Capítulo 7 – PHYSALIA PHYSALIS
O Mercedes SL600 cinza-metálico passou pela estrada, rumo ao sul. Harry estava no banco do passageiro da frente, com tanto couro macio à sua volta que mal conseguia ouvir o motor 6.0, de 389 cavalos, que o levava aos prédios da Sayle, perto de Port Tallon, na Cornualha. Mesmo a 130 quilômetros por hora, o motor estava em baixa rotação. Harry sentiu a potência do carro. Engenharia alemã, no valor de cem mil libras esterlinas¹. Bastava o chofer magro e carrancudo resvalar no acelerador para o Mercedes deslanchar. Era um carro que não dava a mínima para os limites de velocidade.
Harry tinha sido apanhado de manhã num prédio que já fora uma igreja, em Hampstead, na zona norte de Londres. Era onde Felix Lester morava. Quando o motorista chegou, Harry já o esperava de mala pronta e havia até uma mulher, agente do MI6, que o beijou, disse-lhe que não se esquecesse de escovar os dentes e despediu-se com um aceno. Para o motorista, Harry era Felix. Harry havia lido o dossiê naquela manhã e sabia que Lester freqüentava uma escola chamada St. Anthony, tinha duas irmãs e um cachorro labrador. O pai dele era arquiteto. A mãe era designer de jóias. Uma família feliz, a família de Harry, caso alguém perguntasse.
-Qual é a distância daqui a Port Tallon? – indagou ele.
Até então o motorista não tinha dito uma palavra. Respondeu sem olhar para Harry:
-Poucas horas. Quer ouvir música?
-Você tem John Lennon? – Não era uma escolha sua. Segundo o dossiê, Felix Lester gostava de John Lennon.
-Não.
-Deixe pra lá. Vou dormir um pouco.
Precisava dormir. Ainda estava exausto do treinamento e pensava em como explicar todos os cortes e ferimentos mal cicatrizados, se alguém os notasse sob a camisa. Talvez contasse que tinha brigado na escola. Fechou os olhos e deixou o assento de couro macio embalá-lo.
XxXxX
A sensação de que o carro estava parando o despertou. Ele abriu os olhos e viu uma vila de pescadores, o mar azul à frente, uma faixa de morros verdes e o céu sem nuvens. Era como um quadro de quebra-cabeça, ou ainda um folheto de férias fazendo propaganda da antiga Inglaterra. Gaivotas mergulhavam em vôo e circulavam barulhentas pelo céu. Um velho rebocador, com redes emaranhadas, a pintura descascada e soltando fumaça, atracou no cais. Alguns moradores, pescadores e suas mulheres, aproximaram-se para observar. Eram quase cinco horas da tarde, e a vila estava envolta pela luz delicada e prateada típica de um fim de primavera.
-Port Tallon. – disse o motorista. Ele provavelmente notara que Harry abrira os olhos.
-É bonita.
-Não se você for um peixe.
Rodaram pela orla do vilarejo e depois se afastaram da costa, por uma pista que se contorcia entre campos cheios de buracos estranhos. Harry viu construções em ruínas, chaminés caindo aos pedaços e rodas de metal enferrujadas, e percebeu que se tratava de uma velha mina de estanho. Na Cornualha, já se trabalhava nas minas de estanho três mil anos antes, até que um dia o metal se esgotou. Agora, só restavam os buracos.
Depois de alguns quilômetros, apareceu um alambrado, novinho em folha, com dez metros de altura e arame farpado por cima. Lâmpadas ofuscantes estavam dispostas em torres a intervalos regulares e havia imensos cartazes brancos com letras vermelhas. Via-se o que estava escrito até do vilarejo vizinho.
EMPRESAS SAYLE – PROPRIEDADE PARTICULAR
"Os invasores serão mortos" pensou Harry. Lembrou-se do que Sra. McGonagall lhe dissera. Ele tem uma espécie de exército particular. Age como se tivesse algo para esconder. Bem, sem dúvida, era essa sua primeira impressão. Todo o conjunto de prédios era meio disparatado, esquisito em meio àqueles campos e morros ondulados.
O carro chegou ao portão principal, onde havia uma guarita e uma cancela eletrônica. Um guarda de uniforme azul e cinza, com ES estampado no paletó, fez sinal para passarem. A cancela subiu automaticamente. Seguiram por uma estrada longa e reta até um terreno que aparentava ter sido aplainado. De um lado, havia uma pista para aviões; do outro, um conjunto de quatro prédios moderníssimos. Eram grandes edifícios de aço e vidro fume, cada um ligado ao outro por uma passarela coberta. Havia duas aeronaves perto da pista, um helicóptero e um pequeno avião de carga. Harry estava impressionado. O terreno todo devia ter uns cinco quilômetros quadrados. Era um empreendimento e tanto.
O Mercedes chegou a uma rotatória com uma fonte no centro, circundou-a e seguiu para uma casa enorme e maravilhosa. Era no estilo vitoriano², de tijolos vermelhos, com cúpulas e espiras de cobre que se tornaram esverdeadas havia muito tempo. Tinha pelo menos sessenta janelas nos cinco andares que davam para a via. Uma casa que parecia não ter pudor do próprio tamanho.
O Mercedes estacionou à frente da entrada principal e o motorista desceu, dizendo um simples "Venha comigo."
-E minha bagagem? – perguntou Harry.
-Será levada.
Harry e o motorista passaram pela porta da frente e chegaram a um saguão em que predominava uma imensa pintura à óleo, O Dia do Juízo Final, o fim do mundo, pintada quatro séculos antes e retratando um turbilhão de almas perdidas e demônios. Havia obras de arte por todos os lados. Aquarelas e óleos, gravuras, desenhos, esculturas de pedra e de bronze, todos amontoados, não havia um só lugar para repousar os olhos. Harry seguiu o motorista por um tapete tão espesso que ele andava aos saltos. Começava a sentir claustrofobia e ficou aliviado quando passaram por uma porta e deram numa sala enorme, praticamente vazia.
-Sr. Sayle estará aqui num minuto. – disse o motorista ao sair.
Harry olhou em volta. Era uma sala moderna, com uma escrivaninha de aço de linhas curvas, perto do centro, lâmpadas halógenas cuidadosamente posicionadas e uma escada em espiral que descia de um circulo perfeito aberto no teto, bem alto. Uma parede inteira consistia em uma única chapa de vidro e, ao se aproximar, Harry percebeu que se tratava de um aquário gigantesco. Foram as dimensões que atraíram Harry. Difícil imaginar quantos milhares de litros o vidro suportava, mas Harry ficou surpreso ao ver que o aquário estava desabitado. Não havia peixes, embora tivesse espaço suficiente para abrigar um tubarão.
Então, algo se moveu nas sombras azuladas. Harry engoliu em seco, numa mistura de horror e espanto, quando a maior medusa que ele jamais vira flutuou à sua frente. O corpo do bicho era uma massa branca e arroxeada, brilhante e pulsante, com a forma aproximada de um cone. Por baixo dela, contorciam-se na água tentáculos em profusão, de um dez metros de comprimento, cobertos de células urticantes arredondadas. Quando a medusa se mexia ou flutuava na correnteza artificial, seus tentáculos batiam no vidro, como se ela quisesse quebrá-lo. Era a coisa mais assustadora e repulsiva que Harry havia visto até então.
-Physalia physalis. – A voz veio por detrás. Harry se virou e viu um homem descer o último degrau da escada.
Herod Sayle era baixo. Tão baixo que a primeira impressão de Harry foi que parecia estar olhando para a imagem de um espelho distorcido. Com um terno preto caro e impecável, anel de ouro com sinete e sapatos pretos lustrosos, ele parecia a miniatura de um empresário multimilionário. Sua pele era tão escura que os dentes cintilavam quando ele sorria. Tinha uma cabeça redonda, careca, e olhos horríveis. As íris cinzentas eram pequenas demais, rodeadas inteiramente de branco. Harry se lembrou de girinos. Quando Sayle parou diante dele, seus olhos ficaram na mesma altura dos de Harry e eram menos receptivos que a medusa.
-Caravela³. – prosseguiu Sayle. O sujeito tinha o forte sotaque dos feirantes de Beirute. – É bonita, não acha?
-Eu não teria um bicho de estimação desses. – disse Harry.
-Eu a encontrei quando estava mergulhando no sul do mar da China. – contou Sayle, apontando para uma vitrine, onde Harry notou três pistolas de arpão e uma coleção de facas encaixadas em sulcos forrados de veludo. – Adoro matar peixes. – continuou Sayle. – Mas quando vi esse espécime de Physalia physalis, decidi capturá-lo e trazê-lo para cá. Sabe, ela me faz lembrar de mim mesmo.
-É noventa e nove por cento feita de água. Não tem cérebro, nem intestinos, nem ânus. – Harry desencavou as informações de algum lugar da memória e as soltou sem pensar.
Sayle olhou para Harry de relance, então se virou para a criatura, que flutuava acima dele no aquário.
-É um ser estranho. – disse ele. – Flutua sozinho, ignorado pelos outros peixes. É silencioso, mas impõe respeito. Está vendo os nematocistos, Sr. Lester? As células urticantes. Se você ficasse enroscado neles, seria uma morte estranhamente dolorosa...
-Me chame de Harry. – ele queria ter dito Felix, mas escapou Harry. Foi o erro mais bobo, mais amador, que ele podia ter cometido. Mas perdera a concentração com a aparição de Sayle e a dança lenta e hipnótica da medusa.
Os olhos cinza demonstraram mal-estar:
-Achei que seu nome fosse Felix.
-Meus amigos me chamam de Harry.
-Por quê?
-Por causa de Harry Ferguson. Sou torcedor do Manchester United. – Foi a primeira coisa que lhe veio à cabeça. É que Harry tinha visto um pôster de futebol no quarto de Felix Lester e admitiu que ele ao menos escolhera o time certo.
-Muito curioso. – Sayle sorriu. – Então você será Harry. Espero que nos tornemos amigos, Harry. Você é um garoto de sorte. Ganhou o concurso e será o primeiro adolescente a experimentar meu Stormbreaker. Mas a sorte é minha também. Quero saber o que acha dele. Quero que me diga do que você gostar... e do que não gostar. – Seus olhos se desviaram e repentinamente ele assumiu a figura de um homem de negócios. – Faltam apenas três dias para o lançamento. – disse ele. – É melhor agirmos rápido, druga, como meu pai costumava dizer. Vão levá-lo ao seu quarto, e a primeira coisa que você fará amanhã de manhã é pôr mãos à obra. Deve experimentar o programa de matemática... e também o de idiomas. Todos os programas foram criados aqui nas Empresas Sayle. Claro, já conversamos com crianças. Recorremos a professores, a especialistas em educação. Mas você, meu caro... Harry. Você será mais útil para mim do que todos eles juntos.
À medida que falava, Sayle ficava cada vez mais exaltado, tomado pelo próprio entusiasmo. Tornara-se completamente diferente. Harry tinha que admitir que antipatizara de cara com Herod Sayle. Não era de admirar que Dumbledore e o pessoal do MI6 desconfiassem dele. Mas agora Harry precisava repensar. Estava diante de uma das pessoas mais ricas da Inglaterra, um homem que tinha decidido, por pura bondade, dar um presentão às escolas britânicas. Só por ser baixinho e repugnante, Sayle não era necessariamente um inimigo. Talvez Dumbledore estivesse errado.
-Ah, aí está o homem. – disse Sayle. – Bem na druga da hora!
A porta se abrira e entrou um homem, trajando o fraque preto de um mordomo à moda antiga. Era tão alto e magro quanto seu chefe era rechonchudo e baixo, e tinha uma mecha de cabelo ruivo sobre o rosto, branco como papel. De longe, parecia estar sorrindo, mas, assim que se aproximou, Harry engoliu em seco. O homem tinha duas cicatrizes horrorosas, uma de cada lado da boca, que se retorciam até as orelhas. Era como se alguém tivesse tentado cortar seu rosto ao meio. As cicatrizes tinham um tom lilás horripilante. Havia cicatrizes menores, mais fracas, nos pontos em que as bochechas foram costuradas.
-Este é o "Sr. Esgar". – apresentou Sayle. – Ele ganhou esse nome depois do acidente.
-Acidente? – Harry achou difícil não olhar para as terríveis cicatrizes.
-O Sr. Esgar trabalhava num circo. Aconteceu durante um inovador número de arremesso de facas. No clímax, ele costumava pegar com os dentes a faca que vinha girando. Uma noite, sua mãe, velhinha, foi assistir ao espetáculo e acenou da fila da frente; ele perdeu a concentração e errou o tempo. Trabalha para mim há mais de dez anos e, embora sua aparência possa ser desagradável, ele é leal e eficiente. Aliás, não tente conversar com ele, porque não tem língua.
-Aeeerrr! – exclamou o senhor Esgar.
-Prazer em conhecê-lo. – murmurou Harry.
-Leve-o ao quarto azul. – ordenou Sayle. Voltou-se para Harry: - Considere-se feliz, porque um dos melhores quartos da casa ficou desocupado. Um dos nossos seguranças estava hospedado lá. Mas ele nos deixou muito de repente.
-Por quê? – perguntou Harry, como quem não quer nada.
-Não tenho a menor idéia. Numa hora ele estava aqui, na outra já tinha sumido. – Sayle sorriu novamente. – Espero que não faça o mesmo, Harry.
-Poorrrr... aííí! – Sr. Esgar apontou para a porta e, deixando Herod Sayle diante de sua imensa presa, saiu da sala com Harry.
Ele foi levado por uma passagem com mais obras de arte, subiu uma escadaria e depois percorreu um longo corredor com candelabros, ladeado de portas grossas com almofadas de madeira. Harry deduziu que a casa principal era usada para lazer. Provavelmente o próprio Sayle morava ali. Mas os computadores deviam ser montados nos prédios modernos do lado contrário da pista de pouso. Talvez o levassem lá no dia seguinte.
O quarto de Harry ficava no final do corredor. Era amplo e tinha uma cama de dossel e uma janela que dava para a fonte. Caiu a noite, e a água jorrava de cerca de dez metros de altura sobre uma estátua seminua, muito parecida com Herod Sayle e sinistramente iluminada por vários refletores ocultos. Perto da janela, estava posta uma mesa para ele com o jantar: pernil, queijo, salada. Sua mala estava sobre a cama.
Harry foi até ela, uma maleta esporte da Nike, e a examinou. Em casa, quando a fechara, tinha colocado no zíper três fios de cabelo, que ficaram presos entre os dentes de metal. Não estavam mais lá. Ele abriu a mala e olhou o conteúdo. Tudo estava exatamente como ele arrumara, mas tinha certeza de que a maleta havia sido metodicamente vasculhada.
Harry tirou da mala o Game Boy Color, inseriu o cartucho do jogo Speed Wars e apertou o botão start três vezes. A tela iluminou-se na hora com um retângulo verde do mesmo formato do quarto. Ele levantou o Game Boy e o girou em volta, contornando as paredes do quarto. De repente, apareceu na tela um ponto vermelho piscando. Andou para a frente segurando o Game Boy. O ponto luminoso piscou mais rápido, com mais intensidade. Ele se aproximou de um quadro pendurado perto do banheiro, de linhas onduladas coloridas, tentando imitar um Picasso. Pôs de lado o Game Boy e retirou cuidadosamente a tela da parede. Um dispositivo de escuta estava grudado com fita adesiva atrás do quadro, um disco preto mais ou menos do tamanho de uma moeda grande. Harry observou o microfone por um minuto, perguntando-se por que estaria ali. Segurança? Ou Sayle teria obsessão por controle a ponto de querer vigiar o que seus hóspedes faziam a cada minuto do dia e da noite?
Harry pôs de volta o quadro na parede. No quarto havia apenas um aparelho de escuta. O banheiro não tinha nenhum.
Ele jantou, tomou banho e se preparou para dormir. Ao passar pela janela, notou uma movimentação perto da fonte. Havia luzes nos prédios modernos. Três homens, vestidos de macacão branco, vinham em direção à casa num jipe sem capota. Dois outros homens passaram por ali. Eram seguranças, usando o mesmo uniforme do homem do portão. Ambos portavam submetralhadoras. Tratava-se de um exército não só particular, mas muito bem armado.
Harry foi para a cama. A última pessoa que dormira nela tinha sido seu padrinho, Sirius Black. Será que viu alguma coisa ao olhar pela janela? Ouviu algo? O que acontecera que provocou sua morte?
O sono demorou a chegar na cama do morto.
(N/A¹: Libras esterlinas é a atual moeda inglesa).
(N/A²: Estilo artístico e arquitetônico da época do reinado da rainha Vitória 1837-1901, do Reino Unido).
(N/A³: Caravela é o nome popular da medusa Physalia physalis).
