Mais um capítulo para vocês.

Boa leitura!


08 – Capítulo Oito

MAS se descobrir um jeito de discutir o assunto com Isabella foi fácil, colocar o plano em prática não foi. Desde que Edward a beijara, ela se fechara. A Srta. Denali notou e comentou com Edward a súbita timidez e apreensão da jovem.

— Na idade dela, apesar da fraqueza e da dor, ela deveria estar se recuperando mais rapidamente. Ela anda muito nervosa e notei que piora quando o senhor está por perto.

Ele reclinou-se na poltrona de couro, exausto após um longo dia na sala de cirurgia.

— Eu também notei — respondeu, convidando-a a se sentar num sofá de couro preto. — A senhora tem conhecimento de que eu e Isabella tivemos uns desentendimentos ao logo dos anos? — perguntou, fitando-a com olhos argutos.

Ela cruzou os braços no peito.

— Isabella comentou.

— Foi culpa minha, por não aceitar que ela tivesse deixado minha mulher sozinha em estado crítico e a deixado morrer. — Ele ergueu a mão quando ela fez menção de falar. — Por favor, deixe-me terminar. Agora sei que não havia motivo para culpá-la. Errei muito, bem como os tios dela, e reconhecemos nosso erro. Mas Isabella tornou-se tão distante que achamos impossível nos aproximarmos. — Ele estendeu as mãos. — Chegamos a um impasse. Nenhum de nós sabe como agir. Não a culpo por se sentir assim, a senhora entende, mas queremos fazer as pazes e ela não permite.

— Ela ainda está sentindo muita dor, — comentou a enfermeira — e o senhor sabe que uma cirurgia radical por vezes provoca certa confusão mental. Ela precisa de tempo para se adaptar. Só isso. Tenha paciência.

— Essa não é uma de minhas maiores qualidades, exceto na sala de cirurgia, mas tentarei — respondeu com um sorriso pálido.

— Por falar nisso, — disse, levantando-se — pedi ao Sr. Black para não trazer mais flores. Não é aconselhável após uma cirurgia. Ele devia saber.

Os olhos dele estreitaram-se.

— Ele veio visitá-la?

Então, ela pareceu realmente constrangida.

— Ele vem todos os dias. Pensei que soubesse.

Ele a dispensou e sentou-se meditativo, os olhos verdes duros num rosto exausto. Não, não sabia. Irritava-se por Jacob continuar aparecendo. Isabella era responsabilidade sua não dele. Bem, estaria em casa da próxima vez em que o visitante chegasse, e daria um jeito nele. Nunca lhe ocorreu estar sendo irracional. Não até abrir a porta para Jacob na sexta-feira e dizer que Isabella não podia receber visitas.

— Por que não?

Ficou sem palavras, pois não tinha uma boa desculpa para criar objeções às visitas do jovem.

— Tomo cuidado para não cansá-la — continuou Jacob, tentando aplacar o médico, cujos olhos faiscavam. — Sei como está fraca.

Fraca. Sim, pensou Edward, quase frágil. Sempre o fora, mas sua independência e energia o haviam cegado. Exausto, encostou-se no batente da porta.

— Ela não está se recuperando com a rapidez que eu esperava. Não dorme direito à noite, apesar dos analgésicos, e mostra-se constantemente inquieta.

Jacob ergueu o queixo.

— Talvez seja o ambiente, embora eu entenda o fato de o senhor não controlar seus sentimentos. Mas ela sente a hostilidade, apesar de o senhor tentar esconder. Ela fica sempre tensa.

Aquilo foi um golpe, mas Edward aceitou-o sem explodir. Fora hostil por tanto tempo... Todos sabiam. Agora a instalara em seu apartamento e esperara que ela gostasse dele. Ressentia-se por tal não acontecer. Devia estar fora de si para esperar isso, apesar de ela ter se derretido em seus braços. Mesmo a demonstração de afeto poderia soar como ameaça, como um modo dissimulado de brincar com sua vulnerabilidade e magoá-la. Ele jamais faria isso, mas ela não podia adivinhar. Ele era o maior obstáculo à recuperação. Incrível precisar de um estranho para mostrar-lhe a verdade.

— Converse com ela — disse inesperadamente. — Veja se ela prefere voltar para casa. A Srta. Denali pode acompanhá-la e ela terá toda a ajuda de que necessita.

— Muita gentileza sua, doutor — disse o jovem, surpreso. As sobrancelhas de Edward arquearam-se.

— Eu o surpreendi?

O jovem remexeu-se inquieto.

— Todos sabem o quanto o senhor odeia Isabella.

Edward acenou em direção ao quarto dela e voltou para o escritório, fechando a porta devagar. Mas estava preocupado demais para conseguir se concentrar.

JACOB sorriu da porta para a amiga, que se animou um pouco ao vê-lo.

— Deprimida de novo? — ele provocou, deixando a porta encostada. A expressão no rosto dela iluminou-se de pronto. Sentou-se ao seu lado na cama. — O Dr. Cullen acabou de dizer que, se você quiser, pode ir para casa com a Srta. Denali.

Isabella expirou, aliviada. Ficar perto de Edward era pura tortura.

— Quando? — perguntou imediatamente.

— Quando quiser, suponho. Ele me pediu que a avisasse. — Afagou-lhe os cabelos. — Você não gosta daqui, não é?

Ela fez que não com a cabeça, baixando o olhar.

— Ele tem sido muito gentil, mas queria estar na minha casa, com as coisas que me são familiares. Eu o atrapalho, embora ele evite demonstrar. Ele nem pode convidar... Pessoas... Comigo aqui.

— Pessoas?

— Mulheres — murmurou.

— Essa é boa. Nem a maior fofoqueira do hospital consegue dizer nada sobre ele. Ele não sai com ninguém. Acho que ainda está de luto.

— É — disse e ficou magoada. — Ele era louco por ela. Tiveram que arrastá-lo do caixão. — Ela não gostava de se lembrar.

— Ele devia amá-la muito.

— Mais do que a própria vida. Por isso me odeia tanto. Acho que não é tão crítico quanto no passado, desde que fiz a cirurgia. Mas o fato é que ele me deixou encarregada de cuidar dela e eu a deixei morrer. — Os olhos demonstravam desespero ao erguer o rosto. — Eu também a amava — disse com voz rouca. — Apesar de eles não acreditarem. Ela podia ser gentil quando queria. Todos a mimavam por ser tão linda, até mesmo eu.

— A beleza é superficial — afirmou Jacob friamente. — Não tem nada a ver com o caráter da pessoa. Eu me apaixonaria por você, se meu coração fosse livre.

— Obrigada. — Ela sorriu. Ele deu-lhe um tapinha na mão.

— Você também nunca namora. Também sofre por um amor não correspondido?

Ela não queria responder. Edward estava disposto a deixá-la partir, então aparentemente cansara de sua presença. Devia ser um tormento para ele. Ela recusou-se a pensar naqueles beijos. Provavelmente ele estava a tanto tempo sozinho que qualquer mulher, não importa em que condições, provocaria a mesma reação nele.

Reclinou-se nos travesseiros. Teria que deixar a Srta. Denali acompanhá-la e dar um jeito de lhe pagar o salário.

— Pergunte a ele quando posso ir embora — disse, afinal.

O ROSTO de Edward não traiu nenhum sinal de emoção quando Jacob fez a pergunta.

— Tomarei as devidas providências — disse, acompanhando Jacob até a porta. — Eu aviso. Quanto antes, melhor.

Jacob assentiu.

— Obrigado. Acho que ela vai se recuperar mais rápido num ambiente familiar. A gente pode estar num lugar muito confortável, mas nada como a casa da gente.

— Entendo. — Edward fechou a porta e hesitou antes de ir ao quarto de Isabella. Encontrou-a tensa, recostada nos travesseiros, as mãos cruzadas no colo. A enfermeira sairá para almoçar, ir ao banco e fazer umas compras, pois era sexta-feira. Ele foi direto ao ponto.

— Pode ir embora amanhã de manhã, se quiser. Eu aviso a Srta. Denali. Só mais uma coisa — disse, gesticulando para a gatinha enrascada em seus pés sobre a colcha. — Você não pode levar Mosquito.

— Eu sei — disse triste. Ela se apegara demais ao bichinho. Mas regras eram regras e ela não poderia esconder a gata. Afinal, o proprietário e a mulher frequentariam o apartamento, sendo o tipo de pessoas que se dedicam aos doentes.

— Eu cuidarei bem dela.

Ela assentiu. Edward emitiu um som irritado.

— Olhe, por que não fica? Tem tudo à disposição. Jacob a visita sempre que quer. Por que está tão ansiosa em voltar para aquele apartamento solitário?

Ela o fitou com o rosto cansado, exausto.

— Porque é meu. É tudo que tenho. — Ele ficou abalado.

— Como assim?

— Eu vivo sozinha. Gosto de viver sozinha. Não me sinto à vontade com outras pessoas.

— Comigo, quer dizer. — Ela contraiu a mandíbula.

— Isso.

Ele aproximou-se da cama, olhando-a fixamente.

— Eu não a deixo à vontade. — Ela desviou os olhos. O coração batia alucinado, traindo sua excitação. — Fale comigo. — ordenou.

Isabella apertou as mãos como se disso dependesse sua vida.

Trincou os dentes. Não o fitaria.

Ele enfiou as mãos nos bolsos para evitar segurá-la. Como sempre, ela lhe despertava fortes emoções. Mas agora estava menos armado do que de hábito.

— Não é que não aprecie o que fez por mim — disse, passado um minuto. — Sou muito grata a você. Salvou minha vida. Não precisava sacrificar sua privacidade por minha causa.

— Minha privacidade, como você chama, é muito solitária — confessou, surpreendendo-a tanto que ela fitou-lhe o rosto magro e bonito. — Não recebo ninguém. Achei que soubesse.

— Mas você sempre...

— Quando Tanya era viva — concordou. Ele procurou-lhe o rosto exausto. — Ela dava as festas. Só conseguia viver cercada de gente e música. Eu passava mais tempo no consultório, pois não tinha sossego para ler meus jornais médicos ou escrever artigos. Ela se ressentia do meu trabalho, desde o início de nosso relacionamento. Ela queria que eu abrisse mão da minha profissão, sabia?

Ela sacudiu a cabeça.

— Teria sido uma pena. Você é o melhor na área. Ela não sabia quantas vidas salvou?

— Não ligava a mínima para isso. O único verdadeiro interesse de Tanya era Tanya. É o que acontece com muitas crianças mimadas. Crescem sem compaixão pelos outros, só preocupadas com os próprios desejos e necessidades. Depois se casam, constituem família e não estão preparadas para ceder. Finalmente, desmoronam. Como aconteceu com ela.

— Ela sempre pareceu tão feliz. E você também.

— Ah, a gente finge, para não admitir os fracassos. Nós éramos a imagem do casal ideal, não é? No entanto, Tanya lutava contra o ciúme e o desprezo, tornando-se dependente do álcool e das festas para sobreviver aos longos e solitários dias e noites. — Ele nunca se abrira antes. Ela o fitou incapaz de interrompê-lo. — Não lhe bastava o amor. Precisava possuir. Mas era fria por dentro. Nada tinha a dar além da beleza e uma superficial afeição. — Ele suspirou, fitando Isabella. — Na cama, era o ser mais frio que conheci. Torcia para acabar logo e vivia obcecada com receio de engravidar.

— Mas ela disse que você não queria filhos — deixou escapar.

— Eu queria, e muito.

De repente, ela entendeu do que ele falava. Algo em sua natureza apaixonada adorava crianças. Mas ela jamais soubera, pois ele nunca tinha contado nada.

— Ansiava pela paixão de uma mulher — disse suavemente. — E acabei faminto. Por isso perdi o controle com você. Sentir sua boca receptiva, seus braços, foi demais para mim. Eu devia saber. Tanya queria minha fama, meu dinheiro, meu nome, mas nunca me quis.

— Ela o adorava — protestou.

— Adorava meu dinheiro — disse com uma risada cínica. — E o que meu dinheiro podia comprar. Sabia que ela teve um amante antes de mim? E não abriu mão dele só porque se casou. Ainda eram amantes quando morreu. Queria ir a Paris comigo porque sabia que ele estaria lá. Ela me ameaçou dizendo que, se eu a deixasse em casa, ela se vingaria. — Os olhos encheram-se de amargura. — E conseguiu, da maneira mais vulgar que podia. Morreu e me deixou com a culpa.

— Você me culpou.

— Eu me culpei — disse, zangado. — E ainda me culpo. Culpar você foi o único modo de seguir vivendo, por um tempo. — Ele procurou-lhe o rosto com olhos solenes. — Como se você pudesse deixar alguém morrer... — debochou. — Você é tão meiga que me odeio por todas as palavras duras e as acusações do passado. Você não fez nada senão mostrar quem era Tanya. Pior, você me mostrou quem ela não era.

— Não entendo.

— Como poderia? — perguntou, fechando a cara. — Você não me conhece. Jamais pude mostrar quem eu sou, pois era perigoso nos aproximarmos. — Os olhos dela o fitavam, inquisidores. — Você não entende? — perguntou, divertido.

— Não — retrucou com sinceridade.

Ele sentou-se ao seu lado. A mão contornou-lhe os lábios, os olhos prendendo os seus até os batimentos cardíacos entrarem em convulsão.

— Agora entende? — perguntou num mero sussurro. — Sinta. — Trouxe-lhe a mão ao coração. Batia acelerado como o seu. Reconheceu nos olhos a mesma turbulência que sentia.

Mas ao olhar o rosto que mais amava no mundo, só identificou desejo. Ele a queria, sem dúvida, mas não era um desejo que brotava do amor. Era apenas físico.

Ela deixou a mão cair na colcha com um suspiro.

— Entendo.

— Acho que não — Edward retrucou zangado. — Você tem medo de entender. — Ele colocou um dedo sobre os lábios que tentavam formar uma frase. — Eu sei que, apesar de não querer, sente atração por mim, Isabella. Fiz o possível para você me odiar.

Era engraçado, mas ela não teve vontade de rir. Ele não fazia ideia de seus sentimentos por ele. Achava que ela apenas o desejava. Abaixou os olhos para impedi-lo de ver o que eles escondiam e recostou-se nos travesseiros, na defensiva.

Ele interpretou o gesto como medo e ergueu-se.

— Está bem — disse em voz baixa. — Não tentarei mais nada. Todos parecem acreditar que sou o motivo de você não estar se recuperando como deveria. Se quiser voltar para seu apartamento, providenciarei para que se mude. Pode pedir o que quiser para ficar confortável, exceto Mosquito — murmurou, sorrindo para a gatinha que deitou com as patas para cima.

Ela notou o modo como ele fitava o bichinho e sentiu um aperto no coração pelos filhos que não teve e os animais que Tanya proibira no apartamento. Ele ergueu o rosto e vislumbrou a expressão de seus olhos. Ficou ao mesmo tempo surpreso e encantado.

— Está com pena de mim, querida?

— Quizás un poço (Talvez um pouco). — murmurou em espanhol.

Ele chegou mais perto da cama.

— Sua pronúncia é perfeita. Você entende tão bem quanto fala?

— Às vezes — admitiu. — Depende de quem fala. Entendo melhor o sotaque cubano, pois meu professor era de Havana.

— Costumamos pular algumas palavras. Então pode me entender quando falo espanhol — acrescentou, franzindo os lábios. — Então, se ficasse aqui, até estar em condições de cuidar de si mesma, eu poderia ler Baroja para você todas as noites.

Ela apertou a coberta.

— Tanya lhe deu um exemplar de Cuentos e de Paradox Rey — recordou-se.

— Que você escolheu, — retrucou, surpreendendo-a — pois Tanya nunca falara uma palavra em espanhol. Achava um idioma chato e sentia desprezo pelos autores espanhóis, como Baroja.

— Ele é um dos meus favoritos — admitiu. — Era um renegado, mas entendia de sofrimento e pobreza. Conhecia a alma das pessoas.

— Claro. Ele era médico antes de ser escritor. — Ele sorriu. — Você gosta de Zonilla?

Ela sorriu.

— Don Juan Tenorio — citou.

— Que apropriado você lembrar-se dessa obra em particular. Diferentemente do Don Juan que foi condenado, na versão da história de Tirso de Molina, o Don Juan de Zonilla foi salvo do inferno pelo amor de uma boa mulher.

— Sim, uma história linda. — Ela moveu os ombros e recostou-se nos travesseiros com um longo suspiro hesitante, pois ainda sentia certo desconforto. A mão tocou a cicatriz.

— A cicatriz vai desaparecer quase toda — comentou ao vê-la tocar a incisão. — Eu me orgulho dos meus pontos.

Ela sorriu.

— Você é um excelente cirurgião. — Fitou-o. — E tem sido muito gentil.

— E você acha que tal gentileza deve-se à minha consciência pesada?

— Essa ideia me ocorreu.

As mãos moveram-se dentro dos bolsos.

— Bem, não é só culpa. Pelo menos, não mais. Eu gosto de cuidar de você, não é estranho? Nunca tive ninguém por quem voltar para casa, muito menos alguém que precisasse de mim. — Retorceu a boca. — Acostumei-me a... Ter você aqui. — O sorriso sumiu. — Você odiará seu apartamento — disse abruptamente. — Apesar da companhia da Srta. Denali.

— Você acha sua companhia tão indispensável? — perguntou ela irritada.

— Talvez seja, Isabella — disse com voz profunda e séria. —Acho que não se dá conta do quanto me acostumei a ter você em minha rotina. Você se encaixa aqui.

Seu coração voltou a acelerar. Sentiu-se aprisionada. Entretanto, ele não dera um passo em sua direção.

— Fique — pediu.

Ela enrubesceu. Não conseguia fazer a mente funcionar.

— Estou atrapalhando. E Jacob vem aqui e você não gosta...

— Posso tolerar seu amigo. E você não atrapalha.

Ela hesitou. Não queria ficar; tampouco queria partir. Era um risco permanecer perto dele. Ele ainda não sabia o que ela sentia por ele, mas, se ficasse mais tempo, descobriria. Por outro lado, levara um susto com seu estado de saúde e era reconfortante tê-lo por perto, tanto em termos profissionais quanto por motivos pessoais. E também havia Mosquito. Sentiria saudades dela. A cozinheira preparava refeições saborosas, o quarto era bonito...

Sua racionalização a irritou e ela o fitou furiosa por ele tentá-la.

Ele apenas sorriu, tentando persuadi-la.

— Fique. Lerei todas as noites.

— Baroja? — perguntou com meiguice.

— O autor que preferir.

Ela imaginou aquela voz aveludada lendo poesia espanhola num quarto iluminado por um abajur e corou.

— Nada sensual — provocou. — Queremos seu coração batendo calmo, não galopando. Pelo menos por enquanto.

Ela já estava perdida.

— Se realmente não estiver atrapalhando... — A gatinha subiu-lhe ao ombro, esticando-se e bocejando, e enroscou-se em seu pescoço. Seu cabelo, preso num coque, começou a soltar-se graças aos movimentos desassossegados de Mosquito.

— Se você quiser, posso pedir a Srta. Denali para lavar seus cabelos. Você nunca os deixa soltos?

— Quase nunca — confessou. — Atrapalha no trabalho e quando tento dormir. Os fios entram nos meus olhos e na minha boca. Pensei em cortá-los, mas adoro cabelo comprido.

— Eu também. — Ele a fitou, imaginando aqueles cabelos fartos em suas mãos, em seu peito nu... Voltou-se abruptamente, recuperando o fôlego. — Direi a Srta. Denali que não precisa mais fazer as malas.

Ela tinha tantas coisas a perguntar, mas nada lhe veio à mente. Fechou os olhos. Viver com Edward tornara-se um estilo de vida. Nunca quisera ir embora. Fossem quais fossem os motivos, Edward parecia sentir o mesmo. Só o tempo diria se havia tomado a decisão certa.

— Tem mais uma coisa — disse da porta.

— Sim?

— Seus tios gostariam muito de visitá-la. — O rosto ficou tenso. — Imagino como se sente em relação a eles, mas, do jeito deles, lamentam e querem tentar reparar os erros cometidos.

Ela o olhou, indefesa, a mente tomada pelos longos anos sem amor, sem carinho, a ferida aberta estampada nos grandes olhos acinzentados.

Edward voltou e sentou-se na cama, segurando-lhe uma das mãos.

— Não é fácil perdoar, Isabella. Porém, sem perdão as guerras não terminam. Precisamos parar de viver no passado e recomeçar. — Ele procurou os olhos tristes. — Vamos começar aqui, agora. Pode me perdoar?

Ela sentiu a mão contrair-se em torno de seus dedos.

— Claro — respondeu incapaz de fitá-lo nos olhos. — Nunca o culpei pelo modo como se sentiu.

— Você nunca soube como me senti.

Ela ergueu os olhos buscando a doçura nos dele.

— Todos sabiam. Você me odiava. — Ele sacudiu a cabeça.

— Tentei, mas nunca funcionou. — Ele contraiu os olhos como se experimentasse dor. — Nunca ouviu dizer que a infelicidade cava um lugar bem fundo dentro de nós para ali acomodar a felicidade que está por vir? Talvez isso aconteça com você. Adoraria ver você feliz. E seus tios também. Não nos rejeite.

Ele era um hábil advogado. Ela cerrou os olhos, incomodada com o desconforto nos pontos.

— Está bem — disse após um breve instante. — Tentarei. — Ele levou-lhe a palma da mão aos lábios e beijou-a com infinita ternura. Ela corou.

Ele sorriu, soltando-lhe a mão.

— Preciso ler um pouco e depois fazer umas visitas. Amanhã à noite, se quiser, posso ler.

O coração dela pulou só de pensar. Retribuiu o sorriso, fascinada por aquele homem complexo.

— Adoraria. — Ele levantou-se e observou-a com complacência.

— Eu também. Vejo você mais tarde.

Ela o viu deixar o quarto e se sentiu como se a vida tivesse dado um giro de 180 graus. Sua real preocupação era o motivo que o levava a se comportar assim. Ele sentia atração, pena, mas ultimamente havia algo mais naqueles olhos quando a fitava. E ele demonstrava um cuidado especial em relação a ela. Nunca o vira tão cioso do conforto de Tanya, nem mesmo nos primeiros anos de casado. Todas essas coisas formavam um quebra-cabeça impossível de resolver. Mas era tão bom sentir-se protegida que não conseguia abrir mão daquilo. Ainda não.

Naquela noite, antes de dormir, ele parou na porta de seu quarto e a observou durante um bom tempo.

— Você vai querer voltar a trabalhar quando ficar boa? — perguntou de repente.

— Claro — respondeu, curiosa com a pergunta e com a fisionomia sombria. — Gosto do meu trabalho, Edward.

— Eu sei, mas e se tivesse outros deveres para ocupá-la?

— Não compreendo.

Ele suspirou profundamente.

— Não, imagino que não. Deixe para lá. De qualquer modo, ainda é cedo. — Sorriu para ela. — Durma bem.

— Você também. Você não descansa o suficiente — acrescentou sem querer.

Sua preocupação soou feito um afago na pele fria. Ele sorriu.

— Nunca me importei com isso. O trabalho tem sido minha salvação durante esses longos e solitários anos.

— Você enfrentou dificuldades ao chegar a este país, não foi?

Ele concordou.

— Muitas. Você também entende de privações e pobreza, certo?

— Certo. Meus pais eram muito pobres. Nunca tinham dinheiro suficiente.

— Para algumas pessoas, nunca há — disse em tom amargo. — Tanya tinha dez vezes mais do que a maioria das mulheres de sua classe social, e nada era o bastante. Ela achava os pobres irritantes. — Edward a fitou afetuosamente. — Lembro-me do dia em que observei seu rosto enquanto distribuía sopa. Toda aquela gente faminta, assustada, e tão poucas pessoas se importam com elas.

— Eu sei. — Ela buscou-lhe o rosto cansado. — Eu sei. Conheço você. Atendeu várias pessoas que não tinham dinheiro nem seguro.

— Minha habilidade é um dom divino. A gente acaba aprendendo que todos os dons têm seu preço, dentre eles dividir com os menos afortunados. — Ele buscou os olhos de Isabella. — Agradeço ainda mais a Deus por essa habilidade agora. Você podia ter morrido.

— Aparentemente, ainda não havia chegado há minha hora.

— Jamais saberá como me senti ao ver seu rosto sem a máscara de oxigênio na sala de recuperação. Toda a crueldade voltou a me assombrar. — Ele recostou-se na porta. — Magoamos você terrivelmente no funeral de Tanya. Nunca esquecerei as coisas que disse. Um dia espero que possa me perdoar. Estava consumido por minha própria culpa. Ela disse que se vingaria se não a levasse. Não estava tão mal quando saí.

Ela respirou fundo.

— Não, não estava. Mas ficou na chuva, de camisola, durante várias horas seguidas. De propósito. Por isso, ficou doente. A empregada precisou ir embora e eu já estava me sentindo mal. Deveria ter ligado para alguém.

Ele prendeu o fôlego. — Meu Deus, por que não me contou?

— Você não teria acreditado. Talvez ela não soubesse da gravidade de uma infecção pulmonar. A luz apagou e tentei encontrar a escada, desesperada por buscar ajuda para ela. Minha última lembrança é de tentar recuperar o equilíbrio.

Ele fechou os olhos.

— Pagar o mal com o bem. Meu Deus! — Ele deixou-a, sentindo-se tão mal que não conseguia encará-la.

— Sinto muito — disse ela, mas não havia ninguém para ouvir. De todo modo, pensou ao deitar-se, talvez fosse melhor ele finalmente conhecer a verdade.