Cap. IX Revelações
James nunca se preocupava com nada. Aliás, só com a sua família mais directa como pais e mais uma pessoa, é que se preocupava. Quando era mais jovem, teve um cão que era o seu melhor amigo. Às vezes lembrava-se dele. Chamava-se Lucky, e coincidência ou não, sempre lhe tinha dado muita sorte. De resto, não tinha mais preocupações a não ser consigo próprio. Mas desde que conhecera Elizabeth, alguma coisa tinha mudado. O seu olhar fazia-o andar nas nuvens e apesar de Elizabeth parecer divertida, de vez em quando notava nela uma tristeza. Parecia que escondia algo. Queria saber o quê, mas desde que soube que era filha do seu tio, perdeu a coragem. Na verdade, James nunca teve vergonha de se meter com mulheres, mas com Lizzie, parecia que se vinha abaixo das pernas. No fundo Elizabeth era sua prima e irmã do seu… primo Will. Mas também pensava no que Jeff lhe dissera. Devia haver mais Bill Turners no Mundo. Mas então porque raio, Elizabeth fugiu da conversa? Foi nestes pensamentos que James se viu a percorrer as ruas atrás de Elizabeth. Jeff ia ao seu lado e apesar de pouca diferença lhe fazer que Elizabeth fosse com eles ou não, não deixava de se preocupar. Também ele tinha a sensação que Elizabeth escondia algo.
- James, já percorre-mos as ruas todas de Tortuga e não a encontramos. – disse Jeff, cansado de caminhar a passos rápidos – O mais certo, foi Elizabeth ter tomado um navio e já nem cá estar.
- Um navio? À noite? E que alma caridosa iria dar boleia a uma rapariga sozinha só por bondade? – James caminhava a passos largos, embora se sentisse meio tonto por causa da bebedeira.
- Sabe-se lá! Se calhar foi dormir na Estalagem! – argumentou Jeff.
- Mas que nervos! Aquela Elizabeth Turner dá cabo de qualquer um! – exclamou James, parando subitamente.
Um homem que ia a passar, ouviu e parou de repente.
- Elizabeth? Desculpem, mas vocês disseram Elizabeth Turner? – perguntou o homem.
James e Jeff avaliaram o homem. Era baixo e gordo, já com alguns cabelos brancos. Não parecia uma ameaça, mas em piratas nunca se pode confiar, não é?
- Sim falámos numa Elizabeth Turner, porque pergunta? – questionou-o Jeff.
- Por acaso essa tal de Elizabeth é alta, magra, loura e espevitada? E tem um outro apelido denominado Swann?
- Sim. Você conhece-a? – perguntou James esperançoso, mas de repente agarrou o homem e encostou-o a uma parede próxima – ou fez-lhe alguma coisa? Onde ela está? Fala ou arrebento-te!
- Calma! Eu não fiz nada! Nunca faria mal à menina Elizabeth! – disse o homem meio assustado.
- James, larga-o. O melhor é ele dizer quem é e explicar como conhece Elizabeth. – disse calmamente Jeff.
James largou-o aos poucos mas não desviou o olhar.
- Muito bem, fale. – disse secamente, Jeff.
- O meu nome é Gibbs. Sou pirata, mas neste momento não tenho nem navio, nem capitão.
- Eu sou Jeff Woods e este é o meu capitão James Turner.
- Turner? – perguntou Gibbs.
- Sim, porquê? Vai dizer que também me conhece ou acha o meu nome assim tão estranho? – perguntou rispidamente, James.
- Bem, … surpreendeu-me o facto de vocês conhecerem a Elizabeth. Eu pensei que ela…
- Ela o quê? – perguntaram ao mesmo tempo Jeff e James.
- Nada. Eu conheço a menina Lizzie desde criança, quando viajou com o governador para Port Royal.
- Com o governador? – exclamaram em uníssono James e Jeff que ficaram a olhar um para o outro.
- Sim com o governador Swann, afinal era o pai de Elizabeth! – disse Gibbs.
- Pai? Mas ela disse que era filha de um Turner! – exclamou James.
- Não! Ela é filha do Governador Swann. O Turner é… - mas Gibbs pensou subitamente. Se Elizabeth não revelou que era casada com Will e disse que o Turner era de família, era porque não queria que se soubesse. – Inventado! Ela devia querer ocultar a sua identidade!
- Ocultar a identidade!? – questionou Jeff. "Me engana que eu gosto!", pensou.
- Sim a Lizzie já fez isso uma vez! Mas como é que vocês a conheceram? – quis saber Gibbs.
- É uma história muito longa. Se a conhece e tem confiança com ela, pode-nos ajudar a encontrá-la. Ela saiu da taberna com uma grande bebedeira, sem dar-mos por ela. – disse James.
- Bem, isso vai ser difícil. A Elizabeth sabe-se defender muito bem, mas nesse estado qualquer um pode-se aproveitar! – Gibbs ficou apreensivo.
De repente, um papagaio azul com tons de amarelo, pousou em cima de um barril.
- "Gibbs à vista!" – gritou o papagaio.
- Mãe do céu! – Gibbs olhou alarmado para o papagaio e este levantou voo. Gibbs começou a correr desajeitadamente atrás da ave.
- Ei! Aonde vai? – perguntou James.
- Eu tenho que ver uma coisa. Prometo que vos ajudo quando voltar. – Gibbs desapareceu por uma rua.
- E como é que o vamos encontrar outra vez? – interrogou-se James.
- Eu acho melhor irmos atrás. Só um burro é que ainda não viu que esta história anda muito esquisita. – Jeff tomou o caminho de Gibbs.
- Quando penso nisto tudo, sinto-me que me escapa algo! – disse James coçando a cabeça – Espere por mim, homem!
Quando se levantou, a sua cabeça parecia que ia explodir a qualquer momento. Elizabeth sabia que não devia ter bebido tanto. Era giro ao princípio, o problema era a ressaca. Deu consigo deitada num sofá e pelo balançar soube que estava a bordo de um navio. Não se lembrava de nada, apenas que fugia de algo quando chocou com alguma coisa. Pensou que tinha voltado novamente ao Lua Brilhante, mas quando a sua visão começou a ficar nítida e a focar melhor o que estava à sua volta, quase que ia tendo um ataque do coração. Conheceu aquela espécie de sala. Era o Pérola Negra. "Mas que raio! Como é que eu vim cá parar?", os seus pensamentos foram interrompidos por uma voz familiar.
- Como vai, miss Turner?
À sua frente estava alguém que quando conheceu odiou, mas que acabou por ser uma pessoa menos terrível do que pensava.
- Barbossa? – perguntou atónita.
- Confesso, que também estou surpreso! Pensei que o jovem Turner, que agora é um dos homens mais temidos dos sete mares, a tinha deixado numa ilha! – disse Barbossa.
- Realmente foi isso que aconteceu. Mas acabei por me encher de lá estar.
- É! Quando vos casei vi logo que a vossa relação ia dar para o torto. – Barbossa pegou numa maçã de um verde brilhante e sentou-se numa cadeira, como se espera-se uma grande história contada por Lizzie.
- Apercebi-me disso, seis meses depois.
- E como é que o Will reagiu?
- Reagiu? – Elizabeth fintou Barbossa como se a pergunta fosse muito difícil de responder – O Will… não sabe de nada. Não faz a mínima ideia que já não estou naquela ilha perdida do resto do Mundo.
- Não sabe? – Barbossa ficou tão alarmado que quase se engasgou – Rapariga, ele é o novo "dono dos mares", é imortal desde que ninguém se lembre de lhe enfiar uma faca no coração, e tu arriscas-te dessa maneira?
- E o que esperava? Que envelhece-se numa ilha até morrer, à espera do marido?
- Não. Por acaso até apostámos quanto tempo levarias até saíres da ilha! – Barbossa deu uma gargalhada.
- Malditos piratas. – Elizabeth tentou-se por de pé, mas a sua cabeça estoirava. Cambaleou e voltou a cair no sofá.
- Vejo que apanhou uma das valentes! Tão forte que até corria como louca pelas ruas de Tortuga. Pintel e Raguetti viram-te e trouxeram-te. Desmaias-te mesmo em frente às caras deles. - Barbossa deu mais uma dentada na maçã.
Fez-se luz na memória de Lizzie. O facto de Barbossa ter dito que andava a correr pelas ruas, fez toda a sua memória voltar. "Eu não corria, fugia de algo", pensou. De repente sentiu as cores do aposento tornarem-se escuras e a voz de Barbossa distanciou-se. Tinha desmaiado de novo.
James e Jeff foram dar com Gibbs quase do outro lado da ilha, onde as casas desapareciam e só restavam árvores. Gibbs estava escondido atrás de uma grande árvore observando algo.
- O que é que se passa? – perguntaram.
- Ai, Jesus! Nunca aprenderam que não se deve aparecer de repente por detrás das pessoas? – Gibbs tinha levado a mão ao peito.
- Se não tivesse fugido de nós, talvez não se tivesse assustado. E cá para mim, você tem alguma coisa a ver com o desaparecimento de Elizabeth. – James apontou a arma a Gibbs.
- Já disse e torno a dizer que não tenho nada a ver com isso. E eu é que devia preocupar-me, sabendo que a Elizabeth esteve com vocês e eu nem vos conheço.
- Aquilo ali é o que eu estou pensado? – Jeff apontava para uma baía com rochas de cada lado. Era o local perfeito para se esconder um navio. E era isso mesmo que lá estava ancorado.
- É sim. Aquilo ali é o melhor navio do Mundo: o Pérola Negra. – disse orgulhosamente, Gibbs – Pena eu já lá não estar.
- Você já lá esteve? – perguntou Jeff.
- Com mil diabos, claro que sim. O meu capitão era e é o grande Jack Sparrow. Infelizmente o Jack perdeu o navio para o Barbossa… pela terceira vez.
- Terceira vez? Não me diga que o Jack Sparrow é assim tão despistado que perde o navio sem dar por ela? – perguntou James.
- Da primeira ouve um motim e o Jack foi abandonado numa ilha.
- Essa história eu já tinha ouvido. – disse Jeff.
- Da segunda foi abandonado numa ilha com a menina Elizabeth.
- Com a Elizabeth? Sozinhos numa ilha? – James olhava horrorizado para Gibbs.
- Eu não sei o que é que a Elizabeth vos disse, mas eu acho que vocês têm a ideia que ele é uma freira! – Gibbs riu-se – Mas não aconteceu nada entre eles, o coração da menina Elizabeth já tinha dono.
- Hã? E posso saber quem era? – perguntou James curioso.
- Se a menina Elizabeth não lhe disse, não vou ser eu que lhe vou dizer. – Gibbs olhou para o Pérola – Mas que raio é que o Barbossa veio cá fazer?
- O Barbossa? Ele está vivo? – perguntou Jeff.
- Porquê, és amigo dele? – perguntou James.
- Amigo não, mas conhecido sim. Pensei que tivesse morrido.
- Morrer morreu, mas ressuscitou! – disse Gibbs.
James e Jeff entreolharam-se.
- A Elizabeth também se dava com o Barbossa? – perguntaram os dois.
- Sim, não muito bem, mas o suficiente para lhe pedir uma boleia. Já bastou ele a ter raptado uma vez…
- Raptado? Então ela está lá! Vamos Jeff. – James já se ia preparar para descer até à baía, mas Gibbs interrompeu-os.
- Vocês são loucos? Se o Barbossa vos apanha, mata-vos.
- Se você quiser vem, senão nós vamos sozinhos. E se o Jeff se dá tão bem com ele não vamos ter problemas, não é? – James começou a descer a pequena ravina até à praia.
Gibbs tinha um medo enorme, mas de repente lembrou-se de Sparrow. Talvez se voltasse ao Pérola Negra, poderia saber alguma coisa do capitão, já que nunca mais soube dele.
- Esperem por mim! – desceu desajeitadamente, seguindo James e Jeff.
