Sob Minha Pele

- Ela tem vinte e quatro anos, pode se cuidar sozinha. - murmurou Klaus ao telefone, encarando o teto de seu escritório.
- Concordo, Nik. Agora você vai me explicar o que está acontecendo? - questionou Stefan, parecendo entediado. Mikaelson sabia, mesmo sem vê-lo, que o Salvatore estava revirando os olhos.

- Ele ligou para ela ontem de manhã. Caroline está apaixonada por ele, nem sei porque estou surpreso. - reclamou Klaus, afundando o rosto entre as mãos, frustrado.

- Ele... Ele quem, Nik? - assumiu um tom irritado.

- Tyler, Stefan! Tyler Lockwood, caramba!
Niklaus empurrou as canetas e os pincéis para longe de si, sentindo o rosto pegar fogo. O silêncio foi a única coisa que respondeu seu grito repentino. Após um longo minuto, seu melhor amigo finalmente disse:

- Tyler...? - parecia chocado, surpreso.

- É, Stefan! Tyler! Ficou surdo agora, além de tudo? Ele ligou ontem de manhã e, é claro, Caroline correu para ele como um cachorrinho! - novamente o silêncio. Klaus bufou, irritado, e adicionou: - Não vai falar nada?

Stefan suspirou. - Nik... Ciúme não lhe cai bem, cara.

- Não estou com ciúme! - exclamou o outro, fazendo com que o Salvatore risse baixinho.
- Claaaro que não... - ronronou. - Nik, ela aceitou casar com você! E daí que vai almoçar com um ex-namorado hoje? E daí que ficou animada quando ele ligou? Faz cinco anos que Tyler não dá um sinal de vida, é natural que ela tenha ficado empolgada.

Niklaus bufou. Não podia esperar que seu melhor amigo entendesse. Naquele mundo Caroline era sua noiva de 24 anos, que não via Tyler, sua paixonite de escola, há cinco... Já no mundo de Klaus, Caroline não via seu grande amor há apenas três meses, desde que haviam surgido naquela terra de faz de conta.

Eram mulheres diferentes a quem se referiam.

- É natural ela correr para os braços dele? - Klaus resmungou. - É natural ela... - fingir que o beijo nunca ocorreu? -... Não falar comigo?

Stefan tornou a suspirar. - Nik, pare de surtar. Caroline te ama, e ciúme te torna ainda mais mala que o normal. É só um almoço, cara... Olha, tenho que desligar, meu paciente chegou. Tente não enlouquecer!

- Certo, certo... E eu não estou com ciúme! - exclamou Mikaelson, mas apenas a linha muda respondeu-lhe.
Deixou a cabeça pender, suspirando.
Sábado fora perfeito: Haviam rido, haviam confiado um no outro e ele a beijara... E fora ainda melhor do que o que vinha fantasiando.

Porque Tyler tinha que meter-se entre eles? Porque Caroline tinha que correr para os braços dele como um cachorrinho?

Afinal, aqueles três meses não haviam significado nada?!


Caroline suspirou, olhando-se uma última vez no espelho retrovisor e saindo do carro, passando as mãos nervosamente pela frente de seu vestido e limpando o ombro de uma poeira imaginária.

O Grill ainda era exatamente como se lembrara, nada saíra do lugar. Exceto uma coisa: Matt era o dono.
Olhou ao redor, sentindo um arrepio percorrer seu corpo e a vontade de correr para casa surgir. Perguntou-se o que fazia ali.

- Care? - a voz dele enviou uma coleção de borboletas a seu estômago, fez sua pele se arrepiar. Virou-se e todas suas dúvidas desvaneceram-se nos olhos escuros dele, cheios de ternura e familiaridade. Era o seu Tyler. Não uma versão humana que não conhecera. Não, era seu Tyler Lockwood.

Jogou-se nos braços dele, afundou o nariz em sua camiseta preta e ouviu o batimento descontrolado de seu coração. - Ah, Tyler... - sussurrou, sentindo um nó surgir em sua garganta e o mundo desabar ao seu redor.
- O que está acontecendo, Care? - questionou seu namorado, afastando-lhe com delicadeza e a guiando para uma mesa.

- Eu não sei...

- Acordei sem saber em qual mundo estava. - ele a interrompeu, ansioso. - Eu me lembro de morrer, mas também de viver uma vida inteira... Como isso é possível? - torcia as mãos nervosamente, o rosto estava pálido e seus olhos maiores que o normal.

- Eu não sei, Tyler. - suspirou a loira. Apertou a mão dele entre as suas. - faz três meses que acordei nesse mundo... Klaus e eu estamos...

- Klaus? - Tyler franziu as sobrancelhas.
Caroline não respondeu. O que deveria dizer-lhe?

- Care, o que Klaus tem a haver com tudo isso? - o jovem questionou, irritação manchando suas palavras.

- Acordamos aqui... Em Mistic Falls... Eu, ele e Kol.

- Kol Mikaelson?
Você conhece outro? - Sim. - franziu as sobrancelhas. - Você se lembra da vida nesse mundo? Porque eu, Klaus e Kol, não...

- Lembro. - interrompeu. Suas mãos tremiam. - Minha cabeça parece estar pegando fogo! Eu sinto a fome, mas... - teve um arrepio. - Vocês só acordaram nesse mundo? Sem nenhuma lembrança?

- É. - suspirou. - Exatamente.

- Podemos dar um jeito nisso, Care. - garantiu, sorrindo. Ele sempre gostara de ser o herói, afinal.

Ela sorriu. - Você deveria ter visto. Foi até um pouco engraçado: Acordei ao lado de Klaus e tive um surto histérico, tentei enfiar uma colher nele... - soltou uma risadinha.
Lockwood franziu o cenho. - Você e Klaus?


Empurrou a porta da clínica, torcendo os dedos nervosamente.

- Kol Mikaelson? - chamou uma enfermeira, segurando uma prancheta e fazendo um gesto para que seguisse-lhe. Ela apoiou uma mão nos bíceps dele e guiou-lhe gentilmente para sala de ressonância magnética. O jovem sorriu para a mão delicada, as unhas pintadas de azul escuro.

- Eu já não te vi em algum lugar antes? - brincou, olhando o crachá dela e percebendo que seu nome era Ruby. Conhecera muitas Rubys ao longo da vida, mas poucas fugiam aos estereótipos do nome.

- Sim. - ela revirou os olhos para a cantada barata, orientando que se deitasse. - Eu sou a recepcionista da clínica de doenças sexualmente transmissíveis, aquela na qual você sempre vai. - retrucou, arrancando uma gargalhada surpresa de Kol.

- Essa eu nunca ouvi! - riu. - Onde você esteve toda minha vida, Bonita? - provocou.
Ruby corou, ligando o aparelho e orientando que se endireitasse. - Exatamente onde vou estar o resto dela: Longe de você. - respondeu. - Fique quieto, Bonitão. O exame é rápido, quinze minutos e estará livre para ir. - garantiu, afastando-se e apertando dois botões no painel.

Kol respirou fundo, desconfortável quando a mesa passou a mexer-se, levando seu corpo gradualmente para dentro do tubo translúcido. Viu o anel de metal e cerâmica, do qual saiam raios, passar e fechou os olhos, respirando fundo. A dor de cabeça voltou a surgir com toda força;

É tão difícil assim admitir que tem sentimentos por mim, Mikaelson?

- Jeremy? - chamou, abrindo os olhos repentinamente, seu coração disparado e as mãos suando. Lembrava-se da frase, mas a dor crescia tão rapidamente que mal conseguia lembrar-se de seu nome. Era como se alguém estivesse enfiando um caco de vidro em sua testa.

- Kol, está tudo bem? - a voz de seu médico, Daniel Kurt, era muito alta, como se estivesse vindo de um alto-falante.
- Dor de cabeça... Muita dor de cabeça... - balbuciou, sentindo o gosto metálico encher sua boca.

- Cinco minutos mais, Kol. - garantiu-lhe o médico, com sua voz estridente, que não estava ajudando na enxaqueca. - E então lhe daremos ótimos medicamentos.

Mikaelson riu baixinho, mas encolheu-se quando a dor cravou as unhas em seu cérebro. - Drogas boas, Daniel... Drogas fortes. - resmungou, fechando os olhos novamente.
Dessa vez nenhuma voz fantasma o chamou, nenhuma sensação de déjà vu. Apenas a lancinante dor que revirava seu estômago e puxava nervo após nervo seu.

- E então, Bonitão? - a voz de Ruby puxou-lhe da quase inconsciência. - O Dr. Kurt pediu que lhe colocasse num IV de propanolol, para ajudar com a enxaqueca. - a voz dela era cuidadosamente baixa, embora ainda divertida. Estendeu-lhe uma mão para ajudá-lo andar até a outra sala, mas Kol negou, afastando-a.

- O que seria de minha reputação se permitisse que uma dama me carregasse? - questionou entre dentes, lutando para não choramingar quando acidentalmente olhou a incandescente luz branca. O chão rodopiou por um momento e Ruby agarrou-lhe pela cintura, guiando-o para o outro cômodo, um pouco mais escuro e tolerável, e o empurrando sentado na cadeira reclinável, preparando a agulha.

- Admita, Ruby, você não consegue manter suas mãos longe de meu corpinho. - ronronou Kol, agarrando-se ao braço da cadeira, enquanto o chão nadava vertiginosamente ao seu redor.
Ela riu. - Eu tenho uma agulha, bonitão, e não tenho medo de usá-la. - zombou.

Ele abriu a boca para dizer algo, mas soltou um choramingo quando foi espetado sem aviso prévio. A enfermeira gargalhou. - São sempre os mais machões... - suspirou para si mesma, afastando o cabelo dele de sua testa coberta por suor frio.

- Estou achando que você está se apaixonando por mim, Ruby... - cantarolou Kol, fechando os olhos sob seu toque gentil.
Ela ficou vermelha. - Nos seus sonhos, Garanhão...

- Bom. - Kol franziu o cenho quando sua voz soou alta demais e fez com que a dor desse-lhe uma fisgada. - Meu namorado não vai gostar nada...

Ouviu um suspiro. - Namorado? Eu devia ter imaginado...
- Tente não soar tão decepcionada, querida... - bocejou, sentindo o remédio começar a fazer algum efeito. - Além do que, você iria gostar de vê-lo... Jeremy é realmente lindo... - bufou, abrindo os olhos e vendo o olhar divertido que ela lançava-lhe. - Não conte para ele. - pediu, constrangido, corando.

A enfermeira sorriu. - Não vou contar. - puxou uma cadeira, parecendo decidida a fazer companhia para o estranho divertido, mas solitário. Tão ridiculamente interessante... - Agora me fale mais sobre Jeremy.


Caroline suspirou, sentindo sua boca seca. Estivera falando pelas últimas horas, contando à Tyler detalhe por detalhe de sua aventura naquele mundo... Bom, quase todos os detalhes.
Tyler não tinha que saber de tudo.

- Não acredito que passou por tudo isso, Care... Noiva de Mikaelson? Eu não consigo imaginar um castigo pior. – suspirou.
Seu ex – ou atual? – entrelaçou os dedos nos dela.

Caroline franziu o nariz, sem saber o que responder. - Não está sendo tão ruim quanto poderia ser. - seu estômago se apertou, como se seu próprio corpo boicotasse a escolha de palavras. Sua boca tinha gosto de traição. - Está sendo até bom.

- Bom? - Tyler ergueu uma sobrancelha, cético. - Klaus é um lunático, Care, não se engane. Estar noiva e grávida dele é uma maldição.

Ela levantou-se de supetão, fazendo o copo vazio cair da mesa e espatifar no chão. Lockwood arregalou os olhos surpreso, tanto quanto ela mesma.

- Care?

- Eu... - passou uma mão pelo rosto, exausta. - Acho que está na hora de dar o almoço por encerrado. - suspirou, pegando a bolsa. Aquele almoço arrastara-se por horas a fio, já escurecera. Caroline imaginou se Klaus estaria preocupado com ela ou se ainda estaria tão furioso quanto estivera de manhã.

- Que porra, Caroline? Isso é por causa do que eu disse sobre o Mikaelson?

- Não, não, não... - revirou os olhos, tentando acreditar em suas próprias palavras. O homem levantou-se, amassando pequenos cacos de vidro, e agarrou-a pelo braço.

- Você não se esqueceu de nós, esqueceu? - os olhos escuros dele estavam devorando-a, engolindo-a na ânsia de que ela negasse.
- Não! Claro que não, Tyler! - suas palavras não podiam ser mais honestas e ele sabia disso. Sorriu, aproximando-se.

- Então, Care... Eu e você, lembra? Você me prometeu a eternidade... - suspirou, apoiando a testa na dela.

- Eu sei, Ty, eu sei... - fechou os olhos. Conseguia sentir o cheiro dele, tão familiar. Podia sentir sua respiração e, com concentração suficiente, até o coração disparado sob sua mão espalmada no peito dele... Mesmo assim, lembrar-se do homem que amava era impossível. Era como tentar lembrar-se de um sonho dentro de um sonho.

- Mas a eternidade é tempo demais para quem não vive para sempre. - afastou-se dele. - Eu amo você, Tyler. - correu os dedos pálidos pelo rosto dele, seguindo o desenho perfeito de seu queixo quadrado e sua boca curvilínea.
- Eu te amo, Tyler Lockwood. - suspirou, juntando seus lábios nos dele e sentindo os olhos encherem-se de lágrimas.

- Mas...? - não se afastou, embora ela pudesse ouvir a mágoa em sua voz.

- Mas eu amo ele mais.

Caroline deu um passo para trás, um último aperto na mão de seu ex e segurando a bolsa. - Volte para casa, Ty... Volte para a mulher que diz ser sua namorada e que vai te fazer mais feliz do que eu jamais poderia. Encare esse mundo como uma benção, não uma maldição.

Acenou para ele e então Tyler se fora. Desvanecera-se na triste verdade de não ser mais: Não ser mais o homem da vida dela, não ser mais quem a melhor conhecia... Não ser mais seu Tyler Lockwood e não poder tê-la, já que Caroline também não era a mesma.

A loira correu para o carro, as mãos trêmulas. Estacionou as pressas e lutou com as chaves para abrir a porta, a ansiedade devorando-lhe.

- Klaus? Nik?! - gritou, jogando a bolsa no sofá e olhando pela casa. Seu coração se apertou.
Niklaus não teria ido embora, como ameaçara no auge de seus ciúmes na noite anterior, teria?

- NIK?! - as lágrimas encheram seus olhos. Aquilo simplesmente não podia estar acontecendo. Não podia ter sido deixada para trás mais uma vez. E não por ele! Subiu as escadas e empurrou a primeira porta que encontrou.

- Caroline?!

Beijou-o. Beijou-o porque o gosto de sua boca era tudo que podia pedir, a única coisa que podia acalmá-la. Beijou-o só porque podia. E podia apenas porque, pela primeira vez, não tinha que lutar contra aquilo. Passou os braços ao redor de seu pescoço, puxando-o para perto, sua língua não lutava com a dele, apenas seguia-lhe como se dançassem.

- Eu te amo. - murmurou e as lágrimas caíram uma a uma. Os soluços, que vinha contendo desde que Tyler ligara-lhe e destruíra sua manhã mágica de domingo, ameaçaram parti-la.
Nik afastou-se, os olhos verdes dele caçavam a verdade nos dela.

- Ama?

- Amo. - beijou-o novamente. - Amo. - sorriu, apoiando a testa na dele. - Você me ama? - as palavras caíram de sua boca antes que pudesse recolhê-las. Arrependeu-se. Não queria ouvir uma negativa, não queria destruir aquele momento.

O rosto de Klaus ficou pálido e ele se afastou. - Caroline... - viu as lágrimas tornarem a surgir nos olhos azuis dela, tornando-os tão úmidos e tristonhos quanto o mar dos afogados. Sorriu e beijou sua testa, fechando os olhos. - Eu acho que te amo há muito tempo, já. - suspirou. Ouviu a risada dela e beijou-lhe novamente, sorrindo ao perceber que os dedos dela corriam por sua bochecha.

- Bobo... - a loira sussurrou sob seus lábios urgentes. - Me assustou. - acusou, afastando-se e olhando ao redor.

Encontrava-se no quarto do bebê e o ursinho que Elena comprara ainda estava nas mãos de Klaus. - Que faz aqui? - questionou confusa.
Ele abraçou-lhe por trás, os braços ao redor de sua cintura e o queixo apoiado no topo de sua cabeça.

- Estava pensando. Meditando sobre o que faria se voltasse para Lockwood.

Caroline sorriu. - Estou feliz que não fez nada estúpido. Que esperou por mim.
- Eu prometi. - sua mão apoiou-se na barriga dela, apertando a pele quente sob seus dedos. - Eu prometi esperar mil anos se necessário.

- Também me prometeu o mundo. Prometeu me levar para todos os lugares, mostrar-me beleza genuína. - virou-se para olhá-lo nos olhos.

Nik sorriu. - Eu vou te mostrar o mundo... Vou te dar o céu e as estrelas se isso te fizer feliz.
Ela fechou os olhos, covinhas surgindo em sua bochecha quando sorria. - Só você basta. - garantiu, beijando-o e enrolando o dedos em seu cabelo.

Niklaus retribuiu o beijo, os dedos longos engalfinhados nas ondas douradas dela. Empurrou-lhe gentilmente para fora do quarto, tirando sua jaqueta e deixando que caísse no chão do corredor. Ele sentiu sua pele se arrepiar quando Caroline passou a beijar-lhe o pescoço, as mãos ansiosamente subindo sua camiseta.

Despiu-a e empurrou sua noiva na cama, afastando-se para vê-la deitada naquela confusão de cobertas virginais e travesseiros roliços.
- Você é beleza genuína. - disse, subindo na cama e beijando-lhe tranquilamente, sorrindo ao sentir as pernas dela abrirem-se para abraçar seu quadril.


Rebekah rolou pela cama.
O ar encheu seus pulmões e ela abriu a boca, tentando respirar o máximo possível. Olhou ao redor, assustada. Lembrava-se de olhar nos olhos de Nik "Faça isso! Olhe nos meus olhos e faça isso, seu covarde!" e então a dor. Viu uma menina. Olhos azuis e claros, cabelos negros, rosto redondo de criança... - April?

Stefan passou um braço ao redor de sua cintura, puxando-a para mais perto. O rosto da jovem adormecida se contorceu de dor.
- Eu fiquei de luto por você! Meu coração despedaçou pensando que nunca mais o veria! - gritou, com as duas bolsas de sangue presas entre seus dedos. Não conseguia entender como Niklaus podia ser tão hediondo... Tão péssimo irmão. E ela nunca percebera isso?! - Abaixe o sangue, Rebekah, e seja uma boa menina. - Nik disse, uma expressão de sarcasmo e asco em seu rosto bonito. Rebekah se encolheu, ela era apenas seu animal de estimação, nunca seria sua irmã. - Sempre fui eu! Não o Finn. Não o Elijah, não o Kol, eu. Eu te amei mais do que tudo e você nem liga!

O rosto dela afundou no peito de Stefan, seus dedos agarrando o travesseiro com força. Lágrimas começaram a escorrer por suas bochechas e ela choramingou em seu sono.
- A verdade, Rebekah, é que eu te acho incrível. - O rosto de Matt estava diante do seu. Ele tinha um sorrisinho babaca do qual ela não gostava, mas tinha acabado de elogiá-la, então a jovem se encontrou sorrindo. - Você teve mil anos para aprender, crescer, e começar de novo... E de algum modo conseguiu jogar tudo fora. Agora você está sozinha. Você hipnotiza seus amigos. Seu irmão te odeia. Você lamenta por não encontrar o amor. O motivo de não encontrar o amor, é porque você não o merece.

- Bekah? - Stefan chamou, balançando-lhe gentilmente ao perceber que estava rolando pela cama, antes de virar e voltar a dormir. A loira afundou o rosto no travesseiro.
- ... Quando minha fraternidade alcançar seu objetivo, esses monstros vão deixar de existir. Até lá, nós temos adagas. - Alexander sorriu, colocando a adaga de volta na mesa e voltando os olhos para ela. Quanto carinho e paixão ela podia ver neles. - Acredita que todos são tão maus que precisam ser exterminados? - questionou Rebekah, sentindo-se ferida. Queria que ele, o homem que escolhera para passar o resto de sua vida, negasse. - Não vamos falar de tal mal. - ele baixou os olhos, ignorando a pergunta dela como um capricho de mulher. - Vamos fazer isso. - beijou-lhe. - E isso. - suas mãos desceram pelo corpo bonito da vampira, correndo-o com gentileza e ternura. - E isso. - Rebekah soltou uma pequena exclamação quando o homem que amava afundou a adaga em seu peito. Olhou-o e os olhos verdes dele estavam cheios de pena. Mais um homem traíra Rebekah Mikaelson.

Sentou-se, um grito preso em sua garganta e seu coração disparado. Lembrava-se de tudo, lembrava-se de sua mãe, a bruxa Original... Lembrava-se de Mikael perseguindo-a e de seus irmãos ao longo de um milênio. Lembrava-se de todas as vezes que Niklaus a desrespeitara e de todos por quem ela se apaixonara. Oh, lembrava-se do estripador, beijando-lhe, enfiando suas presas em seu pescoço e dividindo de seu sangue... Lembrava-se de Elena Gilbert, aquela estúpida duplicata...

Suas mãos começaram a tremer e seu estômago revirou. Lembrava-se, ao mesmo tempo, de Elena Gilbert, casada com Damon Salvatore e mãe carinhosa da pequenina Miranda. Lembrava-se também de Stefan Salvatore, que nunca a mordera porque era humano, beijando-lhe na festa de casamento de Elijah e Katherine.
Sua cabeça estava latejando, a dor atrás de seus olhos era uma lâmina afiada. Agarrou a cabeceira da cama para apoio e tentou se levantar. Caiu de joelhos no tapete rosado de seu quarto, nauseada, tonta e tentando não gritar de dor. Forçou-se a levantar e cambaleou para o banheiro de sua suíte. Fechou a porta atrás de si.

A escuridão era boa, não provocava sua enxaqueca. Apoiou-se na pia e baixou a cabeça.
Não era nenhum sonho, nenhum delírio. Tinha duas vidas inteiras habitando sua cabeça, sendo que uma delas era a vida de uma vampira de mil anos. Emoções que nunca sentira, fortes demais para seu corpo humano. Desejos que nunca tivera, nojentos até - Sangue, sangue, sangue... -, e dores que nunca experimentara - Verbena... Estaca... Adaga... Um irmão morto...

Girou a torneira e lavou o rosto. A dor recuou, permitindo que pensasse claramente. Stefan estava adormecido no quarto... Não podia falar com ele. Acharia que estava louca, o que provavelmente estava. Elijah? Elijah está em Atlanta com sua esposa, Bekah... Pense. Nik... Sim, Nik. Ele vinha agindo estranhamente, talvez estivesse experimentando a mesma coisa. Sim, Nik era a melhor opção, até porque, sua conexão com ele era ainda mais forte agora que sabia - Sabia?! - ter vivido mil anos ao seu lado.

Acendeu a luz e, embora tenha feito uma careta, a dor não cegou-a. O espelho encarou-a de volta. Estava pálida, doente e assustada. Ostentava um olhar que nunca vira, meio maníaco... Completamente assustado.
As memórias ainda estavam voltando, junto com a culpa esmagadora. Sentia o sangue de mil vítimas em suas mãos, sentia raiva e pavor cego... E dor. Mágoa. Medo. Luxúria. Alegria. Nojo...

Saiu do quarto, agarrando o roupão negro e vestindo-o sobre sua camisola. Sorriu para Stefan, alheio a seus problemas, um sorriso em seu rosto bonito... Ela o amava. E o amava com uma paixão que nunca sentira, porque agora também sentia aquele amor horrível e sufocante da outra vida. Assim como sentia raiva. Pena.
Deixou-o. Agarrou as chaves de seu carro e saiu de casa.


Seu braço descansava ao redor do corpo magro de Caroline e seu rosto estava enterrado nos cabelos louros dela. Ouviu o celular tocar, histérico. Rolou pela cama, espiando o relógio de cabeceira. Três e quinze da madrugada. Bufou e tornou a abraçar a loira, negando-se a atender. Quem quer que fosse, podia ligar em um horário decente.

- Klaus. - Caroline murmurou. - Klaus, o celular está tocando... - sua voz estava sonolenta, abafada pelos toques do celular. O homem rosnou para si mesmo e agarrou o aparelho, sentando-se.
- Alô? - sua voz estava grossa de sono e ele limpou a garganta. Ouviu alguém respirando pesadamente do outro lado da linha.

- Nik?! - a voz de Rebekah invadiu seus ouvidos e imediatamente ele se sentou mais ereto, desperto. Porque ela ligaria a esse horário? Acontecera algo? Estava machucada?
- Bekah?

- Nik! Nik, eu... Aconteceu alguma coisa, eu... - ela estava chorando, soluçando tanto que ele mal conseguia entendê-la. - Abra a porta. - pediu sua irmã caçula, a voz desafinada e histérica. Ele apertou o celular, inclinando-se para pegar a roupa que largara aos pés da cama. Caroline se sentou ao sentir sua preocupação, os movimentos apressados que fazia para se vestir. - Klaus?

- Bekah, o que aconteceu? - ele questionou, levantando-se para prender a calça. Jogou as roupas de Caroline para ela e fez um gesto apressado para que se vestisse.
- Nik... Eu não sei... Eu... Nik, abra a porta, por favor... - o coração dele se apertou. Fazia séculos que não a ouvia tão assustada. - Estou descendo, Bekah, só... Estou descendo.

Desligou, vestindo a camiseta. Caroline já estava vestida, terminando de abotoar o jeans. Ela olhou-o, assustada. - Klaus?! O que está acontecendo? - o homem agarrou-a pela mão, puxando-a para fora do quarto.

- Rebekah... Ela está chorando... - começaram a descer as escadas. - Histérica... Aconteceu alguma coisa. - murmurou, agarrando as chaves na mesinha de centro, onde Caroline as esquecera, e abrindo a porta.

Rebekah Mikaelson estava apoiada pesadamente no portal. Seu rosto estava pálido como leite e úmido de lágrimas. Seus cabelos louros estavam bagunçados e vestia um roupão de dormir. - Bekah... - as pernas dela desistiram e ele agarrou-lhe pela cintura antes que caísse de joelhos. - Rebekah! Bekah, o que...

- Eu lembrei. - ela murmurou, rouca, enquanto ele a carregava para o sofá, que Caroline já limpava das revistas. - Lembrei de tudo, Nik... Mil anos. Mil anos de memória. - os soluços voltaram, as lágrimas escorreram. - Mil anos de danação! De dor! De medo e fuga!
Ele colocou-lhe deitada no sofá, dando um passo para trás, horrorizado. Caroline ficou pálida.

- Lembrou? - questionou com a voz pequena, seus olhos indo de Klaus para Rebekah e de novo para ele. - Lembrou de tudo?!

A jovem concordou com um aceno. - Tudo... Mil anos... Eu ainda consigo ouvir os gritos, sentir os cheiros... Nik, eu ainda consigo sentir o gosto do sangue...! - ela encarou seu irmão mais velho. O rosto franzido de pavor. - O que está acontecendo comigo?

Caroline sentou-se na mesinha, tomando a mão de Rebekah entre as suas. - Rebekah...

- Vocês acreditam em mim?! Acreditam?! - sua voz subiu a medida que a histeria aumentava. Estava frenética, suas mãos tremiam. - Acreditamos. - concordou Forbes. - Acreditamos, por que também lembramos.

Rebekah pareceu relaxar. Ela respirou fundo. - Vocês se lembram? - viu Niklaus concordar, ainda pálido e apavorado. - Ah, vocês se lembram... Kol está morto... Finn... Está todo mundo morto! Mortos, todos eles! Mãe! Pai! Finn! Kol! Você! - ela apontou para Klaus, suas mãos tremendo. - Todos mortos! E... Ah, o gosto do sangue...

- Rebekah. - Niklaus se ajoelhou diante dela. - Respire. - ordenou. Respirou fundo, tentando se acalmar. Olhou em pânico para seu irmão mais velho, seu melhor amigo
- Desse momento em diante, você não é minha família, você não é minha irmã. Você não é nada. - ele quebrou seu pescoço.
Encolheu-se para longe dele, todos os momentos que ele ameaçara-lhe passando diante de seus olhos.
- Bekah? - a voz dele chamou-lhe. Nik estava preocupado. Preocupado com ela, um polegar hesitante em sua bochecha, limpando as lágrimas. Respirando fundo para que ela o imitasse.
- Sempre e para sempre, Nik. Vamos ficar juntos sempre e para sempre.

Relaxou. Nik sabia o que fazer. Ele e Caroline se lembravam e acreditavam nela. Tudo iria dar certo. Respirou fundo e balançou a cabeça, afastando as mãos dele gentilmente. - Estou bem. Estou bem, Nik. Contem-me. - olhou Caroline. Odiava-lhe... Odiava Caroline Forbes. Mas amava sua cunhada... Caroline fora a melhor coisa que já acontecera a Nik.
- Contem-me o que está acontecendo. - pediu. Caroline deu-lhe um sorriso complacente e apoiou uma mão em seu joelho.

- Vamos contar.

Uma hora se passou e ela ainda não entendia. Eles tinham vindo de Mistic Falls? Da Mistic Falls Vampira? E Kol também?
Kol estava morto! Morto!
- Rebekah? - Caroline chamou, após um longo silêncio. Niklaus estava fazendo chocolate para os três, já que seria uma longa noite... Talvez também evitando ter que contar a história, mas ela compreendia. Ele não queria reabrir uma ferida que estava cicatrizando e ela o entendia.

- Muita coisa para processar. - murmurou, inspirando. - Muita coisa para organizar e minha cabeça está doendo. - Forbes olhou-a, complacente e sorriu quando Klaus voltou para a sala, estendendo-lhe uma xícara e outra para a irmã.

- Stefan...

- Ele está dormindo. - Rebekah o interrompeu. - Fomos dormir e então eu acordei e... Estava ali, mil anos de memórias hediondas. Deixei-o dormindo... Ele não saberia o que fazer e acharia que eu estava louca ou algo assim. - explicou. Suas mãos estavam tremendo.

- Como vocês lidam com isso? São muitas memórias... Eu sei que não têm as memórias dessa vida, mas... São memórias tão horríveis! - olhou seu irmão. - Mil anos de memória, Nik... É muita coisa.

Ele sorriu, concordando. - Eu sei. Mas é mais fácil de tolerar quando você se lembra de ter vivido. - garantiu. Ela sorriu e levou a xícara à boca. Suas mãos tremiam e o chocolate quente molhou seu roupão e o sofá.
- Awn! Desculpe, eu... - Caroline tomou a xícara de suas mãos e revirou os olhos.

- Não foi nada. Klaus, coloque o roupão na máquina de lavar, que tal? - sugeriu, esperando enquanto Rebekah despia-o. Ele concordou com um aceno, usando o mesmo para limpar o sofá antes que manchasse e saiu da sala. Rebekah sentiu sua cabeça girar e franziu as sobrancelhas. - Care... - chamou, estendendo uma mão para se firmar quando se sentiu repentinamente tonta. - Caroline...

A loira agarrou-lhe pela mão. Chamando seu nome. Rebekah sentiu algo úmido escorrer por seu rosto e estendeu a mão para limpar, percebendo que sangue escorria de seu nariz. Soltou uma pequena exclamação. Seu estômago revirou. - Caroline, o que... - o chão girou e ela fechou a boca, fechou os olhos. Forbes estava gritando por Niklaus.

- Rebekah? Rebekah?! Rebekah!


N/A: Mais um capítulo e nos aproximamos cada vez mais do fim! Lembrem-se, reviews são sempre bem-vindos, eles alimentam autores! Desculpem por não estar mais respondendo review por review, mas se quiserem posso trazer o hábito de volta. Beijos para minha amada beta, Sra. Letyr, cuja ajuda está sendo mais do que essencial, ela sabe. ;D E para a página do facebook "Fãs Portugueses The Vampire Diaries" um grande obrigada! Agora vamos logo, isso tá virando discurso.