8 - ANAGRAMA

Como se apenas esperasse para se despedir de mim, Slughorn faleceu na semana seguinte. Antes, porém, ao seu leito de morte, chamou a mim e a McGonagall.

— Quero lhe dizer uma coisa, Minerva — ele falou com uma voz muito fraca e débil.

McGonagall assentiu, e lágrimas brilhavam em seus olhos duros.

— Esta menina — e apertou com mais força a minha mão entre as suas — tem um grande talento, e, além disso, é alguém por quem tenho muita estima. Gostaria, de todo o coração, como último desejo de um moribundo, que ela ocupasse o meu cargo de diretor da Sonserina.

Comecei a hesitar, dizendo a ele que não morreria (embora isso fosse evidente), mas ele levantou a mão trêmula, pedindo silêncio, e indagou à McGonagall sobre o seu desejo, ao que ela respondeu um sincero "sim" — pareceu-me, pelo menos.

Slughorn iniciou uma nova convulsão, ao que a curandeira (que não era mais Madame Pomfrey) lhe foi acudir. Ele, porém, recusou, alegando que chegara a sua hora, e, com uma voz rouca e asmática, disse as últimas palavras:

— Pansy, não se esqueça do que lhe recomendei.

E expirou.

O funeral foi simples e triste, mesmo para mim, que já deveria estar acostumada às perdas. Na manhã seguinte, porém, eu assumiria o cargo de diretora da Sonserina, coisa com que jamais sonhara, mas me sentia feliz em realizar, até porque fora o último desejo de alguém que eu admirava. Meus alunos sonserinos me saudaram e parabenizaram, e percebi, com muita satisfação, que era querida por eles. O que eu não esperava, entretanto, é que um corvinal me desejasse votos ao término de uma aula daquele dia. Eu já havia nele reparado, porque tinha constantemente cabelos de um azul muito vivo, mas foi o seu sorriso que me chamou a atenção quanto foi ter comigo, porque era cativante e familiar.

— Parabéns pelo cargo, professora — ele disse meio retraído, enquanto jogava a mochila de qualquer jeito por cima dos ombros.

— Obrigada — respondi prontamente — você é...?

— Ted Lupin.

Fez-se a luz, e imediatamente me lembrei que aquele sorriso pertencera ao meu professor de Defesa Contra as Artes das Trevas do terceiro ano.

— Filho de Remus Lupin? — arrisquei, para obter a confirmação.

— E Nimphadora Tonks Lupin, mas infelizmente não me lembro dos meus pais. Eles morreram na guerra, sabe?

— Os meus também, e lhe asseguro que é mais doloroso lembrar. Presumo que você foi criado por seus avós...

— Pela minha avó, porque meu avô também morreu na guerra. Mas sempre vou à casa do meu padrinho, Harry Potter, é claro que a senhora conhece. Ele tem filhos, que por sua vez têm primos. Nunca me sinto sozinho, afinal.

— Desculpe-me a indiscrição, mas você se dá com o seu primo Scorpius Malfoy?

— Ah, sim. Ele se tornou o melhor amigo de Albus Severus, filho de Harry Potter, e, consequentemente, meu amigo também. Sabe, boa parte da rivalidade se foi com a guerra.

— Isso é muito bom. Draco odiava Potter na época de Hogwarts, nunca imaginei que os seus filhos brincariam juntos.

— É, o meu padrinho já me falou bastante sobre Malfoy, e disse que não guarda mágoa alguma dele.

— Mas se você era um bebê à época da guerra, presumo que hoje tenha uns...

— Dezenove anos. Eu reprovei o terceiro ano e o quinto, por pura falta de esforço, afirmo.

— Acredito, porque você é extremamente inteligente, Ted.

O rapaz enrubesceu e sorriu sem jeito.

— Bom, eu espero terminar Hogwarts esse ano, porque...

Mas foi interrompido por uma bela lourinha de sardas e olhos muito azuis, que lembrei ter visto numa sala da Grifinória, quinto ano.

— Ted — chamou a sua voz delicada.

Depois ela sorriu para mim, dizendo um educado: "Como vai, professora?", e se retirou levando o namorado. Manifestações de carinho eram algo que me incomodava, mas tentei apegar os meus pensamentos às coisas mais urgentes, como o meu recente cargo.

Ao final da tarde fui à sala de McGonagall acertar com ela alguns detalhes, e involuntariamente prendi a respiração ao contemplar o seu retrato quase inerte. Afastei os olhos tão rápido quanto os coloquei, e torci para que a diretora não houvesse reparado. E tentei prestar atenção ao que ela dizia.

— Slughorn era muito organizado, então creio que você não terá problemas com o seu novo escritório. Talvez queira mudar a decoração, ele manteve tudo como deixou Snape, mas pode ser que você queira algumas alterações a seu gosto. Faça como lhe aprouver.

Só então eu me dei conta de que ocuparia não o escritório de Slughorn, mas o seu escritório, que em cada canto deveria conter uma lembrança sua.

— E os documentos dos alunos estão todos em ordem — ela prosseguiu — você só precisa assinar um termo... Mas onde é que está?

E procurou pela escrivaninha durante alguns minutos, mas não tendo encontrado, pediu que eu aguardasse, porque provavelmente esquecera o tal pergaminho com uma sua colega — formada em Direito da Magia, atualmente lecionando História da Magia em Hogwarts — para quem pedira que desse uma olhada no termo. Senti-me desconfortável quando me vi sozinha na sala, e mantive os olhos presos a um peso de papel em formato de pirâmide sobre a escrivaninha, de forma que me sobressaltei quando a sua voz chegou aos meus ouvidos.

— Meus sinceros parabéns, Pansy.

Voltei o rosto imediatamente ao seu retrato, aquela projeção fiel e perfeita, que, entretanto, não possuía o seu calor. Eu quis articular algumas palavras, mas ficaram engasgadas.

— Estou orgulhoso — você prosseguiu — diretora da Sonserina. Sempre soube que você iria longe, Pansy.

Eu não sabia precisar se era realmente você quem me dizia aquelas palavras, nunca entendera muito bem a magia dos quadros, mas elas eram tão impregnadas das suas maneiras, que acreditei piamente e lágrimas grossas correram pelo meu rosto.

— Obrigada — foi tudo o que consegui balbuciar.

E fitei os seus olhos escuros, tendo a impressão de que, mesmo feitos de tinta, eles ainda podiam ler os meus pensamentos. Não sei precisar por quanto tempo eu me deixei fitar o seu rosto, mas apenas saí do transe quando ouvi a voz de McGonagall às minhas costas:

—Aqui está, Pansy. A idade vai avançando e nós começamos a esquecer as coisas — e se interrompeu quando olhou para o meu rosto — você está chorando?

Obviamente estava, e não havia como negar, uma vez que o meu rosto estava banhado por lágrimas, que eu, como se estivesse anestesiada, não sentia. Mas McGonagall foi discreta ao olhar sutilmente para o seu retrato, agora inerte, e assimilá-lo às minhas lágrimas. Antes que o constrangimento fosse maior, ela me estendeu o pergaminho com o termo. Tomei rapidamente a pena, mas senti dificuldade ao equilibrá-la em minha mão trêmula. Então escrevi lentamente o meu nome, mas demorei-me no sobrenome, não só pela dificuldade, mas principalmente porque reparara em algo que nunca antes me ocorrera. Perturbada, entreguei a McGonagall o termo e me despedi sem muita cerimônia. Praticamente desci as escadas correndo e prossegui nesse ritmo pelas masmorras, ainda que meu alunos me olhassem meio assustados. Abri a porta do seu — do meu — escritório e tentei não me abater pelas lembranças, embora sentisse meu coração apertado por mãos invisíveis de aço. Fechei a porta e acendi uma vela, partindo para a escrivaninha, à procura de pergaminho e pena, o que não foi difícil de achar. Com uma caligrafia apressada, escrevi o meu nome e abaixo o seu sobrenome. Risquei a letra final de cada um.

PANS
SNAP

Um anagrama perfeito. Chorei sobre o pergaminho, borrando a descoberta. Quantas coisas mais teríamos em comum, quantas poderíamos ter descoberto juntos?

E me sobressaltei pela segunda vez naquela noite, ao ouvir em minha memória a voz do falecido Slughorn: "Pansy, não se esqueça do que lhe recomendei".

— A caixinha — sussurrei, levantando-me de um ímpeto.

INTERLÚDIO

As primeiras coisas que percebi a respeito de sua casa foram a iluminação e a temperatura. Ela era escura e fria, tal qual você se apresentava ao mundo. Depois notei as estantes lotadas de livros e quis dar uma boa olhada neles, mas não me atrevi a tanto. Então você me conduziu escada acima, dobramos o corredor e chegamos a um pequeno quarto mais escuro e mais frio que o resto da casa.

— Este será o seu quarto, Pansy — você disse, acendendo uns candelabros com a varinha — não tem o luxo da residência dos Parkinson, mas...

— Para com isso, é perfeito.

De fato, eu gostara daquele que seria o meu quarto durante as férias. Era pequeno, sim, e frio também — embora o verão se aproximasse — mas havia uma cama, um armário e uma escrivaninha, além de ter a vantagem de ser uma parte complementar de sua casa. Que mais eu poderia desejar?

— Está aqui.

Assustei-me com a voz fina e irritadiça, que certamente não era a sua. Voltei-me, sobressaltada, para a porta e dei com um homem baixo, de rosto malicioso e bizarro. Afastei-me com repulsa.

— Este é o Rabicho — você falou em tom de mofa, e eu não pude reprimir uma risada, ainda que tímida — não se incomode com a presença dele, que não representa nada.

O tal Rabicho, após deixar o meu malão aos pés da cama, saiu murmurando alguma coisa ininteligível, que você ignorou.

Alguns dias transcorreram, e apesar de passar o verão constantemente trancada em uma casa fria e escura, não poderia haver férias melhores. Eu já folheara boa parte dos seus livros, e até levara alguns mais interessantes para fazer anotações em meu quarto, à noite. Dessa forma, os dias passaram depressa, e quase não percebi que o dia quinze de julho se aproximava. Eu sabia que meus pais andavam muito ocupados e sequer se dariam ao trabalho de me mandarem corujas com textos afetuosos, tampouco de me visitarem. Resolvi, então, esquecer que faria aniversário naquele ano.

À manhã do dia quinze, eu tomei banho e desci para o café, como em todos os dias, mas certamente notei um diferencial: Você me esperava à ponta da escada. Antes que eu pudesse me indagar acerca daquela cena atípica, você encheu mais ainda a minha cabeça de dúvidas, ao puxar-me para um abraço apressado, murmurando um tímido "feliz aniversário", que me deixou atônita. Mas as surpresas não acabaram por aí.

— Vamos sair.

Não era uma pergunta e não havia espaço para uma negação. Você me entregou a boina e um casaco de tecido fino que eu deixara no cabide e fez sinal para que eu o acompanhasse porta afora. Somente quando uma lufada da brisa da manhã tocou o meu rosto, é que consegui reaprender a falar.

— Aonde vamos?

— Passear. É o seu aniversário, não é?

— Sim, mas...

— Um parque ao ar livre, depois um teatro em Londres? Se não gostar da sugestão, podemos mudar.

De repente me senti empolgada como ficara apenas em meus aniversários de poucas velas, há tanto tempo.

— Tá brincando! Será ótimo.

— Mas antes vamos procurar um café, você deve estar com fome.

Forço a minha memória a ponto de exaurir-me e não encontro um dia mais perfeito e feliz do que o do meu aniversário de dezesseis anos. Não me lembro de ter visto muitas vezes os seus lábios arquearem-se em um sorriso, mas das poucas que vira, porém, boa parte pertencera àquele dia. O seu rosto possuía um não sei quê de paz e serenidade, que refletia diretamente no meu. Caminhando por entre os campos muito vivos e verdes, ao som de uma orquestra harmoniosa de pássaros, nossas almas desdenhavam de todo o terror a que nosso mundo era submetido. Sentamo-nos entre as madressilvas, e um feixe de luz solar entrou por entre as copas das árvores e incidiu diretamente sobre o seu rosto, competindo com a beleza dos seus traços, mas só fez deixá-lo mais belo. Eu tentei me distrair com as flores, o canto dos pássaros ou o rumorejo de um rio que corria ali perto, mas você puxava para si toda a minha capacidade de sentir e raciocinar. O desespero foi tamanho, que deixei escapar uma pergunta impensada:

— E se não existisse Guerra?

Imediatamente lutei para por aqueles meus pensamentos em segundo plano, um esforço inútil. Você pensou na indagação por alguns segundos, enquanto eu fugia de seus olhos negros, que me podiam ler os desejos mais recônditos.

— Talvez não estivéssemos aqui. Nada é tão ruim que não possa servir de bem em algum momento.

Sorri com o seu impecável raciocínio. Você me fascinava absolutamente, e cada vez mais.

— E se um dia a Guerra acabar, com a derrota dele?

Você pareceu incomodado com a pergunta, e olhou instintivamente para os lados, mas não hesitou em responder.

— Então estaremos aqui mais vezes.

Como eu gostaria que você tivesse razão...

Eu estava sonolenta ao chegar à sua casa, e ainda um pouco emocional após a ópera que você escolhera para encerrarmos o dia. Dei-lhe boa noite e subi o primeiro degrau da escada, mas você me puxou de volta. Por um instante, tive a tão maravilhosa quanto desesperadora sensação de que nossos lábios estavam demasiadamente próximos, mas foi apenas uma simples impressão, ou foram os passos do Rabicho no piso superior que os afastaram?

— Boa noite.

Definitivamente tratava-se da segunda hipótese, acerca do maldito Rabicho, porque não fazia o seu jeito me puxar teatralmente para um simples boa noite. Ou eu estaria me iludindo e fantasiando? Nunca soube responder, mas dormi absolutamente confortável na primeira noite de meus dezesseis anos, pensando que ainda haveria uma infinidade de dias iguais àquele. Mas não houve nenhum depois.