Capítulo 9
Conversa a dois
Shina ligou para Saga e pediu para que ele prosseguisse com os convites. A italiana contou que Afrodite havia perdoado seu irmão gêmeo e Máscara da Morte e que eles também estavam convidados. Fez mais algumas recomendações e logo desligaram.
Diante da atitude nobre de Afrodite, o grego achou melhor chamar Kanon em seu apartamento para uma conversa. Sabia que a conversa poderia até ser em vão, mas queria ir para o casamento de consciência tranqüila. Então, Kanon chegou em seu apartamento na manhã de sábado.
-Olá, maninho. Como está? – Disse o gêmeo entrando no apartamento que já havia morado na época de escola – Vejo que você fez várias modificações por aqui.
-Estou bem, e você, Kanon? Deixe de ser bobo. Não faz nem um mês que você veio me visitar.
-Pois é, e você nunca foi pra Hanover ver meu apartamento. Só eu que venho pra cá, seu desnaturado!
-Eu sou professor, Kanon. Não trabalho em indústria igual você. Minha rotina é bem diferente da sua. Não dá pra ir pra Alemanha quando eu bem entender.
-A quantas anda seu livro? – Perguntou Kanon enquanto andava pelo apartamento tomando conhecimento de tudo – Sobre o que é?
-Um romance... Que acontece na região de Belfort, na França. Estou marcando uma viagem para lá mês que vem, para eu mesmo fazer um levantamento da região.
-Vou ser o primeiro a comprar seu livro, maninho!
-Não zombe de mim, Kanon.
De repente o químico parou diante da mesa que estava na sala de Saga. Havia uma pilha de envelopes brancos. Na mesma hora imaginou do que se tratava, mas por via das dúvidas, resolveu perguntar:
-O que são esses envelopes, Saga?
-São os convites do casamento do Afrodite.
-Hum... O meu está aí no meio?
-Está. Foi também sobre isso que eu te chamei aqui, nesse fim de semana. Esse é o único final de semana que terei livre para conversar com você.
-Nossa, Saga, o que é tão importante assim para querer conversar comigo... Pessoalmente?
Saga percebeu a presença de extrema ironia na pergunta de Kanon. A ironia era um defeito do irmão que o fazia sair do sério. Como já estava acostumado com esse tipo de atitude, empurrou com força o irmão que caiu sentado no sofá. Puxou uma cadeira e se sentou na frente de seu gêmeo.
-Kanon, você precisa crescer. Você já tem 25 anos, não é mais garoto. Já é homem. Percebe, não?
-Não preciso que você me lembre disso, Saga. O que você quer? Não era você que estava "lutando para ter uma convivência pacífica" comigo?
-Pois é, mas você não me dá chance.
Kanon cruzou os braços.
-Se quiser conversar, fale agora, Saga. A noite eu devo sair e volto amanhã cedo para Hanover. Não sou tão desocupado como você pensa.
-Está certo. Te chamei aqui porque Shina me contou que Afrodite os perdoou pelo tumulto que vocês causaram na festa de noivado dele.
-Foi o Aioria quem começou! – Kanon colocou o dedo na cara de Saga – O próprio Frofrô ligou pra minha casa para dizer isso.
Saga segurou no pulso de Kanon e abaixou a mão do irmão.
-O Aioria começou, mas vocês continuaram com aquela palhaçada!
-Você entrou no meio também. Não percebe que você não tem o direito de me acusar de nada, Saga?
-Entrei no meio porque fui tentar segurar o Máscara da Morte. E se Aldebaran não tivesse segurado vocês dois, a briga não ia parar nunca.
-Que lindo! Saga, o defensor dos fracos e oprimidos! Vai dar lição de moral para os seus alunos que não te conhecem, maninho.
-Eu sei muito bem que você e Máscara da Morte adoram uma confusão! Por isso te chamei aqui, pra mandar você se comportar no casamento do Afrodite.
-Você tem uma mania de grandeza enorme, Saga. Tem mania de achar que você é meu pai! Que manda em mim!
-Não mando em você, só não acho que você tem o direito de me constranger na frente dos meus amigos.
-Seus amigos são os mesmos que os meus. Se você me chamou aqui para isso, perdeu seu tempo, Saga. Como você disse, eu tenho 25 anos, sei muito bem o que eu faço.
O professor colocou as mãos sobre os joelhos, fechou os olhos e respirou fundo.
-Está bem, Kanon. Vamos ver então o que os seus 25 anos te ensinaram.
Saga se levantou da cadeira e foi para a cozinha preparar um café. Kanon passeava ao redor da mesa, olhando para os convites intrigado.
-Saga... Quando é mesmo o casamento?
-Dia 3 de maio. Daqui a dois meses, por quê?
-Pra eu me programar... Você me empresta o seu carro?
-Empresto... – Disse desgostoso.
Depois do café, Saga fez chá. Sabia que Kanon só tomava chá. Montou uma mesa gostosa, cheia de quitutes e tentou conversar com irmão sobre o emprego dele. Saga não sabia se era de propósito ou não, mas Kanon insistia em dizer que seu trabalho era confidencial. A única coisa que ele falava era que trabalhava com armas.
Sentaram para ver televisão juntos e quando começou a anoitecer, Kanon começou a se arrumar para sair. Enquanto penteava os cabelos, uma questão passou pela cabeça de Kanon.
-Saga... Por que o Afrodite achou que fomos nós que começamos o tumulto?
-Porque onde vocês estão, existe confusão.
-Isso não é motivo... Tipo... O Deba nunca bateu em alguém injustamente... E ele, quando foi bater na gente, bateu como forma de dar um basta na briga. Alguém falou pra ele que foi a gente que começou...
Saga apertou os olhos tentando se lembrar de algo que pudesse responder a questão de ser irmão. De repente achou.
-Acho que... Foi o Dohko quem falou pra ele... É mesmo! – Se lembrou – Deba pegou o Dohko pela camisa e ele disse que foram vocês.
"Ótimo... Dohko, Afrodite... E... Aioria".
-Por que, Kanon?
-Pra saber. Só pra saber. – Kanon colocou o pente em cima da pia – Vou sair. Quer ir comigo?
-Não... Obrigado. Vou usar a noite para terminar os convites...
-Saga, você não está saindo com nenhuma mulher?
-Não. No momento estou preocupado com outras coisas. Você também parece estar solteiro.
-Sim. Mas eu curto a minha vida. Você fica dentro de casa. Vamos dar uma volta comigo, Saga. Faz bem!
-Cada um curte a vida como quer. Leve a chave. – Disse o professor sem paciência.
Kanon pegou a chave e saiu rumo à noite grega, sem destino. Enquanto dirigia, tentava achar que pudesse dar continuidade ao seu plano.
-Só se...
Pegou o celular e discou para Máscara da Morte. Não demorou para atender.
-Fala, Kanon! Tudo em paz? – Havia um barulho quase insuportável do outro lado da linha.
-Beleza, Mask. Onde você está?
-Num pub aqui em Nápoles. E você?
-Curtindo uma noite grega.
-Como? Tá em algum restaurante grego na Alemanha?
-Não. To em Atenas mesmo.
Máscara da Morte estranhou. Mas antes de perguntar, Kanon já se adiantou.
-Meu irmão me chamou pra conversar. Aquelas manias do Saga de querer me passar lições de moral e comportamento.
-Saquei... Que chato...
-É, mas eu to ligando pra saber uma coisa... Você trabalha no jornal... Sabe mexer com programas de edição de imagem, não sabe?
-Claro que sei. Photoshop, Corel Draw... Por que, Kanon?
-Porque você vai fazer umas identidades falsas pro nosso plano.
-Epa... Peraí... Eu ouvi direito?
-Você faria, não faria? É fácil de fazer... Não é?
-É fácil sim. Tem como você me explicar o plano?
-Por celular não dá. Quando nos encontrarmos, eu te explico. Posso contar com você?
-Sim. Mas você sabe...
-Boa noite, Mask. Se cuida.
Kanon desligou o telefone e riu de seus próprios pensamentos.
"É Kanon... É como diz o ditado: Quem ri por último, ri melhor".
Entrou em um bar, observou o movimento, conversou com o barman, pediu dicas de drinks e quando olhou no relógio, imaginou que Saga já estivesse dormindo. Entrou no carro e voltou para a casa do irmão.
Quando entrou em casa, constatou que seus pensamentos estavam corretos. Foi até a mesa e olhou para a pilha de convites. Rodeou a mesa por vários minutos.
-É agora ou nunca. – Disse para si mesmo.
-X-
Na manhã seguinte, Kanon se despediu de Saga e seguiu para seu destino. Quando entrou na sua cabine do trem, riu com vontade do que havia feito. Se tudo desse certo, não ia poder curtir apenas com Afrodite, mas com os outros também.
A semana passou depressa e o grego a cada dia que passava tinha novas idéias. Máscara da Morte conseguira uma folga na manhã do sábado e viajou com seu próprio carro para Hanover. Apesar da curiosidade ser grande, sabia que independente de qualquer plano, passar o final de semana com seu melhor amigo era sempre muito bom.
Depois de horas de viagem, finalmente chegou no seu destino.
Kanon já o esperava com a porta aberta.
-Fala Mask, fez boa viagem?
-Fiz. Depois você desce pra dar uma olhada, troquei de carro. 300 cavalos... A estrada livre...
-Nossa, ninguém nem chegava perto de você então. Que carro que é?
-Um Audi S3, prata. Se o Miro visse, ia ficar louco. Meu pai ajudou no meu investimento...
-Então vai com ele no casamento do Ditão. Certeza que ele vai enlouquecer mesmo. De inveja.
-Bom, tudo bem que eu acabei de chegar, mas eu estou louco pra saber como vai ser esse plano. Vai envolver meus conhecimentos tecnológicos...
-Sim. Veja só – Kanon pegou um bloco de papel e se sentou no sofá da pequena sala – Já planejei tudo.
-Me conta, estou curioso.
Kanon deu seu sorriso. Era um misto de ironia e sarcasmo. Os olhos de Máscara da Morte brilharam. Sabia que se tratava de um bom plano.
-Nós vamos convidar Shura e Aioros para o casamento da bibinha.
Máscara da Morte arregalou os olhos.
-Como é que é? Como assim, Kanon?
-Foi o que você ouviu. Nós vamos levar os dois no casamento do Afrodite.
-Mas como? Kanon, não tem jeito! Mesmo que sejam penetras, do jeito que o Afrodite é sistemático, teremos que confirmar presença e ainda mostrar que temos o convite para... – Máscara da Morte arregalou mais ainda os olhos – Você quer que eu forje os convites?
-Não... Os convites serão verdadeiros.
-Como isso? Mas nunca que o Afrodite vai convidar os dois! Ainda mais o Shura pro casamento dele!
Nesse momento, Kanon tirou de dentro do bloco dois envelopes. Máscara da Morte se calou. Estava incrédulo. No envelope havia o desenho de suas rosas em alto relevo. Eram mesmo dois convites verdadeiros.
-Como... Como você conseguiu isso?
-Meu irmão que fez os convites. Estavam na sala, dando sopa... Peguei dois...
-Mas os convites têm nome, Kanon.
Kanon sorriu de novo.
-Aí é que está a graça, Mask. Nós não vamos simplesmente enfiar eles lá dentro... Até porque, se Afrodite visse o Shura se aproximando da igreja, iria armar o maior escândalo.
-Então...?
-Quando eu peguei os convites, não fiz por escolha. Estava tudo escuro... Então, aconteceu por acaso...
-De quem são?
-Veja você mesmo. – Kanon estendeu os dois convites para o italiano ver com seus próprios olhos.
Máscara da Morte não se conteve. Caiu na gargalhada. Kanon também acompanhou o amigo na risada.
-Mas, Kanon... Trata-se de um homem e uma mulher! Justo... Justo eles!
-Pois é...
-Mas os dois são homens, Kanon!
-Um deles... Vai ter que se vestir de mulher.
-Hahahahaha!- A barriga de Máscara da Morte já quase doía de tanto rir- Será que eles vão concordar com a idéia? Como e quando vamos colocar esse plano em prática?
-Assim que conseguirmos convencê-los a ir ao casamento. Creio que o mais difícil de se conversar seja Shura. Portanto... Deixa que eu bato papo esperto com ele. Você pode falar com o Aioros.
-E quem vai ser o escolhido para se vestir de mulher, Kanon?
Kanon deu um sorriso de escárnio e olhou para seu colega sentado no sofá.
-Preciso dizer quem, Mask?
-Hahaha! Não... Não precisa...
-De acordo?
-De acordo, Kanon. Entrarei em contato com "ela" o mais rápido possível.
-Tenho certeza, Mask, que conseguiremos concluir o plano com êxito.
-Certeza absoluta.
