A Constante de Aceleração
Capítulo: 9/12
O fim de semana passou num piscar de olhos. No fim da tarde de domingo, Amy estava arrumando a bagagem para voltar para a California. Parado do lado de fora do antigo quarto da irmã, Sheldon observava a namorada cuidadosamente dobrando e guardando as últimas peças dentro da mala. Ele sabia que ela tinha ido passar apenas poucos dias, mas não queria que ela fosse embora tão cedo. Talvez nunca mais.
"Ah, Sheldon! Você estava aí?" Amy finalmente notou a presença do namorado ao erguer os olhos da mala.
Ele não queria ter sido surpreendido a observá-la, mas já que o foi, fez sua melhor cara de neutro.
"Eu estava passando, vindo da cozinha. Vejo que já arrumou a mala."
"Sim" Amy se aproximou dele, do lado de fora do quarto. "Está tudo pronto para partir."
Partir. A palavra trouxe uma sensação aguda e apertada ao peito de Sheldon.
"Você não pode ir amanhã? Ou depois?"
"Sinto muito, Sheldon, mas, como eu disse, não consegui autorização da universidade para faltar mais dias. Você entende, não?"
"Claro. Entendo" ele respondeu, os ombros caindo em frustração.
"Bem, então vou pegar a minha passagem e a minha mala para me despedir da sua mãe."
Sheldon ficou em silêncio. Ele apenas observou Amy entrar de novo no quarto. Ela foi direto a uma cômoda de madeira, levando a mão à superfície. As sobrancelhas franziram-se em confusão. Passou a mão por todo o móvel, os olhos atentos por trás das lentes dos óculos procurando por algo que não estava mais ali.
"Que estranho... eu deixei a passagem aqui em cima. E não está mais."
Amy olhou para Sheldon, confusa.
"Talvez tenha deixado em algum outro lugar" ele fez a observação.
"Não, eu tenho certeza. Deixei aqui hoje de manhã cedo" ela falou com toda convicção.
"Bom..." Sheldon passou pela porta, adentrando o quarto, as mãos para trás. "Sem a passagem, você vai perder o voo. Acho que vai ter que passar mais uma noite no Texas" ele conclui.
Amy balançou a cabeça, suspirando. "Eu não posso. Tenho que estar na Caltech amanhã de manhã."
"Mas não pode viajar sem a passagem" ele tornou a dizer.
"Se eu não encontrar vou ter que comprar outra para um novo voo de última hora. Ou, dependendo da escala de voos da companhia, pegar um trem às pressas" Amy disse.
Sheldon frustrou-se. "Apesar de amar trens e considerá-los o melhor dos meios de transporte, você não pode fazer isso."
"Vai ser a única maneira de chegar a tempo" ela disse, remexendo em sua mala a procura da passagem perdida.
"Você pode avisar na Caltech que teve um imprevisto" ele foi se aproximando de Amy.
"Não posso, Sheldon. Estou em vias de finalizar uma pesquisa muito importante para o projeto em que estou engajada, não posso me dar o luxo de não cumprir meus compromissos profissionais."
Com isso, ele se sentiu ofendido.
"Tudo bem. Eu não devo mais saber o que são compromissos profisisonais, já que atualmente não trabalho. Desculpe por achar que você pudesse ficar mais um pouco."
"Sheldon" Amy olhou para ele, tentando remediar a situação. "Você entendeu o que eu quis dizer. Por que não me ajuda a procurar a minha passagem?" ela disse, virando-se para continuar a busca em cada canto do quarto.
"Seria esta aqui?" a voz de Mary Cooper se fez ouvir da porta.
Sheldon e Amy viraram-se para ela, que entrou no ambiente balançando a passagem da cientista na mão.
Nesse momento, Sheldon ficou completamente parado no mesmo lugar. Ao contrário de Amy, que fechou os passos até a Sra. Cooper, pegando a passagem que ela segurava.
"Sim, é esta mesmo. Onde estava, Sra. Cooper?"
"Dentro da gaveta de meias do Shelly."
As duas mulheres lançaram olhares para o Físico. Sheldon, que não olhava para nenhuma delas, arrastou um pé sobre o chão encerado do quarto, como se fosse a coisa mais interessante do mundo naquele momento.
Silêncio. Mary pigarreou, saindo do ambiente, deixando Amy e Sheldon sozinhos. Assim que a mãe do namorado sumiu de vista, a cientista se aproximou calmamente dele.
"Você escondeu a minha passagem, Sheldon?"
Ele finalmente ergueu a cabeça, mas não a encarou. Respondeu olhando para a porta aberta do quarto.
"Talvez ela tenha ido parar acidentalmente lá."
"Acidentalmente?" Amy ergueu uma sobrancelha.
Sheldon tornou a deslizar a ponta do sapato no piso. "Eu não me orgulho disso, mas pode ser verdade."
Amy segurou o riso. Por mais que a situação fosse séria, ela não conseguia ficar brava com Sheldon. Não quando ele obviamente havia feito aquilo para que ela não fosse embora.
"Sheldon..." ela aproximou-se mais e, esticando a mão, tocou o braço dele. Amy pôde sentir o leve arrepio na pele clara e, dessa vez, ele ergueu os olhos para ela. "Eu vou, mas eu volto. Logo. Sempre que puder, virei visitá-lo."
Ele piscou enquanto a olhava. Os olhos dela pareciam mais verdes do que de costume por trás das lentes do óculos. Sheldon sentiu um nó na garganta. Ela dizia que iria voltar em breve, mas, de repente, isso não era o bastante.
Enquanto Amy o observava, sua mão deslizou pelo braço de Sheldon… e, para sua total surpresa, ele não a deixou afastá-la, mas tomou sua mão na dele. Os dedos dos dois entrelaçaram-se. E, em silêncio, numa combinação perfeita que dispensava palavras, esquecendo-se da porta do quarto aberta e do mundo lá fora, Sheldon inclinou-se para a frente, abaixando o corpo o suficiente para aproximar seus rostos… e ele a beijou.
Quando seus lábios tocaram os dela novamente, Sheldon sentiu algo diferente. Havia a maciez e o calor familiares, mas, além disso, havia uma sensação nova… uma espécie de certeza, de afirmação. E, pela primeira vez em muito tempo, toda a confusão que vinha sentindo, o caos que sua vida se tornara, pareciam não mais existir.
Lenta e delicadamente, o leve roçar de lábios logo se transformou em uma exploração quando ele sentiu a súbita necessidade de entreabrir a boca. E a ponta de sua língua escapou, como por vontade própria, surpreendendo-o e, ao mesmo tempo, instigando. Era a primeira vez que isso acontecia. E ele se deixou levar pela curiosidade da experimentação.
Amy precisou levar as duas mãos à camiseta do namorado, prendendo-se ao tecido como fonte de equilíbrio, pois suas pernas ficaram repentinamente trêmulas ao sentirem a língua molhada e curiosa de Sheldon solicitar passagem entre seus lábios. Ela os partiu, um suspiro escapando furtivamente, e teve a sensação mais incrível de sua vida quando sua língua esbarrou com a dele.
Segundos... minutos se passaram. E nenhum deles se importou com o tempo. Nem mesmo sabendo que deveria partir, Amy se apressou em terminar aquele beijo.
Apenas quando a falta de oxigênio falou mais alto, seus lábios se desconectaram. Sheldon colou a testa à de Amy, inspirando lenta e profundamente.
"Adeus" ela murmurou.
"Até logo" ele sussurrou em resposta.
...
Obrigada mais uma vez aos gentis leitores que têm me enviado reviews. Adoro saber o que estão achando da história, além de dar um gás aqui na escritora =D
Thanks!
Espero que tenham gostado de mais este capítulo. Até o próximo!
