Capitulo IX

— Acho que está cometendo um grave erro — disse Lílian, enxugando o bule de prata onde colocaria o café que estava preparando. Petúnia terminou de encher o açucareiro também de pra­ta, ajeitando-o depois na bandeja, coberta com uma alva toalha de linho.

— Sei muito bem o que estou fazendo — replicou. — Aliás, era o que já deveria ter feito, desde o princípio. Se pelo menos tivesse podido adivinhar o que aquele homem ia aprontar... — ela fungou. — É um escândalo, uma ver­gonha para nossa cidade! Recolher aquela filha do demônio e esfregá-la nos narizes dos cidadãos tementes a Deus!

— Bonnie não passa de uma criança. Por que não os deixa em paz?

Empertigando-se Petúnia encarou a irmã. O vestido escuro que usava em nada a favorecia. Com os cabelos presos num coque apertado, os lábios contraídos numa linha estreita, Petúnia tinha uma aparência matronal e pouco atraente.

— Em minha opinião, você é tão culpada quanto aquele sujeito. Por ser minha irmã, não vou mencionar sua parti­cipação no debate que vamos ter, mas estou muito decep­cionada com você. Não posso nem pensar no que papai teria dito de sua atitude inconseqüente.

Lílian ficou em silêncio, precisava conservar-se calma para enfrentar a situação que estava para acontecer. Acostumada aos terríveis rompantes de Petúnia, em geral dei­xava-a explodir até a raiva passar. Depois, seguia com a própria vida, como se nada tivesse acontecido. Dessa vez, porém, era diferente. A fúria de Petúnia ia atingir a pequena e indefesa Bonnie. E Lílian não permitiria que nenhum mal fosse feito à garotinha.

Aproximando-se do fogão, foi verificar se a água para o café já fervera. Da sala de visitas vinha o som de conversas e risadas. A maioria das mulheres da cidade e das fazendas vizinhas tinha sido convidada para a reunião em casa de Petúnia. Infelizmente, a mãe da criança agredida por Walter não se encontrava entre elas. Lílian tentara conversar com a irmã sobre o incidente, mas esta não dera importância ao fato, dizendo que o garoto com certeza merecera a bofetada.

— O café já está pronto? — perguntou Petúnia.

— Ainda não. — Lílian começou a cortar o bolo que trouxera. — Continuo achando errado o que pretende fazer.

— Felizmente, sua opinião não interessa a nenhuma de nós. Apertando com força os lábios, Lílian procurou con­vencer-se de que perder a calma não adiantaria nada.

— Tiago tem sido maravilhoso com a garota. Quando ninguém na cidade quis cuidar dela, ele o fez. Está alimen­tando-a e vestindo. Que mal pode haver nisso?

— Ele é solteiro e mora num hotel. Ainda por cima a menina é filha de uma prostituta, uma bastarda. Devia estar num orfanato, junto com outras crianças de sua laia. E não andando por nossa cidade, corrompendo nossas ino­centes crianças com seu palavreado imundo.

Lílian perdeu a paciência. Pondo a faca na pia, limpou as mãos com um pano.

— A única pessoa com palavreado imundo que conheço é você, minha irmã. Parece sentir um estranho prazer em dizer palavras feias. Sente-se devassa ou dominadora ao pronunciá-las?

Os olhos verdes do Petúnia lançaram chispas de ódio.

— Como se atreve a falar assim comigo?

— A única atrevida aqui é você, capaz de perseguir uma criança inocente. Será que não consegue enxergar a maldade que vai cometer?

— Tudo que enxergo é que está sendo iludida por aquele homem. Só não sei até que ponto as coisas foram entre vocês. — Os olhos frios se estreitaram. — Que pecados anda cometendo, Lílian Evans?

— O que cometo ou deixo de cometer não é de sua conta. O assunto aqui é Bonnie e a injustiça que você está cometendo.

— Fique sabendo que eu a proíbo de ver essa bastardinha ou aquele canalha do Potter.

Finalmente, Lílian perdeu a cabeça. Com as mãos nos quadris, retrucou:

— Você não pode me proibir de coisa alguma! Não tem o menor direito sobre mim!

— Tenho, sim! Sou sua irmã e casada com o pastor dessa cidade. Portanto, sou responsável por você. Aliás, fiquei sa­bendo que tomou partido daquele sujeito contra a sra. Greeley. E só Deus sabe o que mais anda fazendo por aí.

— Quer parar de falar a meu respeito, Petúnia? — exigiu Lílian. — O que está em discussão é o futuro de uma criança sem lar, sem família. Uma criança de seis anos de idade. Como pode culpá-la pelos erros dos pais?

— Os pecados dos pais recairão sobre os filhos — recitou Petúnia em tom virtuoso. Depois, enchendo o bule de prata de café, acrescentou: — Vamos, acabe de arrumar a outra bandeja.

Lílian permaneceu parada, fitando a irmã.

— Sabe, Petúnia, não a reconheço mais. Costumávamos ser amigas, mas agora você é uma estranha para mim.

—A culpa é sua. Foi você que se envolveu com essa gentinha.

— Pare com isso, Petúnia. — Lílian já não sabia que argumentos usar para obrigar a irmã a raciocinar. — Quando éramos crianças e mamãe foi embora...

— Mamãe não foi embora! Ela morreu. Morreu, ouviu? Já lhe falei isso milhões de vezes. — Um pouco de cor subira às faces de Petúnia, mas era um rubor doentio, feio. — Ela foi até enterrada.

— Você sabe que não foi o que aconteceu.

— Cale-se! Não quero ouvir nem mais uma palavra sobre isso. — Petúnia pegou o prato com as fatias de bolo. — Você inventou essa mentira para me atormentar. E vem me atormentando a vida inteira, Como se não bastasse ter ficado solteirona, ainda decidiu tomar conta da loja. Minha própria irmã, trabalhando atrás de um balcão. Às vezes nem consigo erguer a cabeça, de tanta vergonha.

Esse era o tipo de queixa a que Lílian estava acostumada.

— A vergonha vai e vem de acordo com sua conveniência — rebateu. — Enquanto isso, o assunto de Bonnie ainda não foi resolvido. Não entendo, mas aceito o seu direito de não querer cuidar dela. O que não posso aceitar é sua opo­sição quando outros assumem a responsabilidade. O que aconteceu com a sua caridade cristã?

— Eu a reservo para os bons cristãos. — Pegando a ban­deja cheia, Petúnia dirigiu-se para a sala. — Escute aqui, irmãzinha. Não vou tolerar por mais tempo esse seu com­portamento imoral. Uma palavra minha, e ninguém dessa cidade freqüentará mais a loja.

— Duvido que tenha coragem de fazer isso.

— Duvida? Espere e verá. — Com essa ameaça final, Petúnia marchou para fora da cozinha.

Sentando-se à mesa, Lílian apoiou a cabeça nas mãos. Da sala vinha o som de vozes e risos, mas ela se sentia rejeitada e solitária na casa da própria irmã. Isso a entris­tecia, mas não era nenhuma surpresa. Havia muito vinham se distanciando uma da outra. E tudo começara naquele gelado dia de novembro, quando o pai anunciara que a mãe delas havia morrido. Que Lílian soubesse, fora a única ocasião em que o pai mentira.

Nesse instante, a porta dos fundos se abriu e Walter entrou. Sua cabeça calva brilhava de suor. Usava uma camisa bran­ca e um colete, e trazia na mão o casaco. Ao vê-la deteve-se sorridente. Contudo, como sempre, havia algo estranho e assustador em seu olhar.

— Lílian... O que está fazendo aqui?

— Petúnia está oferecendo uma reunião. — Levantando-se, ela segurou a segunda bandeja, mas antes que pudesse erguê-la da mesa, Walter aproximou-se, colocando a mão sobre o braço dela.

— Petúnia tem estado preocupada com você.

Apesar da falta de cabelos e da expressão gelada, ele não era de todo feio. Alto, um pouco cheinho, tinha uma boa postura. Mas havia algo em Walter que repelia Lílian. Sem sucesso, tinha até mesmo tentado convencer Petúnia a não lhe aceitar a proposta de casamento.

Agora, com aqueles dedos a acariciarem-lhe gentilmente o braço, precisou lutar contra a vontade de fugir para longe dele.

— Minha irmã é superprotetora. Entendo sua preocupa­ção, apesar de não concordar com ela. Mas não se aflija, Walter. Estou ótima.

— Eu também me preocupo com você. Com a morte do seu pai, considero-me responsável por sua proteção. — Os olhos castanhos fitaram os dela e algo brilhou nas frias profundezas.

Lílian não quis descobrir o que era. Carregando a ban­deja, tratou de fugir da cozinha para a segurança da sala. Antes porém de afastar-se por completo, ele tornou a falar:

— A criança vai ter que ser mandada para outro lugar.

— Você também? O que há com Bonnie que deixa todos vocês com tanto medo?

— Não estou com medo. Só estou avisando. A presença dela nesta cidade é fator de perturbação. E o Senhor quer que nos amemos e vivamos em harmonia.

Ela apertou com toda força as alças da bandeja.

— Com exceção de Bonnie.

— Exatamente.

— Mas ela é apenas uma criança.

— Basta um par de mãos para executar o trabalho do demônio.

Indignada, Lílian avançou em direção à sala de visitas. Não sabia qual dos dois era pior: Petúnia ou o marido. Ambos lhe davam na sala, percebeu que caíra em situação ainda mais desagradável do que a que acabara de enfrentar. A discussão era acalorada, os ânimos exaltados.

— É revoltante — dizia a sra. Greeley, servindo-se de outra xícara de café.

— Posso imaginar o que deve acontecer naquele lugar — acrescentou outra mulher.

Havia dez senhoras sentadas na sala de Petúnia. Esta herdara o gosto paterno por ambientes atravancados. Mar­quesas e sofás, poltronas e mesas amontoavam-se em cada espaço disponível. Caixas de laca e estatuetas superlotavam as superfícies das mesas. Lílian precisou ficar segurando a bandeja, enquanto a sra. Dobson fazia lugar. Depois de colocar a carga sobre a mesa, ela acomodou-se ao lado da viúva, pensando quanto tempo permaneceria ali antes de poder formular uma desculpa e ir embora.

— Ela dorme na cama com ele — afirmou a sra. Greeley, com ar de quem sabia o que estava dizendo. Várias das mulheres presentes ficaram boquiabertas de espanto. Todas faziam parte da melhor sociedade de Landing.

A sra. Dobson empertigou-se no sofá.

— Annabel, estou envergonhada de vê-la espalhar tais mentiras. Fique sabendo que Bonnie tem seu próprio quarto.

— Que fica ao lado do dele, não é?

— Bonnie só tem seis anos — interveio Lílian, indig­nada. Às vezes ela fica com medo à noite, o que é natural. Afinal, a pobrezinha acabou de perder a mãe.

— Essa é uma que já foi tarde! — exclamou Petúnia, com ar de mofa.

Lílian começou a levantar-se, mas a sra. Dobson se­gurou-a pelo braço.

— Calma, minha filha — falou baixinho. — Ficar zangada não vai resolver nada.

— Afinal, por que a senhora veio aqui? — A voz de Lílian soou igualmente baixa. — Pensei que gostasse de Tiago.

— E gosto... Pareceu-me interessante descobrir o que sua irmã está tramando.

A sra. Greeley tinha retomado seu discurso.

— O fato de a criança ter ou não seu próprio quarto não é o que verdadeiramente interessa. O problema é a presença dela em nossa cidade. Uma desonra para a comunidade e uma constante lembrança do tipo de pecado de que tanto queremos nos livrar. Se o xerife Potter teimar em recusar a generosa oferta de nossa igreja_ ela fez uma pausa, enquanto Petúnia sorria, modestamente — então, eu diria que devemos afastá-lo do cargo e obrigá-lo a ir embora. Dessa vez para sempre.

— Ele tem contrato assinado — apontou uma das outras senhoras.

A sra. Greeley não se deixou impressionar.

— Vou mandar meu marido verificar esse contrato com nosso advogado ainda nesta semana.

Pela primeira vez, a sra. Dobson interveio:

— O xerife POtter é um bom homem, e temos sorte em tê-lo aqui conosco. Andei me informando, e suas qualificações para o cargo são excelentes. Inclusive é formado em Direito.

Petúnia ergueu as sobrancelhas finas.

— E daí? Por causa disso vamos esquecer o fato de que há sete anos ele teve que fugir dessa cidade, por espancar uma prostituta até quase à morte?

— Ora essa, Petúnia, você sabe que ele foi inocentado da acusação — protestou a sra. Dobson.

— Sim, e pela própria vítima, a prostituta. Se bem me lembro, diziam que ela o conhecia tão intimamente que era capaz de reconhecê-lo na mais completa escuridão. Não acham curioso o fato de ele ter se interessado tanto pela filha dessa mesma mulher?

A implicação sugerida pela irmã não escapou a Lílian. .

— Bonnie só tem seis anos — rebateu. — Tiago esteve... — Detendo-se no meio da frase, ela tomou consciência dos olhares significativos trocados pelas outras. Devia ter se referido a ele como xerife Potter, mas agora era tarde. — Tiago esteve ausente sete anos — continuou. — Bonnie não pode ser filha dele.

— Ah, mas somente temos a palavra da criança para estabelecer-lhe a idade. E seria bem próprio da mãe, mentir, para proteger o amante.

Várias das senhoras concordaram.

Livrando-se da mão da sra. Dobson, Lílian pôs-se de pé.

— Vocês estão loucas! Bonnie não passa de uma criança, igual aos seus filhos. Não fez nada de errado. E quanto a Tiago, apenas está fazendo o que vocês todas tiveram medo de fazer. — Apontou o dedo para a irmã e concluiu: — Você desconhece a caridade cristã. É uma mulher sem coração e cruel. Não a conheço mais!

— Cuidado com o que diz, Lílian. Não se esqueça quem eu sou.

— Sei muito bem quem você é. Aliás, quem são todas vocês. Sinto-me envergonhada por um dia tê-las considerado como amigas. — E Lílian abriu caminho entre o amon­toado de mesas, detendo-se apenas para pegar seu xale e a pequena bolsa. — Sinto muito, sra. Dobson — desculpou-se. — Sei que está do lado de Tiago, mas não adianta querer fazer essas mulheres raciocinarem.

Petúnia levantou-se também.

—Lílian, você está histérica. Volte já aqui e sente-se!

— Nem pensar! — Lílian avançou decididamente para a porta.

Seguindo a irmã, Petúnia foi ameaçando:

— Não lute contra mim. — Sua voz soou baixa, mas furiosa. — Se fizer isso, juro que vou destruí-la!

— Não tenho medo de você.

Mas vai ter. Ah, se vai ter! — gritou Petúnia às costas dela.

N/A: Olá desculpe a demora, mais aqui to eu, vim aqui rapidinho pra postar o 9º cap, ñ posso demorar pq eu praticamente fugi da aula, os q dizem q faculdade é excitante ñ sabem da missa a metade, mais tenho certeza q é recompensador.

Espero q vcs gostem desse cap, depois dessa explosão da Lílian ninguém pode prevê o q ela vai fazer!!!!!!!!!!

Se tiver bastante Reviews, eu posto o próximo até domingo...

Beijos