APENAS AMIGOS?
por Nina Neviani
Capítulo IX
10 de julho
Dia do casamento. Não! Não do meu casamento. Ainda.
Dia do casamento do Seiya e da Saori.
Aiolos já está me esperando na sala. Continuo namorando o Aiolos. Entretanto, a cada dia percebo que o sinto por ele está mais perto da amizade do que eu deveria sentir por um namorado. Nosso namoro continua o mesmo de um mês atrás. A única diferença é que o Aiolos, desde que voltou do Congresso, está meio distraído. Lógico que ele não soube nada do que aconteceu entre mim e o Ikki. Só que eu desconfio que ele tenha conhecido alguém no Congresso. Essa suspeita não me faz arrancar os cabelos como era de se esperar, pelo contrário... me deixa até um pouco aliviada. Porque eu não tenho a menor idéia de como terminar o meu namoro com ele. E muito menos de como justificar o fim do namoro.
No momento, porém, a minha maior preocupação é o casamento.
Não... a minha maior preocupação mesmo são os sapatos.
Os terríveis sapatos.
Na vitrine da loja eles pareciam as coisas mais lindas do mundo. Continuam lindos, não nego, e sem dúvida, merecem a boa parte do meu salário que me custaram. Mas, só agora percebi que eles são assustadoramente altos.
15 centímetros.
Salto agulha.
E tudo por culpa de quem?
Ikki Amamiya!
Ele é um dos padrinhos do casamento. Justamente o padrinho que faz par comigo. Por que, além de irritante, arrogante, sarcástico, e outras dezenas de qualidades, ele tem que ser alto? Tão alto.
Resultado: Mesmo eu com 15 centímetros a mais, fico outros 15 mais baixa que ele. Isso, se eu conseguir me equilibrar naquelas coisas.
"Força, Minu Setsuna. Você consegue!"
Quem sabe se eu fosse repetindo essas palavras até a igreja eu conseguiria passar a noite inteira sem virar o meu pé nenhuma vez.
Menos, Setsuna.
Tudo bem... já fico feliz se voltar pra casa sem nenhuma fratura.
Aiolos estava lindo.
Certo, ele já é lindo. E, a julgar pelo olhar do Aiolos, eu não estava feia.
– Minu, você está linda e... alta.
– Obrigada. Você também está lindo. E estou alta por causa dos sapatos.
– Quantos centímetros?
– Quinze.
– Eles não são perigosos? – Ele parecia meio desconfiado ou não confiava no meu equilíbrio.
– Espero que não. Vamos?
– Vamos.
A igreja estava linda. Era engraçado ver todos os nossos amigos muito bem vestidos, nem pareciam os mesmos "meninos" suados do futebol. Seiya, o noivo, estava muito bonito no seu smoking. Hyoga, Shiryu e Shun também estavam muito bonitos. E... céus, Ikki estava magnífico. Como alguém podia ser tão lindo? Estava com o cabelo preso em rabo de cavalo, o que destacava ainda mais os olhos azuis.
– Minu, eu acho que vou sentar aqui.
Aiolos me trouxe novamente à realidade. Eu me soltei dele – estava agarrada a ele com medo de cair – e ele continuou.
– Afinal, você tem que ficar com os outros padrinhos.
– Claro.
Então, ele se intrometeu na conversa.
– Pensei que você fosse se atrasar hoje também.
– Obviamente, pensou errado, Amamiya. E "oi" pra você também.
Ele fez uma careta, mas cumprimentou Aiolos educadamente para os padrões do Ikki.
– Temos que ir, os padrinhos já foram chamados. – Ikki falou.
– Até mais, Aiolos.
– Até mais. – Ele me deu um rápido beijo.
Quando me virei para o Ikki, ele tinha o rosto voltado para o outro lado. Começamos a andar. Que dizer, Ikki começou a andar, eu tentei me equilibrar e dar alguns passos com aqueles calçados assassinos.
Logo, eu e Ikki nos juntamos aos demais padrinhos. Que eram Shiryu e Shunrei, Hyoga e Eire, Shun e June, Ikki e eu, e o último casal era formado por um tio e uma tia da Saori.
A Saori é órfã, foi criada pelo avô, tanto que ele que vai levá-la até o altar. A minha relação com a Saori melhorou muito desde a conversa que tivemos no dia do meu aniversário. Somos praticamente amigas.
O Ikki não exagerou quando disse que os padrinhos já tinham sido chamados, os tios da Saori já tinham entrado. Logo depois foram Shiryu e Shunrei, Hyoga e Eire, Shun e June, e por último nós.
Ao ver o longo tapete que se estendia pela igreja, meu estômago deu várias voltas.
Droga, por que eu não escolhi sapatos mais baixos!
Entretanto, eu tinha duas opções:
1. Continuar com o meu orgulho e possivelmente cair na igreja na frente de centenas de pessoas no dia do casamento do meu melhor amigo.
2. Ou, engolir o meu orgulho e ir até o altar agarrada a Ikki Amamiya, o que não era tão mal assim.
Por isso escolhi a segunda opção.
Quando eu me segurei com mais força no Ikki, ele disse baixinho:
– Minu, eu sei que sou irresistível, mas comporte-se. Seu namorado está a poucos metros de nós.
Não querendo me distrair do tapete da igreja, não dei uma resposta à altura.
Consegui chegar sem nenhum tropeço até o lugar reservado aos padrinhos.
Todos os padrinhos estavam nos seus lugares, e então eu vi o único casal de padrinhos que eu não conhecia: os tios da Saori. Eu realmente não conhecia a tia da Saori, mas o tio dela eu tinha a impressão de conhecer de algum lugar. Percebi que estava olhando demais para o homem quando Ikki falou em um tom obviamente falso de repreensão.
– Minu! Tudo bem que ele deva ter a idade dos homens que você está se relacionando atualmente, mas respeite um homem casado.
Um pequeno detalhe a se considerar: o tio da Saori tinha bem mais de 50 anos.
– Não lhe darei a resposta que você merece Ikki porque estamos em um local sagrado.
– Você já foi mais criativa. Aposto como ia me mandar novamente pro inferno.
O padre ao ouvir a palavra "inferno" olhou feio para o Ikki, que se desculpou silenciosamente.
– Bem feito – resmunguei.
Poucos instantes depois, Saori começou a entrar na igreja acompanhada o avô. Ela estava linda. Linda mesmo. Ao ver o olhar apaixonado que ela dava para o Seiya, me dei conta que ela era realmente a mulher certa para ele.
– Será que um dia você vai conseguir ser uma noiva tão doce quanto a Saori?
– Desde que o noivo não seja você, Ikki, acho que conseguirei, sim.
– Querendo casar comigo, Minu?
Apenas revirei os olhos.
Querer... Bem, claro que eu queria, mas ele nunca ficaria sabendo.
A cerimônia estava sendo linda, um sermão um pouco enfadonho, era verdade, mas nada que afetasse a beleza do momento.
Em um dos momentos mais desinteressantes da cerimônia eu olhei para o Aiolos.
Ok, na verdade foi em um momento que o perfume do Ikki estava me atingindo e antes que eu o agarrasse na igreja mesmo, eu olhei para Aiolos para me lembrar de que ainda tinha um lindo namorado.
E para minha surpresa aquela amiga do Ikki com um nome mitológico, mas sem vergonha alguma, estava do lado do Aiolos, nitidamente dando em cima dele.
– É parece que a Pandora está fazendo sucesso.
Isso. Pandora. Era óbvio que a Pandora fora para o casamento como acompanhante do Ikki, mas com o intuito de chamar a atenção de todos os homens presentes. Ela usava um vestido vermelho berrante tão justo que eu estava esperando a hora que ela iria começar a ficar roxa por falta de ar, uma vez que era humanamente impossível respirar usando um vestido tão apertado quanto aquele. Para completar o vestido ainda tinha uma fenda que quase se encostava ao decote. Ou seria o decote que quase se encostava à fenda?
– Também com um vestido tão vulgar.
– O vestido não é vulgar.
– Talvez não... se fosse usado por alguém com, no mínimo, cinco quilos a menos.
– A Pandora tem curvas. É diferente. E parece que o seu namorado pensa igual.
– Ele está apenas envergonhado, com ela se oferecendo desse jeito para ele.
Aiolos, que estava perto de mais da tal Pandora, justo nesse momento, deu risada de algo que ela falara.
Com um sorriso cínico no rosto, Ikki falou.
– É. Ele parece muito envergonhado.
Bufei. Não que estivesse com tanto ciúme por Aiolos estar babando pela Pandora. O que me dava mais raiva era ter o Ikki para presenciar aquela cena. Ciúme mesmo eu senti quando a vi sair do apartamento do Ikki. Ah, claro, eu estava possessa também pelo fato de o Ikki e o meu namorado admirarem tanto o corpo da Pandora.
Definitivamente tinha algo muito errado na minha vida amorosa. Eu sinto mais ciúmes do meu amigo do que do meu namorado.
Antes que eu pudesse pensar mais a respeito Seiya e Saori trocaram o seu primeiro beijo como casados.
Devia haver alguma coisa que impedia a mim e ao Ikki de conversar dentro de um carro. Bem, pelo menos nós não estamos nos beijando.
Como se você fosse detestar isso!
Enfim, estamos indo para a mansão Kido. Foi decidido que os padrinhos deveriam chegar antes na casa. Eu vim de carona com o Ikki, e Aiolos levou a Pandora. Imagino que nesse momento ela já deve ter violentado o meu namorado. Mesmo a idéia não me agradando, eu assim, terei uma justificativa para o fim do namoro.
Ikki assobiou baixinho. E eu olhei para frente.
– Uau!
Tínhamos chegado à mansão Kido. E o lugar era lindo. E pensar que o Seiya fora tolo o bastante para preferir que eles fossem morar no apartamento dele, quando podia morar naquele palácio.
– O Shun e a June vão ficar pasmos quando virem essa casa. Sé é que se pode chamar um lugar tão grande assim de casa.
– E você? Não está pasmo?
– Estou. Veja como a construção foi...
Então Ikki começou a falar sobre a casa com os olhos de um engenheiro. Eu nunca o tinha visto falar de engenharia, não tão apaixonadamente, ao menos.
– Estou impressionada, eu pensei que você matasse muitas aulas na faculdade, mas vejo que não.
Ele colocou o braço em volta minha cintura e começou a andar. Quando eu o olhei e provavelmente deixei transparecer o quão confusa estava com a atitude dele, ele explicou.
– Pra você não fraturar algum osso caso caia com esses sapatos assassinos.
– Eu não podia ficar muito mais baixa do que você.
– Quer dizer que você pensou em mim quando os comprou?
– Não comece, Ikki.
– Certo. Já dei a minha opinião, como engenheiro, sobre a casa, agora é a sua vez.
– Como jornalista, acho que só me restaria investigar se o dinheiro utilizado na construção dessa mansão tem ou não origem duvidosa.
Ikki riu. Ele ficava mais bonito ainda quando ria de verdade.
Soltei um gemido de frustração. Ele não podia ser tão lindo!
Ikki interpretou que o gemido foi provocado pelos sapatos.
– Seus pés estão doendo muito?
– Um pouco.
Ele parecia realmente sentido quando disse.
– Logo você já vai poder sentar.
E me segurou mais firme.
Céus essa noite será um tormento.
Pouco depois que entramos, encontramos Shiryu e Shunrei, Hyoga e Eire, e Shun e June.
Os arquitetos, como previra Ikki, logo começaram a falar sobre a mansão.
Aproximadamente dez minutos depois, Aiolos e Pandora se juntaram ao nosso grupo. A morena olhou estranho para a mão de Ikki que ainda estava na minha cintura.
O quê? Ela queria todos os homens da festa? Daqui a pouco ia começar a dar em cima do Shiryu, do Hyoga e do Shun! E por que não do Seiya também?
Com a cabeça erguida, fui para o lado do Aiolos que cumprimentava os demais. Ikki apresentou a Pandora.
– Essa é Pandora Heinstein, uma grande amiga. Pandora, esses são Shiryu e Shunrei Suiyama, Shun, meu irmão, e June, Hyoga e Eire, e a Minu. O Priamos, eu acho que você já teve oportunidade de conhecer.
Dizendo isso, Ikki propositalmente me olhou. Pandora cumprimentava todos, quando Aiolos disse.
– Nós já nos conhecíamos.
O quê???
Até onde eu sabia o meu namorado não freqüentava os lugares que alguém como ela freqüentava. Ikki, entretanto, parecia interessadíssimo na questão.
– É mesmo?
Foi a Pandora que respondeu.
– Eu participei de um Congresso há três semanas. E, por coincidência, Aiolos foi um dos palestrantes. Depois discutimos alguns pontos. – Ela fez uma pausa significativa para então, num tom que para era claramente, cínico, dizer – Sobre a palestra, óbvio.
– Ah, então você trabalha? Ou é só uma interessada em hom... História?
Vi que Eire, discretamente cobriu a boca com uma das mãos para não mostrar o sorriso.
– Eu trabalho sim. Administro um antiquário. Interessei-me pelo Congresso porque ele era sobre História da Arte, justamente o meu ramo de trabalho.
E de quebra se interessou pelos palestrantes também, pensei.
Uma das moças que trabalhava na organização do casamento, nos avisou que os padrinhos deveriam ir a encontro dos noivos para tirar as fotografias. Novamente deixamos Aiolos e Pandora a sós.
As fotos transcorreram normalmente, até que uma das damas de honra fez-me o favor de pisar no meu pé. Só então entendi a expressão "ver estrelas".
Resisti bravamente até o final da sessão de fotos. Quando o fotógrafo disse que estava acabado, fui para o jardim. Sentei em um dos bancos mais distantes e tirei os meus sapatos para ver o estado em que estavam meus pés, e sem dúvida estavam piores do que eu imaginava.
Droga! Nada da certo comigo! Aposto como o sapato da Cinderela não fez calos nela!
Porém, além das duas bolhas que já tinham começado a se formar, havia a dor quase insuportável por eu estar com os pés muito inclinados.
Algumas lágrimas de frustração surgiram nos meus olhos.
– Nada da certo pra mim!
– Minu?
Virei e vi que Ikki sentava ao meu lado.
– Você está chorando? Por quê?
– Tudo dá errado...
– Minu, ele não merece que você chore por ele!
– O quê?
Do que o Ikki estava falando?
– Tudo bem que ele tem aquele jeito de Sr. Perfeição, porém mesmo com você por perto fica... flertando com a Pandora.
Ele pensava que eu estava chorando pelo Aiolos?
– Ikki...
– Se não fosse o casamento do Seiya, eu o ensinaria a te respeitar.
– Ikki! Eu não estou... ou melhor... eu não estava chorando por causa do Aiolos!
– Não?
Fiz que não e apontei para os meus pés, que ainda estavam descalços.
– Minu! – Ele falou quando viu o estado dos meus pés. – Está doendo muito?
– Está.
Ele pegou os meus e começou a massageá-los.
Certo, ser beijada pelo Ikki era maravilhoso. Mas ser massageada por ele era fabuloso. Mesmo que a massagem fosse aos pés. Porém, eu não sabia o que era pior: a dor nos meus pés, eu o fato de estar recebendo uma massagem do Ikki em lugar público, porque assim eu teria que me contentar apenas com a massagem.
– De qualquer forma ele é um idiota. Se você fosse minha namorada eu jamais deixaria você sair com esses sapatos assassinos, Minu. – Ikki disse sem, no entanto, abandonar a massagem.
Ele parecia zangado com alguma coisa...
Pára tudo! Ou a dor me está provocando alucinações, ou Ikki Amamiya colocou "Minu" e "minha namorada" na mesma sentença?
Ainda estava profundamente chocada quando escutei a voz de Aiolos.
– O que está acontecendo aqui?
Aiolos e Pandora estavam na nossa frente.
Antes que eu pudesse responder, Ikki levantou-se bruscamente e disse.
– O que está acontecendo, Priamos, é que os sapatos da sua namorada machucaram os pés dela, mas ao que parece você está muito ocupado para perceber isso.
– Está tudo bem, Minu? – Aiolos parecia um pouco arrependido.
Ikki, novamente, não me deixou responder.
– Agora está tudo ótimo.
De fato, eu estava sentindo bem menos dor, porém ainda podia sentir os dedos do Ikki na minha pele.
– Eu acho que perguntei pra minha namorada.
– Ah, agora você se lembrou que tem uma namorada?
Antes que Aiolos respondesse, Pandora interferiu.
– Calma, garotos. Aiolos porque você não terminha de ajudar a Minu. E Ikki, você é um dos padrinhos, devem estar sentindo a sua falta na festa.
Os dois ainda trocaram um olhar raivoso antes de Ikki voltar para o salão com a Pandora.
Aiolos ainda parecia culpado e arrependido.
– Desculpe-me, Minu. Eu...
– Tudo bem, Aiolos. Agora está doendo bem menos. Mas, você poderia me ajudar a calçar os sapatos?
Durante o resto da festa não encontramos mais Ikki e Pandora. Ótimo, ainda não sabia como encará-lo depois da massagem. Fomos um dos primeiros casais a ir embora. Não falamos muito no caminho até o meu apartamento.
– Minu, eu acho que nós temos que conversar. – Aiolos disse quando estávamos à porta do meu apartamento.
– Sim. Temos muito que conversar, mas não hoje. Eu estou muito cansada e os meus pés voltaram a doer. Tudo o que eu quero é deitar e dormir.
– Tudo bem. Eu ligo pra você amanhã.
Nós despedimos com um comportado beijo no rosto dessa vez.
Continua...
Revisado em 27/01/2010.
