N/A: Em itálico, é flashback.
Capítulo Nove: Mudar é difícil.
"O nome do traidor de vocês é Scott Fox."
Universidade de Davis, Califórnia.
Ela observou enquanto o recém adulto, com sua eterna alma adolescente, se aproximava jogando uma bola de futebol americano para o ar. Ao vê-la sentada a poucos metros em um banco, ele imediatamente parou de arremessar a bola e abriu o seu famoso sorriso charmoso.
"Hey, Dessler." – Ela o lançou um olhar de censura enquanto se afastava para ele sentar ao lado dela.
"Hey, Scotty." – Ela também sabia provocá-lo, chamando-o pelo nome que ele não gostava.
"Por que você não está na biblioteca?" – Ele sorria ainda, fazendo-a sorrir junto.
"Eu não sou tão nerd assim, Scott. Eu posso sentir o clima no ar."
"Pode? Achei que você não ligasse para essa coisa de garotos." – Ele ameaçou fazer cócegas nela, mas as mãos dela afastaram as dele.
"Me dê algum crédito, ok? Todos nessa universidade não falam de nada além da final do campeonato de futebol americano. O que mais eu poderia fazer a não ser aproveitar a atmosfera festiva?"
Ele a olhou sem acreditar, seu sorriso crescendo.
"O que, Scott?"
"Aquele garoto mudou mesmo você."
Ela sentiu suas bochechas rosarem.
"Primeiro, Tristan não é um garoto. E segundo, ele não me mudou. Você pode negar o fato de que todos nesse lugar vão estar naquele estádio de futebol para ver nosso time tentar ser campeão?"
"Nosso time? Oh, Michelle, ele te mudou!" – Ele a cutucou e levou um tapa brincalhão em retorno.
"Pare com isso, Scott."
"Então quer dizer que você vai assistir o jogo?"
"Claro. E você vai comigo."
"É, eu imaginei. Eu só sirvo pra isso, não é? Enquanto seu namorado joga e se torna um herói, eu te faço companhia." – O tom dramático dele a fez gargalhar.
"Não seja tão sentimental, Scotty. Nós vamos nos divertir. Eu prometo."
***
O melhor time que a Universidade de Davis já teve. Era isso que todos falavam ao fim da partida. A vitória histórica sobre o forte e tradicional time da Universidade de Yale seria comentada por vários dias e cada estudante aproveitava cada minuto da conquista, especialmente os jogadores campeões.
Michelle procurou por ele no meio da multidão com os olhos e depois de vários minutos na ponta dos pés, desistiu e andou pelo campus na companhia do seu melhor amigo. Tristan iria aparecer assim que terminassem as comemorações no vestiário, ela pensou.
Ao passar da meia-noite, os dois se despediram e Michelle se dirigiu ao seu quarto, passando pelas arquibancadas do estádio, agora vazias e parando ao ouvir um barulho vindo do local. Em silêncio, ela se aproximou e apenas quando visualizou a cena, se deu conta que os barulhos, na verdade, eram duas pessoas fazendo sexo. Uma delas, o seu Tristan. Ela conhecia a menina, a líder de torcida Megan, e com choque no rosto, viu quando Tristan beijou-a na boca, ele por cima da garota.
Também sem fazer barulho, ela correu dali. Tão rápido quanto suas pernas trêmulas permitiram. O choro permaneceu na sua garganta até ela esbarrar em alguém e cair.
"Michelle!" – Scott se abaixou imediatamente ao lado dela. – "O que aconteceu?"
Ela não respondeu, finalmente chorando e deixando as lágrimas rolarem pelo seu rosto.
"Foi o Tristan? O que aquele filho da mãe fez?"
Ela concordou com a cabeça e soluçou. Scott se sentou ao lado dela e pegou sua face com as duas mãos, fazendo-a encará-lo.
"Fale comigo, Michelle."
Enquanto ela se acalmava, ele limpava delicadamente as lágrimas do rosto dela com seus dedões.
"Ele... ele estava transando com uma outra menina embaixo das arquibancadas." – Ela falou em meio a soluços e novas lágrimas. As mãos de Scott se apertaram involuntariamente no rosto dela.
"Filho da mãe! Eu vou acabar com ele!"
Ele tentou se levantar, mas as mãos dela voaram para o braço dele, abaixando-o novamente.
"Não, por favor. Não me deixe."
"Shhh. Está tudo bem, Michelle. Eu não vou a canto nenhum." – As mãos dele foram para os cabelos dela, afagando-os. Depois de um tempo, eles silenciosamente se levantaram.
"Ele vai me procurar ainda hoje. Fingir que nada aconteceu. Eu não posso olhar pra cara dele sem fazer uma besteira, Scott."
"Venha para o meu quarto. O meu companheiro disse que ia se divertir essa noite fora do campus."
"Não acho adequado." – Ele segurava as mãos dela, dando forças.
"Eu não me importo com o que você acha, Michelle. Eu quero aquele cara longe de você. Não quero que ele a veja vulnerável e tente usá-la. Venha comigo, você sabe que eu não vou fazer nada com você."
"É claro que você não vai fazer nada comigo! Eu não quis dizer isso."
"Eu sei, ok? Apenas venha." – De mãos dadas, os dois fizeram o caminho até o quarto dele.
Ela acomodou-se na cama do amigo dele, mas quando Scott tentou voltar para sua própria cama, sentiu os dedos dela se fechando no seu pulso.
"Você... você poderia ficar mais um pouco aqui comigo?" – Ela afastou-se inconscientemente na cama, dando espaço para ele deitar-se ao lado dela.
"Eu estou aqui, Michelle." – Ele deitou e a puxou para perto. – "Durma."
Ela acomodou-se perto do corpo dele, deitando sua cabeça no seu peito.
"Você vai me trair também, Scott?"
"Eu nunca vou trair você, Michelle. Nunca."
***
A CTU nunca antes fora tão grande ou talvez os passos dele não estavam rápidos o suficiente enquanto ele ia em direção ao seu alvo. Avistando-o na sua estação de trabalho, ele não mediu forças ao tirá-lo sem aviso da cadeira e empurrá-lo contra a mesa.
"Tony! O que diabos você está fazendo?" – O alvo gritou assustado e levantando duas mãos para impedir que o outro se aproximasse.
"Cale a boca, Scott! Cale essa sua maldita boca!"
"Mas, o que eu," – Um murro no seu estômago efetivamente o silenciou. Tony deu mais um passo para frente, seus punhos levantados quando duas mãos o puxaram para trás, derrubando-o no chão.
"Droga, Tony! Pare!" – Ele ouviu a voz estrondosa de Jack em frente a ele. Seu rosto estava vermelho, sua voz raivosa, mas nos seus olhos, Tony viu entendimento. Eles eram parceiros na traição.
Calado, ele observou quando Bill chamou os seguranças e deu ordem de prisão a Scott que permanecia negando qualquer coisa que o acusassem.
"É sua última chance, Tony." – Jack estendeu uma mão para ajudá-lo a se levantar. – "Mas uma agressão e Bill será obrigado a te tirar do caso." – Tony abriu a boca para falar algo, mas Jack continuou. – "Eu sei que não é fácil. Eu sei. Acredite em mim. Mas difícil ainda será não poder descobrir tudo. Então, por ela, controle-se."
"Ótimo! Eu vou me controlar." – Tony apressou seus passos em direção a sala de interrogatório, mas sentiu as mãos de Jack se fecharem em seu punho, impedindo-o de andar.
"Nós vamos fazê-los pagar." – Havia uma promessa na sua voz que Tony confirmou em seus olhos.
***
Bill andava de um lado para o outro da sala. Seus outros dois amigos permaneciam atrás do vidro blindado, esperando. Scott continuava agitado, jurando que tudo que o chefe havia acabado de dizer contra ele era mentira. Quando os dois outros agentes entraram e ele se viu na frente deles, as lágrimas desceram pelo seu rosto e ele abaixou a cabeça, levantando minutos depois para olhar diretamente nos olhos de Tony.
"Eu nunca faria isso com Michelle. Você não sabe disso, mas ela sabe."
"Guarde saliva, Fox." – Tony replicou debochadamente.
"Michelle não está aqui, Scott. Então ela não pode ajudar você." – O agente concordou tristemente com a cabeça. – "Se ajude e confesse." – Jack completou firmemente.
"Eu não posso!" – O grito frustrado foi ensurdecedor. – "Não entendem? Eu não fiz nada disso! Eu nunca trairia Michelle dessa forma. Eu prometi, eu..." – Ele soluçou e remexeu-se violentamente na cadeira. – "Eu prometi que nunca a trairia. Eu não fiz isso, por favor, você tem que acreditar em mim..." – A voz dele falhou e ele se calou.
"Thomas Berg. Você conhece esse nome, certo?"
Scott levantou a cabeça e encarou os olhos calmos de Bill.
"Sim. Mas não tão bem como vocês pensam. O que eu sei dele, é que estão nos relatórios. Nunca entrei em contato com ele."
"Você tem certeza?"
"Sim!" – Ele elevou seu tom de voz e suas mãos seguraram a cadeira com força. – "Qualquer um poderia vender as informações que ele queria sobre a Michelle. Nós quatro sabemos disso. Além do perfil de agente, nós ouvimos coisas. Nós confraternizamos. As pessoas sabem."
Os três outros agentes consideraram aquilo por um momento.
"Por que então ele disse o seu nome em específico?" – Tony perguntou friamente.
"Porque ele sabia que ia atingi-la! Seria uma traição não só a CTU, mas a ela. Pessoalmente. Nós fomos mais amigos do que você gosta de imaginar, Tony. Muito mais." – Ele relembrou diversos momentos na sua mente.
O silêncio novamente os cercou. A explicação era plausível e eles sabiam disso. E se fosse verdade, ainda existia um traidor a ser descoberto.
"Ninguém fez perguntas demais sobre ela nos últimos meses? Perguntas que antes podiam ser inofensivas, mas agora se encaixam no contexto?" – Bill perguntou.
"Não." – Scott falou pensativamente, suas sobrancelhas unido-se pela sua concentração.
"Pense, Scott. Qualquer pessoa. A menos suspeita."
Ele pensou, arduamente.
"Espere!" – Ele gritou triunfante, assustando os outros. – "Talvez..." – Ele coçou o queixo e passou a outra mão pelo cabelo. Confuso. Inconformado.
"O que, Scott? Em quem você pensou?" – Jack aproximou-se e sua voz mostrava encorajamento.
"Kaylin."
"Kaylin Newbrook? A agente inglesa que ficou aqui por causa do intercâmbio? Sem chances, Fox!" – Tony disse exasperado. Por Michelle, ele desejava que Scott não fosse culpado.
"Nós..." – Ele corou, engoliu em seco e prosseguiu. – "Nós estamos saindo juntos há umas semanas. Nós uh... dormimos juntos."
Bill e Jack concordaram com a cabeça, esperando que ele continuasse. Tony segurou um sorriso irônico. Era dejà vu demais.
"Ela me fez perguntas sobre meu passado. Michelle inevitavelmente veio à tona e... Ela pareceu gostar do assunto. Fez várias perguntas sobre a atual vida dela. Essas coisas. Parecia um genuíno interesse, sabe? Como se ela tivesse me mostrando que se importava comigo o suficiente para querer saber tudo sobre meus amigos. Eu acreditei!" – A voz dele, de repente, aumentou o volume. – "Droga! Eu acreditei!"
"Calma, Scott." – Jack colocou uma de suas mãos no braço dele, e tentou acalmá-lo. – "Vá pegá-la, Bill. Vamos terminar logo com isso." – Ele se afastou de Scott e trocou um olhar com Tony. Ele parecia satisfeito. – "Desculpe-nos pelo mal entendido." – Jack estendeu a mão que Scott apertou amigavelmente. Apesar de visivelmente abalado, ele estava aliviado por ter encontrado sua própria liberdade.
"Vocês fizeram o que tiveram que fazer. Tudo bem, Jack." – Eles sorriram um para o outro. – "Vejo vocês depois."
Ele estava quase no meio do corredor quando Tony o interceptou.
"Scott! Espere!" – O agente virou-se e encarou o seu interlocutor. – "Eu uh..." – Tony estava sem graça e com razão.
"Eu entendo seus motivos, Tony. Eu sei o quanto você a ama. Todos sabem. Eu teria feito o mesmo." – Scott abriu um pequeno sorriso.
"Desculpe."
"Tudo bem. Estou feliz de estar livre e de poder ter ajudado. Espero que vocês a peguem."
"Nós a pegaremos." – Tony deu mais uns passos até ele e esticou o braço. – "Graças a você."
"Graças a todos nós." – Eles sorriram e apertaram as mãos.
***
Universidade de Davis, Califórnia.
Ele sorriu levemente ao contemplá-la dormindo em seus braços. Algo pelo qual ele secretamente desejava. Não naquelas circunstâncias. Não com ela se sentindo infeliz por ter sido traída por alguém que gostava. Ele esperava ter sua oportunidade, um dia, talvez fosse apenas ele e ela. E os dois unidos por um sentimento ainda maior que a já enorme amizade. Ele a amava. Ele a queria. Muito. Senti-la ali, o corpo dela colado ao seu, seus seios encostados contra a pele dele, o enlouquecia. Mas ele a respeitava demais para tentar algo. A amava demais para perdê-la. Ela era a mulher da sua vida e ele tinha consciência disso. A recíproca podia não ser verdadeira agora. Nem nunca. Mas o sentimento dele era eterno. E ele nunca, nunca a trairia.
"Uma noite para estar confunso.
Uma noite para acelerar a verdade.
Nós tínhamos uma promessa cumprida.
Quatro mãos e então o afastamento.
Uma noite de mágica confusão.
O início do simples toque.
Uma noite para insistir e gritar.
Tínhamos uma promessa feita.
Compartilhando diferentes batidas do coração
Em uma noite."
Heartbeats – José González
N/A: Essa música se encaixou tão bem *_*
