9. Lembranças

Hermione tirou a tarde de domingo para arrumar seu apartamento, já que depois da confusão com a pedrada na casa dos Weasley, não havia mais clima para o almoço em família. Então, assim que Rony e Susan foram embora, ela e Harry decidiram que deviam ir também, Hermione porque toda a confusão tinha sido causada indiretamente por ela, e Harry porque ficou com ânsia de vômito vendo a maneira carinhosa com que Gina cuidava de Malfoy.

Tentou começar a faxina, mas estava impossível, já que não conseguia parar de pensar em Rony, na maneira como ele a defendeu e na forma como ele a olhou e sorriu pra ela. "Talvez ele ainda sinta algo por mim". Sorria por dentro. Teve medo de estar enganada, mas não pôde deixar de sentir uma pontinha de esperança com a idéia de não tê-lo perdido totalmente. Acenou com a varinha para tirar o pó do tapete. "Sim, talvez ele ainda me ame e quem sabe possa me perdoar". Ela sentiu um frio na barriga. E se ele não a perdoasse? E se ela estivesse imaginando coisas? Não, não queria pensar nisso agora. Decidiu se concentrar na limpeza, mesmo sabendo que seria impossível.

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Apesar de ainda estar de tarde, Susan dormia tranquilamente. Rony, sentado ao lado dela na cama, a observava. Haviam dormido juntos depois da conversa, embora Rony achasse que não existia clima para aquilo. Estava se sentindo um lixo. Tinha feito Susan chorar de novo, tinha a magoado outra vez. E pra piorar, tinha dormido com ela, pra iludi-la mais ainda.

As coisas definitivamente não podiam continuar assim. Precisava dar um basta naquela situação, que estava começando a atormentá-lo. Começou a questionar se deveria haver casamento. Levantou-se e foi em direção ao banheiro. Precisava de um banho.

Debaixo do chuveiro, tentou pensar no que fazer. Ou terminava tudo com Susan e a deixava seguir sua vida e encontrar alguém que não tivesse sentimentos por um amor do passado, ou fingia que nada estava acontecendo e casava-se com ela como haviam planejado. Nenhuma das duas alternativas lhe pareceu melhor que a outra. "Se eu terminar com ela, o que vou fazer da minha vida? Vou continuar pulando de mulher em mulher e voltar a ser um galinha?" Não, não queria isso. "Mas se nos casarmos, vamos acabar sendo infelizes, porque eu simplesmente não consigo esquecer Hermione."

Amaldiçoou-se. Hermione. Por que, por que não conseguia tirá-la da cabeça? Então, a pior lembrança de sua vida, uma lembrança de quatro anos atrás, lhe veio à mente.

Flashback

Rony vinha pelos corredores do Hospital St Mungos para Doenças e Acidentes Mágicos. Harry estava hospitalizado há duas semanas depois de uma luta de vida ou morte com Lord Voldemort, a quem derrotou, mas quase morreu também. Rony e Hermione iam visitá-lo todos os dias desde que também deixaram o hospital, recuperados de seus ferimentos, sofridos em batalha com os Comensais da Morte. Há essa hora Hermione devia estar com Harry, e Rony sabia que sua intenção ali não era apenas visitar o amigo. Precisava dizer a Hermione tudo. Precisava ser sincero com ela, dizer a ela que a amava. Não podia perder mais tempo. Não depois de uma guerra que quase os matou e quase fez com que ele perdesse a chance de se declarar. Olhou para o buquê de rosas vermelhas que tinha na mão.

_ Eu tenho certeza que ela sente o mesmo_ ele disse sorrindo e em voz alta. Uma bruxa enfermeira que estava examinando uma prancheta no corredor o olhou intrigada e ele sorriu para ela.

Finalmente ficaria junto de seu amor.

Parou em frente à porta do quarto 204 e com um sorriso entrou. Segurava firmemente o buquê em sua mão. Hermione estava de costas, sentada numa cadeira ao lado da cama de Harry e eles conversavam animadamente. Harry então, olhou por cima do ombro de Hermione e sorriu.

_ Até que enfim, pensei que não fosse vir hoje_ comentou Harry sorrindo para Rony. Hermione virou-se.

_ Rony_ ela levantou e o abraçou, sem prestar atenção nas rosas_ Realmente você demorou hoje.

_ Desculpem_ Rony disse_ Como se sente hoje, Harry?

_ Ótimo, aliás, já estou bem há dias, não sei por que ainda insistem em me manter aqui_ Harry disse com desgosto.

_ Porque você ainda está se recuperando_ afirmou Hermione sabiamente.

_ Mas eu já estou bom_ ele afirmou_ E as flores, são pra mim? Não precisava se incomodar, Rony_ disse em tom de brincadeira.

_ Não seja palhaço_ as orelhas de Rony estavam vermelhas_ Er... Mione, são pra você.

Estendeu pra ela o buquê de flores. Estava muito nervoso. Hermione corou furiosamente.

_ Pra mim? Mas por quê? Não precisava se incomodar_ ela cheirou as flores e tinha os olhos baixos_ Obrigada, Rony.

_ De nada e, não foi incomodo.

Harry ficou constrangido com a cena, mas não pôde deixar de se sentir satisfeito ao ver o comportamento dos amigos.

_ Hermione, será que a gente pode conversar um instante lá fora?_ Rony perguntou timidamente.

_ Claro_ ela respondeu ainda sem encará-lo_ Nós já voltamos, Harry.

_ Não precisam ter pressa_ Harry disse sorrindo.

Os dois andaram para fora do quarto. Chegando no corredor, pararam um de frente pro outro. Encararam-se por um instante.

_ Então..._ murmurou Hermione.

_ Bom, é que... eu, bem..._ Rony não conseguia encontrar as palavras certas.

_ Pode falar, Rony_ ela sorriu ternamente, encorajando-o a continuar.

_ Hermione, o que eu tenho pra dizer não é fácil, pelo contrário_ ele começou com esforço_ Mas eu sinto que não posso esperar mais, porque todos os dias em que eu passo sem dizer a você o que eu sinto, tem se tornado uma tortura pra mim.

Hermione ficou em silêncio, seus lábios começando a tremer como se fosse chorar.

_ Eu ensaiei esse momento tantas vezes na minha cabeça, tentei pensar em coisas bonitas e românticas pra te dizer_ ele disse vermelho feito um tomate_ E eu quero dizer essas coisas bonitas... eu tô há tanto tempo me encorajando a falar com você e eu sei que esse é o momento. Não quero que ele escape.

_ Rony, eu...

_ Por favor, me deixe continuar, não quero perder a coragem_ ele pediu_ Como eu ia dizendo, não posso deixar esse momento escapar. Porque se não for agora, não será nunca_ ele tomou fôlego_ Desde que as coisas começaram a piorar e a guerra ficou mais sangrenta e todas aquelas pessoas começaram a morrer, eu tive um medo imenso que alguma coisa acontecesse a você, ou a mim, sem eu ter te falado sobre os meus sentimentos. E quando as coisas ficaram feias pra nós três, com Harry enfrentando Você Sabe Quem e nós, os Comensais, eu pensei: "Meu Deus, estamos prestes a morrer, e ela nunca vai saber como eu me sinto". Eu tive medo Hermione, muito medo. E é por isso que agora eu tô aqui abrindo o meu coração pra você e te dizendo o que eu deveria ter dito a anos... Eu te amo, Hermione e não posso mais fingir que quero ser apenas seu amigo.

Fez-se silêncio. As primeiras lágrimas começaram a escorrer dos olhos de Hermione. Mas não eram lágrimas de felicidade. Ela abaixou a cabeça, fitando o chão. Rony começava a ficar mais nervoso. Ela iria ficar calada?

_ Fala alguma coisa_ ele pediu ansioso.

Ela finalmente levantou a cabeça. Seu rosto lavado de lágrimas. Então, com muito esforço falou.

_ Rony, eu... eu sinto tanto_ sua voz tremeu e ela soluçou.

_ Eu não entendi, sente o quê?

_ Eu não... não sinto... não sinto o mesmo por você.

Rony ficou mudo. Demorou um tempo para assimilar aquelas palavras. Teria ele ouvido bem? Ela disse que não correspondia a seus sentimentos? Uma estranha sensação de fraqueza pareceu querer tomar conta dele.

_ Como... como assim, não sente?

_ Me desculpe_ ela disse passando uma das mãos, nos olhos_ Mas não podemos ser mais que amigos. Eu sinto muito!

_ Você está me gozando, Hermione?_ ele perguntou rispidamente. Sua voz começando a ficar embargada.

_ Não, claro que não. Eu nunca brincaria com uma coisa dessas_ ela chorava mais forte e as pessoas no corredor começavam a olhar pra eles_ A última coisa que eu quero é magoar você, Rony... não quero que você sofra...

Rony passou as mãos pelos cabelos e se controlou pra não gritar na cara dela. Se sentiu dentro de um pesadelo.

_ Você acha que eu tenho cara de palhaço?_ perguntou ferozmente, embora não alterasse a voz_ Hein? Acha que eu sou idiota?

_ Não diga isso...

_ Eu devo ser mesmo um estúpido_ ele a interrompeu_ Porque só sendo muito estúpido pra pensar que você sentia alguma coisa por mim. Mas, me diz, por que você me iludiu, Hermione? Por que me deu esperanças?_ aumentou o tom de voz.

_ Eu...

_ Sim, porque você me deu esperanças, não foi? Naquela droga daquele Baile... você parecia gostar de mim, e quando eu comecei a sair com a Lilá, você me atacou com aquele bando de canários assassinos e ficou sem falar comigo por meses... então, tudo aquilo foi o quê? Pra me fazer de idiota? Bom, então você conseguiu, não é? Parabéns, eu espero que tenha se divertido.

_ Por favor, Rony, não fale assim comigo_ implorou ela aos prantos.

Ele lançou a ela um olhar de desprezo, então antes que pudesse evitar, uma lágrima rolou por sua face. Ele virou o rosto. Não podia chorar por ela, ela não merecia.

_ Rony_ ela se aproximou chorando e erguendo a mão na direção do rosto dele. Ele se afastou pra que ela não o tocasse. Hermione abaixou a mão e olhou para o buquê que segurava na outra_ Por favor, me perdoe_ ela pediu.

Ele suspirou e limpou o rosto com as costas das mãos. Sentia-se a pessoa mais burra da face da terra. Sentiu ódio de si mesmo. Queria sumir. Queria morrer. Um silêncio doloroso tomou conta do lugar. Hermione chorava abraçada ao buquê e Rony lutava contra a vontade quase incontrolável de quebrar tudo ao seu redor. Então, ele respirou fundo mais uma vez e andou alguns passos, ultrapassando Hermione. Ela virou-se para ele. Ele parou de andar e também se virou, a encarando. Os olhos ardendo com a vontade de chorar.

_ Diga ao Harry... que não pude ficar_ ele pediu baixinho e deu as costas recomeçando a andar.

_ Rony?_ Hermione o chamou e ele lentamente, mais uma vez se virou_ Me perdoe, por favor. Ainda podemos continuar amigos_ ela disse em tom de súplica.

_ Não, Hermione, não podemos_ ele afirmou seco_ Porque eu não quero mais sua amizade, aliás, eu não quero mais nada que venha de você... me esqueça, ok? Finja que eu nunca existi_ continuou gélido_ Porque eu farei o mesmo... Adeus, Hermione.

Rony continuou seu caminho. Hermione ficou pra trás, parada no mesmo lugar. Antes de virar no corredor, à esquerda, Rony ainda pode ouvir ela chorar.

Fim do Flashback

Rony desligou o chuveiro. Enrolou-se na toalha. Como lembrar daquilo ainda o machucava. Ele nunca poderia esquecer aquelas palavras: "eu não sinto o mesmo por você".

Na época estava tão certo de que Hermione também o amava, que nem passava pela sua cabeça a possibilidade de ser rejeitado. Mas ele foi. E aquilo ainda doía.

Vestiu uma calça boxer preta e saiu do banheiro. Quando entrou no quarto, surpreendeu-se ao ver a cama vazia. Susan não estava mais lá. Rony se dirigiu então a sala, e lá estava ela, sentada no sofá, com um olhar vago na direção do nada, apenas de roupão. Ficou um instante a observá-la, sem ser notado por ela. Então, de repente Susan ergueu os olhos para ele e esboçou um sorriso, pouco convincente. Rony não retribuiu. Tinha de falar com ela seriamente. "É Rony, tá na hora" ele pensou. Estava decidido a resolver aquela situação de uma vez por todas.

_ Susan, precisamos conversar_ afirmou sério.

O sorriso amarelo desapareceu da face de Susan. Ela gelou e seu coração disparou. Temeu o que estaria por vir.

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N/A: Dois capítulos de uma vez. Que autora boa eu sou, não? rsrs

Bom, tinha que ter uma explicação pra Rony ter tanta mágoa da Hermione, e aí está. E me perdoem pela Mione está tão ausente nos últimos dois capítulos. Prometo que no próximo, ela dará mais o ar da graça. ^^

Bjks!