"Incapaz, tão perdida.
Eu não posso achar o meu caminho.
Tenho procurado, mas eu nunca vi.
Uma volta, uma volta do engano."
Numb - Portishead
Dois dias. Dois miseráveis dias que não via Alicia. Levantou da cama sonolento, sentindo o frio invadir o corpo. Por sorte, a mulher ao seu lado não despertou. Ele não estava disposto a expulsá-la e torcia para que ela fosse embora tão logo acordasse, assim como as anteriores. Infelizmente, ele não tinha Pepper para fazer o trabalho gentil de ter que explicar seu desgosto por companhia pela manhã.
Deslizou pela banheira, relaxando todos os músculos tensionados. A água aquecia em uma confortável temperatura, fazendo-o soltar um gemido de alívio. Imóvel na matéria, mas irrequieto na mente, informações cruzavam em velocidade e nem ele mesmo sabia o motivo de ainda pensar nela. Sentia uma perturbação ao recordar. Perturbação sádica, que insistia em cutucá-lo nos mais inapropriados momentos. Inapropriados, diga-se frequentes. Frequentes, diga-se insistentes.
Suspirou, contraindo as pálpebras. Desde que a deixou naquele fatídico dia no apartamento, não conseguiu se concentrar propriamente. Encontrou uma nova – e gostosa – assistente graças a alguns contatos, enfrentou reuniões, entrevistas e conheceu agradáveis lugares. Muito em pouco tempo. Porém, como o tempo é relativo em importância, o pouco era transformado em muito quando se tratava da ausência de Alicia.
Inferno! Que impacto maldito aquela mulher havia causado? O corpo reclamava por ela, como se o punisse por ser tão arrogante.
Não. Ele não disse. Não implorou. Oras, ele era Tony Stark! E ficou surpreso pela determinação de Lily, que diante da atitude, cumpriu a palavra, não prosseguindo com a sessão de luxúria.
Ah, deliciosa sensação. Uma onda calorosa transpassou o corpo ao somente relembrar. Era como se pudesse sentir as mãos de Martins rastejando em sua pele, tal qual uma cobra ... venenosa ... prestes a dar-lhe o bote.
Venenosa. Sorriu pela associação de palavras. Assim ela era. E teve a plena convicção de que ela o havia mordido e depositado uma poderosa porção de veneno, que agora corria nas veias e ele não poderia fazer nada além do que encontrar um antídoto. Praguejou, mexendo o corpo na banheira, notando a excitação tomar conta e ficar insaciado.
As mulheres que provou depois dela se resumiam ao que ele sempre procurava: satisfação imediata. Então, por que ele não conseguia tirar Martins da cabeça? Repetir era a resposta. Tony queria Alicia mais uma vez. E o que Tony Stark queria, ele conseguia. Não importava como, seus desejos sempre se realizavam. No momento, o apetite em possui-la estava beirando o limite do cruel.
Ainda necessitado; ainda precisando finalizar; ainda desesperado por entrar na carne de Alicia.
Venenosa, assim ela era.
Alicia olhou a aparência refletida no espelho - pela milésima vez - e suspirou. Estava pronta, afinal. Faltavam dez minutos e deu graças aos céus por ter conseguido se arrumar a tempo.
O vestido longo bordô ficou perfeitamente ajustado às curvas, sendo um tanto comportado na frente, porém nas costas revelava além do esperado. Os cabelos caiam delicadamente até a metade da espinha dorsal e a maquiagem realçava seus pontos mais fortes do rosto. Uma delicada corrente adornava-lhe o pescoço e desta vez ignorou os brincos. Colocou a pomposa sandália prateada e verificou se não havia esquecido nada na bolsa.
Logo as férias acabariam e voltaria ao habitual emprego. Há, férias. E desde quando assistir a um bilionário egocentrista poderia fazer parte de suas duas semanas de férias? Bendita hora em que Pepper resolveu pedir o astuto favor de ajudar To ... Suspirou. Não relaxou sequer um minuto naquela bendita "ajuda" e se previa no trabalho ainda mais cansada do que quando saiu.
Por falar em Pepper, o desentendimento com Tony a fez desaparecer, levando a cabo a ideia de se afastar do estress a sério. No entanto, antes teve uma conversa um tanto esclarecedora com Alicia, deixando expostas as cartas na mesa. Mútuas desculpas e interessantes conselhos deixaram Martins em estado de alerta. Os anos de experiência como CEO de Tony fizeram de Pepper uma especialista no comportamento único do chefe. Tony Stark não desiste até conseguir o que quer. A ruiva afirmou sem titubear.
Ele conseguiu o que queria. Então por que a procurou novamente? Talvez ... quisesse ... mais? Mas ela não tinha mais nada a oferecer. Ele queria sexo e assim o teve. Prazeroso, claro. E só. Nem auxílio profissional ela cogitava, pois na mistura de demissão, teve a clara noção de que Tony poderia arranjar outra pessoa para seu lugar.
Balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos confusos, e resolveu beber mais um copo de água. Ligou a tv e a primeira imagem que o aparelho mostrou foi Tony Stark, elegante como sempre, acenando para a imprensa, com uma mulher alta e morena – com porte de modelo – ao seu lado.
Martins estreitou os olhos, notando que o local era um baile beneficente. Espera! Baile? Os questionamentos tinham sentido! Ela havia perguntado a Rhodey sobre a visível coincidência da agenda de Stark – que ela recordava alguns compromissos – estar atrelada ao convite inesperado do militar. Ele negou. Mentiroso. Era o mesmo lugar. Xingou a si mesma por às vezes ser tão idiota.
- Ah, Rhodey! - jogou o copo na pia e correu até o quarto, sacando o celular da bolsa. Destravou a tela e prestes a efetuar a ligação, o aparelho tocou.
- Lily! Está pronta? - a voz masculina entusiasmada do outro lado a fez parar por um instante.
Ela pensou em dizer poucas e boas para o novo-ex-amigo. O ódio a invadiu. Não por Rhodey e sim por Tony. Alicia sabia que pessoas são substituíveis e que Stark não ficaria sem assistente, mas a felicidade que ele transparecia na tela a deixava com a fúria pulsando nas veias. Cerrou os punhos, apertando o celular por conseguinte. Disfarçou a voz e captou o máximo de doçura que pôde.
- Sim. Estou pronta.
Ela pôde escutar um suspiro de alívio.
- Ótimo. Estou na portaria.
Estranhamente, um dia atrás, Martins nem acreditaria. Quer dizer, não é muito normal o melhor amigo do ex-chefe aparecer disposto a conversar. Recordou como o coração acelerou ao ouvir a campainha tocar. Antes de abrir a porta do apartamento, refletiu sobre a remota possibilidade de Tony ter se arrependido. Porém a surpresa ao ver Rhodey foi até maior do que se Stark estivesse.
O interesse repentino do militar a assustou. Lembrou que compartiram bebidas e depois tudo fluía bem, a não ser a insistente relutância de Alicia em crer na inclinação de Rhodey para seu lado.
Quais as verdadeiras intenções de James? Conhecê-la melhor? Duvidava muito. Se bem que, a certo ponto, ela não era mais assistente de Stark e agora Rhodey poderia se ver com o campo livre. No entanto, antes, Lily trocara poucas palavras com o militar e sinceramente depois de reconsiderar várias vezes, não sabia o que pensar.
Voltando ao presente, as portas do elevador se abriram e Alicia caminhou apressada até a portaria. De pronto, recebeu um honesto elogio do acompanhante, que estava vestido com um elegante terno azul marinho. Pôs um sorriso amistoso no rosto e entrou na limusine, um tanto temerosa pelo que estaria por vir.
Tony Stark. Ela o veria novamente. Para ser clara, nunca mais; nunca mais, nunca mais queria topar os olhos com ele! Sentia-se suja. Corrupta consigo. Aquele bilionário egoísta tomava seus pensamentos e mudava sua genuína atitude. Cada vez que a mente traiçoeira recordava o corpo de Tony, tudo ardia. Absolutamente TUDO. E após ... uma vontade ... intensa ... forte ao extremo de apertar as próprias pernas e contrair os músculos internos.
Saiu da limusine e inúmeros flashes invadiram o campo de visão, deixando-a quase cega. Andou a passos rápidos, sendo guiada por Rhodey. Entrou no baile e foi muito bem recepcionada, sendo alertada por James que por alguns instantes ficaria sozinha, pois ele teria que resolver algumas pendências.
Lily não sabia se respirava aliviada pelo afastamento de Rhodey ou se suspirava de decepção por estar em um ambiente que não era o seu. Deu uma corrida rápida com os olhos pelo local e avistou um bar. Perfeito.
No meio do caminho, uma voz peculiar chamou atenção. O coração palpitou rápido e teve a clara sensação de ardência. Girou levemente a cabeça e lá estava. Tony conversava com a mulher que ela vira pela tv, soltando ora ou outra uma de suas tiras, sendo notável a risada nada forçada da companhia. Não querendo ser notada, ficando um tanto incomodada pelos olhares masculinos depravados ao redor, andou até o bar. Sentou para ordenar uma bebida e logo não estava mais só.
- Dry martini. - ela escutou o pedido, observando que um homem havia sentado no banco ao lado. Ele não devia passar dos trinta anos; loiro, olhos azuis, feições bem atraentes, sem falar do corpo, discretamente reto sob o terno.
Trocaram olhares e ela soube de imediato o que a atraía no desconhecido: o sorriso branco e alinhado, com ares de cafajeste. Escolher sempre os maus partidos era uma sina. Enjoavam-lhe os corretos, pois sempre não sabiam como agir e eram parados demais para o gosto. Talvez fosse o grande motivo que Tony a tinha cativado tanto. Balançou a cabeça ante o pensamento e viu-se disposta a travar uma conversa com o desconhecido, sem dar muita liberdade, não esquecendo de Rhodey.
Carlos Albuquerque. Prenome comum. Sobrenome de família rica; que sabia bem ser as posses do homem. Um generoso donatário do baile beneficente.
De repente, as costas arderam. Sentiu-se observada, consumida ... totalmente nua. E o mais esquisito era que o olhar não provinha de Carlos.
- Sentiu minha falta, querida? - Stark praticamente colou o corpo ao lado esquerdo de Lily, apoiando um dos cotovelos no balcão. Ele a encarava com um ar divertido e ficou ainda mais deliciado ao perceber que ela prendeu os dentes na taça, tentando reter a raiva.
- Nem em mil anos, querido. - ela sussurrou com os lábios ainda entretidos na bebida.
- Então veio fazer caridade? - atiçou, inclinando um pouco o pescoço na direção de Carlos.
Lily, que ainda não havia olhado para Tony, inflou os pulmões, depositando o copo quase vazio no balcão. A falta de resposta, fez ele ficar ainda mais sarcástico.
- Porque se quiser fazer caridade, saiba que eu sou o mentor do evento, portanto o mais necessitado.
Ela expirou lentamente, olhando Stark, sem movimentar muito cabeça, dando a ele um "olhar 43" matador. A rispidez na voz saiu como um tapa:
- Pensei que a caridade fosse para o próximo e não para o senhor. - girou o corpo para o lado oposto, topando os joelhos na coxa de Carlos. - Egocentrismo é um erro. - estava prestes a levantar quando Tony a segurou pelo antebraço, juntando a boca molhada dele aos ouvidos apurados dela.
Ah ... arrepios.
- Sou solícito quando me convém e você sabe muito bem. - ele lançou com a voz grave de excitação.
Como uma simples frase pudera sair tão pornográfica?
Ah ... arrepios novamente. Lily ficou paralisada por alguns instantes e sem querer acabou encarando Carlos, que retribuía sem entender. Em um movimento rápido, ficou frente a Tony, pressionando-o contra o balcão.
- Pelo que me consta ... - trocou o tom raivoso pelo tensional. - ... fui eu quem lhe proporcionou uma caridade. - dando ênfase na última palavra. De imediato, o espaço entre o zíper e a boxer, nas calças de Stark, ficou menor. - E quando esperei ansiosa pela minha vez, o senhor me deixou sem a mínima pena. - ela encurtou a distância e os lábios quase colaram. - Não se engane Senhor Stark, egocentrismo é a sua marca.
Um sorriso lascivo brotou em Tony, que deslizou uma das mãos pela cintura de Lily, relembrando com os dedos cada curva da mulher. Ele queria dizer que ela estava errada ... mas desistiu da ideia. Fato era que desde algum tempo, ele somente utilizava o Homem de Ferro para autopromoção e não realmente em ato altruístico.
- Conheceu-me em um dia. - ele afirmou limpo, sentindo as palavras saírem sem o ar sarcástico, devorando-a com os olhos plenos de desejo.
A vontade em comê-la ali, diante de todos, aumentou a medida em que começou a delinear com os dedos, pequenos desenhos, ausentes de formas, ao redor da junção das costas à cintura da ex-assistente. Acariciar a pele dela, mesmo que sobre o tecido do vestido, o fez entrar em um grau maior de excitação.
Martins retribuiu o sorriso, mas transformando-o em um terrivelmente malicioso. Piscou com lentidão, movimentando os cílios adornados com rímel, prendendo a respiração inconscientemente, ao sentir a singela carícia de Stark. Pegou a mão livre dele, ainda no balcão, guiando até a pélvis, que ansiava pelo simples toque.
Os dedos dele esbarraram no tecido e logo as mãos formaram um maravilhoso reflexo, espalmando o local. Martins pôde sentir a outra mão de Tony parar com os movimentos carinhosos e afundar as poucas unhas na pele vestida, como se reprimisse algo. Ela saltou de susto e uma frase estalou na mente. Fechou os olhos, suspirou, e disse praticamente ronronando:
- Não tão a fundo quanto o senhor me conheceu.
O hálito de Alicia fez os lábios de Stark se partirem por reflexo. As respirações misturaram e a agonizante espera parecia formar um invólucro ao redor de ambos, fazendo com que nada mais importasse. Ele soube que se estivessem sozinhos, aquela mão, mais precisamente os dedos, estariam, literalmente, " no fundo". Desceu a mão da pélvis até o lugar ideal, apertando o local com vontade exagerada, erguendo sutilmente a frente do vestido. Os olhos rolaram em êxtase e grunhiu além do que poderia suportar. Afundou ainda mais as unhas e ela gemeu de dor, porém o gemido foi tomado por ele de forma diferente.
Um impulso avassalador o levou à beira da loucura. Se ele não a beijasse, o corpo explodiria. Limpou a garganta e engoliu em seco. A última cartada. A frase de impacto que ele sempre lançava antes de capturar a presa, porém Lily foi mais rápida.
- É claro que ... - levou uma das mãos até o peito de Tony, que contraiu com o simples toque, na direção do arco reator. Martins começou a rodear o objeto com o indicador e Stark simplesmente paralisou. - ... eu não consegui levar a caridade até o final. - direcionou a boca até a orelha direita dele, batendo os lábios de leve no lóbulo a cada palavra. - E a culpa é exclusivamente sua!
Os olhos de Tony arregalaram em única reação. Ele pôde sentir as mãos serem retiradas com rapidez do corpo de Lily, que lhe deu as costas, andando graciosamente até Rhodey, que vinha do lado de fora.
- Mas o quê? - franziu o cenho ao notar a ex-assistente enlaçar o braço ao redor do amigo, levando-o para a pista de dança.
- Senhor Stark, deseja alguma coisa? - o bartender inquiriu, notando que o bilionário não se movia do lugar.
Lentamente, Tony virou o pescoço e olhou – por cima dos ombros - sem expressão para o homem. Ordenou a bebida e voltou o olhar para o mais novo casal, que esbaldava-se na música, trocando pequenas confidências. Lily estava gostosa a ponto dos machos ao lado desviarem a atenção de seus pares.
- Aqui está a sua bebida, senhor. - e ouviu o copo ser depositado no balcão atrás de si. Mal virou o corpo para pegá-lo e trincou os dentes, sentindo o corpo travar, aplicando força no objeto de vidro. Afinal, não é todo dia que se vê o melhor amigo roubar um beijo do seu alvo de tortura e luxúria.
Estreitou os olhos e viu uma das mãos de Rhodey subir e descer nas costas de Lily, que logo cortou o contato. Pura decência ou ela não estaria gostando? Entornou a bebida em três goles rápidos e caminhou na direção do casal, sem esquecer de enlaçar a cintura de uma das várias mulheres que somente esperavam um aval dele para comê-las. Ficou estrategicamente ao lado, dançando sem muito interesse. Percebeu que Martins estava tensa e que ainda não tinha reparado sua presença, enquanto Rhodey sussurrava algo em particular.
Uma fúria diabólica pulsava nas veias de Stark. Se Rhodey não fosse quem fosse, ele o expulsaria sem hesitar. Como ele ousa colocar as mãos em cima da MINHA ... quer dizer ... . E sentiu-se patético. Estaria demonstrando e o pior, experimentando o que dizem ser ciúmes? Não. Claro que não. Ele só não gostava do modo como Rhodey insistia em deslizar as mãos pela cintura de Lily, tentando-a a algo que ele, Tony Stark, deveria estar fazendo.
Atrelou-se mais ao corpo da desconhecida mulher e a raiva começou a se misturar ao desejo de ter Alicia. ... eu não consegui levar a caridade até o final.. A frase ecoava como um afrodisíaco e a situação piorava a medida em que ele passou a recordar os momentos de paixão e libertinagem com ela.
A excitação crescia.
Analisou cada parte de Alicia, exposta naquele vestido ajustado às suas sinuosas curvas. A garganta ficou seca e Tony viu-se na necessidade de saciar a sede com o líquido primoroso, que fluiu dela na primeira vez em que estiveram juntos. Ah ... ela retorcendo de prazer sob a língua e dedos assíduos dele.
Fechou os olhos e um grunhido arranhou a garganta.
- Ai, amor, se quiser é só dizer. - a voz esganiçada da mulher em seus braços o despertou.
Ele parou de dançar e encarou a parceira, que estava feliz o suficiente, pensando em ter excitado daquela forma o bilionário. O corpo dele ainda queimava de indignação e sexo não terminado. É, talvez isso ajude. Puxou a desconhecida em um beijo desesperado, assustando não só a ela, quanto aos presentes ao redor, despertando a atenção de Alicia, que até então tinha os olhos virados para o lado oposto.
Fato que Tony Stark era um mulherengo, mas ele nunca passou dos limites do 'pudor' em público. A expressão de Alicia variou do horror ao ódio, sentindo a erupção da revolta. Ela pensou que o tinha cativado, pelo menos por aquela noite; até que Rhodey decidiu cruzar a linha e capturá-la em um beijo que ela sabia, no fundo, sequer se comparava ao de Tony. Ela queria parar, mas a vingança ainda a instigava e ela tinha quase certeza de que Stark os observava de longe. Não o viu se aproximar e estava bastante perturbada em seus próprios pensamentos, diante do repentino silêncio de Rhodey, quando viu que as pessoas ao redor prestavam atenção em algo.
- Maldito! - sussurrou e pressionou as unhas nos ombros de James, que contraiu com a repentina dor. E agora ele vem me mostrar o que eu estou perdendo ou o quê?
Soltou-se de Rhodey e ajeitou o corpo, deixando-o incrivelmente alinhado, amenizando a voz repleta de rispidez e avisando que precisava de um pouco de ar. O militar fez menção de segui-la, mas Alicia o travou a tempo de ver os olhos de Tony abrirem em um estopim.
Vermelha. Das três uma. Vergonha, raiva ou tesão. A mente do bilionário especulava, enquanto agarrava a mulher em seus braços, sem agora, tirar os olhos de Lily.
Ah ... não ajudou ... muito pelo contrário.
Um sorriso lascivo brotou por entre o beijo e o olhar de Stark ficou terrivelmente malicioso, fixando nos lábios de Lily, contraídos. Raiva ... e penetrou com vontade a língua na mulher, que prendeu a respiração por alguns instantes. Mudou a direção do olhar e pôde ver as pálpebras de Alicia abertas, demonstrando o espanto. Penetrou a língua novamente, sem juntar as bocas, deixando claro o que estava fazendo. Imediatamente, Martins mordeu o lábio inferior, sentindo o ponto sensível entre as coxas pulsar. ... e tesão. ele concluiu vitorioso.
Lily estreitou os olhos e marchou para fora. Andava apressada e esbarrava em algumas pessoas pelo caminho. Ela tinha que ir embora dali. Desaparecer. Ou então acordar daquele pesadelo terrível. Mal sabia como aquele turbilhão de emoções a golpeou. Atordoada, errou a porta de saída e entrou na idêntica, ao lado.
Assustou-se, prendendo momentaneamente a respiração. Correu os olhos pelo ambiente e teve a certeza da magia daquele local. Andou a passos lentos, sendo envolvida pela delicadeza do jardim, repleto de incontáveis exemplares de plantas. E tudo o que a atormentava, de repente, sumiu.
Um lugar secreto.
Os lábios curvaram para cima e não conteve o sorriso alegre. Tocou algumas flores e atreveu-se a cheirá-las. Elevou a visão ao céu e a sublime sensação da natureza ao redor a consumiu. Parcialmente iluminado, tendo grande parte de sua vivacidade refletida pela luz da lua, o jardim era precioso e continha algo além do que os meros olhos humanos poderiam enxergar.
Martins percebeu um canto em especial. Lá, uma cativante flor. Uma flor que ela nunca vira antes. Bela e exótica. Atraída, aproximou-se. Dedilhou as extremidades abertas e cheirou. O aroma era agradabilíssimo. Com certeza, perguntaria ao dono da casa qual a espécie de tão linda flor que cultivava.
Andou mais alguns passos e as flores acabaram. Interrogou a si própria e teve a clara noção que chegara ao final, deparando-se com a parede branca.
- A culpa não foi minha. - a voz de Tony rasgou o ar, fazendo clara alusão ao que ela insinuara antes.
Lily saltou de susto e da mesma forma que o turbilhão se fora, voltou com força avassaladora. Rodou nos próprios calcanhares e o encarou furiosa. Ela o mataria se fosse preciso. Mataria com palavras ferinas. A língua movimentou irrequieta dentro da boca e logo que a pôs em ação, palavras incalculadas saíram:
- Escuta aqui seu merda ...
Ela sentiu a mão direita de Tony pressionar a barriga e a empurrar com força contra a parede. Gemeu, mais de surpresa do que dor.
- Escute você! - ele vociferou autoritário. - Com que direito você vem aqui e me afronta desse jeito? - descendo o olhar para os lábios de Martins, que estavam entreabertos.
Afrontar. A palavra martelou no fundo da pouca serenidade.
- Afrontar? Está louco? Eu fui convidada e foi você quem veio falar comigo! - Martins não se importou em gritar os vocábulos, levando as mãos ao ar, na tentativa de se fazer entender.
Por visão periférica, viu o braço livre de Tony localizado ao lado de sua cabeça, com a mão apoiada na parede branca. Stark a queimava com o olhar, ficando estranhamente calado. Um sorriso ladino escapou da expressão até então séria e ele afirmou num tom genuinamente sexy.
- Está enganada, querida. Antes, você me chamou.
Ela franziu o cenho. Ele havia bebido além da conta? Prendeu o ar nos pulmões ao sentir a mão de Stark – antes na barriga - subir e parar na direção do diafragma. Tony aproximou-se, quase colando os corpos, separados apenas pelo próprio braço. Ele desviou para o pescoço dela, afastando o cabelo do local com a mão que antes apoiava na parede. Sorriu ao verificar que as marcas que havia feito ainda estavam lá. Depositou um beijo singelo na pele e um jato de ar quente bateu em seu próprio pescoço, percebendo que Lily havia relaxado.
- Você me chamou ... - começou com a voz grave e repleta de luxúria. - ... com esse vestido provocante ... - beijou novamente, deslizando a língua pela jugular. - ... as costas nuas ... - tomando em um único movimento a lombar de Lily, agora não restando mais nenhum espaço entre eles. Subiu a mão pela espalda de Martins, sentindo-a suspirar. - ... esse cheiro gostoso ... - enterrou o nariz na borda dos cabelos, aspirando profundamente. - ... e esse corpo que me deixou desesperado nos últimos dois dias. - foi disposto a devorar-lhe, mas ela virou o rosto, batendo o beijo na bochecha.
- Não se atreva a fazer isso com essa boca imunda. - ela rosnou entredentes, com um risco de incômodo.
Ele deveria se sentir ofendido, mas não. Escorregou os lábios para a orelha de Martins e soltou convencido:
- Boca que soube muito bem o que fazer para você ...
- Boca que fica beijando qualquer puta, sem qualquer trava. - ela o interrompeu, sentindo a respiração pesada.
Ah ... então era isso? o pensamento estalou no cérebro e Tony não teve outra alternativa a não ser sorrir. A demonstração de sensualidade com a desconhecida parceira de dança surtiu um grande efeito, felizmente. Irritar as pessoas. Ele nunca se sentiu tão tentado a deixá-la louca de ódio. Louca a ponto de encadeá-lo. Puxou o ar com força e mordeu o lóbulo, faminto. Ela tremeu surpresa e Tony apertou ainda mais os corpos, a ponto de pressionar os pulmões e dificultar a respiração.
A garganta formigava e a voz ficou rouca inexplicavelmente. Os lábios dançaram em amarga ironia:
- Não fique enciumada. Saiba que meus olhos são só para você.
Alicia arregalou as pálpebras em espanto. Ciúmes? Ciúmes dele? Claro que não! Ridículo playboy de quinta! Nem ao menos tem capacidade de formular uma cantada criativa! Admirou o céu com esparsas nuvens, mal notando que começavam a se amontoar.
- Enciumada? Só para mim? Está delirando ou o quê? - perguntou tudo de uma vez, ouvindo a própria voz um pouco instável.
Stark tentou beijá-la e ela desviou novamente.
- Não! - Lily bradou determinada. Procurou se desvencilhar, mas era impossível. E como um ato de esperteza, neste ínterim, Tony a virou de frente para a parede, encostando o tronco nas costas da mulher.
- Tem certeza? - sussurrou, segurando com uma das mãos os cabelos de Martins, erguendo até o alto da cabeça, fazendo com que a pele da nuca ficasse completamente exposta.
Tomou posse das cadeiras de Lily e começou a distribuir beijos pelas costas desnudas, traçando uma linha do início da nuca até quase o final da espinha dorsal, descendo com lentidão os cabelos, conforme o movimento.
O calor irradiava por cada parte em que Tony depositava os lábios. Alicia deveria parar as carícias, que causavam uma enorme satisfação. A pressão nos quadris aumentou e pôde sentir Stark cobrindo-a, com os braços ao redor do tronco e afundando o nariz na junção do ombro ao pescoço. Um arrepio involuntário percorreu o corpo ante a atitude do homem e sentiu-se debilitada. Era a segunda vez na noite em que ele demonstrava algum tipo de carinho. A fronte pesou e deixou a cabeça apoiar na parede. Por que ela acabava por ser tão fraca com aquele maldito egocentrista?
A crescente necessidade de Tony de repente viu-se prestes a ser saciada. O cheiro dela entrou nas narinas como uma brisa fresca, feito feitiço; encantamento, que o fez entrar em um estado alfa. Visão borrada e logo escurecida. Os músculos recebiam delicados estímulos que o deixaram tranquilo. Invariavelmente, os olhos reviraram sob as pálpebras fechadas. Murmúrios escapavam sem o devido processo cerebral de filtragem e Stark sequer conseguia parar as palavras que insistiam em romper o silêncio.
- Doce ... amargo ... agridoce ... delicioso. - inalou o perfume dela novamente, roçando a ponta do nariz na pele macia. - Eu ... esperei ... tanto.
O hálito quente de Tony acariciava. Nada comparado ao violento e sempre apressado. Ele só desacelerava com o intuito de torturá-la sexualmente. No entanto, desta vez, ele não era igual. Claro que as ondas de luxúria ainda batiam vigorosas, mas por incrível que parecesse, aquela não era a principal intenção do bilionário.
Alicia tinha algo diferente. E amaldiçoava a si mesmo por não conseguir decifrar o quê. O incomum que nunca provara antes. Parecia que quanto mais ele conseguia dela, mais acabava por necessitar. Era um vazio completamente preenchido, porém que voltava a ficar vazio novamente. Inferno! Ele mal a conhecia! Nunca precisou tanto. Nunca rogou por beijos. Nunca carecia de sua própria satisfação refletida. Nunca desejou estar no interior de alguém daquela forma, sabendo que não era só a plena carnalidade.
Virou o corpo de Lily para encará-la, na tentativa de desvendar o mistério que envolvia suas dúvidas. Efeito reverso. Os olhos daquela mulher estavam tão confusos quanto os dele. Pôde se ver refletido em um mar de questionamentos sem respostas. Inconscientemente, uma das mãos se moveu até o rosto de Martins, tocando sutil o alto das bochechas, para logo deslizar e envolver parcialmente a face.
O que estava acontecendo?
A áurea daquele momento precioso e ao mesmo tempo raro, absorvia a ambos como um repente de ... serenidade. Ao experimentar o toque de Tony, Lily sentiu-se derreter, mas não fechou os olhos, hipnotizada pelo olhar místico.
O vento fez sua parte, ao contrário do previsível, ficando mais intenso. Transpassou o pequeno espaço entre as bocas entreabertas e por um breve instante, variou a temperatura do frio ao quente. A lua foi encoberta por nuvens escuras, densas e prestes a romper.
A respiração sincronizada e lenta era compassada pelo pouco movimento dos corpos. Aquilo durara uma pequena e palpável eternidade. Gotas verteram do céu obscuro e ricochetearam no chão, fazendo intermitentes batidas, tão logo ritmando a melodia da chuva. A natureza demonstrava toda a sua glória; o jardim jubilava silencioso o recebimento do alimento. Era satisfeito, amado e completo.
Pingos de água preenchiam a face de ambos, ainda suficientemente imóveis. Os lábios tentadores de Martins, agora estavam repletos do líquido indispensável à vida ... à sua própria vida ...à sua própria existência. Stark sentiu sede. Uma sede nunca notada antes. Inclinou a fronte por sobre a dela, tendo a certeza do magnetismo daquela fonte diferente de satisfação. O toque temeroso a princípio, transformou-se em desesperado, ante a receptividade, sabendo que ela também precisava daquilo.
Olhos finalmente cerraram e Tony sentiu o interior pulsar, não da maneira como costumava. Não era luxúria ... não era sexo ... não era desejo desenfreado ... era ... diferente ... era no sangue ... sangue que corria veloz e em sua natural rotina, voltava ao coração. Não, impossível. Impossível! Tony Stark não tinha coração! Era só um órgão que o fazia sobreviver, junto ao arco reator. Sem emoções profundas. Somente o estrito necessário. Não era permitido sentimentos amorosos nada além de si próprio. Amorosos? Sentimentos? Mais duas palavras não presentes no vocabulário de Stark.
Estava delirando.
Terra, água, ar e fogo. Todos envolvidos. Conjunto de cheiros indistinguíveis, a não ser pelo aroma que se sobrepunha aos demais ... o aroma dela.
Chuva embriagante.
Gotas lacrimais celestiais.
Gotas que caíam sobre eles e molhavam as bocas envolvidas num beijo quase beirando ao sofrido. Mãos envolveram a nuca de Lily, trazendo-a mais para si. Tony estava disposto a saciar aquela irremediável sede que aumentava a cada segundo. Nada mais importava. Somente aquilo. Aquela voraz necessidade da oferta.
Nascentes de águas.
Ela mal conseguia se manter de pé. Abraçou a Tony como única forma de permanecer estável. Os corpos ficavam cada vez mais ensopados e alguns trovões eram escutados ao longe. De súbito, as línguas acalmaram, somente friccionando com lentidão. Stark passou a sentir pancadas incômodas contra o coração. Ou seria o contrário? Seria ele, o coração, que estaria a bater fortemente contra o arco reator?
Coração ... quem diria ... Tony Stark ... estaria disposto a reviver o órgão empoeirado de ... Não, que absurdo! É só impressão! Uma maldita impressão! Algum perverso feitiço dessa mulher ... adorável ... certo! É só impressão. Deve ser a chuva.
E no véu noturno, coberto pela corrente fina de águas, um atento espectador estreitava os olhos ao casal. Seria possível? Deu dois passos para trás, ainda sem tirar os olhos da cena, sorrindo diabolicamente. Ajeitou a capa negra sobre a cabeça e ideias despontaram. Aquilo iria ser bem melhor do que maquinara.
