Beta: Likaah
Disclaimer: GW não me pertence e eu num ganho um tostão por esse trabalho aqui.
Agradecimentos: Hn. Acho que eu poderia e deveria agradecer a muita gente por esse capítulo estar saindo... Mas em especial a Blanxe pela imensa ajuda, a Niu e a Litha-chan pelo incentivo e a Larcan pelos e-mails e reviews!
Vínculos
IX
O inverno aqui é frio e amargo
Nos congela até os ossos
Eu não vejo o sol há semanas
Muito longe, muito distante de casa... (#w#)
Heero POV
Não saberia dizer quanto tempo fiquei parado ali; segundos... minutos...
Penso que seria um exagero sequer cogitar a palavra horas, mas a sensação que eu tinha era de que o tempo havia parado enquanto eu observava a porta metálica se fechar.
Seus olhos fora de foco, suas palavras magoadas...e algumas delas não fazendo total sentido aos meus ouvidos, mas o pesar que pontuava cada sílaba era pesado demais para que eu não pudesse compreender uma coisa:
Eu havia feito algo estúpido novamente.
"Me deixe ser livre essa noite Heero... Apenas essa noite..."
Ele estava saindo... Para algum lugar com um alguém que eu não podia sequer imaginar; ou melhor, até podia, mas não queria realmente cogitar tal possibilidade. Minha inabilidade em correr atrás dele e tentar... tentar consertar, tentar explicar...
Mas... Explicar o quê?
- Heero...
Pisquei, ainda encarando o elevador como se Duo fosse sair dali a qualquer momento, me dando a oportunidade de reparar seja lá o que eu tivesse quebrado.
- Você...
- É melhor você pensar muito bem no que vai falar Relena... – minha voz soou fria aos meus próprios ouvidos, com uma intensidade que há muito não era usada. Quando me virei para encará-la, tive a certeza de que não apenas a voz, mas meus olhos também refletiam toda a minha raiva naquele momento. – Se quiser que eu modere as minhas palavras para você...
- Eu... Sinto muito Heero... – prontificou-se, recuando dois passos à medida em que eu avançava na direção do escritório.
- Não, você não sente. – murmurei passando por ela, pegando com o canto dos olhos a sua tentativa de estender as mãos em minha direção, mas brequei-a de qualquer intento. – Nem tente.
Obriguei meu corpo a arrastar-se até a cadeira, me jogando como um peso morto sobre ela. O peso da frustração caía sobre meus ombros, pesando toneladas. Além dela, havia também a raiva por ver as coisas mudarem tão repentinamente, como se alguém quisesse deixar bem claro que eu não tinha controle sobre minha própria vida e isso me irritava profundamente.
- Sinceramente Heero, a reação do seu irmão foi um pouco exagerada, não? Como se o que estivéssemos fazendo fosse a coisa mais anormal do mundo...
Meus olhos ainda estavam pregados na porta, recriando o momento em que percebi a presença dele ali. Relena e eu estávamos discutindo minutos antes sobre a sua insistência em algo que não existia. Eu tentava deixar claro para ela que entre nós nunca haveria afeto, e em sua patética resolução para provar que eu estava errado, a loira investiu da forma que sabia melhor:
Usando o seu corpo.
Seria hipocrisia negar que parte de mim achava o seu toque bem vindo. Sempre fui um homem ativo, e nos últimos dias eu estava me contentando apenas com as rápidas visitas na casa de Relena. Mas diabos! Eu costumava pensar com a cabeça de cima, não com a de baixo. Estava resoluto em afastá-la de uma vez por todas enquanto sentia seus dedos retirarem os botões da minha camisa de suas casas. Infelizmente, não pude ser rápido o suficiente...
Duo estava ali quando me afastei; olhos abertos em choque, rosto contorcido no que eu poderia classificar como... desgosto talvez?
- Heero! – exigiu. – Eu estou falando com...
- Se não se lembra, eu deveria estar lá embaixo com ele...
- Você tinha toda a razão, ele é um tanto mimado, não? Duo exagerou saindo daquele jeito, estávamos apenas...
- Como você esperava que ele reagisse vendo você em cima de mim como uma vagabunda, e eu, correspondendo às suas investidas?
Com os olhos no mesmo ponto era impossível observar as reações que passavam pelo rosto de Relena, mas pelo findar do leve som rítmico de sua respiração, eu diria que ela estava no mínimo surpresa. E a verdade é que eu estava pouco me lixando.
- Como ousa? Heero Yuy, você não pode falar comigo desse jeito! – protestou, espalmando as duas mãos sobre o tampão da mesa, me encarando com a face vermelha.
- Mas foi a isso mesmo que você se rebaixou... – murmurei, estranhando minha própria calma.
- Você ainda insiste em negar que não somos nada um para outro, quando na primeira oportunidade que teve, estava sobre os meus lençóis?
- Por pura conveniência... – dei de ombros, não absorvendo metade de suas palavras. Meus pensamentos estavam em onde Duo poderia ter ido, e para quem eu poderia ligar.
- Não seja cego, eu sei que você reage à minha presença, eu...
- Quer que eu diga o que reage à sua presença? – perguntei, lançando um olhar significativo ao meio das minhas pernas, voltando-me a tempo de ver seu rosto contorcer-se raivosamente.
- Olha aqui...
- Relena! – interrompi, cansado de sua ladainha. – Escute bem o que eu vou falar, porque essa vai ser a última vez. Nunca, escute bem, nunca foi mais que sexo e nunca será. – seus olhos verdes se abriram espantados e seu rosto ganhou um tom ainda mais intenso de vermelho.
- Não vou...
- Quem não vai sou eu, Relena. – interrompi meu discurso, ouvindo o toque do meu celular. No chão próximo à porta o aparelho tremia ligeiramente com o vibrar da bateria. – Pelo bem da nossa sociedade, acho melhor esse assunto morrer aqui.
Levantei em busca do aparelho, ouvindo o que deveria ser a movimentação da loira para deixar a sala. Poucos segundos depois seu corpo esbarrava no meu enquanto saía pisando duro, sem olhar para trás uma única vez. De qualquer forma, eu não me arrependia nem um pouco das minhas palavras, muito pelo contrário, havia servido para deixar de uma vez por todas as coisas mais claras entre nós.
Fitei o aparelho que ainda vibrava em minhas mãos, apesar de a bateria parecer fora do lugar. Procurei não mexer muito no telefone e atendi a chamada, que já havia sido identificada como de Trowa.
- É bom ser impor...
- Me diga que você e Relena não estavam transando no escritório. – veio a pergunta, que sinceramente, me soou mais como uma afirmação.
- E se eu estivesse?
- Seria a pessoa mais estúpida do Universo, Yuy.
Palavras me faltaram para rebater aquela resposta, pois me faltava a compreensão de suas bases para fazer tal declaração. Algo me dizia que Trowa Barton sabia muito mais do que eu naquela história, por mais ridículo que isso pudesse soar. Eu era o irmão de Duo, era no meu apartamento em que ele vivia... eu estava atento às suas reações... eu...
"Você não sabe de absolutamente nada!"
- O que você quer, Barton? – perguntei seco, sentindo minha cabeça começar a latejar.
- Agora? Com você nada, quero é saber como o Duo está.
Novamente me vi surpreso com as suas palavras, definitivamente curioso para saber quando Duo havia subido tanto assim no conceito do moreno.
- Não estávamos transando... – comecei. – Relena estava em cima de mim quando ele entrou, e sua reação não foi uma das melhores...
- Isso foi uma amostra da sua completa falta de sensibilidade...
- Não entendo o porquê de tanta preocupação, não é como se fôssemos casados ou algo assim. – respondi sem pensar, ouvindo um grunhido mal-humorado do outro lado da linha.
- Não vou perder tempo com você.
Suspirei tentando recolher os cacos da minha paciência, não querendo descontar em Trowa algo do qual ele não tinha culpa.
- Procure Duo no celular dele, eu...
- Já tentei Heero, ou não estaria lhe fazendo perguntas...
- Ótimo, se souber de alguma coisa eu te aviso. – e sem mais palavras fechei o flip com mais força do que o necessário, sentindo segundos depois um pequeno peso cair sobre meu colo. – Kuso...
Em minhas mãos eu tinha o que parecia ser um tipo de encaixe que, em outros tempos, prendiam a bateria ao celular. Meus olhos se alternaram do aparelho para a porta do escritório onde eu o havia recolhido, não demorando muito para encontrar o motivo da avaria.
Com um suspiro desolado, encaixei a pequena peça o melhor que pude, não me surpreendendo ao constatar que o celular só ficaria ligado enquanto eu estivesse fazendo algum tipo de pressão sobre a bateria. Mal as configurações foram carregadas, a melodia que eu usava como toque soou estridente, chamando minha atenção para o visor onde piscava um número desconhecido. Fazendo meu melhor para manter a bateria em seu lugar, acionei o viva-voz.
- Yuy. – não houve retorno do outro lado, apenas um som ambiente. Esperei por uma resposta, mas longos segundos se passaram sem que nada viesse. –Hoje não é um bom dia para piadas...
- Heero...? – a voz arrastada que prontamente reconheci como sendo a de Sally impediu que eu desligasse o telefone. – Duo está por ai?
Suprimi um grunhido ante a sua indagação, me perguntando quem mais ligaria à procura do americano. Talvez o próximo fosse Quatre; ele e Duo não se falavam diretamente desde o dia em que o loiro foi ao meu apartamento.
- Não, não está... – a linha ficou muda novamente e a tensão presente naquele silêncio era tão densa que chegava a ser papável. Algo de muito errado estava acontecendo e temi pela notícia que eu estava prestes a receber. – Sally...
Um suspiro e um soluço foi tudo o que eu precisei ouvir para antecipar suas próximas palavras e, antes mesmo que algo fosse dito, meu corpo inclinava-se contra a escrivaninha, meus braços servindo de esconderijo para o meu rosto.
- As coisas se complicaram de ontem para hoje, nem tivemos tempo de iniciar o novo tratamento. – ela falava de maneira rápida e dolorida, como se estivesse forçando as palavras a deixarem o seu refúgio. – Eu notei que ela estava um pouco mais cansada, mas... deixei que ela se excedesse, e há algumas horas...
Sally calou-se e eu lhe dei privacidade, não me sentindo capaz de dizer ou fazer alguma coisa. Fechei meus olhos de forma quase dolorosa, sentindo-os arder ante a iminência das lágrimas. Não foi difícil constatar que eu nunca estaria preparado o suficiente para aquela notícia, e isso se traduzia em minha incapacidade de fazer a única pergunta que interessava naquele momento.
- Ela... – tentei, mas minha voz não saiu mais do que um sussurro.
- Não... ainda não... Mas segundo os médicos não vai demorar muito; ela entrou em coma e... é apenas uma questão de tempo. Seria melhor que você e Duo viessem, mesmo que ela não vá mais... – um soluço atropelou suas palavras. – Existem decisões a serem tomadas e...
- Tudo bem... – murmurei, poupando-a de mais palavras desnecessárias.
- Você se importaria de comunicar ao Duo?
Prendi minha respiração sentindo meu coração comprimir-se em angústia.
- Não se preocupe com isso. – tranqüilizei-a, incapaz de lhe dizer que desconhecia o paradeiro do meu irmão. – Você está com o seu celular? Entrarei em contato com você assim que estivermos prontos para ir até ai.
- Ok., e... – houve uma pequena hesitação e um suspiro pesaroso. – Cuide do Duo, sim? Ele precisará de você agora mais do que nunca...
Meus olhos se abriram ante o estalo da ligação sendo finalizada, a ardência de antes produzindo uma única lágrima. Mantive o rosto ainda escondido na proteção dos meus braços sobre a mesa enquanto minha respiração foi sendo liberada aos poucos.
Mas o peso em meu peito não diminuía...
A angústia não passava...
"Me deixe ser livre essa noite Heero... Apenas essa noite..."
"Isso foi uma amostra da sua completa falta de sensibilidade..."
"Cuide do Duo, sim? Ele precisará de você agora mais do que nunca..."
Minha cabeça latejava e uma dor me consumia bem no âmago. Por um segundo pensei que fosse sufocar no turbilhão de emoções diferentes que me atingiam, uma a uma como muitas vezes vi passar pelos olhos do Duo.
Dor, remorso, dúvida, solidão... e então a raiva foi a última a pedir passagem. Num ímpeto incontrolável me vi erguendo o pulso e jogando o maldito aparelho contra a parede oposta, depositando naquele gesto tudo o que eu não seria capaz de demonstrar, de dizer...
Minha cabeça voltou a cair contra a madeira sólida da escrivaninha, a leve dor física em nada se comparava ao sentimento que me consumia naquele momento.
Eu precisava achar o meu centro novamente...
Eu precisava de um novo celular...
Eu precisava arrumar tudo para uma viagem relâmpago rumo a L2 e...
Eu precisava do Duo...
(#w#)
Duo POV
Meus olhos miravam o movimento da avenida, mas no fundo, eu não via nada além dos meus próprios pensamentos. Há muito que o burburinho dos transeuntes não se fazia presente em meus ouvidos, assim como a conversa que Stephen estava gentilmente tentando desenvolver. No fundo eu me sentia culpado por colocá-lo em tal situação, afinal, o havia convidado para sair comigo e estava sendo uma péssima companhia. Sinceramente, pensei que fosse capaz de deixar os pensamentos sobre Heero de lado e simplesmente me entregar a um pouco de diversão, mas isso estava sendo um pouco mais complicado do que eu tinha imaginado.
- Você está perdido de novo... – o hálito morno próximo ao meu ouvido chamou minha atenção para o homem ao meu lado, agora, inclinado em minha direção. – Prometi que não me intrometeria, mas permita-me dizer que estou o achando um pouco abatido.
Sorri um pouco, tentando expressar o meu constrangimento com o deslize. Olhei do grande copo de café que eu tinha em mãos para o relógio no centro da praça, surpreso ao constatar que estávamos ali há muito mais tempo do que eu havia imaginado: quase uma hora! Encarando Stephen novamente, murmurei um pedido de desculpas, não me esforçando muito para esconder o desânimo que estava me abatendo.
- Eu pensei que uma boa companhia fosse me ajudar... mas não consigo me distrair.
- Pois pra mim você parece bastante distraído.
Me permiti uma risada curta, realmente apreciando sua disposição em me entreter.
- Eu quis dizer...
- Tudo bem Duo, entendi o que você quis dizer. – me interrompeu, um sorriso dançando em seus lábios. – Talvez, falando um pouco sobre um de seus problemas, o peso se torne mais leve.
O encarei com certa curiosidade, observando seus dedos traçarem o contorno do próprio copo para depois leva-lo aos lábios; seus olhos nunca me abandonando, talvez, tentando buscar em meu rosto a confirmação de que eu falaria a respeito de um dos meus problemas.
A idéia de me abrir para um quase estranho não era a das mais atrativas, mas eu precisava levar em consideração que já fazia um bom tempo desde minha última conversa amistosa com alguém. Mesmo que eu não abrisse o jogo a respeito de Heero e meus sentimentos, ainda havia muita coisa me sobrecarregando, coisas sobre as quais eu realmente gostaria de conversar com alguém.
Liberei todo o ar que havia prendido durante aquela pequena disputa interna, e voltei a procurar os olhos verdes, pronto para abusar de sua gentileza novamente.
- Não sei se você sabe, mas... a minha mãe está hospitalizada.
Stephen remexeu-se um pouco no banco até estar numa posição que o permitisse me encarar de frente. Talvez fosse a seriedade que se instaurou em seu rosto, ou o suspiro trêmulo que ele deixou escapar, mas algo me disse que sim, ele já estava ciente da situação.
- Eu ouvi dizer. – comentou educadamente. – E eu sinto muito.
- Todos sentem. – dei de ombros, voltando a encarar o movimento. – Nós demoramos muito para descobrir que ela estava doente e para complicar, o tumor é de avanço rápido... eu gostaria muito de estar ao lado dela agora.
- E por que não está?
Suspirei ante a pergunta, sentindo uma vontade insana de cair na gargalhada. Por que infernos eu estava ali afinal?
- Porque eu sou um idiota. – respondi num tom amargo. – Minha mãe estava morrendo e eu a deixei porque ela pediu.
Um pequeno silêncio caiu entre nós enquanto eu relembrava aquele dia, me sentindo um bastardo por ter abandonado aquele leito. Ao meu lado, Stephen apenas continuava me olhando numa espécie de contemplação. Apesar de apreciar sua vontade em me dar um certo espaço, ficaria realmente agradecido em não ser o único a levar aquela conversa.
Não sei dizer se expressei minha vontade de alguma forma, mas segundos depois o loiro estava indagando alguma coisa:
- O que você pretende fazer quando vê-la de novo?
Pisquei algumas vezes, um pouco surpreso com aquela pergunta. Sinceramente, esperava algo relacionado à doença da minha mãe, não em como eu me sinto a respeito. De qualquer forma, não demorei muito para responder a questão, pois, apesar dos pesares, eu tinha gastado um bom tempo divagando sobre o que eu faria assim que colocasse meus olhos nela.
-Eu vou abraçá-la, acho... claro, da maneira que puder. – sorri um pouco nervoso, inclinando a cabeça para o lado e apoiando-a numa mão, da mesma forma que Stephen estava fazendo. – A doença a deixou bem... deficiente, eu diria.
- Entendo... – ele murmurou. E apesar de eu saber que essa é uma típica palavra de conversas difíceis, achei gentil de sua parte. – Vocês eram muito próximos? Digo, seus pais, seu irmão e você?
Uma risada amarga deixou os meus lábios no momento em que, instintivamente, minha cabeça conjurou uma imagem de nós quatro numa espécie de união familiar. A idéia era tão absurda que nem o pior do meu humor negro poderia conceber.
- Talvez seja válido dizer que eu sou adotado... – e ri ainda mais ante a surpresa óbvia estampada no rosto do loiro. – E se me permite, o pai do Heero era um grande bastardo. – ignorando as sobranceiras erguidas, continuei. – Natsumi sempre tentou ser uma boa mãe... – franzi o cenho, lembrando das inúmeras brigas que ela tinha com Heero sobre só Deus sabe o quê. – Desconfio até que tenha tentado um pouco demais...
- E o seu irmão?
Inspirei uma boa quantidade de ar, prendendo-o por alguns segundos antes de suspirar um pouco aborrecido. Era odioso como, de uma forma ou de outra, alguma força maior dava um jeito do tópico "Heero Yuy" fazer parte dos meus pensamentos, ou no mínimo, de uma conversa.
- Nós nos afastamos nos últimos tempos, e é por isso que a minha mãe me mandou até aqui... – eu acho, concluí em pensamentos, não querendo entrar em muitos detalhes sobre a minha relação com o japonês.
- E quando você voltará para casa? – novamente chego à conclusão de que expressei minha vontade em afastar esse assunto, pois Stephen estava voltando para um terreno que eu considerava neutro o bastante para conversar a respeito. Talvez o loiro seja do tipo que consegue ler as pessoas com grande facilidade...
Mas voltando à pergunta, me dei conta de que essa era uma questão que eu não saberia responder. Se tivesse sido feita há algumas horas atrás, com certeza teria dito que por volta de um mês, mas agora, depois do que tinha presenciado no escritório do Heero, eu duvidava de que conseguisse permanecer ali por mais alguns dias. Se antes eu estava indeciso entre acatar aquele pedido estúpido e ficar com Heero ou voltar para cada de vez, os últimos acontecimentos tinham creditado um bom peso à balança.
- Eu não sei... – murmurei, dando de ombros. – A única coisa que eu espero é chegar a tempo de vê-la com vida... e quem sabe, agradecer por tudo que ela fez por mim...
- Vai chegar... – ele sussurrou para mim, se inclinando na minha direção e estendendo uma mão para tocar o meu rosto. Para minha surpresa, seus dedos contornaram o canto dos meus olhos e, ao sentir a umidade contra a minha pele, me dei conta de que estava prestes a chorar. – Você queria se distrair, certo?
Apesar da confusão, acenei positivamente e, me surpreendendo novamente, o loiro se inclinou um pouco mais, acabando com a pequena distância que havia entre nós. Fechei meus olhos automaticamente, sentindo o leve roçar dos seus lábios contra os meus. Foi tão suave e quente... quase uma reverência, assim como ele havia feito mais cedo no estacionamento.
Quando ele finalmente se afastou, voltei a abrir meus olhos, encarando um suave sorriso que me vi correspondendo sem nenhum esforço.
Não pude deixar de me lembrar do que ele havia me dito mais cedo... que eu não me arrependeria se lhe desse uma chance. Depois dos altos e baixos daquele dia, a idéia me parecia uma das mais tentadoras, e se ela levasse Heero embora da minha cabeça, ao menos por aquela noite, com certeza valeria a pena.
- Talvez seja uma boa hora para eu anunciar que há uma vaga na minha agenda hoje...
O sorriso que delineava os seus lábios aumentou consideravelmente e os dedos que contornavam os traços do meu rosto desceram para enlaçar a minha mão e, sem mais palavras, começou a me guiar para fora do parque na direção onde havíamos deixado o carro.
Eu seria livre aquela noite... pelo menos naquela noite...
(#w#)
Quatre POV
As portas metálicas do elevador levaram anos para se abrirem completamente e em meio a minha impaciência, empurrei bruscamente o casal que estava à minha frente, agitado demais para recorrer à minha usual educação. Minha cabeça estava uma bagunça, dividida entre a dor da perda e o desespero por não ter informações sobre uma pessoa que era muito importante para mim.
Apressando o passo, praticamente corri em direção ao restaurante, varrendo todo o lugar com os olhos ávidos E não demorando mais que alguns segundos para encontrar a pessoa que eu estava procurando. Dispensei o garçom que me abordou no meio do caminho e me direcionei como uma bala até o bar à esquerda do grande salão.
Heero estava a um canto do enorme balcão de mogno, sua postura outrora imponente, substituída pelos ombros curvos que pareciam pesados demais para se manterem rijos e erguidos. Ele parecia concentrado em algo que descansava sobre a superfície do balcão e por conta disso não notou a minha aproximação.
- Ele ainda não apareceu? – perguntei, assim que me encontrava próximo o suficiente para ser entendido.
Seu corpo tremeu ligeiramente, o que comprovou minha suspeita anterior. Sentando no banco ao seu lado, pude observar melhor no que ele trabalhava e me surpreendi ao perceber que se tratava de um celular aparentemente novo, no qual ele tentava nervosamente instalar um chip.
Não posso negar que, quando recebi sua ligação alguns minutos atrás, o amaldiçoei e praguejei com tudo que Duo havia me ensinado em todos aqueles anos. Pelo telefone sua voz parecia perfeitamente controlada e sem emoções, como eu já havia me acostumado a ouvir naqueles poucos dias. Era no mínimo chocante chegar aqui embaixo e perceber que não passava de uma fachada, pois o homem ao meu lado estava tão calmo que mal conseguia colocar um simples chip no encaixe do aparelho.
- Deixe que eu cuido disso. – o interrompi, tirando o aparelho de suas mãos.
- Não antes dos cinco minutos que perdi tentando encaixar essa porcaria.
Fitei sua face um pouco confuso, mas logo me dei conta de que ele se referia a minha pergunta anterior.
- Certo. Agora, será que você podia me explicar exatamente como tudo aconteceu?
Dividi minha atenção entre o aparelho e a história que Heero contava, querendo saber exatamente como tudo aconteceu. O japonês havia me contatado há poucos instantes, dizendo que estava no restaurante do hotel e que precisava falar comigo com certa urgência. Apesar de alarmado com o status daquela chamada, não pude deixar de indagar o motivo daquela conversa e, em toda sua sensibilidade, Heero apenas grunhiu algo sobre Natsumi estar morrendo e Duo desaparecido.
Enquanto os minutos se passavam e eu ficava ciente do que exatamente havia acontecido, a grande quantidade de paciência da qual que eu me orgulhava em possuir se esvaía com uma rapidez impressionante, sendo substituída por uma vontade quase irracional de esmurrar o homem ao meu lado. Infelizmente, eu não sou fã de confrontos físicos e me vi empurrando tal desejo para o mais fundo da minha mente, tentando focar toda a minha energia no paradeiro do meu melhor amigo.
- Você não se lembra exatamente o que ele disse? – indaguei, no ponto da história em que Heero grunhiu algo sobre Duo ter se despedido com uma frase estranha.
Uma tensão palpável passou pelo corpo e rosto do japonês, e demorou quase um minuto até que ele se sentisse disposto a falar.
- Algo sobre eu o deixar ser livre hoje à noite... uma baboseira assim...
Suspirei exasperado, completamente ciente do que aquelas palavras queriam realmente dizer. Duo era uma pessoa muito impulsiva quando se sentia ferido, e ver o irmão se atracando com a sócia era o suficiente para causar um grande machucado.
O arrependimento me bateu de imediato, pois se eu não tivesse ajudado Heero, o baque que Duo sofreu não teria sido tão grande... talvez ele nem estivesse naquele escritório para começar.
- Não vai ser fácil encontrá-lo. – informei, assim que o japonês terminou o seu relato. – Duo conhece bem a região, principalmente o centro.
Demorou apenas uma fração de segundo para eu perceber que não havia dito a coisa certa. Minha raiva se evaporou tão rápido quanto apareceu, e o nervosismo entrou em seu lugar.
- Ele conhece bem a região?
Encarei os olhos azuis de Heero, vendo neles a confusão e a dúvida acima de qualquer outro sentimento. Em nossos outros encontros tais emoções estavam mascaradas por trás de sua face inexpressiva, mas não o suficiente para que eu não percebesse que no fundo, ele estava tão confuso e perturbado com aquela situação quanto o próprio Duo.
Ainda me fugia completamente o motivo pelo qual o japonês se afastou da família, mas se eu pudesse palpitar a respeito, apostaria que algo o deixou confuso o bastante para manter uma distância segura do irmão e da mãe.
- Quatre? – o tom baixo me puxou de volta para a realidade, quebrando minha linha de raciocínio. – Como ele pode conhecer essa região? – voltou a perguntar.
- Bem... – mordi o lábio inferior, um pouco indeciso sobre revelar algo tão pessoal. Por mais que eu tenha tentado ajudar Heero com a tarefa de se aproximar do Duo, em nenhum momento me dispus a revelar seus segredos, e esperava continuar assim.
- Eu sei que ele é seu amigo e que vocês têm os seus segredos, – ele fechou os olhos por um momento e quando voltou a abri-los, estavam tão vivos e intensos que pareciam não lhe pertencer. – mas tenho certeza de que foi por uma omissão de vocês que Duo saiu correndo do meu escritório.
Deixei que meus ombros caíssem numa postura vencida, a mesma que havia visto em Heero quando cheguei no restaurante. Com um suspiro cansado, pedi uma bebida forte o suficiente para me manter alerta e quebrar um pouco da tensão. Quando o copo foi colocado à minha frente, degustei um grande gole, lembrando das várias noites em que estive em uma situação muito semelhante, mas tinha Duo sentado ao meu lado, lamentando sobre o afastamento do irmão mais velho e de como isso o magoava.
A centelha da raiva que pensei ter sido consumida pelo nervosismo inflamou dentro de mim novamente e, antes que eu pudesse me controlar, estava atacando o japonês.
- Talvez se você fosse mais presente na vida do Duo, nada disso estivesse acontecendo.
Heero pareceu verdadeiramente chocado, e depois de um silêncio momentâneo, tentou se esquivar:
- Os motivos que eu tive para me afastar não são...
- Não são da minha conta, é só isso que você vai dizer? Pois fique sabendo que fui eu quem esteve ao lado do Duo todas as vezes que ele lamentou a sua ausência, e se te interessa, também fui eu quem cansou de trazê-lo aqui!
Os olhos azuis de Heero estavam abertos e ainda mais surpresos quando eu reuni calma o bastante para encarar o japonês novamente. Por anos eu havia tentando compreender os motivos dele, até porque não acreditava que o amor que Duo sentia por Heero fosse o bastante para transformar os laços que eles tinham em uma relação profunda. Meu amigo não era a pessoa mais madura da qual tive notícia e, naquela situação, essa era uma grande desvantagem.
Duo ter fugido daquele escritório só provava que minha teoria estava certa, e que ele nunca seria forte o suficiente para levar seus sentimentos adiante.
- Eu...
- Quando eu me encontrei com você aquele dia, realmente acreditei que fosse capaz de ajudar o Duo... mas pelo visto, você só fez piorar as coisas. – balancei a cabeça numa negativa, sentindo uma espécie de cansaço em abater. – Eu não acho que ele deva continuar com você...
- Um momento. – o japonês se virou bruscamente em minha direção, me fitando com os olhos gélidos que Duo cansara de me descrever. – Você não pode chegar aqui, simplesmente apontar os meus erros e dizer se eu mereço ou não ficar com ele.
- E eu realmente não preciso. Seus atos já dizem isso por você.
Ele ficou em silêncio por um momento, e quando pensei que era a hora certa para me retirar, fui puxando de volta ao assento.
- Aquele baka caiu de pára-quedas de volta na minha vida e em menos de uma semana me fez perceber que eu sentia falta até mesmo da sua estupidez... eu não vou perdê-lo outra vez...
A intensidade daquelas palavras me pegaram de surpresa e quando dei por mim, estava encarando o vazio à minha frente. Olhei ao meu redor tentando divisar o japonês em meio às pessoas que desciam para o jantar, e o encontrei desviando de alguns hóspedes já na saída do restaurante. Sem pensar duas vezes, me coloquei de pé e fui atrás dele o mais rápido que o movimento no recinto me permitia.
- Heero! – agarrei seu pulso antes que ele pudesse passar pela porta principal. – Eu vou entrar em contato com alguns conhecidos e arrumar o endereço de alguns lugares que costumávamos freqüentar.
Os olhos azuis dele encararam os meus, buscando algo que eu nunca saberei se ele encontrou ou não.
- Não estou dizendo que concordo com você. A única coisa que eu quero é o Duo de volta.
- Vou passar no apartamento para ver se ele esteve lá... vou aguardar sua ligação. – e sem outras palavras, ele deixou o hotel.
Não perdi muito tempo ali parado, praticamente corri em direção aos elevadores, andando de um lado para o outro no pequeno espaço.
Eu ainda não concordava com aquela situação, tão pouco achava que Duo ou Heero estivessem prontos para qualquer coisa mais profunda que pudesse nascer entre eles. Mas acreditava que o japonês realmente se importava... pelo menos, como um irmão.
Restava saber se Duo estaria pronto para aceitar somente isso...
(#w#)
Duo POV
Era como um mundo paralelo à realidade; enquanto parte dos meus sentidos pareciam dormentes, outros estavam mais aguçados do que nunca. Acho que meus ouvidos estavam em pleno funcionamento; eu podia ouvir a batida forte, porém contida, quase lânguida, que instigava o meu sentido mais hábil a fazer seu trabalho:
O tato.
Em algum momento eu havia me agarrado aos ombros fortes, e a pouca percepção que o álcool e a dor ainda não haviam me roubado dizia que eu precisava daquele apoio pra continuar em pé. Nossos quadris estavam absurdamente colados e, embora nossos movimentos não fossem completamente sincronizados, dançávamos com certa leveza e, acima de tudo, sensualidade.
Era isso o que eu queria: libertação; e tinha a certeza de estar me saindo muito melhor do que naquele dia em que bebi como um louco na casa do meu irmão... porque era isso que Heero sempre seria... Meu bastardo e rico irmão mais velho... era desse patamar que ele sempre me olharia, pelo menos, enquanto eu agisse feito o idiota e inocente irmão mais novo...
Mas isso iria mudar... eu não permitiria que ele continuasse a me ver daquela forma, não depois dessa noite, não mais...
- Você está ficando tenso de novo Duo... – a voz grave sussurrou em meu ouvido, fazendo minha pele arrepiar ligeiramente. – Abandone esses problemas aqui... agora somos só eu e você.
Ergui o braço que pendia ao lado do meu corpo levando a garrafa de cerveja aos lábios, inclinando a cabeça para trás enquanto o líquido descia gelado e rascante. Ao passo em que sentia algo molhado descer pelo meu queixo e garganta, a boca talentosa de Stephen estava lá, executando sua mágica da distração, como vinha fazendo nas últimas duas horas. Uma de suas mãos, por sinal, tão talentosa quanto seus lábios, desceu habilmente pela curva das minhas costas, enquanto a outra me puxava para mais perto, como se realmente existisse algum espaço entre nós.
E pensar que há algumas horas atrás eu ainda estava relutante se era isso mesmo que eu deveria fazer... do ângulo em que estava, apesar de não soar muito correto, estava sendo imensamente divertido.
Quando finalizei a ligação confirmando o encontro com Stephen e cheguei ao saguão do prédio, tive tempo apenas para concentrar-me em não permitir que as lágrimas deixassem seu refúgio. Chorar ainda era um sinal de fraqueza e eu não toleraria que ninguém me visse daquela forma, ainda mais quando estava chorando por uma coisa que não valia a pena...
O loiro foi muito mais compreensivo do que eu poderia ter imaginado; fez questão de não me encher de perguntas, como por exemplo, o que havia feito eu mudar de idéia, ou quem sabe, o porquê do meu semblante abatido. Ele foi apenas atencioso, tendo a certeza de me manter distraído com sua conversa fácil durante uma tentativa de jantar. Meu humor não era um dos melhores, eu tinha plena consciência disso, e foi por isso que partiu do loiro toda e qualquer iniciativa de puxar um assunto agradável.
Não pude deixar de pensar em Heero ao ouvir suas palavras...
Não pude deixar de revê-lo sentado naquela cadeira com aquela mulher em seu colo...
Não pude deixar de lembrar das minhas próprias palavras...
"Me deixe ser livre essa noite Heero... Apenas essa noite..."
E eu estava fazendo o meu melhor para me libertar das amarras que havia colocado em torno de mim mesmo apenas para assegurar que seria apenas dele... apenas de Heero Yuy...
Ainda havia uma voz bem lá no fundo que sussurrava palavras de repreensão, deixando claro que eu não deveria estar fazendo isso. Com uma risada desdenhosa e sem sentido, cheguei à conclusão de que aquilo deveria ser o que os outros chamam de bom senso e, que até então, eu havia feito questão de dar muita atenção em alguns aspectos da minha vida. Mas no momento a voz mais forte parecia estar tão embriagada quanto eu e, quando uma das longas pernas se colocou entre as minhas iniciando um movimento lento e prazeroso, a pequena resistência foi completamente derrubada. Eu me vi gemendo e me embalando no ritmo imposto pelo loiro, deixando que mais da bebida escorresse por meus lábios e dando a Stephen uma nova oportunidade de atacar meu pescoço.
Era assim que ele estava se sentindo enquanto aquela mulher o beijava? Era isso que ele queria...? Era assim que eu deveria me comportar se quisesse ele para mim, como ela o tinha...?
- Duo... – tive a ligeira impressão de ter gemido um pouco mais alto do que deveria e, quando seus dentes mordiscaram a pele sensível abaixo do meu ouvido combinando o movimento da sua coxa entre as minhas pernas, não tive a menor dúvida de que algumas pessoas ao nosso redor ficaram cientes do tipo de dança que estava acontecendo ali. – O que você acha de nós estendermos a nossa noite, hm?
Ergui meu rosto para encontrar os olhos verdes nublados de desejo como, certamente, os meus também deveriam estar. Não havia dúvidas nem promessas, apenas uma vontade palpável. Naquele longo segundo, me vi considerando todas as opções, ou melhor, derrubando todas elas e dando ouvidos à voz que gritava um sim tão desesperado quanto os movimentos do meu corpo contra os daquele loiro.
- Estender parece divertido... – sorri malicioso rodando meu corpo em seus braços, apoiando minhas costas em seu peito. – Onde?
Ouvi uma risada baixa e provocante enquanto um par de mãos contornava a lateral do meu corpo e descia pelo meu abdômen. Num flash, me veio em mente várias lembranças de tantos outros colegas e até mesmo desconhecidos que tentaram tantas vezes me tocar dessa forma e foram sutilmente dispensados. Não pude deixar de rir com desdém novamente, dessa vez, debochando do efeito que o álcool estava tendo sobre mim.
- Não acho que seu irmão vá gostar de nos ter em sua casa...
O tempo ínfimo que levou para aquele comentário ser registrado me fez imaginar o que Heero faria se me visse em seu apartamento, gemendo sofregamente em baixo de outro homem... não, seria demais pedir que ele tivesse alguma reação que não fosse o puro histerismo apenas por ver o irmão com outro homem debaixo do seu próprio teto.
- Também acho que não... – concordei, rindo ainda mais alto, sentindo o que seriam lágrimas se acumularem no canto dos meus olhos.
Eu não estava totalmente fora do meu juízo perfeito e mesmo assim, considerava a idéia de entregar àquele homem o que eu havia guardado por tanto tempo apenas para dar a uma pessoa que eu julgava ser especial...
Não... que é muito especial...
Creio que no momento, eu não estava apenas me vingando do que havia visto naquela sala, era algo muito maior.
Sendo ou não um homem, eu não era bom o suficiente para o japonês... Me julgava o senhor gostosão quando nunca tive a coragem de sequer insinuar de maneira mais clara o que eu queria dele.
Relena era uma vaca, mas uma vaca experiente e com atitude o bastante para ir atrás do que ela queria... e ela queria o Heero...
- Mas antes de mais nada... vamos resolver um probleminha...
- Que probleminha? – pisquei, genuinamente confuso com o sentido de suas palavras, mas sendo totalmente esclarecido quando uma de suas mãos encontraram um ponto que estava necessitando urgentemente de atenção.
- Esse... – sussurrou, enquanto descia com o polegar pela frente do meu jeans, causando espasmos imediatos em meu baixo ventre.
A partir daquele momento tudo aconteceu muito rápido e, em parte, creio ser culpa do resto de cerveja que eu virava enquanto era puxado no meio dos corpos agitados da pista de dança. No caminho para seja lá onde Stephen planejava me levar e cuidar do - agora nosso - probleminha, tive a ligeira impressão de ouvir meu nome ser chamado enquanto cruzávamos a área com algumas mesas. Provavelmente alguém que me reconheceu das noitadas em que eu e Quatre costumávamos passar naquela mesma boate, quando meu amigo me trazia para... para ver o Heero... mesmo que no final acabasse sendo tudo um desperdício, graças à minha falta de coragem que não me permitia fazer nada mais além olhar de longe...
Não, não era desse tipo de idiota que Heero precisava...
- Agora, ao nosso problema...
A voz grave me tirou do irritante devaneio, enquanto meu corpo era puxado de encontro ao colo de seu dono. Estávamos em uma das cabines do banheiro, que por alguns segundos, tentei distinguir ser o feminino ou masculino. Estava quase optando pela segunda opção quando um gemido que indiscutivelmente pertencia a uma mulher chegou aos meus ouvidos.
Pro inferno as conjecturas sobre banheiros!
Os lábios ávidos atacaram os meus sem piedade enquanto as mãos caçavam a frente da minha blusa, erguendo-a para ter melhor acesso à calça. Novamente, tudo parecia acontecer rápido demais; suas mãos manipulando meu membro enquanto eu buscava com movimentos sinuosos aliviar sua própria excitação.
E no meio daquela avalanche de sensações a maldita cena cismava em passar pela minha cabeça como um vídeo contínuo, misturando-se com a realidade daquele ato e me colocando em uma situação no mínimo embaraçosa.
Não era mais Stephen que eu via enquanto me apoiava em seus ombros e me esfregava em seu membro no mesmo ritmo em que sua mão manejava o meu de maneira forte e rápida. Era o rosto de um japonês, os olhos azuis febris de desejo e aquele pequeno sorriso estampado em sua face corada e suada.
O mais vergonhoso é que eu sabia que ele não estava ali, não podia estar. Era apenas a mistura de bebidas que eu havia feito naquela noite unida à minha maldita vontade de ter aquele homem pra mim, dentro de mim, de todas as formas possíveis e inimagináveis.
Pior é que no fundo eu estava gostando, pois era o mais perto do Heero que eu poderia chegar naquele momento.
Enquanto sentia a mão forte subir, descer e subir novamente, eu apertava meus olhos ao máximo, tentando me apegar aquela imagem fictícia que meu cérebro embriagado estava traçando. Mordendo o lábio inferior, juntei todo o último fio de concentração que me restava para não chamar o nome do japonês.
- Duo...
Meus sentidos foram assaltados pela percepção da voz de Heero parecendo tão real como se ele estivesse realmente ali comigo, chamando pelo meu nome. Talvez em condições normais, eu tivesse atestado minha própria insanidade, mas naquele momento a voz rouca me chamando uma segunda vez foi a gota d'água para os meus nervos já à flor da pele.
Qualquer outro pensamento coerente foi esquecido ao sentir o clímax se aproximar a cada segundo, enquanto meus movimentos quase frenéticos pareciam ter surtido efeito em Stephen; os ombros largos em que eu me apoiava tencionaram e em meio ao meu momento de puro deleite, considerei este um sinal de que ele estava alcançando sua própria libertação.
Infelizmente, tudo durou muito pouco, mas posso garantir que há muito não sentia minha mente tão livre de... tudo. Talvez por isso tenha doído tanto ser puxado de volta à realidade devido a uma movimentação estranha ao meu redor e a tenção no corpo do embaixo do meu.
Ergui meu rosto para encarar os olhos verdes, querendo entender o que estava errado. Ele parecia tão animado há poucos instantes, o que pode ter mudado?
Pisquei algumas vezes ao constatar que ele não estava olhando para mim, e sim na direção de algum ponto às minhas costas. Sua face carregava um misto de confusão, incredulidade e mais algumas coisas que eu não conseguia ler.
Um pouco assustado e até curioso, ordenei que meu corpo saísse daquele estado de torpor, e me virei o suficiente para olhar na mesma direção em que os olhos de Stephen estavam pregados.
A única coisa na qual eu queria acreditar naquele instante é que se tratava de algum efeito alucinógeno provocado pela maravilhosa combinação do álcool ainda presente em meu sistema mais a sensação inebriante do pós-orgasmo. Confiante nessa teoria, pisquei algumas vezes tentando fazer com que aquela imagem de um Heero parado no meio do banheiro sumisse da minha frente.
- Duo Maxwell...
- Yuy... – murmurei, buscando em Stephen a confirmação de que eu não estava vendo nem ouvindo coisas.
Olhos semi-cerrados, punhos fechados e a face mais expressiva que eu já vi o japonês usar em toda a minha vida... aquele era Heero Yuy, e bem real, por sinal... tão real como a raiva que escurecia os olhos azul cobalto...
Antes que qualquer reação pudesse me assaltar, cheguei à conclusão de que aquela era a minha merecida vingança...
E a ironia de ver nossos papéis trocados apenas a tornava ainda mais doce...
Continua...
Notas:
Hey o/
Bom... e eu que pensei que não sairia tão cedo da gaveta...e aki está!
Eu poderia culpar muita coisa pelo atraso, mas prefiro citar minha dificuldade em levar esse enredo... "Vínculos" não é mais o que eu imaginava a princípio... mas estamos tentando levar adiante... Além do mais, esse site anda de mal a pior... -.-'
E para terminar, gostaria de agradecer os reviews que eu recebi nesse ultimo capítulo, especialmente os últimos que chegaram. Parte do animo para concluir esse cap. veio delas: Litha-chan, MaiMai, Dark Vampira, Blanxe, Larcan, Mey Lyen, Yuukii, Ju, Tammy, Amy e Niu.
Obrigada a todos, por comentar ou apenas ler...
Sem mais delongas... até o próximo o//
