A OUTRA FACE DO DESTINO

Capítulo 9

- Droga. Não consigo dormir.

O jovem russo, depois de repetir essa frase para si mesmo pela décima vez, decidiu que não adiantava mais ficar rolando de um lado para o outro da cama, à procura de um sono que há muito já havia perdido. O melhor era se levantar logo.

Olhou para o relógio no criado-mudo. Ainda eram 6 horas da manhã. "Que seja", pensou ele. "Preciso sair daqui".

Levantou-se tentando fazer o mínimo de barulho possível. Não queria acordar o rapaz que dormia na cama ao lado. "Se Isaac despertar, vai me encher de perguntas; vai querer saber aonde vou e nem eu mesmo sei a resposta para essa pergunta..."

Desde que despertara bruscamente devido ao estranho pesadelo que tivera, Hyoga não conseguira mais adormecer. Algo dentro dele o incomodava, uma sensação de que ele tinha de fazer algo... Mas ele não sabia o quê. Entretanto, essa sensação não o abandonava; pelo contrário, crescia cada vez mais. E a inquietação em que o rapaz loiro se encontrava aumentava, impulsionando-o para algum lugar, para alguma coisa... Não compreender essas estranhas sensações já estava aborrecendo e muito o cavaleiro de Cisne.

Assim, procurando aquietar seu conturbado estado de espírito, deixou o quarto do hotel para onde seu mestre Camus e Milo o tinham trazido noite passada. Assim que ganhou a rua, respirou fundo o ar frio daquela manhã. Olhou para o céu que clareava mais a cada minuto e decidiu que seria boa idéia caminhar um pouco. Esperava, com isso, que aquela sensação de sufoco desaparecesse.

Contudo, quanto mais andava sem rumo definido, maior era a angústia que o afligia. E, lá no fundo, Hyoga sabia que isso tinha a ver com aquele sonho. Mas era um sonho sem qualquer sentido... E, principalmente, era somente um sonho! Não; definitivamente, ele precisava se preocupar com algo mais importante. Como o estado em que Shun se encontrava agora. Acabou concluindo que toda essa aflição era advinda da culpa que sentia por não estar ao lado do amigo nesse momento. Não devia ter ido embora. Deveria ter permanecido no hospital. Decidiu então que era para lá que tinha de se dirigir.

Ao chegar ao hospital, sentiu o coração acelerar. Passando pela porta de entrada, lembrou-se do ocorrido com Ikki antes de partir. Lembrou-se da troca de olhares... lembrou-se de como tinha se sentido... e, instintivamente, começou a correr os olhos pelo local à procura do irmão de Shun. Mas não o via em lugar algum, o que lhe causou grande estranhamento... afinal, pelo que se recordava, Ikki havia dito que passaria a noite lá.

Finalmente, chegou ao andar em que Shun se encontrava. Ao perguntar pelo amigo, foi informado de que o rapaz estava melhorando mais rápido que o esperado, tanto que já o tinham transferido para um quarto:

- É impressionante! – disse o médico – No estado em que ele estava, esperávamos que se recuperasse, mas não tão rápido como vem ocorrendo. Em breve, ele deve despertar. Seu amigo é muito forte.

Hyoga apenas sorriu diante de tal comentário. Foi então encaminhado ao quarto de Shun. Quando se viu a sós com o antigo companheiro de batalhas, aproximou-se da cama na qual o jovem repousava serenamente, passou a mão pelas madeixas verdes e disse:

- É bom saber que ainda tem o espírito de um cavaleiro, Shun. – e sorriu para o amigo – Desde que as batalhas acabaram, passamos a ter uma vida dita... normal. Todo o nosso passado foi, literalmente, deixado para trás. Agimos no nosso dia-a-dia como se nunca tivéssemos participado de batalhas tão grandiosas e, por vezes, eu me pergunto se um dia realmente vestimos aquelas grandiosas armaduras. É tudo tão distante que, às vezes, parece ter sido apenas um sonho. Já não queimamos mais nossos cosmos, já não somos mais aqueles guerreiros. Felizmente, de vez em quando... percebo que aquela chama ainda existe em nós. Em menor intensidade, claro. Mas... ela ainda existe. E uma prova disso é que você está aqui... melhorando tão rápido quanto lhe é possível.

Sentou-se então em uma cadeira próxima à cama e ficou a olhar para o amigo longamente. Shun parecia bem. E, como o próprio médico havia dito, ele iria se recuperar logo. Hyoga tinha sentido um grande alívio ao ouvir essa boa notícia. Era como se retirassem um peso de suas costas. Mas, se era assim... Então por que continuava a sentir aquele aperto no peito? Por que continuava a sentir-se tão angustiado?

Essas sensações novamente o remeteram ao sonho da véspera. E começou a se incomodar com a demorada ausência de Ikki. Por que ele não estava ali? Shun já podia receber visitas e o lugar de Ikki, como ele mesmo havia dito, era ali, ao lado do irmão.

Impaciente com o fato de o moreno não aparecer, Hyoga resolveu indagar a respeito de seu paradeiro. Perguntou a todos que poderiam saber dele no hospital – enfermeiros, médicos, atendentes... mas todos diziam que Shun ficara sozinho a noite toda. Que não parecia haver alguém acompanhando o rapaz:

- Como assim? O irmão dele estava aqui! Ele disse que ia ficar a noite inteira à espera de notícias! – disse Hyoga, um pouco alterado.

- Sinto muito, senhor. – respondeu uma enfermeira, gentilmente – Mas, pelo que vimos, não havia ninguém acompanhando o paciente.

O rapaz russo colocou as mãos na cintura, abaixou a cabeça e respirou fundo. Precisava se acalmar; não era assim que poderia resolver esse problema. Se Ikki não estava no hospital, então... algo deveria ter acontecido. Algo que o impediu de passar a noite lá. Mas não devia ser nada de mais. Certamente, se esperasse ali, o moreno logo apareceria.

O problema é que Hyoga estava impaciente demais para esperar. Resolveu ligar para o celular de Ikki, mas percebeu que, na pressa de deixar o hotel, acabou esquecendo seu aparelho. E, ao recordar-se do que o fizera sair tão apressadamente de seu quarto naquela manhã, algo veio à sua mente. E se aquele sonho absurdo estivesse tentando dizer algo a ele? E se Ikki estivesse mesmo precisando de sua ajuda? E se alguma coisa tivesse acontecido com o cavaleiro de Fênix?

Havia muita coisa passando pela cabeça de Hyoga. O rapaz então sacudiu a cabeça como se, nesse gesto, ele conseguisse fazer todos aqueles pensamentos desvanecerem.

- Já estou imaginando coisas; é melhor ir logo ao apartamento dele. Tenho certeza de que ele vai estar lá. E vai estar bem.

Hyoga procurou dizer essas palavras com uma certeza que não sentia, a fim de se convencer de que não existiam quaisquer motivos para toda aquela preocupação. No entanto, ele não conseguia deixar de se sentir apreensivo.


- Bom dia, cavalheiro. São sete horas da manhã.

Isaac olhou sonolento para o relógio do criado-mudo e confirmou o que lhe dizia a simpática voz do serviço de despertar do hotel. Agradeceu com uma voz rouca e colocou de volta o fone no gancho. Espreguiçou-se demoradamente e depois sorriu. Estava disposto a fazer daquele um novo dia. Dessa vez, começaria com o pé direito. Tinha decidido acordar cedo, tomar um banho e arrumar-se para que, quando acordasse Hyoga, a primeira imagem que o russo visse fosse a de um belo e perfumado finlandês. E então, levaria o loiro para tomar um delicioso café da manhã e falariam sobre amenidades; sobre qualquer assunto que não estivesse relacionado com os irmãos Amamiya. E o homem de cabelos esverdeados justificaria dizendo que, num momento como esse, seria melhor que Hyoga se distraísse dos problemas que o rodeavam... mas a verdade era que Isaac pretendia, de todas as formas que estivessem ao seu alcance, fazer o amigo esquecer-se, mesmo que momentaneamente, daqueles que estavam atrapalhando seus planos.

Contudo, ao olhar para a cama ao lado, e dando-se conta de que esta estava vazia, entendeu que seus planos iam por água abaixo.

Vestiu-se rapidamente e correu para o quarto ao lado. Bateu na porta enquanto chamava em voz alta por Camus. Esperava, por algum milagre, que Hyoga estivesse ali. Mas algo lhe dizia que isso seria esperar demais...

- O que você quer? – disse um mal-humorado Milo, abrindo a porta de supetão.

- Ahn... Estou procurando Hyoga. Ele está aí? - respondeu Isaac, visivelmente contrariado por não ter sido Camus a atender a porta.

- Como assim? Ele não está com você? – falou o aquariano, aparecendo atrás de Milo.

- Não. Quando acordei, encontrei a cama dele vazia. E ele esqueceu o celular em cima da mesa. – disse Isaac, ignorando o escorpiano que permanecia, de propósito, parado ali na porta, entre Camus e o rapaz de cabelos verdes, dificultando a comunicação do pupilo que fazia questão de dirigir-se apenas ao seu mestre.

- E ele não deixou algum recado? Já checou com a recepcionista? – Camus mostrava-se muito preocupado e também já começava a se irritar com a atitude provocativa de Milo.

- No quarto eu não vi recado algum, mas ainda não falei com a recepcionista. Vou até lá perguntar se ela sabe de algo. – disse Isaac, retirando-se dali para correr até a recepção.

Camus então entrou no quarto e começou a se vestir com pressa. Milo fez o mesmo e em silêncio. Finalmente, quando já estavam devidamente vestidos e Milo fechava a porta do quarto, Camus o interpelou:

- Se continuar a agir dessa forma, Milo, eu...

- Você o quê, Camus? – interrompeu-o o cavaleiro de Escorpião, de forma agressiva.

- Milo, não dificulte as coisas para mim. Já evitei uma desagradável discussão entre nós ontem à noite...

- Esse é o problema. – disse Milo, começando a caminhar e deixando o aquariano para trás – Você e essa sua mania de tomar decisões pelos outros. Quem disse que eu não queria discutir alguma coisa ontem?

- Milo, com tudo o que aconteceu, eu não achava prudente iniciarmos uma discussão que não nos levaria a lugar algum.

- Olha aí; de novo. De novo decidindo por mim. – continuava a falar o escorpiano, caminhando a passos mais largos.

- Decidi o que era melhor para todos, Milo. Agora, deixe de ser infantil. Se continuar a agir assim, vou pedir que fique no hotel enquanto eu e Isaac vamos atrás de Hyoga. – falou Camus, sem alterar seu tom de voz, caminhando ao lado de seu companheiro.

- Ah, então vai ser assim? Agora você vai me excluir até dos assuntos que envolvem o Hyoga?

- Eu não estou excluindo ninguém, Milo. Você está fazendo isso sozinho, agindo de um modo que não ajuda em nada. Estamos com um problema sério aqui e você parece não entender isso. Ainda bem que chamei Isaac; ele, pelo menos, está me ajudando.

Ao ouvir a última frase de Camus, Milo parou bruscamente no corredor. Camus já esperava o que estava por vir, pois sabia que tinha ferido o orgulho do vaidoso cavaleiro de Escorpião:

- O finlandês está ajudando? Porra, Camus, mas será que você não enxerga um palmo à frente do nariz? Ainda não percebeu que esse idiota caolho está atrapalhando mais que ajudando?

- Milo! – disse Camus, levantando a voz pela primeira vez – A partir de agora, é melhor você tomar mais cuidado com o modo como vai se referir ao meu pupilo!

O escorpiano percebeu que havia ultrapassado o limite com esse último comentário. Em verdade, acreditava que Isaac estava mesmo atrapalhando, pois de acordo com o que Hyoga lhe confidenciara, ver o rapaz de cabelos verdes não era bem do que ele estava precisando. Mas não devia ter se referido ao jovem daquele jeito... Contudo, Camus o tinha tirado do sério. E o frio cavaleiro de gelo deveria saber que Milo não compartilhava da sua frieza para lidar com certas situações. De qualquer modo, reconhecia quando agia errado:

- Eu... me desculpe. Estou meio nervoso... Eu me preocupo com Hyoga também, Camus. De verdade. – disse Milo, usando um tom de voz conciliatório.

Camus olhou para Milo e viu que ele estava sendo sincero – como sempre. Achou que o ideal era evitar discussões nesse momento. Fez uma leve carícia no rosto bronzeado do Escorpião e, com um sorriso singelo, disse-lhe:

- Está bem, meu amor. Mas vamos tentar manter a cabeça fria. Precisamos estar bem para ajudar Hyoga.

- Certo, você tem razão. – disse sorrindo-lhe de volta – Vamos.


Após tocar a campainha umas cinco vezes sem resultado, Hyoga começou a bater à porta do apartamento de Ikki, com algum desespero. Mesmo que estivesse dormindo, ele teria acordado, diante da insistência com que o russo o chamava. Mas nada. Nenhum sinal de vida. E a preocupação do rapaz loiro ia crescendo. Ikki não estava em lugar algum; como era possível?

- Calma, Hyoga. Também não é assim. Ele está em algum lugar, claro. – disse o loiro para si mesmo, tentando se acalmar.

"Mas onde?", pensava ele. Devido aos últimos acontecimentos, não havia tantos lugares em que o moreno poderia estar. De qualquer jeito, Hyoga não teria como adivinhar onde ele se encontrava. E o fato é que o único lugar em que o cavaleiro de Cisne poderia ter a certeza de que Ikki apareceria, cedo ou tarde, era o hospital. Inclusive, havia uma grande chance de Ikki estar lá, nesse momento. Claro; eles poderiam ter se desencontrado! Que ridículo, Hyoga não devia mesmo ter deixado o hospital. O que ele estava pensando quando decidiu, impulsivamente, ir até lá? E se Ikki estivesse em seu apartamento? Quando abrisse a porta, o que Hyoga lhe diria? Que fora até ali porque estava preocupado com ele? Que estava apreensivo em saber se o moreno estava bem ou não por conta de um sonho que tivera? De fato, era melhor não ter encontrado Ikki agora. Já estava na hora de colocar os pensamentos em ordem. Camus sempre lhe dissera para não se deixar levar pelos sentimentos e agora via claramente o motivo disso. Agir de forma emotiva muitas vezes nos leva a fazer coisas ridículas, além de nos fazer perder tempo. É, era hora de mudar de atitude. Hyoga precisava esquecer essas estranhas sensações, que, em verdade, não lhe diziam nada. Agora, seria mais racional. E, racionalmente, o que tinha de fazer agora era voltar ao hospital. Lá, esperaria que o cavaleiro de Fênix aparecesse – porque, certamente, ele retornaria. Aliás, por que Ikki não haveria de estar bem? Era Ikki, oras. Ele sempre estava bem. Ele nunca precisaria da ajuda de Hyoga. "Então por que esse maldita sensação de que há algo errado não vai embora?" Respirou fundo. "Não. Chega disso. Não posso me deixar dominar pelo que sinto. A verdade é que isso nunca vai me levar a lugar algum."

Tendo concluído isso, deixou o prédio e pegou um táxi para regressar ao hospital.


- Senhorita Saori. Está aqui há muito tempo? – perguntou o cavaleiro de Aquário, estendendo a mão para a garota que estava sentada em uma cadeira na sala de espera.

- Olá, Camus. – disse a moça, aceitando o cumprimento – Na verdade, não. Acabamos de chegar. – e com os olhos, apontou para Seiya e Shiryu, que se aproximavam deles.

- Camus, Milo... Isaac. – disse Shiryu, cumprimentando-os com um aceno de cabeça. – Chegaram agora também?

- Sim. Hyoga está aqui com vocês? – apressou-se em perguntar Isaac.

- Eu ia perguntar a mesma coisa a vocês, já que não há nem sinal dele por aqui. – falou Seiya.

- Então, Hyoga não está aqui? – perguntou Milo, visivelmente tenso.

- Bem, não agora. Segundo uma enfermeira, ele esteve aqui mais cedo, visitou Shun em seu quarto, mas logo depois partiu. – respondeu Shiryu.

- Mas então ele não passou a noite aqui? – indagou a jovem de cabelos lilases.

- Não; conseguimos convencê-lo a ir para o hotel conosco ontem à noite. – disse Camus, com uma seriedade grave, o que denotava sua imensa preocupação.

- Então, aquela enfermeira falou a verdade. Não ficou ninguém aqui no hospital com o Shun. – falou Seiya.

- Como assim? – perguntou Isaac, já bastante nervoso.

- A enfermeira que nos informou a respeito de Hyoga também nos disse que não havia nenhum parente ou amigo acompanhando Shun essa noite. Isso significa que Ikki também não ficou aqui.

- Que estranho! – falou Saori – Ikki fez tanta questão de ficar ontem... Você sabe o que aconteceu para ele ter ido embora, Camus? – perguntou a moça, que realmente não fazia idéia do que estava acontecendo.

- Não. – respondeu o aquariano, com sinceridade. E nesse momento, Milo passou alguns dedos pelo queixo, em atitude pensativa... "Será que...?"

- Bom, seja lá para onde cada um deles foi, imagino que o motivo tenha sido o acidente de Shun. Os dois estavam muito preocupados ontem... – argumentou o cavaleiro de Pégasus.

Isaac escutava com indiferença as palavras de Seiya. Isso porque o ex-marina acreditava, assim como Milo, que o sumiço dos dois cavaleiros de Athena tinha muito mais a ver um com o outro do que propriamente com o acidente de Shun. E isso inquietava o jovem finlandês, pois só de pensar que Hyoga poderia estar com Ikki nesse momento, ele sentia um intenso ódio tomar conta do seu ser...

E, de repente, uma voz conhecida por todos irrompeu no ambiente:

- Que caras são essas? Aconteceu algo com o Shun? – perguntou Hyoga, ao chegar à sala e perceber o clima tenso que pairava no ar.

- Hyoga! Ainda bem que voltou! Estávamos ficando preocupados, garoto. – disse Milo, indo até o russo, para dar-lhe um abraço.

- Não se preocupe, Hyoga. Shun está bem; inclusive os médicos estão até satisfeitos com a recuperação dele, que vem acontecendo mais rápido do que eles esperavam. – respondeu Shiryu.

- Nós estávamos preocupados com você e Ikki, porque os dois tinham sumido... – complementou Seiya.

- Ikki não está aqui? – a voz de Hyoga demonstrava alguma ansiedade que ele não pôde ocultar.

- Não... e ninguém sabe dizer onde ele está, pelo visto. – falou o Dragão.

- Mas... Como é possível? O irmão dele está internado aqui e ele simplesmente desaparece? – o nervosismo de Hyoga era crescente e já era percebido por todos na sala – Ele tinha dito que ficaria aqui! Então ele tinha que estar aqui!

- Hyoga... – falou Camus, colocando uma mão sobre o ombro do rapaz – Ikki é uma pessoa muito emotiva, que não sabe lidar com seus sentimentos. Por isso, às vezes, ele age sem pensar nas conseqüências de suas atitudes. Ele certamente estava sofrendo muito por ver o irmão nesse estado, mas em vez de agir racionalmente e procurar ajuda ou algo do tipo, preferiu resolver as coisas ao seu modo, buscando sabe-se lá o que para afastar-se da dor. Mas, como é de seu feitio, sequer pensou na preocupação daqueles que ficariam sem saber de seu paradeiro. – disse Camus, com a frieza que lhe era característica.

O rapaz loiro encarou o mestre com raiva. O que ele disse a respeito de Ikki não estava completamente errado, mas a forma como ele disse incomodou bastante o cavaleiro de Cisne. Camus falava com uma indiferença tão grande que parecia não se importar nem um pouco com o que poderia estar acontecendo com Ikki. E, em seu peito, aquela sensação de que algo não estava certo apertava-lhe o coração ainda mais; estava até difícil de respirar. Hyoga agora tinha certeza: Algo havia acontecido ao cavaleiro de Fênix. E ele necessitava de sua ajuda principalmente porque, pelo visto, o russo era o único verdadeiramente preocupado com ele.

Deu as costas a todos que estavam ali, demonstrando que sairia novamente, quando Isaac perguntou, afobado:

- Aonde você vai?

- Atrás de Ikki. Ele pode estar com algum problema.

- Mesmo que ele esteja envolvido com algum problema, isso não diz respeito a você, Hyoga. – replicou Camus.

- E daí? Se eu puder ajudá-lo, eu vou fazê-lo. – respondeu Hyoga, de um modo tão insolente que os outros se assustaram ao vê-lo falando assim com o cavaleiro de Aquário.

- Daí que eu não quero ver você envolvido com problemas de pessoas como o cavaleiro de Fênix. Pessoas emocionalmente instáveis só prejudicam os outros.

- Pessoas como o cavaleiro de Fênix? – Hyoga soltou um suspiro cansado – Bem, mestre... eu sinto muito em dizer, mas a verdade é que eu sou uma dessas pessoas "emocionalmente instáveis"... – e recomeçou a andar.

- Hyoga! – falou Camus, em voz alta – Hyoga, volte aqui! Você não é como ele; você é como eu!

Ao ouvir as últimas palavras de Camus, o russo parou onde estava. Olhou de soslaio para o aquariano e disse:

- Não, mestre... Infelizmente, eu não possuo essa capacidade que você tem de menosprezar os sentimentos dos outros... e os seus próprios. – e, com essas palavras, partiu dali.

Todos que permaneceram na sala ficaram estáticos, sem ter o que dizer. Isaac foi o primeiro a raciocinar e, ao dar-se conta de que Hyoga estava indo atrás do Fênix, correu atrás dele. Precisava impedi-lo; do contrário, seus planos fracassariam.

Na sala de espera, o silêncio era tão pesado que se poderia cortar com uma faca. Entretanto, foi a voz de Milo que cortou o silêncio:

- Camus. Precisamos conversar. – disse o escorpiano, aparentando uma seriedade que não lhe era comum.

- Ahn... nós vamos para o quarto de Shun. Nos informaram que ele já pode receber visitas. – disse Saori, percebendo que o assunto a ser tratado pelos cavaleiros de ouro era particular.

Assim que os três deixaram aquele recinto e entraram no elevador que os levaria para o andar em que estava Shun, Seiya soltou um suspiro de alívio:

- Puxa! Que situação constrangedora! O que será que deu no Hyoga, hein?

- Ora, Seiya... – disse Saori, com naturalidade – Hyoga está muito nervoso com tudo o que vem acontecendo. Ele pode até não ter passado a noite no hospital, mas acredito que ele não conseguiu dormir direito, pensando no estado de Shun. Afinal, Shun e Hyoga são muito amigos. Ele deve estar muito preocupado com o que vai suceder, se Shun vai se recuperar bem... Sem contar que é possível que Hyoga ainda esteja se culpando por esse acidente. Juntando isso ao estresse pelo qual ele já vinha passando, não é de se admirar que esteja um pouco descontrolado.

Seiya escutou os motivos apresentados por Saori e, apesar de não concordar inteiramente com o que ela dizia, preferiu ficar quieto, até porque não tinha nenhuma outra justificativa para o estranho comportamento do cavaleiro de Cisne.

Shiryu, entretanto, estava envolvido com seus próprios pensamentos. Tinha escutado a argumentação de Saori, mas também não concordava com ela. Porém, diferentemente de Seiya, ele tinha uma idéia do que poderia estar ocorrendo. E essa idéia tinha como base o fato de que, durante todo o momento em que Hyoga se demonstrara nervoso e estressado, o único nome por ele mencionado fora o de Ikki, não o de Shun...


- Hyoga! Espera!

O russo olhou para trás e percebeu que o amigo vinha atrás dele. Nem esperou que este o alcançasse; começou a falar sem diminuir o passo:

- Isaac, volte lá para dentro, está bem? Eu não preciso de nenhuma babá; estou cansado de as pessoas tentarem decidir minha vida por mim.

- Ninguém quer impedi-lo de viver sua vida, Hyoga! – disse Isaac, colocando a mão sobre o ombro do loiro, de modo que este se viu obrigado a parar – Camus se preocupa com você; é só isso.

- Camus poderia se preocupar sem querer impôr o que ele pensa. – disse Hyoga, enfadado e impaciente. Não queria conversar; precisava ir atrás de Ikki.

- Ele não está impondo nada. Mas quando Camus percebe que estamos fazendo uma grande besteira, é obrigação dele, como nosso mestre, alertar-nos e fazer o possível para nos impedir de cometer um erro.

- Desde quando você defende Camus dessa forma, Isaac? Pelo que me lembro, depois de se tornar um marina de Poseidon, você sequer reconhecia Camus como seu mestre.

- Não fale isso, Hyoga. Sempre respeitei a Camus.

- Sim; mas você já não o considerava mais seu mestre. E agora fica falando dele como se ainda fosse seu pupilo.

- As pessoas mudam, Hyoga! Caramba, qual o seu problema? O que te deu para ficar tão agressivo e atacar todo mundo que só quer te ajudar?

- Eu não preciso da ajuda de ninguém! Na verdade, a única pessoa que está precisando de ajuda agora é o Ikki e ninguém parece disposto a ajudá-lo! Acho que isso é motivo suficiente para eu me zangar, não acha?

- Não, eu não acho! Aliás, de onde você tirou esse negócio de que ele está precisando de ajuda?

- Eu... eu não sei. – disse Hyoga, baixando um pouco o tom de voz – Mas... sinto que ele está precisando de mim.

- Você... sente? Hyoga, olha só... Camus tem toda razão quando diz que você precisa ser mais racional. Não percebe que o que está falando é ridículo? Você está nervoso porque ninguém está preocupado com ele, mas não entende que a verdade é que não há motivos para alguém se preocupar! E a única coisa que te leva a pensar o contrário é algo que você está sentindo? Por favor, pense no absurdo que está dizendo!

- Olha, Isaac... Eu não preciso que você me entenda, está bem? Agora, me deixa em paz. – e começou a se retirar novamente.

- Que engraçado, Hyoga! Tanta preocupação com o Amamiya mais velho enquanto o mais novo está numa cama de hospital por sua culpa! – disse o finlandês, com a voz amarga. Isaac não gostava que o deixassem falando sozinho. E já estava começando a se cansar desse jogo. Estava na hora de usar cartas mais pesadas. Não permitiria que Hyoga o deixasse para trás. Não de novo.

O loiro deu dois passos e parou. O ex-marina sabia como atingir o jovem russo.

- Aliás, essa parece ser sua grande habilidade. Você encanta as pessoas, nos faz acreditar em falsas promessas de amor e depois... nos abandona sem qualquer remorso.

- Eu... eu nunca fiz promessas de amor para você Isaac. E nem para Shun. – Hyoga falava, com a voz trêmula, de costas para o rapaz de cabelos esverdeados.

- Ah, mas promessas de amor não são feitas apenas com palavras... E você me iludiu, Hyoga. Você me iludiu e sabe muito bem disso, porque agiu consciente do que estava fazendo. Não tente me enganar... não tente se enganar. Você me usou enquanto eu lhe servia de algo. E fez o mesmo com Shun. – Isaac ia falando pausadamente, e cada palavra sua parecia cravar um espinho no dolorido coração de Hyoga. O finlandês sabia perfeitamente como manipular as feridas que insistiam em não cicatrizar no peito do cavaleiro de Cisne – Tanto eu quanto o Andrômeda quase perdemos a vida para salvar você, Hyoga... E é assim que nos retribui?

O rapaz russo permanecia imóvel, sem dizer uma palavra, e ainda de costas para o ex-marina, que continuava falando:

- Eu teria dado minha vida de bom grado, Hyoga... Eu morreria por você... Porque meu amor por você é maior do que pode imaginar. Creio que o jovem Andrômeda sente algo parecido... Mas é comigo que você tem que ficar.

Finalmente, Hyoga virou-se para Isaac. Seus olhos estavam um pouco úmidos, como Isaac imaginava que estariam.

- Espera um pouco... – disse o rapaz, com os olhos azuis ainda mais reluzentes devido às lágrimas – Você tinha dito que... que havia deixado nossa história para trás, Isaac. Você disse que queria que tudo voltasse a ser como era antes...

- E eu não menti. Desejo que tudo volte a ser como na época em éramos apenas eu e você. Tudo era mais simples naquela época... e éramos tão felizes juntos... Não sente saudades?

- Isaac, eu não quero ter essa conversa de novo. É melhor pararmos por aqui, senão...

- Senão... o quê? – e a voz de Isaac ganhou um tom mais ameaçador – Hyoga, será que não percebe que do jeito que as coisas estão caminhando, você só vai ferir mais pessoas? É isso que quer? Porque você é uma pessoa egoísta que só se interessa em usar quem está ao seu redor. Mas eu não me importo que seja assim, eu amo você de qualquer jeito! Então, pare de destruir vidas alheias e fique comigo, apenas comigo, Hyoga! – e Isaac encarou os olhos do russo, que demonstravam algum assombro – Eu farei todas as suas vontades; você pode me usar para alimentar seu ego! Deixe os outros em paz e fique só comigo... – e, dizendo isso, Isaac abraçou o Cisne de forma possessiva – Ficar comigo é o único meio de você não arruinar outras vidas, meu amor... E acredite, você é capaz disso... Por você, já estive disposto a morrer, perdi um de meus olhos... Por você, já cheguei perto de enlouquecer e tive vontade de me matar... – e acariciava os cabelos loiros do outro com sofreguidão – Agora, já imaginou como Shun se sentirá se você trocá-lo para ficar justamente com o... irmão dele? Ele até pode aceitar que você não o ama, mas vê-lo com Ikki acabará com ele... E como o rapaz está debilitado, é capaz de morrer por sua causa. O garoto é muito frágil e você sabe que isso pode mesmo acontecer. Então... você aguentaria carregar essa culpa pela morte do jovem Andrômeda, Hyoga? Aguentaria saber que foi o responsável pela morte de mais uma pessoa que amava você...?

Nesse momento, uma cena relampejou na mente de Hyoga, como se fosse um flashback... Porém, essa cena se passava em uma cafeteria que, ele tinha certeza, nunca estivera antes. E, nessa imagem que lhe veio à mente, ele estava acompanhado de ninguém menos que... Ikki.


Início do Flashback

- Ikki, eu fui responsável pela morte de pessoas que só queriam meu bem. Por minha causa, minha mãe, meu mestre e meu amigo de infância morreram, sendo que esses dois últimos foram mortos pelas minhas próprias mãos. – Hyoga falava com alguma dificuldade, como se lhe custasse revelar esses sentimentos. Sua voz saía baixa, num tom melancólico, enquanto continuava olhando a paisagem lá fora.

- Olha, Hyoga... você não pode querer carregar toda essa culpa sozinho. As pessoas são responsáveis pelos seus próprios destinos... cada um deles agiu de alguma forma, teve alguma atitude, que levou àquele final. Você não é tão poderoso a ponto de determinar o término da vida de uma pessoa sozinho. Há uma série de eventos e atitudes que não couberam a você decidir. Você foi apenas um elemento dentro de um quadro muito maior...

Fim do Flashback


Hyoga piscou os olhos algumas vezes, como se esse gesto o ajudasse a entender de onde havia tirado isso. Não podia chamar de recordação, pois não era a lembrança de algo que tinha vivido; disso ele tinha certeza. Contudo, essas imagens eram tão reais, tão concretas... E essas palavras de Ikki foram capazes de trazer uma incrível sensação de alívio e paz de espírito que deixaram o jovem russo um pouco confuso. Afinal, de algum modo, ele sabia que essa sensação agradável que tomava conta de seu atormentado corpo era proveniente não apenas dessa única fala do moreno. Era como se essa cena representasse um momento muito maior do que esse que lhe veio à mente e tudo o que ele estava sentindo agora fosse o resultado de uma situação vivida por Hyoga, a qual rendeu a ele os bons frutos de uma conversa que ele internalizou e que, agora, inconscientemente, surgia como um escudo para defendê-lo das acusações injustas que Isaac proferia.

E foi então que se lembrou: Seu sonho! Essa conversa, essas imagens fizeram parte do estranho sonho sem sentido que ele tivera naquela noite! E ele não entendia como nem por quê, mas esse sonho trouxe a ele a resposta de que necessitava naquele momento:

- Não, Isaac... – disse o russo, afastando-se daquele abraço sufocante – Eu não vou mais carregar a culpa pela morte de ninguém. Isso porque não sou eu o responsável pelo destino dos outros. Não posso determinar sozinho o que vai ser da vida de alguém. Se Shun tiver dificuldades em aceitar minha decisão, farei tudo que puder para auxiliá-lo a compreender meus motivos... mas viver bem ou mal diante disso será uma escolha dele. Se tiver que ajudá-lo, eu o farei, contanto que isso não me impeça de traçar o destino que escolhi para a minha vida. Não posso abrir mão da minha felicidade. E... eu nunca seria feliz ao seu lado, Isaac. Você precisa entender isso.

Isaac não conseguia compreender o que havia se passado. Antigamente, o efeito das palavras por ele utilizadas teria um efeito devastador sobre Hyoga. Normalmente, depois de ouvir tudo o que Isaac lhe dissera, Hyoga ficaria tão arrasado que, ao finlandês, caberia apenas recolher o que sobrasse do jovem russo e, aproveitando-se da fragilidade e vulnerabilidade em que provavelmente o outro se encontraria, tiraria proveito da situação para fazer de Hyoga seu, inteiramente seu, de uma vez por todas. E agora, ao contrário do esperado, Hyoga parecia ter encontrado forças para se reerguer! Como era possível? O que estava acontecendo com ele?

- E... obrigado por me ajudar a entender o que estava sentindo. Eu sabia que tinha de seguir meus sentimentos, mas eles estavam muito confusos para mim. – falou Hyoga, afastando-se a passos rápidos de Isaac.

- Do... do que está falando? – perguntou Isaac, ainda atordoado.

- Eu quero... Eu realmente quero... ficar com o Ikki. – e sorriu para si mesmo, como se ao pronunciar aquelas palavras, tivesse acabado de descobrir seus reais sentimentos – Céus, como faz bem admitir algo que eu já sentia há tanto tempo! E o mais incrível é que eu nem sei se ele quer o mesmo, assim como não sei se isso é o ideal, mas... eu simplesmente sinto que devo ir atrás dele. E eu devo ir agora! – dito isso, saiu apressadamente ali, sem rumo definido. Estava apenas seguindo seu coração.

Isaac, por sua vez, suspirou incrédulo. Ainda não conseguia entender... algo ou alguém libertara Hyoga da culpa que este sempre arrastou consigo. Mas como isso foi acontecer? Ele sabia que Ikki tinha algo a ver com essa história. De toda forma, isso não ficaria assim. Se Hyoga pensava que se livraria dele assim tão fácil, estava muito enganado... E, mergulhado em pensamentos obscuros, seguiu seu próprio caminho, no sentido oposto ao que Hyoga havia tomado.

O que nenhum dos dois pupilos de Camus havia percebido é que toda a sua conversa havia sido testemunhada por mais alguém:

- Isso não vai acabar bem. Preciso fazer alguma coisa... – disse Shiryu, para si mesmo, antes de dar meia-volta para regressar ao quarto de Shun.


Enquanto isso, na sala de espera, Camus e Milo olhavam-se, em silêncio, em uma espécie de duelo mudo, no qual se aguardava para ver quem iniciaria a inevitável discussão. Finalmente, a voz de Milo se fez ouvir naquela sala:

- Camus... Você está passando dos limites com Hyoga. – disse o Escorpião, encarando firmemente os olhos do aquariano, que permaneceu em silêncio.

- Ontem, quando surpreendemos o beijo entre ele e Shun no apartamento que compramos para o Hyoga... Bom... eu percebi que o garoto não gostou nem um pouco do ocorrido. E o senhor, em vez de dar a ele um espaço para processar o que tinha acontecido, obrigou-o a ter uma conversa com você sobre o que ele deveria ou não fazer a respeito disso tudo?

- Eu não estava me intrometendo, Milo. – disse Camus, finalmente – Eu o estava aconselhando sobre o que achava ser melhor para ele.

- Exato! Sobre o que você acha que é melhor para ele. Não necessariamente o que você acha é o que ele quer.

- Hyoga é muito ingênuo em relação a muitas coisas, Milo. Você sabe disso.

- Mas não é incapaz de saber o que ele quer.

- Se o que ele quer pode ser prejudicial a ele, devo evitar que ele cometa alguma besteira.

- Que tipo de besteira, Camus? Ser feliz, por exemplo? – disse Milo, já irritado e usando de ironia, pois sabia que isso incomodava ao aquariano.

- Como assim, "ser feliz"? Acha que estou impedindo o Hyoga de ser feliz? – perguntou Camus, sentindo-se verdadeiramente ofendido.

- Claro! Camus, você reprova tudo o que Hyoga é, reprova sua natureza sensível, reprova as pessoas com quem ele quer se relacionar...

- Hyoga pode se relacionar com quem ele quiser, contanto que evite as más companhias.

- Caramba, francês! Tem horas que não sei como você consegue ser tão cego! Será que não percebe que o Hyoga não é mais criança?

- ...

- E tem mais uma coisa... não sei por que implica tanto com o Fênix. Aliás, não sei por que insiste em chamá-lo de má companhia. É por causa do que ele fez no passado? Ele já não pagou por todos os seus pecados, Camus? Já não sofreu o suficiente na vida? Por que insiste em recriminá-lo por seu passado?...

- Porque Ikki não é uma pessoa de confiança. Certamente, não deve ser má pessoa, afinal ele é um cavaleiro de Athena... No entanto, ele não é alguém que gostaria de ter sempre por perto. O Fênix é muito instável. Não sabe controlar suas emoções e já virou uma vítima delas. Sei que muitos têm pena do cavaleiro de Fênix devido ao seu passado, mas eu não sou uma dessas pessoas. Entenda, Milo... todos nós colhemos o que plantamos. Se Ikki tivesse sabido controlar suas emoções, teria evitado muitos transtornos e sofrimentos alheios. Se a garota Esmeralda morreu, foi porque ele não soube canalizar seus sentimentos da forma que melhor lhe aprouvesse. E, com a morte da jovem, o rapaz foi novamente dominado por seus sentimentos, deixando-se tomar por uma raiva que o cegou, trazendo problemas não só a Athena, mas também ao pobre irmão que, ao contrário dele, é uma pessoa na qual se pode confiar plenamente. Enfim... sei que ele se redimiu, mas acredito que ele sempre representará uma ameaça. Afinal, não se pode confiar em alguém que não tenha pleno controle sobre o que sente, ainda mais alguém tão emocionalmente instável como provou ser o cavaleiro de Fênix.

- É muito triste saber que pensa assim, Camus. Porque, pelo visto, o destino foi muito cruel com você ao rodeá-lo de pessoas emocionalmente instáveis. – disse Milo, com amargura.

- Do que está falando?

- Hyoga e eu somos pessoas assim. Vai dizer que não tinha percebido?

- É diferente. Pessoas emocionalmente instáveis destroem vidas ao seu redor. Vocês não são assim.

- Aí é que você se engana. Pessoas como eu, Hyoga e... Ikki somos, de fato, muito emotivos. E, dependendo da situação, podemos agir de um modo sem medir as conseqüências. A questão é que existe, sim, uma possibilidade, por mais remota que seja, de Hyoga ou até mesmo eu cometermos alguma... besteira, como você disse. E, caso isso aconteça algum dia... Será que mereceríamos o seu perdão?

- É claro que sim, Milo. Mas eu poderia perdoá-los porque eu os conheço e sei que estariam verdadeiramente arrependidos. Não é o mesmo caso do Fênix.

- É exatamente o mesmo caso, Camus. – respondeu Milo, a voz demonstrando uma grande tristeza.

- Não, não é. Por que eu não sei se ele está verdadeiramente arrependido de tudo o que fez...

- Por isso mesmo. Você não sabe, você não o conhece de fato... Como pode então julgá-lo dessa maneira tão cruel?

Camus engoliu em seco. Não conseguiu encontrar o que dizer.

- Foi o que pensei. Olha, eu... – disse Milo, levantando-se de sua cadeira - ... Eu vou até o quarto de Shun ver como ele está. – e saiu, deixando o cavaleiro de Aquário perdido em seus próprios pensamentos.


No quarto do luxuoso hotel para onde o Destino o havia levado, Ikki voltara a adormecer. Assim que percebeu que este dormia profundamente, o homem de cabelos de prata fez um movimento com as mãos que deu um fim à ilusão que havia criado. Eles não estavam em um hotel de luxo, mas sim em um galpão abandonado. A ilusão criada pelo Destino tinha um propósito... propósito que ele visava a alcançar ainda hoje, assim que o moreno voltasse a despertar. Tinha planos para ele. O homem, que vestia um sobretudo preto, olhava cuidadosamente para os movimentos involuntários de Ikki enquanto dormia. Estava tão sereno... e parecia estar sonhando. "Com ele, é claro..." disse o Destino em voz baixa.

De repente, o homem de cabelos prateados sentiu um chamado. Isaac o estava invocando. "Mas o que será que ele quer agora?" E, não muito feliz, ele entendeu que precisava ir ao encontro do finlandês. Olhou mais uma vez para Ikki, com a certeza de que ele estava tendo um bom sonho (talvez até bom demais) e, em seguida, desapareceu do local.


Início do Flashback

- Oi, Ikki.

- Hyoga? O que... o que está fazendo aqui? – disse o moreno, realmente surpreso.

- Vim atrás de você. Foi embora da minha festa e nem se despediu de mim. – respondeu o outro que, sem fazer cerimônia, foi entrando no apartamento de Ikki, mesmo sem ser convidado.

- Eu... estava cansado. E você tinha entrado com Camus e Milo na mansão... Aliás, você não deveria estar lá com eles? Quero dizer... eles vieram de tão longe só para o seu aniversário... Não sei se é uma boa idéia que... – falou Ikki, fechando a porta atrás de Hyoga.

- Não. – disse o russo, interrompendo o Fênix – Eu não deveria estar em nenhum outro lugar que não fosse aqui. – e aproximou-se com convicção até ficar muito perto do outro – Não me faça mais perguntas, Ikki... porque eu provavelmente não vou ter a resposta para nenhuma delas. – os olhos azul-turquesa brilhavam como Ikki nunca tinha visto até então – Eu só vim aqui com uma certeza... e preciso que me ajude a confirmá-la... – os lábios entrabertos e convidativos tiraram do moreno o último resquício de razão que ainda o segurava em seu lugar, tentando evitar o que ele julgava ser um erro. "Era um erro, aquilo era um erro", ele repetia para si em pensamento. Mas, embriagado por aquele sentimento, o único pensamento que ainda pôde ter antes de se entregar àquela sensação foi de que "era um erro que poderia dar sentido à sua vida..."

- Ah... Hyoga...– falou o cavaleiro de Fênix, com os olhos cerrados, em meio a um ardoroso beijo – Eu te amo...

Falou sem pensar. Apenas deixou que seus sentimentos escapassem em um suspiro quase involuntário. Seu temor pelo que havia acabado de declarar veio à tona quando sentiu os lábios de Hyoga deixarem os seus, vagarosamente. Suspeitou que aquilo era um chamado de volta à realidade; uma realidade na qual nunca deveria ter dito algo assim.

Lembrou-se de que nessa realidade à qual ele e Hyoga pertenciam, eles não podiam ficar juntos. Não haviam sido feitos para ficarem juntos. Há muito o cavaleiro de Fênix tinha feito uma promessa para si mesmo: Ele não poderia desejar aquilo que não poderia ter. Ele não deveria amar aquilo que ele tinha a capacidade de destruir. Foi o que aconteceu com Esmeralda... uma jovem tão delicada, tão cheia de vida, uma flor que nasceu em um ambiente tão destruído e castigado pela natureza... E, ainda assim, ela conseguira desabrochar. O único pecado cometido pela jovem fora se apaixonar por Ikki. Ele era o responsável pelo término de uma vida que, acreditava ele, era muito mais preciosa que a sua. Esmeralda amava viver, e ele... ele apenas vivia como se este fosse um fardo que ele tivesse de carregar. Porém, decidiu que, se o seu destino era viver, então faria algo de útil com isso: pagaria por todos os seus erros. Jamais se apaixonaria novamente por um anjo, pois ele não queria ser o responsável por tirar da terra mais alguém cuja vida era tão valiosa... E ele sempre acreditou que o anjo que ele tinha de proteger era seu irmão; era essa a forma de quitar sua dívida com a vida.

No entanto, foi com alguma amargura que Ikki descobriu que a sua existência na terra seria ainda mais pesarosa. A vida não estava disposta a simplificar as coisas para ele. E por isso, fez de Hyoga parte de sua realidade. O russo já não era mais um simples companheiro de batalhas. O moreno não sabia como, mas aos poucos o cavaleiro de Cisne foi ganhando espaço em sua vida, até se tornar o centro de sua atenção. E a atenção que o Fênix passou a devotar ao rapaz loiro não era fruto de uma mera atração física – o que, por sinal, era curioso em relação a Ikki, já que ele nunca tinha sentido atração por outros homens antes, mas também... nunca tinha conhecido alguém como Hyoga. O russo possuía uma beleza inegável, capaz de enfeitiçar qualquer um.

Ao mesmo tempo em que ele conseguia ser incrivelmente sedutor, enlouquecendo até o mais puro dos homens, ele também inspirava um ar angelical que o colocava em um pedestal, como se o Cisne fosse um ser que devesse permanecer intocável, existindo apenas para a admiração de pessoas como Ikki. E era exatamente isso que o Fênix fazia dia e noite, apesar de não querer se dar conta desse fato. Adorava aquele homem à distância, pois seria muita ousadia da sua parte sonhar em ter qualquer coisa com aquele anjo... Afinal, esse era seu castigo, sua auto-punição... Existiam anjos sobre a terra; mas não foram feitos para alguém como ele. E mesmo que esses anjos fossem incrivelmente irresistíveis... ele deveria ser forte e saber onde era seu lugar.

Por causa de Hyoga é que Ikki evitava passar tanto tempo na mansão. Por causa dele é que viajava tanto. E tentava convencer-se de que quando regressava, era por causa de seu irmão... e apesar disso ser, em parte, verdade, lá no fundo, mesmo que Ikki não reconhecesse, ele sempre ansiava por rever Hyoga e aqueles olhos cor-de-céu que o hipnotizavam. De toda forma, o cavaleiro de Fênix não admitia para si mesmo que Hyoga já fazia parte de seu mundo e, inconscientemente, tentou afastar-se de Hyoga, tentou afastar-se dessa tentação, mas o máximo que conseguira foi se sentir ainda mais atraído pelo russo.

Começou tratando-o mal, sendo tão grosseiro quanto possível com ele... talvez, em seu subconsciente, esperava que agindo assim, o próprio Hyoga se distanciasse dele. Contudo, aquele homem de aparência tão angelical era tão orgulhoso e arrogante quanto ele próprio. Isso fez com que discutissem, brigassem, se desentendessem sempre. Hyoga conseguia tirá-lo do sério de maneiras que nem ele compreendia... e isso, para agravar a situação do solitário Fênix, antes de irritá-lo, era algo que lhe agradava demasiadamente, embora ele jamais admitisse tal fato para qualquer pessoa, inclusive para si mesmo.

Era uma tarefa árdua e diária, mas que ele sequer se dava conta de que a realizava todos os dias: Convencia-se de que não gostava de Hyoga. De que não se sentia atraído por ele. De que não gostava de travar pequenas discussões com ele a toda hora... E até estava conseguindo ser bem sucedido nesse teatro no qual o maior iludido era ele mesmo. Mas, para complicar ainda mais esse quadro, Ikki acabou tendo a chance de conhecer Hyoga mais a fundo por intermédio do irmão... Por serem muito amigos, Shun conversava muito com Hyoga e, por vezes, relatava essas conversas para seu irmão. Foi assim que Ikki começou a conhecer, mais a fundo, o lado sensível de Hyoga, do qual todos tinham conhecimento, mas que, pelo visto, não conheciam verdadeiramente.

E foi dessa forma que o moreno passou a olhar, mesmo que sem querer, mais atentamente para Hyoga e pôde descobrir algumas delicadezas em sua personalidade que nunca tinha percebido. Muitas vezes, flagrava o russo sozinho no jardim, lendo um livro e com uma lágrima furtiva nos olhos ou um sorriso delicado por conta da história lida. Outras vezes, via o brilho naqueles olhos tão cintilantes ao apreciar um pôr-do-sol... E assim, sem perceber, sempre que via Hyoga retirar-se para o jardim da mansão – o lugar preferido de Hyoga, conforme o moreno pôde perceber – Ikki ia atrás, tomando o cuidado de não ser visto, para alimentar uma paixão que ele não queria enxergar, mas que a cada dia o dominava mais. E, apesar de seus sentimentos serem óbvios pelo jovem russo, Ikki negava energicamente o que sentia. Ele não poderia amá-lo. Não só pelo fato de sentir-se indigno desse amor, mas porque seu irmão partilhava do mesmo sentimento pelo Cisne. E Shun era muito mais merecedor do amor de Hyoga, sem dúvidas. Por conta disso é que Ikki nunca pôde admitir, para si mesmo, o que, de fato, sentia pelo cavaleiro de gelo.

Desde o primeiro instante em que tomou alguma consciência de que estava sentindo algo a mais por Hyoga, tratou de calar todos os possíveis sentimentos que poderiam nascer a partir dali. O fantasma da morte de Esmeralda o rondava constantemente e a idéia de que ele não merecia amar era algo que já estava inerente à sua pessoa. Todas as suas ações já eram direcionadas – embora nem ele percebesse isso – para evitar o amor. Por isso, todos esses sentimentos, angústias, ansiedades que Hyoga despertava no cavaleiro de Fênix... nenhum deles sequer chegou a ser conscientemente percebido pelo Amamiya mais velho. Em sua cabeça, criou para si mesmo a simples idéia de que Hyoga era alguém que lhe chamava a atenção mais que os demais por provocá-lo, por bater de frente com tudo o que ele dizia. E todo esse turbilhão de sentimentos contraditórios permaneciam escondidos no seu subconsciente, que era por ele ignorado com maestria. Afinal, ele sempre tivera de mascarar o que sentia, desde criança. Não seria diferente agora.

Assim, Ikki suportava sua existência dia após dia, que constava, basicamente, em acreditar conscientemente que não sentia nada pelo russo, a não ser alguma ojeriza. Mas, em sonhos, permitia-se amá-lo... ainda que não se recordasse disso quando despertava.

O problema é que seus sonhos começaram a crescer fora de controle. Desde aquele momento que eles tiveram na cafeteria, Ikki estava tendo dificuldade de manter seus pensamentos em ordem. Foi a partir daquele momento que tantos sentimentos que ele sempre mantivera enterrados em algum recôndito de sua alma vieram à tona. E vieram todos de uma vez, confundindo o cavaleiro de Fênix. E tudo aconteceu tão rápido... e foi tudo tão avassalador... que, de repente, lá estava ele, declarando-se para Hyoga. Como chegaram àquele ponto? Ele não podia ter permitido que isso acontecesse. Mas agora, estava feito. Admitira que amava Hyoga. E era hora de voltar à realidade e pagar o preço por não ter sabido ignorar esses sentimentos tão bem quanto deveria.

Tomou coragem para abrir os olhos que até então, estavam fechados. Temeu pelo que esperava ver agora, algo como uma expressão de desconforto, desagrado ou qualquer tipo de reprovação da parte de Hyoga...

Mas nada aconteceu como Ikki esperava. O sorriso tímido – que ainda assim era quase indecifrável – de Hyoga, deixou o atraente moreno completamente perdido sem conseguir nem ao menos pensar em qualquer outra reação a não ser assistir passivamente ao que estava por vir.

Sentiu as costas baterem contra a porta que havia acabado de fechar, silenciou-se definitivamente ao ter os lábios tomados pelos do loiro, com ainda mais certeza do que antes, como se agora, o russo estivesse mais seguro sobre o que fora fazer ali.

- Eu também... Eu também. – ele repetia, enquanto suas mãos se prendiam aos cabelos revoltos e seguravam o Fênix pela nuca, puxando-o e aprofundando ainda mais o beijo.

À medida que seu corpo era cada vez mais imprensado contra a porta, Ikki sentia que, finalmente, tudo parecia estar em seu devido lugar. Quase que debilmente buscava trancar aquela porta, procurando a chave com a mão esquerda sem conseguir encontrá-la, enquanto a direita abraçava o russo com toda a força que podia.

Hyoga estava mais impaciente; sem interromper o beijo puxou o moreno para o outro lado pela gola da camiseta e depois trancou a porta ele mesmo. Agora, virado de frente para o restante do apartamento, que era pequeno e sem muita coisa, típico de um solteiro como Ikki, podia enxergar perfeitamente onde estava, e o lugar para onde desejava ir.

Ikki seguiu caminhando de costas, sendo guiado pelo loiro que praticamente o empurrava com o corpo enquanto desabotoava a própria camisa. Seu coração galopava como se fosse explodir, e o caminho até a cama parecia mais longo que o normal. Como se julgava desmerecedor de tamanha felicidade, esperava despertar a qualquer instante, como já ocorrera outras vezes... Mas, em vez de acordar, teve uma boa prova de que, dessa vez, não estava sonhando. O espalmar das mãos de Hyoga contra seu peito e o ranger da cama após sua queda nela foram suficientes para entender que aquilo tudo... era real.

Apoiou-se nos cotovelos para levantar um pouco; pôde ver o paletó, a camisa, os sapatos de Hyoga espalhados pelo chão e o próprio parado bem à sua frente. Sentou-se e esperou por ele, que não demorou a ir ao seu encontro. Parou para admirá-lo apenas, como sempre o fizera em segredo e muitas vezes sem perceber. O russo era lindo, era elegante em cada movimento, era sedutor mesmo quando não tinha a intenção de ser e agora então, Ikki estava petrificado, perdido a ponto de demorar a escolher seus próprios movimentos.

Para a sua sorte, isso não parecia ser problema para o Cisne que parecia bem seguro do que fazia, não deixando tempo para que o Fênix ao menos raciocinasse. Agora próximos novamente, Ikki tocou delicadamente as mechas loiras da franja de Hyoga, e devagar desceu o toque até a corrente que esse sempre carregava no pescoço; retirou delicadamente aquele rosário, com todo cuidado, depositando-o depois em cima do criado mudo. E nenhum desses pequenos movimentos passaram despercebidos por Hyoga, que tivera certeza, agora mais do que nunca, da natureza gentil de Ikki, que tantas vezes era camuflada.

Gemeu quando o loiro sentou em seu baixo ventre com um joelho para cada lado de seu corpo; sabia que tinha sido proposital. Abraçou-o forte, não estava agüentando aquela distância, queria beijá-lo, abraçá-lo, sentir aquele corpo o mais próximo possível ao seu.

E beijaram-se, de forma cada vez mais sôfrega, mais intensa. O movimentar dos quadris de Hyoga fazia Ikki pensar cada vez menos, e agir cada vez mais, deixando-se apenas guiar por aquele desejo que parecia crescer de maneira infinita, fazendo-o cerrar os olhos e arfar, abraçar o russo cada vez mais forte, querendo cada vez mais. Protestou quando Hyoga interrompeu-o, mesmo que por breves segundos, apenas para tirar-lhe a camiseta.

Ikki não saíra muito bem daquela festa, havia ficado realmente esgotado; tinha chegado em casa e logo se preparara para dormir, sendo assim, estava apenas com um short e uma camiseta velha, que já tinham ido parar num canto qualquer que ele definitivamente não queria nem saber onde. Agora o abraço dos dois era mais cheio de calor, era maior o contato entre as peles que pareciam pedir pela do outro em cada milímetro de sua extensão.

Cada pêlo de seu corpo arrepiava com aquele contato, com a carícia agora leve que o russo lhe fazia nas costas com aquelas mãos tão ásperas e tão calejadas quanto as suas. E não deixava de perceber o físico daquele que estava diante de si, era um corpo típico de um guerreiro, tão trabalhado e tão cicatrizado quando o seu, onde cada cicatriz do corpo ou do rosto, contava uma história. Para Ikki, cada um desses detalhes só tornavam Hyoga ainda mais belo, pois mesmo que Hyoga fosse mais elegante, mais cuidadoso para se vestir; por mais que seus traços parecessem mais delicados, o Fênix nunca se deixou enganar: sempre soube reconhecer um homem tão forte e tão cavaleiro quanto ele.

E beijou aquele corpo, sentiu aquele perfume, voltou a beijar Hyoga na boca, sem pressa, preocupado apenas em usufruir daquele hálito tão morno e a maciez daqueles lábios, agora vermelhos. Percorreu com as mãos todo o trajeto do peito alvo até o umbigo, e continuou até parar exatamente no limite exercido pelo restante das roupas que o loiro usava.

Ikki desafivelou o cinto e abriu o zíper da calça de Hyoga, que finalmente deixou escapar um gemido mais alto quando o moreno lhe tocou de uma maneira tão íntima. O Fênix se deliciava ao ver cada reação do russo que mostrava que ele estava gostando da forma como era tocado, amando cada coisa no amante, o jeito como ele jogava o cabelo, a forma como ele continuava a se mexer em seu colo para provocá-lo... Aquilo já era bom o suficiente para que Ikki acreditasse que poderia continuar daquele jeito até o final; ele só não esperava que Hyoga fosse tão... tão...

- Espera! – Disse o loiro.

E Ikki sentiu novamente ser empurrado para trás, dessa vez recebendo todo o peso de Hyoga por cima.

- Assim a gente termina antes da hora. – Devido aos beijos que trocavam e a ânsia por saciar de uma vez todo aquele desejo que os consumia, Ikki entendeu perfeitamente sobre o que o outro estava falando, mas deixou escapar um receio:

- Mas... Justo hoje, assim? Digo, pode ser que machuque... não?

Nesse instante, o rosto de Hyoga se iluminou com um sorriso divertido. Ora, não seria muita surpresa descobrir que Ikki nunca havia estado com outro homem antes. Mas preferiu não falar nada, embora não conseguisse deixar de achar certa graça naquela situação – Não, pode ficar tranqüilo, não machuca, não.

- E você parece entender muito do assunto, hein?

- Talvez sim, talvez não. – continuava achando graça.

- Hn, eu desisto... Europeus... – e realmente desistiu, beijou Hyoga e decidiu esperar para ver no que ia dar.

- Puritano. – Rebateu o russo, antes de corresponder ao beijo que recebia, pronto para voltar de onde tinham parado.

Agora foi Ikki quem mais achou graça; puritano, ele? Antes fosse.

- Se você quiser, eu posso te mostrar. – propôs Hyoga.

Não formulou uma resposta com palavras, mas Hyoga já sabia qual era. O russo tinha a permissão de se encaixar como quisesse no corpo do moreno, que não estava tenso ou incerto, pelo contrário, parecia bastante relaxado... Assim deixou que sua última peça de roupa fosse retirada sem nenhuma resistência.

Aninharam-se ali, um por cima do outro na troca de beijos e carícias sem nenhuma pressa, que ora eram ternas e delicadas, ora se tornavam mais ávidas e mais ardentes, sempre arrancando os suspiros que soavam de forma doce aos ouvidos um do outro.

Um beijo mais molhado que o habitual vindo de Hyoga, e Ikki prestou atenção a cada detalhe; viu com que sensualidade o russo levou os próprios dedos até a boca para logo após molhá-los com saliva. O moreno aguardou e fechou os olhos; nesse momento, o loiro também desviou o olhar, encaixando o rosto contra o seu pescoço, e sentindo a respiração quente e pesada contra sua pele. Mordeu os lábios para evitar que fizesse qualquer barulho ao sentir o deslizar suave dos dedos de Hyoga, que se dirigiam para aquele local ainda intocado. Mordeu ainda com mais força à medida que era invadido por eles, mais por tensão, afinal Hyoga tinha razão, até agora não havia qualquer dor – pelo menos, não uma dor que conseguisse se sobrepor ao prazer que começava a sentir. E, dependendo da forma como era tocado, era tão bom que lhe faltava até ar.

Hyoga retirou os dedos de dentro de Ikki, porque nenhum dos dois agüentava esperar mais; apoiou a mão direita no colchão ao lado da cabeça do moreno e ergueu um pouco o tronco para enxergar melhor o outro, pois queria estar atento para apreciar cada reação de Ikki. Sem pressa, começou a penetrá-lo aos poucos, devagar, e no que ia avançando, seus gemidos iam aumentando juntos, longamente. Finalmente uniram-se, de uma só vez. Começaram a mover seus corpos de forma ritmada, primeiro lentamente, aproveitando aquele momento único de descobertas sobre o corpo um do outro, para ir aumentando o ritmo aos poucos.

Ikki retribuía a cada carícia na medida do possível; mordia, chupava a pele suada do russo descobrindo como ela marcava fácil. Surpreendeu-se com o próprio cansaço mesmo sendo o passivo, e não sabia dizer quais daquelas tantas novidades era a melhor; arfava à medida que era penetrado e que tinha seu sexo massageado pelas mãos firmes do Cisne, que agora parecia ter mais pressa, mais ânsia para que ambos chegassem logo ao orgasmo.

E chegaram, juntos. De uma forma tão longa, natural com uma tranqüilidade incompatível com a ansiedade que tomava conta de ambos até pouco tempo atrás. Abraçaram-se forte, sentiram os espasmos um do outro, aninharam-se assim mesmo, por um bom tempo enquanto esperavam suas respirações voltarem ao normal.

Deitado em meio a todos aqueles lençóis desfeitos, esgotado, suado, dentre outras coisas... Ikki não conseguia deixar de olhar somente para aquela pessoa que agora tinha deitada ao seu lado.

- O que aconteceu aqui? – perguntou o moreno, perdido nos beijos que até agora não tinha parado de receber de Hyoga.

O loiro sorriu: – Tudo começou quando eu vim até aqui, achando que ia dar com a minha cara na porta, mas então você disse que me amava, e... bom, acho que foi isso. – Continuou beijando o rosto, o pescoço, a boca e tudo o que podia no Fênix, como se não conseguisse desgrudar do moreno.

- Ah... acho que estou começando a me lembrar. – brincou Ikki, ainda intrigado com o fato de o amante demonstrar tão poucos sinais de cansaço. Não demorou até que tivesse uma grande surpresa ao perceber a ereção do loiro novamente roçar em sua coxa direita. – Ei... já? Não quer esperar mais um pouco, não? – perguntou divertido.

- Não. – foi a resposta de Hyoga antes de montar no corpo do moreno, beijando-o de forma ávida. – O tempo é curto e o atraso é grande.- e deu prosseguimento ao que fazia, beijando o queixo, o pescoço... Chegando até o peito bronzeado, deu-se o direito a uma mordida, e sorriu com a expressão de dor do Fênix. Este, por sua vez, novamente desistiu, tinha gostado desse jogo, no qual tinha de esperar para ver o que Hyoga aprontaria.

A excitação que voltava a tomar conta de seu corpo era denunciada a cada um dos suspiros que dava quando o toque de Hyoga se tornava mais ousado, e quando os beijos do russo ultrapassaram a linha do umbigo, Ikki apenas se agarrou às madeixas loiras e deixou que o outro chegasse aonde queria, que lambesse, chupasse, sugasse e fizesse ali o que mais lhe desse na telha; estava bom, tão bom que protestou quando o russo parou... No entanto, sua expressão de desagrado logo foi embora, pois percebeu que estava por vir algo ainda melhor.

Remexeu-se na cama, ansioso. Acariciou as coxas de Hyoga que se prendiam à altura de sua cintura, e viu que ele tinha algo na mão. Ikki lembrava o que era e também prestou bastante atenção no que seria usado; observava maravilhado como o loiro se preparava. Abriu a boca numa espécie de grito mudo quando o russo sentou em sua ereção, deixando-se ser penetrado por ela, e seu desejo por aquilo foi tão forte, que não hesitou em segurá-lo pelos quadris puxando-o para baixo, a vontade era tanta que terminou por sentar-se também, com o amante no colo e penetrando-o por completo.

Agora sim, um leve gemido de dor, que fez Ikki parar e procurar pelos olhos do russo, temendo tê-lo machucado; como resposta teve um sorriso cúmplice, e um beijo de quem diz que está tudo bem. Abraçaram-se enquanto seus corpos novamente se moviam numa busca desesperada pelo alívio de se sentirem completos com o prazer do outro. A ereção de Hyoga que até agora estava abandonada, logo foi envolvida pelas mãos do moreno que passou a massageá-la com vigor. Perdido nos olhos azuis nublados de prazer do amante, Ikki entregou-se ao gozo que chegara tão intenso quanto o outro, recebendo o deleite de Hyoga em sua mão logo em seguida.

Definitivamente esgotados, caíram deitados na cama como se não lhes restasse mais força alguma... olhavam-se com carinho enquanto, em ambos os rostos, um sorriso insistia em ficar estampado.

- Eu te amo... sabia? – sussurrou Hyoga.

- Não; não sabia... – respondeu o moreno, com ternura, enquanto acariciava com delicadeza aquele rosto à sua frente – Mas agora que sei... eu nunca mais vou deixar você...

Fim do Flashback


Hyoga caminhava pelas ruas sem saber para onde ir, apenas com aquela mesma sensação de que ele deveria estar em algum lugar, mas não sabia onde. O loiro estava cada vez mais angustiado e sentia um misto de sentimentos, pois ao mesmo tempo em que havia segurança em seus passos, suas pernas tremiam de ansiedade. Sentia-se bem por finalmente admitir para si mesmo o que sentia por Ikki, mas temia o que isso poderia significar para o outro. Sentia-se ingrato por ter tratado Camus com tamanha rispidez, como acabara de fazer, e sentia-se bem por ter defendido Ikki. Estava bastante confuso; não conseguia entender o que estava acontecendo, o que é que o tinha levado a bater de frente com seu mestre. É verdade que Camus estava sendo muito injusto no modo como julgava Ikki, mas... a forma como Hyoga partiu em defesa do moreno demonstrava muito mais que um sentimento que começava a aparecer... Era como se ele albergasse um amor muito maior do que conseguia cogitar, como se esse sentimento já tivesse criado raízes há muito tempo em seu coração, como se... a história dele com Ikki viesse de um tempo mais distante do que ele era capaz de precisar.

E essa sensação de que existia um sentimento que o ligava a Ikki mais forte do que ele conseguia compreender o fez lembrar-se daquela troca de olhares à porta do hospital na noite passada... Porque foi naquele momento que ele sentira, pela primeira vez, que já havia algo entre ele e o inatingível cavaleiro de Fênix... Aliás, naquele instante, Ikki não parecera inatingível... naquele instante, era como se ele e Ikki descobrissem que eram duas metades que haviam acabado de se encontrar... e que se completavam perfeitamente.

E, concentrando-se nos olhos de Ikki, tal qual ele os vira naquele momento, Hyoga era capaz de sentir um sentimento tão forte que era capaz de uni-los mesmo estando distantes... tanto que, agora, ele conseguia se sentir novamente envolvido por aquela sensação, por aquele calor...

Subitamente, Hyoga abriu os olhos! Ele não estava se recordando, ele estava realmente sentindo de novo aquela sensação! Conseguia sentir o cosmo de Ikki queimando... mas não queimava como se estivesse em uma batalha. Seu cosmo ardia intensamente, envolvendo Hyoga em seu calor, fazendo-o sentir um arrepio percorrer-lhe todo o corpo e trazendo-lhe uma agradável sensação familiar, mas que ele não conseguia se recordar de onde vinha...

Passado o susto de ter sido arrebatado pelo cosmo de Ikki de forma tão inesperada, Hyoga seguiu na direção de onde vinha essa energia. E assim chegou a um lugar que parecia um galpão abandonado. Lá dentro, deitado sobre uma cama velha, encontrou Ikki. Correu até ele, assustado em encontrá-lo ali, daquele jeito. Sentou-se ao seu lado na cama e chamou o nome do cavaleiro de Fênix. Como este não despertava, o russo começou a se desesperar e passou a sacudir o moreno. Lágrimas irromperam de seus olhos e o loiro, já esgotado emocionalmente, deitou a cabeça sobre o peito do outro e murmurou:

- Ikki... por favor, acorde... Você tem que acordar...

Lentamente, Ikki abriu os olhos e, ao passá-los rapidamente pelo local, não soube dizer onde estava. "Devo estar sonhando... ainda." , pensou ele. E, quando finalmente se deu conta de que Hyoga estava ali, com a cabeça deitada sobre seu peito, acreditou ter a confirmação de que aquilo era apenas um sonho. E o russo, que ainda não tinha se dado conta de que Ikki havia despertado, continuava a chorar sobre o peito do outro, dizendo, em voz baixa e entrecortada:

- Ikki, acorde... Você precisa saber que... eu te amo...

Sim, agora era mais que certo. Ainda estava sonhando com a primeira vez em que se amaram... Estava sonhando com aquelas juras de amor que fizeram um ao outro...

Disse o nome de Hyoga com carinho, que se assustou levemente ao perceber que ele tinha acordado. Sorria para o loiro com ternura e limpou com suavidade as lágrimas daquele rosto que tanto amava.

- Ikki... eu... – tentou dizer Hyoga.

- Shh... – disse o moreno, que continuava acariciando gentilmente a face do outro – Não precisa falar mais nada...

- Mas eu preciso... – a voz de Hyoga saía rouca - ... Eu preciso que você saiba...

- Eu já sei... E eu também te amo... – falou com um belo sorriso antes de puxar Hyoga para um beijo apaixonado. O russo, que não esperava por aquilo, não soube como reagir. Mas, ao se ver envolvido por aquele beijo, percebeu que, finalmente, a inquietação em seu peito havia passado. Ele acabava de descobrir onde é que ele deveria estar: Nos braços de Ikki.


- Muito bem, estou aqui. Fale logo o que quer, porque eu estou muito ocupado. – disse o homem que acabava de sair de trás de uma das árvores do parque.

- Ah, até que enfim você apareceu. – falou Isaac, com a voz demonstrando alguma revolta – Precisamos ter uma conversa séria, senhor Destino.

- Pois bem... – suspirou o homem, enquanto jogava seus longos cabelos prateados para trás – De que se trata?

- De que mais poderia se tratar? Do nosso acordo, oras! Ou melhor, do nosso falso acordo!

- Senhor Isaac, caso não tenha entendido ainda, não gosto que utilizem certos tons de voz ao se dirigirem a mim. Mantenha algum respeito ao falar comigo, ou não irá gostar das conseqüências...

Isaac respirou fundo e, em seguida, tentou falar da forma mais controlada que lhe foi possível:

- Quando você me procurou para fazermos aquele trato... você me disse duas coisas. Primeiro: que iria me ajudar a conquistar Hyoga... E segundo: que eu teria de disputar o amor dele com Shun. Bom, a questão é simples. Você me enganou.

- Eu não enganei ninguém, senhor Isaac. Será que se esqueceu do que lhe disse? As pessoas são responsáveis pelo destino que criam, eu apenas ajo de acordo com a atuação de cada um... Quando fizemos nosso acordo, você tinha, de fato, que disputar o amor de Hyoga com Shun. Mas as coisas seguiram por um caminho diferente do que eu esperava...

- É isso que eu não entendo! Como você pode não saber? Você é o Destino! Você não deveria se surpreender com nada!

- As coisas não são tão simples assim, senhor Isaac. Enfim, há assuntos que não posso tratar com você. De qualquer forma, a única coisa que deve saber é que eu estou fazendo todo o possível para ajudá-lo a conquistar Hyoga.

- Então você vai me desculpar, porque não acho que esteja fazendo um bom trabalho. Tanto é que eu chamei você aqui porque quero desfazer nosso contrato. Não quero mais a sua ajuda.

- Não quer? Por acaso, está achando que conseguirá conquistá-lo por mérito próprio?

- Sim, estou. Ainda não sei como, mas sei que estou melhor sem sua ajuda.

- É mesmo, senhor Isaac? Curioso... porque, olhando para você agora, estou enxergando o que fez nessa manhã. Teve uma briga com Hyoga, não é mesmo?

Isaac sentiu-se incomodado com o modo como aqueles olhos prateados o observavam. Era como se o Destino estivesse lendo os acontecimentos daquela manhã através do simples ato de olhar para ele.

- Hum... foi uma briga muito feia...

- É, mas isso não é da sua conta. Não mais! – respondeu Isaac, agressivamente. Estava se sentindo invadido.

- Creio que seja, sim, da minha conta. Depois do que fez hoje, não conseguirá nada se não me tiver ao seu lado.

- Ah, agora você quer me ajudar? Onde você estava na hora em que eu precisei? Nessa manhã mesmo, por exemplo! Pelo visto, você só está se inteirando do ocorrido agora!

- De fato, eu me inteirei do que aconteceu somente agora. Senhor Isaac, procure entender... Eu sou o Destino. Há milhões de pessoas neste planeta, e cada uma está traçando o seu destino a cada segundo que passa. E eu preciso estar com cada uma delas a toda hora, ou seja... sou muito, muito ocupado.

- Mas... mas se você tem que estar com todas essas pessoas e ao mesmo tempo está aqui... então... como é possível...?

- Ah, a mente humana é, às vezes, tão limitada... Muito bem, senhor Isaac. Vou tentar simplificar para que você possa entender. Eu trabalho o destino de todas as pessoas, mas não estou realmente dando minha atenção a todas essas pessoas. É como se... eu tivesse ligado uma espécie de piloto automático para a maioria delas. Minha atenção em especial é direcionada para poucos casos, aqueles que julgo mais interessantes. E, quando alguns dos casos trabalhados pelo piloto automático fogem do básico, do planejado... basta que eu volte meu olhar para eles, que logo fico a par de tudo que se passou. E...

De repente, parou de falar. Fechou os olhos e levou alguns dedos à testa, como se estivesse se concentrando em algo. Isaac estranhou o que se passava, mas nada disse. Esperou que o outro terminasse o que estava fazendo.

- Então... – disse, ao cabo de alguns segundos, o homem de cabelos cor de prata, com o aspecto muito sombrio – Senhor Isaac, eu tenho certeza de que ficará feliz em saber que agora eu posso lhe dar a certeza de que Hyoga será todo seu.

- Sério? Mas... mas como? O que aconteceu?

- Digamos que um dos pilotos automáticos que deixei ligado acabou de me alertar sobre um problema em potencial que... pode acabar nos ajudando. Enfim, o senhor logo ficará sabendo. Agora vá. Volte para o hotel em que estava hospedado imediatamente. – falou o homem, enquanto passava as mãos pelos cabelos prateados. Era possível perceber que estava bastante contrariado com algo.

Isaac não sabia se confiava no que o Destino lhe dizia, mas achou melhor obedecer. Nas poucas vezes em que travaram alguma conversa, nunca tinha visto aqueles olhos, aparentemente doces, tão assustadores. Sem despedir-se, deu-lhe as costas e partiu dali o mais rápido que pôde.

Assim que se viu a sós naquele lugar, o homem de cabelos prateados fez um movimento com seu sobretudo preto e desapareceu dali.

- Ora essa... Mas o que nós temos aqui?

Ao escutar essa voz que surgiu do nada, Ikki e Hyoga separaram-se, assustados; Hyoga por não entender quem era aquele homem e de onde ele havia surgido, e Ikki por finalmente compreender que aquilo não era um sonho...

- Senhor Ikki... acho que você sabe qual é a pena por desonrar o nosso acordo... – falou o homem cujos olhos prateados eram agora bastante ameaçadores.

Ikki parecia paralisado onde estava. Estava aterrorizado e havia desespero em seus olhos. Não conseguia acreditar que o que acabara de se passar era real! Mas que droga! O que ele tinha feito? Céus, o que ele tinha feito?

- Acordo? Como assim, acordo? – perguntou Hyoga, olhando para os dois homens que se encaravam em silêncio.

Então, o homem de cabelos de prata, com um gesto, fez a carta com o desenho de um cisne, que estava no bolso da calça de Ikki, vir à sua mão. Hyoga continuava sem entender o que se passava. Olhou interrogativamente para Ikki, à procura de respostas, mas percebeu que ele mantinha, fixos naquele homem desconhecido, os olhos cheios de lágrimas, suplicantes:

- Por... por favor... eu imploro... Não... – pediu Ikki, com a voz trêmula, as lágrimas escorrendo livremente pelo seu rosto.

Hyoga então voltou seu olhar para o estranho homem que olhava para aquela carta, impassível. O homem ignorava solenemente o apelo de Ikki. E, de repente, ele começou a amassar a carta em sua mão. Vagarosamente.

Nesse momento, Hyoga soltou um grito de dor. Caiu sobre seus joelhos com uma mão sobre o peito. Ao se dar conta do que estava acontecendo, Ikki pulou da cama e ajoelhou-se ao lado do russo. Tentou abraçá-lo, mas Hyoga começou a se contorcer, gritando ainda mais forte de dor, impedindo que o outro conseguisse envolvê-lo em seus braços. Ikki sentiu o desespero tomar conta de si por não saber o que podia fazer. Correu até onde estava o Destino, tentou golpeá-lo de todas as formas que pôde, mas parecia haver uma barreira invisível que o cercava e protegia. Ficou batendo contra essa parede, alucinadamente, implorando que ele parasse, que tivesse piedade e compaixão.

Repentinamente, o Destino parou de amassar a carta e abriu a mão, revelando ali o papel já bastante amassado. Ikki olhou para a carta na mão do Destino como que hipnotizado, sem piscar. Olhou para onde Hyoga se encontrava, e viu que ele estava semiconsciente. "O que ele vai fazer?" E, de repente... o papel foi envolvido por uma chama que devorou toda a carta em um segundo, deixando ali apenas cinzas. Ikki gritou ensurdecedoramente e correu até Hyoga, tomando-o em seus braços, a tempo de ouvir seu último suspiro. Ele abraçou forte o corpo do russo e chorou. Chorou de dor, de angústia, de desespero.

O Destino observou calado aquela cena. Uma expressão de profundo desagrado tomou conta de suas feições. Então fez um movimento com a mão e o corpo de Hyoga sumiu. Ao ver o corpo de Hyoga desaparecer de seus braços, Ikki se enraiveceu e caminhou encolerizado até onde estava o Destino:

- Onde... está... o... Hyoga? – perguntou com os olhos queimando de fúria.

- Ah, senhor Ikki... Estou tão decepcionado com você... – falou o Destino, jogando os cabelos ondulados para trás dos ombros e ignorando a pergunta do moreno.

- Onde... está... o... Hyoga? – repetiu, cerrando os punhos com força.

- ... Eu estava gostando tanto do modo como as coisas estavam se desenrolando. É uma pena que o senhor tenha colocado tudo a perder. – continuava a dizer o homem cujos olhos voltavam a ser gentis.

- Vou perguntar pela última vez, maldito! Onde...

- Quer saber para onde mandei Hyoga? – interrompeu-o o Destino – Isso vai depender de você, meu caro...

- Do... do que está falando? – perguntou Ikki, confuso.

- Eu não costumo dar uma segunda chance para quem não cumpre um acordo comigo... Mas eu estava me divertindo tanto! Então... acho que vou abrir uma exceção dessa vez.

Ao escutar aquelas palavras, todo o rosto de Ikki se iluminou. Precisou respirar fundo; a voz quase não lhe saía da boca:

- Está querendo dizer que... que...

- Estou dizendo que não vou matar Hyoga dessa vez. Porque ainda quero me divertir mais um pouco. Mas que fique claro: minha paciência tem limite. Se você descumprir novamente nosso trato, eu não pensarei duas vezes antes de...

- Não; não se preocupe! – apressou-se em dizer – Eu juro que vou seguir exatamente o que disser! Não vou descumprir nosso trato, eu não vou nunca mais chegar perto do Hyoga! Faço qualquer coisa para que ele possa viver! Eu prometo!

- Hum... era exatamente isso que eu queria ouvir. Vai cumprir o trato à risca, então?

- Vou. – respondeu Ikki, com toda a sinceridade que seu coração ferido lhe permitiu.

- Mesmo que esse trato se modifique um pouco? – sorriu o Destino, de forma enigmática.

- Modificar... o trato? Como assim?

- Bem, em essência... nosso trato continuará sendo o mesmo. Hyoga poderá viver, mas você terá de abrir mão do seu amor por ele.

- Sim; e eu estou disposto a aceitar esse trato. – adiantou-se o cavaleiro de Fênix.

- Ótimo, mas eis a modificação que proponho agora em nosso acordo... Além de abrir mão do seu amor, você terá de ajudar outra pessoa a conquistar o coração de Hyoga.

Ikki engoliu em seco. Sabia que o Destino não facilitaria sua vida. Mas, por Hyoga, estava disposto a tudo...

- Tudo bem, eu já estava pensando em ajudar Shun a conquistar Hyoga, mesmo... – falou, resignado.

- Ah, não, senhor Ikki... Não quero que ajude o seu irmão a conquistar o Cisne...

- Não...? Mas então...

- Eu quero que ajude Isaac a ganhar o coração de Hyoga. – falou, exibindo um sorriso triunfante.

- O quê?

- Isso mesmo que você escutou.

Ikki não podia acreditar no que ouvira. De todas as pessoas... justamente Isaac? Não, isso ele não poderia fazer. Hyoga não amava Isaac e Isaac nunca poderia fazer Hyoga feliz.

- Me peça qualquer coisa, menos isso. Isso eu não posso fazer. – replicou Ikki.

- Mas é isso que eu quero. E você não está em posição de discutir.

- Mas... Hyoga jamais será feliz com Isaac! E você havia me prometido que se eu ficasse fora do caminho, Hyoga poderia escolher quem ele quisesse para ser feliz!

- Ah, mas isso foi antes, senhor Ikki.. Agora que você descumpriu nosso acordo, eu me dou o direito de modificar algumas coisinhas em nosso trato. E é isso ou nada feito.

- Então... – respirou fundo, buscando forças para o que iria dizer – ...Eu não vou poder aceitar esse novo trato. Não vou querer que Hyoga tenha uma vida infeliz. Se é para ser assim, eu prefiro que ele... descanse... em paz. – falou com a voz quase sumida.

- Hum, infelizmente, essa também não é mais uma opção. – disse o Destino, com um tom de voz que demonstrava que ele estava se divertindo com a situação.

- Como assim? – perguntou o cavaleiro de Fênix, preocupado.

- Hyoga poderia descansar em paz antes de fazermos o nosso primeiro acordo, senhor Ikki. Mas você me fez trazê-lo de volta à nossa realidade. Eu expus a minha condição, e disse o que aconteceria se você quebrasse o trato. Bem, foi o que você fez. Então, se não quiser fazer um novo trato, terá de aceitar as conseqüências... Caso não esteja lembrado, eu havia dito que a morte dele seria a pior possível... Pois vou lhe apresentar agora a pior morte possível que alguém pode ter... É aquela que trará à pessoa o sofrimento eterno.

E, com mais um movimento que lembrava um passe de mágica, fez surgir uma bola de energia em frente a Ikki:

- Bem, senhor Ikki... Você não queria saber para onde mandarei Hyoga? Então... é para um lugar extremamente doloroso que ele irá se não aceitar esse novo trato.

O moreno então se aproximou da bola mágica que flutuava em frente a ele e tentou enxergar algo ali, mas não via nada.

- Coloque sua mão sobre ela e vai entender o que estou dizendo...

Ao fazer o que o Destino lhe mandava, Ikki sentiu muita dor, medo, angústia, desespero, aflição... Eram tantas coisas terríveis que não suportou ficar com a mão ali mais que alguns poucos segundos.

- Hyoga... Hyoga está nesse lugar? – perguntou, sentindo a respiração falhar.

- Ainda não. Como eu disse... vai depender de você.

- Que... que lugar é esse?

- Ah, nada de mais. Um lugarzinho que criei especialmente para ele, caso você decida não fazer um novo trato comigo.

Ikki apavorou-se; se não foi capaz de agüentar aquilo por poucos segundos... como Hyoga poderia suportar aquele lugar pela eternidade? Não encontrando outra saída, acedeu, dizendo:

- Está bem... eu faço um novo trato com você. Estou disposto a abrir mão do meu amor pelo Hyoga... e vou ajudar Isaac a conquistá-lo. – seu coração apertou doloramente ao dizer cada uma dessas palavras.

- Ótimo! Temos um novo acordo! – bradou o Destino, vitorioso – Então, agora, já posso informá-lo que Isaac sabe de minha existência...

- Como é? – disse Ikki, com alguma revolta.

- Sim, mas que diferença isso faz agora? Depois, você pode pedir mais explicações a ele. Agora, o mais importante é que o ajude a consertar uma besteira que ele fez. Hoje de manhã, Hyoga estava preocupado com o fato de você não ter passado a noite no hospital e foi atrás de você no seu apartamento, brigou com Camus e Isaac por sua causa... Enfim, foi uma grande confusão. – o Destino ia falando como se tudo aquilo fossem banalidades, coisas sem importância, mas para Ikki, saber que Hyoga esteve preocupado com ele trazia alento à sua tão sofrida existência.

- O grande problema é que Isaac se descontrolou e usou algumas informações que eu havia passado a ele de forma precipitada.

Ikki escutava atentamente cada palavra do que o Destino lhe dizia. Não só porque isso fazia parte do novo trato, mas principalmente porque era de sua natureza preocupar-se com tudo o que dizia respeito a Hyoga...

- Eu havia confidenciado a Isaac uma informação que, se ele fosse esperto, poderia utilizar futuramente como um trunfo. Mas o rapaz é apressado, não sabe ponderar antes de agir... Bem, em resumo. Ele acabou estragando o que poderia ser uma belíssima estratégia.

- O que aconteceu afinal? – perguntou Ikki, cansado de tantos rodeios, pois sentia-se esgotado tanto física quanto emocionalmente...

- Eu tinha revelado a Isaac um pouco de como Hyoga traçava seu destino. O jovem Cisne é sempre muito atormentado pelo seu passado, pelo mal que ele acredita ter feito a todos que o amavam... Então, contei a Isaac que havia um eficiente modo de manipular Hyoga, de modo a fazê-lo traçar um destino que fosse de seu interesse. Bastava fazê-lo sentir-se culpado, bastava fazê-lo entender que ele desgraçou a vida de pessoas que apenas quiserem o seu bem... Porque, ao fazer isso, o rapaz russo fica sempre tão desnorteado que, dependendo do modo como Isaac manipulasse essas feridas, ele conseguiria deixar o pobre rapaz tão arrasado que conseguir que ele fizesse o que Isaac desejasse, como aceitar ficar com ele, não seria uma tarefa difícil.

- Está me dizendo que Isaac teve a coragem de abusar da sensibilidade de Hyoga desse jeito? É esse o homem que espera que eu ajude a conquistar a pessoa que eu amo? – falou Ikki, enfatizando a palavra "eu".

- Sim, é isso que estou dizendo e é isso que eu espero. Algo contra? – e o homem de longos cabelos prateados fez surgir, diante de Ikki, a bola de energia mais uma vez, como se assim pudesse relembrá-lo do que aconteceria a Hyoga se ele se negasse a fazer o que ele dizia.

Ikki calou-se. Seus olhos, bastante vermelhos, estavam secos. Já não havia mais lágrimas para chorar.

- Entretanto... deu tudo errado. Isaac não soube conduzir a situação da melhor maneira, mas... o principal problema é que ele não conseguiu deixar Hyoga arrasado o suficiente para simplesmente acatar o que ele dissesse. E sabe por que isso não aconteceu?

Ikki permanecia em silêncio. O sofrimento em que se encontrava engolia qualquer palavra que ele tentasse pronunciar.

- Porque Hyoga gosta tanto de você que... o sentimento que vocês construíram na primeira vez em que viveram tudo isso ainda existia. De alguma forma... de alguma forma absurda... ele ainda guarda esse sentimento dentro dele. E isso o fortaleceu contra Isaac.

Ikki olhava para o Destino, sem dizer nada. Mas não pôde evitar que um brando sorriso surgisse em seus lábios.

- Pois então, eis o que precisamos fazer. Você terá de se esquivar desse sentimento que ele ainda nutre por você. Deverá deixar claro que tudo isso que ele sente por você é coisa da imaginação dele. Que não há nem nunca existirá qualquer coisa entre vocês. Entendeu?

O cavaleiro de Fênix continuava em silêncio, mas em silêncio resignado. Afinal, ele não tinha escolha, simplesmente precisava aceitar tudo quanto lhe dizia o outro.

- Eu mandei Hyoga para o quarto de hotel em que ele e Isaac estão hospedados. Não se preocupe; seu Cisne continua vivo. E quando ele despertar, vai estar atordoado... mas nosso amigo Isaac já estará lá, ao lado dele, para explicar que foi tudo um sonho. Inclusive aquela briga ridícula que eles tiveram essa manhã. Afinal, como essa estratégia não deu certo, é melhor tentarmos apagar essa experiência da memória do Cisne. O que conseguiremos fazer de forma efetiva se ele acreditar que tudo não passou de um sonho. E, para que ele realmente acredite nisso... você deverá dizer que tudo o que aconteceu aqui foi um sonho.

Ikki franziu a testa e o Destino antecipou-se à dúvida que imaginava que o moreno teria:

- Sim; ele provavelmente deve perguntar a você se o senhor recorda de algo. Eu sou o Destino, lembra-se? Tenho uma boa idéia do que as pessoas tendem a fazer e como vão reagir... E, nesse caso, Hyoga depositará em você muitas expectativas, esperará que diga que tudo o que aconteceu foi real e que ele não estava sonhando. É nessa hora que você deverá me provar que vai realmente cumprir nosso trato.

Ikki baixou a cabeça e soltou um triste suspiro. Sabia como aquilo iria magoar Hyoga... mas não tinha escolha...

- Uma vez que ele se convença de que tudo que aconteceu depois da briga dele com Camus foi um sonho... estaremos mais perto de atingir nosso objetivo. Estamos entendidos? – finalizou o Destino, com satisfação.

- Sim. – respondeu Ikki, com um fio de voz.

- Ótimo... então, até o nosso próximo encontro, caríssimo. – e, após uma afetada reverência, o homem desapareceu com seu sobretudo preto em meio a uma névoa branca que o envolveu num instante.

Já no instante seguinte, em alguma dimensão paralela à nossa, o homem de cabelos prateados surgiu em meio ao nada e começou a caminhar no vazio à procura de algo, quando foi interceptado por uma outra aparição:

- Resolveu mudar de estratégia?

- E isso lhe interessa? Que eu saiba, esse tipo de mudança não me faz perder a aposta.

- De fato, não faz mesmo... mas eu não vejo como você conseguirá ser bem sucedido dessa vez.

- Não tenho culpa se tem dificuldades para enxergar o que está por vir. Mas eu posso garantir-lhe que minha vitória está próxima. Consegui descobrir a tempo onde estava errando. E já solucionei o problema.

- Eu sei o que está tentando fazer, Destino. E já lhe adianto que também não dará certo. Não é só você que possui a habilidade de decifrar o que está para acontecer.

- Posso não ser o único a ter essa habilidade, mas essa é a minha especialidade.

- Continuo achando que você irá fracassar... E o motivo para isso é muito simples: Você evidentemente insiste em não entender que...

- Meu caro, compreenda que suas provocações não me atingem. Agora, faça o favor de deixar-me em paz, sim? Estou ocupado.

- Tudo bem... Mas não se esqueça de que você tem um prazo. Se não conseguir destruir definitivamente o amor entre o Fênix e o Cisne, dentro do tempo estipulado, então eu vencerei a aposta...

- Não me pressione; você deveria saber que o tempo é o meu aliado.

- Pode até ser, meu caro Destino... Mas não se esqueça de que ele está subordinado a mim.

- Por enquanto... Mas se eu vencer a aposta...

- Não vai vencer.

- Quer apostar?

- Creio que já fizemos a aposta... E agora vou deixá-lo trabalhar... Imagino que tenha muito o que fazer...


Enquanto isso, Ikki continuava no galpão abandonado... Sentia-se zonzo e precisou sentar-se na cama para não cair... Ainda não conseguia acreditar em tudo o que estava acontecendo... Olhou para as cinzas em que a carta do cisne havia se transformado e concluiu que ele era realmente amaldiçoado. Tudo o que ele amava era destruído, virava cinzas... Aliás, ele próprio já havia virado cinzas por infinitas vezes... mas a sua maldição era justamente a de ser a Ave Fênix, capaz de sempre ressurgir das próprias cinzas... ao contrário daqueles que amava, que se transformavam em pó ao serem consumidos pelo fogo do seu amor devastador...

Continua...


N/A: Esse capítulo só se tornou possível graças à ajuda de uma amiga – Pandora Amamiya é o nome dela! \o/ Preciso destacar a importância do trabalho dessa minha amiga aqui. A Pandora simplesmente fez toda a parte lemon da fic para mim, porque eu não levo jeito para isso de forma alguma – sim, eu já tentei e não, o resultado não foi bom. Hehehe! Felizmente, a Pandora estava aí para me ajudar e o resultado foi esse lemon maravilhoso que vocês viram! Pandora, um super obrigada mesmo! Você não tem ideia da ajuda que me deu! Até porque foi o seu lemon que me deu um monte de ideia sobre detalhes interessantes – e importantes – que pude acrescentar à história. Como eu disse, a culpa do capítulo ter ficado grande é, em boa parte, sua. =P

OBS: Fic escrita ao som de The Reason (Hoobastank - Eu sei que você odeia, Pandora! rs!), Far Away (Nickelback), Truly, Madly, Deeply (Savage Garden), Você Sempre Será (Marjorie Estiano)...

Beijos!

Lua Prateada.