima. E só foi parar entre as redes de pesca do terceiro armazém. A auror escutou os ossos estalarem, tamanho impacto. Abriu os olhos e viu Zz'Gashi saltando entre os escombros, pronto para o ataque. Ela, então, decidiu reagir.
O demônio vinha saltando pelo ar, pronto para lhe atingir em cheio com o punho direito. Lílian se ergueu entre os escombros, toda cheia do pó das pedras, e fez o mesmo: fechou o punho direito com força, rangeu os dentes, e também atacou. O punho dos dois bateu de encontro um ao outro, ecoando pelo armazém um forte estalo, levantando poeira.
Rapidamente Zz'Gashi revidou, enquanto os dois ainda permaneciam curvados, saindo do primeiro impacto, erguendo o punho esquerdo. Lílian o desviou habilmente com a mão esquerda, e também revidou, novamente com o punho direito. Foi a vez do demônio também desviar. E, em seguida, seus golpes e contragolpes já nem eram vistos por um olho comum. Tentavam se atingir e defendiam com uma velocidade tremenda, tendo como prova de que se atacavam o som dos golpes e a poeira dos escombros que levantava enquanto se atacavam e se atingiam. Zz'Gashi parecia realmente perturbado de ver uma bruxa literalmente brigar com ele de igual pra igual. Os ataques não cessavam, e eles não tinham se movido nem mais do que alguns centímetros. Os impactos dos golpes os impediam de se distanciar muito. Quando o punho esquerdo de Zz'Gashi passou de raspão no lado do rosto de Lílian, e ele se curvou, ela não perdeu a chance: juntou toda a força que tinha no punho direito e atingiu o rosto do demônio em cheio, deixando um rastro de luz á sua frente, até a hora de estourar centenas de estrelinhas brancas no rosto da criatura. Assim que Zz'Gashi tombou momentaneamente, Lílian saltou para trás, na parede, e pegou impulso para saltar nos ferros do telhado do armazém. Segurou com as duas mãos e girou no ar, para se pôr de pé numa das vigas horizontais. Zz'Gashi se ergueu e a fitou com ira, e pegou impulso para saltar. Lílian, então, se lançou no ar e esticou o braço para se pendurar na próxima viga cruzada no teto do grande depósito. Mas não deu tempo.
Zz'Gashi atingiu Lílian no ar, e acabaram quebrando o telhado e indo parar em pleno ar da madrugada, quase como um potente foguete. Lílian conseguiu se desvencilhar do rival, pôs um pé no seu ombro, e tomou impulso para trás, preferindo cair em queda livre. Mas o rival havia desaparecido, quando ela olhou para o lado.
- ...Sumiu...? Ah! – exclamou, ao olhar para cima. O demônio estava em cima de sua cabeça, com as duas mãos unidas, erguidas. E, sem dó, atingiu as costas de Lílian, com um impacto mágico pior que o soco que havia levado. Lílian tentou girar no ar, mas não teve tempo e caiu de costas no chão, em frente à pequena igreja, fazendo o chão inteiro se quebrar e seu corpo bater no calçamento e voltar mais uma vez pro ar, dessa vez a apenas um metro e pouco de altura, como se quicasse.
Por fim, caiu de bruços, mais uma vez se contorcendo de dor. Zz'Gashi aterrisou como um gato, também rachando o solo, mas aparentemente sem sentir nada.
Lílian, mais uma vez, só conseguiu erguer o olhar trêmulo para Zz'Gashi, que sorriu ao perceber que a bruxa começava a sangrar pela boca depois do impacto. Mas, com um impulso, Lílian se pôs de pé, visivelmente sem equilíbrio. Ver que, de repente, os olhos verdes da bruxa pareciam brilhar como esmeraldas, contrastando com seu corpo cheio de pó branco das pedras e do vermelho vivo do seu sangue, pareceu "ofender" Zz'Gashi, que esticou as duas mãos na frente de Lílian e, com um feitiço que mais parecia um canhão de luz negra contornada por relâmpagos, a arrastou metros pela rua, arrebentando as pesadas portas de madeira da Igreja e lhe jogando de costas no altar, destruindo-o.
Instantes depois, a poeira já havia baixado, e Lílian agora balançava a cabeça, aparentemente recobrando os sentidos.
- ...Leah... – sussurrou, tossindo – Não pode ser verdade...
Nisso, ela novamente ergueu o olhar, e viu Zz'Gashi na porta da igreja. Ele olhou dos lados e veio caminhando calmamente pelo centro do lugar, olhando ambiente ao redor. Ergueu as mãos, e, de frente pro altar, disse, desafiador, para Lílian:
- Onde é que está vosso Deus Todo Poderoso?... Como Ele pode permitir que um Demônio pise em sua casa?
Zz'Gashi sorriu. Ele era mesmo tudo o que poderiam dizer dele. Aliás, ele era pior. Se havia mesmo uma entidade chamada de demônio, ele realmente seria bem parecido com aquela criatura à sua frente, pensou Lílian. Ele, então, gargalhou, e ergueu as mãos para o alto, enchendo a igreja daquele mesmo ataque cheio de relâmpagos, fazendo toda a construção vir abaixo.
Reverendo Joaquim andava pelas silenciosas ruas do vilarejo na madrugada. Não escutava nem via mais nada, nem sinal de batalha, de absolutamente nada. Até que ele chegou á pracinha que havia antes da sua capela.
- Ah, meu Senhor... – lamentou-se, vendo que sua igreja agora era um amontoado de destroços, entre tijolos, reboco, vitrais coloridos, madeira e imagens sacras.
Correu entre os destroços, e soltou um "ah! Graças a Deus!" ao olhar para o altar. Lá, debaixo da única estrutura de pé – um pedaço do altar, com o fundo pintado de azul e nuvens brancas, e o que restara da imagem de São Francisco, estava Lílian, sentada, de cabeça baixa. Padre Joaquim se aproximou, ansioso por vê-la. Pôs-se a tirar os pedaços de madeira e pedra que estavam sobre sua perna.
- Graças a Deus, você está viva! Não imagina o quanto estive angustiado...! Deus nos salve dessa maldição, deste terrível demônio!
Foi quando ele ergueu o olhar para Lílian. Ela estava de cabeça baixa, sua franja e seu cabelo ruivo, empoeirado, tampando-lhe quase o rosto todo. Tinha muitos arranhões e cortes. Sua boca tinha ainda o rastro do sangue, que ás vezes pingava do seu queixo, porque ainda tinha um profundo ferimento no supercílio, que não parava de sangrar. Mas, em meio à poeira e ao sangue, várias insistentes lágrimas abriam caminho, limpando seu rosto, enquanto ela mordia o lábio inferior com força, e seu queixo insistia em tremer. Ao ver que ela chorava, ainda que silenciosamente, o padre não evitou que também quase se emocionasse. Pensou alguns instantes, para em seguida dizer, desolado:
- ...Minha filha... não fique assim. Imagino o quanto seja difícil para você enfrentar tudo isso. – ele parou, e suspirou, por fim – Mas, infelizmente, sabes bem que nossa atrevida Leah não existe mais. Agora, há apenas Zz'Gashi. Vamos nos erguer, Lílian, minha amiga. Precisamos fugir e arrumar um lugar para ficar.
Lília ergueu o olhar, piscou e olhou o padre, que, engasgado, lamentou:
- Esta minha pequena vila não é mais um lugar seguro. Vamos sair enquanto é tempo.
N.A1: Olha eu brotando dos cafundós de Minas pra atualizar a MdE. Mas digo que foi sofrido esse sopro de inspiração e faniquito rpa escrever, o pc da minha mãe é péssimo, a tecla hora agarra letra, ora não tecla. Então, se a qualidade ortogáfica da MdE já era ruim, dessa vez estará pior. Hehehehe
N.A2: Aqui não é lugar de falar da EdD, mas já digo que não, ainda não fiz nada da série, e nem estou com saco pra fazer. Preciso de um dia de realmente faniquito de inspiração pra pegar a série e recomeçar ela de vez. Acho que é porque agora que "já tem HH na fic", eu tenho que começar a fazer ela "ir pro fim", enquanto antes eu tinha só que "fazer o Harry ficar com a Hermione". Isso dá uma preguiça do caramba.
N.A3: Quanto ao 'concurso' que eu penso em fazer com os cds da trilha da FdN e da MdE, muito provavelmente vou colcoar uma categoria "fic". Então, turma do L2, comece a fazer a cuca funcionar, se vcs estiverem animados. Ficarei feliz de ver os leitores participarem. D
N.A4: Ah, muita gente deve ter estranhado o comentário do Padre Joaquim sobre os "feijões mexicanos saltitantes". Na verdade aquela expressão é bem conhecida dos jogadores de GTA San Andreas. Há uma missão em que você dirige uma moto para que seu cunhado César pule na carroceria de uma carreta numa alto estrada. E sempre que você está longe para ele pular, ele fica gritando com sotaque latino "Closer, CJ, closer! Do you think that I am a mexican jumping bean!" Na verdade nem sei se está certa a frase em inglês, mas ele grita isso mesmo "mais perto, CJ, mais perto! Você acha que eu sou o quê, um feijão mexicano saltitante?". É, é só uma piadinha tonta. Mas vcs sabem, minhas fics são cheias disso, hehehehe.
N.A5: É isso. Até o próximo capítulo! E antes que eu me esqueça... Zz'Gashi ROX. Ririririri xD
