Capítulo 9 - A revelação

Philippe fez uma pausa na narrativa. Suspirou desanimado. Liselotte estava interiormente surpresa e também um pouco aborrecida. Como ele a trazia ali, contava aquela história misteriosa e ousava parar, logo no auge da ação?

-Como assim? Você já conhecia esses homens?

- Os mosqueteiros aposentados?

-Sim, Philippe! Os velhotes, os tais conhecidos de Marchal...

Ele esteve a ponto de rir. Aquela Liselotte... Se Athos, Porthos, Aramis e D'Artagnan escutassem o termo "velhotes" ficariam indignados.

Respirou fundo e continuou com voz cansada.

-Não, quer dizer, parece que convivemos quando eu ainda era bem pequeno, mas lamentavelmente não me lembro deles.

-E que documentos são esses? Você já leu todo o conteúdo da pasta? Há como saber se ela veio mesmo do rei, seu pai?

-Ela contém, entre outros papéis, uma carta para mim, outra para Louis, uma para a minha falecida mãe e ... ainda uma última, destinada a uma outra pessoa da família. Estão todas fechadas.

-E você leu a sua carta, pelo menos?

-Confesso que ainda não tive a coragem. Mas já sei do que tratam. É algo que precisa ser... provado de alguma forma.

Liselotte pôs-se de pé. Pouco a pouco ia saindo do estado de indiferença dos últimos tempos. Encarou Philippe como que desconhecendo o marido. Parecia desanimado, murcho, sem iniciativa. Até mesmo um tanto apatetado. Teve vontade de segurá-lo pelos ombros e dar uma boa sacudida para ver se ele despertava do torpor. Apesar dos desencontros, tinha grande afeto por Philippe e vê-lo em tal estado não a deixava satisfeita. Conteve-se e procurou ser moderada em suas palavras e atitudes.

-O que dizem, afinal?

-Eu não sei e, na verdade, agora é o que menos importa. Eu descobri que não sou quem pensava ser, Elisabeth. Parece um pesadelo. Tudo na minha vida é falso. Ou quase tudo...

-Não estou entendendo.

-Cheguei à conclusão que Louis pode ou não ser o rei, mas eu certamente não sou Monsieur, não sou o verdadeiro Duque de Orléans.

Liselotte considerou seriamente a possibilidade de o marido estar sofrendo de depressão.

-Como assim? Você é mais parecido com seu pai do que o próprio rei... Não há como ser filho de outro... Os partos reais são realizados em público.

-Não, Elisabeth, eu sou filho de meus pais. O que eu não sou é o secundogênito.


-Como assim, eu não sou eu? Sou filho do mordomo, por acaso? Que abuso!

A voz de Philippe, em tom ofendido, soara um tom acima do recomendado pela prudência. Marchal fechou a cara. Olhou para os lados e acariciou o punhal. Felizmente a taverna estava cada vez mais morta. Apenas o rapazola permanecia. Monsieur estava exaltado, tinha o pavio muito curto e paciência nunca havia sido o seu forte.

Os mosqueteiros olhavam-no com uma expressão calma. Pareciam parentes vendo a criança da família fazer birra. O mais sério deles, saiu de seu quase mutismo e explicou, pacientemente.

-O senhor é, com efeito, filho de seus pais, Louis XIII, rei de França e de Navarra e de sua esposa, a rainha Ana de Áustria, infanta de Espanha. Mas o senhor não é Monsieur, uma vez que esse tratamento é atribuído ao irmão vivo nascido imediatamente depois do rei. Em realidade, Vossa Alteza é o terceiro filho, como poderá confirmar após a leitura das cartas- todas escritas pelo punho de vosso pai e firmadas por testemunhas. Mas continua sendo príncipe e detentor de terras e títulos.

-Lamento, mas continuo sem entender.

Porthos deu um sorrriso, parecia ter simpatizado bastante com Philippe.

-Meu filho..., digo, Vossa Alteza, o que acontece é que há um gêmeo...

Philippe teve a certeza de que eles eram uns loucos. Gêmeo...um absurdo.

-Eu tenho um irmão gêmeo? -o tom era de absoluta incredulidade.

Todos sorriram, menos Philippe e Marchal.

-Você não, filho- explicou Porthos com infinita paciência- quem é gêmeo é o outro.

Philippe deu uma gargalhada. Eram malucos, com certeza.

-O "outro"seria por acaso meu irmão Louis? O rei?

-O próprio. Louis-Dieudonné. Ele tem um gêmeo.

Philippe soltou uma risada, mas parou logo ao perceber que era o único que estava rindo. Todos estavam encarando-o com uma expressão preocupada. Parece que levavam aquela maluquice a sério.

D'Artagnan olhou para Philippe com apreensão. Era aparentemente o mais moço dos quatro. Tinha um forte acento gascão que nem o tempo vivido em Paris conseguira eliminar.

-Nosso amigo Aramis sempre hesitou entre as armas e a carreira religiosa. Ele vai lhe contar, como leal servidor de vosso pai e homem de fé, aquilo que ouviu do Padre Beaulieu, o confessor da rainha, a senhora sua mãe. Aramis era um senhor bonito, de imensos olhos verdes e atitudes serenas, como assentava a um homem de religião.

- A rainha entrou em trabalho de parto ao anoitecer do dia 4 de setembro. Era uma mulher forte e linda. Porém, já tinha 37 anos e um histórico de abortos espontâneos. Todos sofriam junto com ela. Todos esperavam uma criança saudável que assegurasse o futuro da França. Ela sentiu as dores por um dia inteiro. A ordem era que mosteiros, conventos e igrejas rezassem pela saúde de Ana de Áustria e do herdeiro. Ao iniciar a tarde do dia 5, a câmara da rainha em Saint-Germain-en-Laye estava lotada de nobres e religiosos. Finalmente, depois de grande sofrimento, o delfim nasceu. Foi depositado nos braços do rei que, orgulhoso, mostrou o filho aos presentes e logo o chamou de Louis-Dieudonné. Ele estava muito comovido, pois nem ele nem a mulher eram jovens. Parecia que, enfim, Deus resolvera atender suas preces. A rainha perdeu os sentidos e a câmara foi esvaziada. Ficaram o médico, o confessor da rainha, uma freira, algumas criadas e damas. Após examinar a rainha, o doutor falou baixinho ao rei, que ficou muito pálido. Sua Majestade ordenou que ficassem com a rainha apenas o médico, o confessor e a freira. Foi ordenado que os demais seguissem para a grande capela do palácio para rezar o 'Te Deum' em louvor ao nascimento do delfim. O próprio rei seguiu para a cerimônia acompanhando o cortejo do recém-nascido.

Quando retornou aos aposentos da rainha, ele viu o filho ser depositado no berço. O tão sonhado herdeiro era rosado e bem disposto. O médico fez-lhe um sinal discreto. No aposento contíguo havia uma surpresa. No colo da freira -a Irmã Isabelle-dormia serenamente uma outra criança. Tinha lindas bochechas e um dedinho na boca. Estava vestido ricamente e alguém lhe havia atado um laço de fita azul escuro no punho esquerdo.

-Veja, Majestade. Outro menino. É tão saudável quanto o primeiro.

O rei pegou o filho no braços, amorosamente, como havia feito com Louis horas antes. O velho padre percebeu que seus olhos cansados estavam brilhando de genuína alegria.

-Henri-Antoine, em homenagem ao meu pai e ao meu avô. A vida é estranha. Eu que não tinha filho algum, agora tenho dois.