Neve Vermelha

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Disclaimer: Eu desisti de tentar roubar direitos autorais quando me negaram o desejo de ter um Gundam para tais propósitos. Pena.

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File #9

A escolha da noiva

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Noll estava tão imerso em suas conjecturas que quase esqueceu os outros dois componentes do SPR – membros irregulares, mas ainda assim assíduos – que o acompanhavam no caminho de volta para a base na mansão dos Morinozuka. Só se deu conta de que eles ainda estavam ali quando o silêncio entre os três ficou pesado o bastante para ser anormal. Conhecia Bou-san por tempo o bastante para saber que ele era quase tão empenhado em interação social quanto Mai. Era estranho que o monge se mantivesse calado durante todo o trajeto até a casa, por mais impressionado que estivesse com o estado mental de Sano Yuji.

Ou talvez não fosse tão estranho assim. Afinal, ali estavam dois dos três membros mais estóicos do SPR, uma combinação que intimidaria até o mais empolgado interlocutor (leia-se, Taniyama-san). Só faltava a presença de Lin para que aquele silêncio abençoado adquirisse características quase divinas.

- Oi, Naru-bou.

Obviamente, tirara conclusões precipitadas.

- Você está com aquela cara de pensativo que deixa a Mai completamente fora de si. – Takigawa prosseguiu, sem se dar ao trabalho de aguardar a resposta do "chefe". – Posso assumir que você está remoendo algum fator novo?

Naru suspirou. Estaria "remoendo" as pistas com muito mais eficiência se Houshou não tivesse levantado a questão. Mas sabia que aquele tipo de situação era inevitável quando se lidava com seres humanos tão... Humanos.

Experiências passadas provavam que era melhor tentar responder honestamente a esse tipo de pergunta ao invés de esperar que a curiosidade desenfreada de seus subordinados terminasse em tragédia.

- Sano-san informou que as portas do Templo Morinozuka nunca sofreram qualquer tipo de arranhão durante as tentativas de arrombamento. – o cientista explicou, paciente. Diante do olhar perdido do monge, suspirou e continuou. – Isso quer dizer que a miko não só impediu o acesso ao templo, como também ergueu algum tipo de barreira ao redor dele. Algo poderoso o suficiente para absorver ataques físicos.

O monge franziu o cenho, concentrado.

- E isso quer dizer que...?

- Quer dizer que os espíritos desse templo têm poder suficiente para enfrentar simultaneamente todos os membros da SPR aqui presentes.

Houshou arregalou os olhos de repente.

- Até mesmo você, Naru?

Já estavam quase chegando ao fim do corredor que levava à sala onde estavam instalados os monitores. Podiam ver a luz passando pelas frestas da porta de correr – Lin, Mai e Matsuzaki-san já deviam ter retornado da entrevista com Kurosawa Riza. Esperava poder comparar informações com eles.

- Não se eu quiser continuar vivo. – Naru respondeu, terminando de cruzar a distância até a porta e puxando a madeira quietamente.

Foi recebido por uma cena não exatamente inesperada, mas certamente exasperante. Lin estava sentado diante dos monitores, a mão massageando a têmpora em uma obvia tentativa de autocontrole. John e Yasuhara estavam sentados no sofá, assistindo atentamente (o primeiro com preocupação, o segundo com malícia) enquanto Ayako andava de um lado para o outro, discutindo apaixonadamente.

- Foi insensato! E insensível! Totalmente sem propósito e fora de contexto!

Encolhida em uma cadeira de plástico no meio da sala, estava Mai, que fechava os olhos com força a cada alteração no tom de voz exaltado da miko. Abraçava as pernas por baixo dos joelhos, parecendo ainda menor do que era. Os dedos dos pés pressionavam a borda da cadeira, esticando as meias brancas.

Oliver sabia que o SPR sempre podia contar com Mai como imã oficial de sermões. Até mesmo Yasuhara já havia se dado ao trabalho de tentar colocar algum juízo na cabeça da garota, mas isso já havia provado ser ineficaz – se Noll não conseguia fazer Mai se comportar, ninguém conseguiria.

- O que você fez dessa vez, moça? – perguntou Houshou, parando ao lado da cadeira da garota e de frente para a miko.

- Mai resolveu participar da entrevista com Kurosawa-san. – Lin informou, sem olhar para trás.

Naru atravessou a sala até alcançar a mesa com os monitores. Não precisou nem mesmo pedir; a transcrição da entrevista já estava ao alcance de suas mãos assim que se aproximara da cadeira onde Lin estava sentado. O rapaz ocupou-se em ler a conversa enquanto Ayako recomeçava sua ladainha.

- Ela estava fazendo o favor de cooperar conosco quando obviamente não dava nenhum crédito a exorcistas!

- Ayako-san... – Mai gemeu.

- E agora ela provavelmente nunca mais irá sequer escutar o nome da família Morinozuka, graças àquelas perguntas indiscretas!

A senhora ama o seu marido? Naru leu a pergunta. Era a última coisa escrita na prancheta de anotações de Lin, que provavelmente estivera surpreso demais para prosseguir com a transcrição.

- E com que propósito você fez aquela pergunta? O que você estava pensando?

Naru suspirou. Era exatamente o que ele precisava saber agora: o que Mai estivera pensando quando fez aquela pergunta.

- É o que eu estou tentando responder nos últimos trinta minutos. – Mai retrucou, pausadamente, deixando os pés escorrerem do tampo da cadeira e voltarem ao chão. – Foi instinto. Agi sem pensar.

A justificativa só serviu para acrescentar mais alguns tons de carmim no rosto já vermelho da sacerdotisa. Felizmente para a garota, Naru interrompeu mais uma leva de críticas quando assumiu as rédeas da situação.

- Mai está querendo dizer que agiu por intuição, Matsuzaki-san. – o chefe da SPR comentou, aproximando-se do centro da sala até ficar de frente para sua assistente. – E todos nós aqui sabemos que a intuição dela costuma estar correta.

Mai sorriu, aliviada por ter sido defendida da ira de Ayako. No instante seguinte arrependeu-se de ter relaxado, quando ergueu a cabeça para encarar os olhos inquisitivos de Naru. Havia apenas trocado um interrogador por outro, e sabia, por experiência, qual dos dois era o pior.

- Resta saber o quê, exatamente, a intuição dela diz.

Oliver Davis era muito melhor em pressionar as pessoas do que a miko – Ayako não tinha controle nenhum sobre as próprias emoções, mas Naru não só mantinha as suas hermeticamente trancadas em alguma esquina escura de sua mente como também sabia muito bem como conduzir o estado de espírito dos outros. Naquele exato momento, por exemplo, conseguira fazer Mai se sentir pressionada e ansiosa com um simples comentário que não chegava nem mesmo a ser uma pergunta.

Às vezes ela imaginava se o rapaz não havia recebido treinamento militar ou coisa parecida.

- Mou... – Mai começou, incerta. Nem mesmo ela entendia direito como aquele negócio de intuição funcionava, apesar de Naru ter tentado simplificar as coisas dizendo que parecia muito com a sensibilidade que os animais tinham ao perigo. – Eu tenho uma teoria.

Todos os membros do SPR voltaram sua atenção para a garota. Mai quase pôde sentir a pressão imprensá-la contra a cadeira.

- E agora seria o melhor momento para expor essa teoria. – Houshou comentou, sorrindo.

Noll apenas ergueu uma das sobrancelhas. Mai suspirou novamente e começou a brincar com o obi do kimono.

- Ne, já estava com essa idéia na cabeça desde o primeiro sonho. – diante dos olhares curiosos de Yasuhara e Houshou, ela prosseguiu. – Vocês sabem, sobre a miko que vivia aqui. Mikos deveriam ser puras de corpo e de alma, certo?

Takigawa teve um acesso de tosse que foi imediatamente interrompido quando o salto alto de Ayako desceu rapidamente sobre o tênis velho do monge.

- Mas essa miko estava, bem, descaradamente apaixonada pelo, hmm, – pelo Naru-Feudal. Talvez não fosse uma boa idéia chamá-lo assim em voz alta. - pelo rapaz do sonho. Bom, isso ficou martelando na minha cabeça o tempo inteiro. Sabe, a ligação entre a miko, esse rapaz e a maldição.

Mai levou a mão à boca e mordeu levemente o nó do dedo indicador. Lançou um olhar evasivo para Naru, cujos olhos escuros estreitaram quase que imperceptivelmente. Tinha certeza de que o chefe da SPR não gostaria nem um pouco daquela teoria.

- Mai. – ele chamou, o tom levemente desconfiado.

- Estou apenas organizando as idéias, espera só um pouquinho. – a garota mordeu o lábio inferior, aflita. – Bem, eu deixei o assunto de lado devido aos últimos acidentes que ocorreram esses dias, até que algumas das respostas de Kurosawa-san me chamaram a atenção.

Mai levantou da cadeira de supetão e começou a caminhar de um lado para outro, como Ayako estivera fazendo nos últimos minutos.

- Na verdade, essa idéia começou a ganhar força quando Tsukiko-san contou a história dela e das amigas dela, hoje de manhã. – a garota recomeçou, absorta em seus pensamentos. – Mas as respostas de Kurosawa-san confirmaram tudo. Lembram quando ela falou que estava noiva desde os três anos?

Naru franziu o cenho, concentrado. Se não estava enganado, Kurosawa Riza tinha aproximadamente a mesma idade de Morinozuka Tsukiko, vinte e três anos. Se as duas casaram no mesmo inverno, o noivado de Kurosawa durara mais de uma década.

- Logo em seguida, ela comentou que os pais dela marcaram o casamento para o Outono. Eu estava muito impressionada com o tempo em que ela fora uma noiva sem nem mesmo sentir a maldição para prestar atenção na idade com a qual ela fora prometida em casamento, mas depois que parei para pensar a respeito... Bem, ninguém escolhe a pessoa com quem quer casar quando tem três anos de idade, certo. Foi, obviamente, um casamento arranjado. Ela nem mesmo conhecia o marido até o dia da cerimônia.

- Onde você está querendo chegar, Mai? – Ayako exclamou, frustrada.

Mai observou os rostos dos amigos. Será que nenhum deles pensava como ela? Será que nenhum deles havia chegado àquela conclusão, também? O olhar velado de Naru indicava que não.

- Esqueçam todos esses séculos de noivas assassinadas e focalizem só esses três casos, Tsukiko-san, Yae-san e Kurosawa-san. – Mai prosseguiu, olhando para um ponto inexistente acima do ombro de Naru. – Tsukiko-san ficou noiva e casou no inverno, mas foi poupada porque, por alguma razão, os Morinozuka são imunes à maldição. Yae ficou noiva por impulso, repentinamente, e morreu no dia do casamento. Kurosawa-san teve seu compromisso arranjado e sobreviveu a todos os invernos enquanto era noiva. Vocês não estão vendo o padrão? A relação entre esses três noivados?

O silêncio que seguiu foi resposta suficiente. Todos os olhares seguiram para a figura mais brilhante da sala, que era o doutor Oliver Davis, e pessoa que geralmente resolvia todos os mistérios que caiam nas mãos da SPR. Mai era a única que não esperava nenhum tipo de resposta de seu "noivo".

Naru não conseguiria desvendar aquele quebra-cabeça, porque Naru sempre calculava tudo o que pensava e fazia. Ele não entenderia.

Por algum motivo, aquela noção fez com que ela ficasse muito triste.

- Você acha que o noivo de Yae-san a amava, Bou-san? – Mai questionou, quietamente.

Houshou parecia surpreso com a pergunta, e lançou um olhar rápido para Kazuya antes de responder.

- Eu acho que sim. – falou, com a voz fraca. Lembrou do sorriso vazio nos olhos de Sano Yuji, enquanto o rapaz cantarolava sobre neve e sangue. – Sim. Ele a amava.

- Yae-san morava em Yukihime, e era amiga de Tsukiko-san. Ela certamente sabia que corria riscos ao noivar durante o Inverno. Mas nem mesmo hesitou. – Mai continuou, pausadamente. Podia ver as fotos no escapulário de Tsukiko, o rosto sorridente de Yae, a expressão sisuda de Riza. – E morreu. Tsukiko-san não consegue ser feliz por saber disso, por saber que ainda está viva, que sobreviveu até o casamento, enquanto Yae-san consumava a maldição.

Estava tudo muito claro. Tsukiko-san escapara por ser uma Morinozuka, e tinha consciência disso. Sabia que só fora poupada por causa disso, porque se não fosse, teria feito companhia a Yae-san, naquele dia. Estaria morta, mais um espírito para povoar o templo.

Kurosawa-san também não conseguia ser feliz. Não só porque fora obrigada a casar dias depois da morte da amiga, mas também...

- Kurosawa-san disse que nunca vai saber se preferia estar no lugar da amiga infeliz, ou no lugar da amiga morta. – Mai falou. Seus olhos castanhos pararam sobre o azul cobalto de Naru, e lá ficaram. – Porque ela não teve a escolha que as outras duas tiveram. É isso o que diferencia as noivas de Yukihime.

Os olhos de Naru endureceram, e Mai percebeu que ele tinha entendido. Não da forma como ela entendera, mas sim a conclusão lógica que poderia obter daquela teoria.

- Naru falou, no avião, que os objetos de compromisso marcavam a noiva, mas não parecia haver um padrão específico para a escolha das vítimas. Acho que posso dizer o que é. – Mai afirmou, convicta. Os olhos de Naru pareceram congelar. – É amor.

A sala foi envolvida por um silêncio sepulcral durante os segundos que seguiram. Depois, explodiu.

- Mas o que você está dizendo, Mai? – Houshou falou, estupefato.

- Você está falando isso levando em conta apenas três casos... – John ponderou.

- Como o espírito da miko poderia medir uma coisa tão abstrata? – comentou Yasuhara, com um sorriso.

Mai virou bruscamente para encará-los.

- É a única explicação, e se encaixa perfeitamente em outros casos. Ao longo de trezentos anos, muitas noivas foram sacrificadas naquele altar, mas nem todas as pessoas que marcaram casamentos para o Inverno foram vítimas da tragédia, incluindo os Morinozuka. Ninguém havia achado nenhum "critério" de escolha de vítimas porque pareciam casos completamente aleatórios, mas a verdade é que a miko está, sim, escolhendo as noivas. – Mai respirou. Todo aquele discurso deixara-a sem fôlego. – Escolhe apenas os casais que firmaram um compromisso por amor. É por isso que Kurosawa-san não está morta. Ela nem sequer conhecia o noivo, como poderia amá-lo?

Bou-san e John arregalaram os olhos. Yasuhara assumiu uma expressão pensativa, enquanto Masako continuava calada e imóvel como uma boneca japonesa. Com um suspiro cansado, Mai voltou para a cadeira onde estivera sentada e descansou as mãos no colo. Sabia que não conseguiria ser lógica e provar aquilo para eles quando seu principal argumento era um sentimento. Para cientistas, sentimentos não são exatamente confiáveis, já que a maioria dos estudiosos acredita que 'Amor e Cia' são apenas derivados inconvenientes de hormônios e sinapses neurais.

O doutor Oliver Davis, por exemplo, havia catalogado aquela teoria como "suposição infundada" no momento em que Mai vomitara a palavra "amor".

- Há alguma forma de você provar isso? – Naru contestou, calmamente. – Usando apenas três casos, onde apenas uma das noivas foi amaldiçoada?

Mai olhou tristemente para o chão de madeira corrida. Já havia previsto aquela reação, mas mesmo assim sentia-se atordoada diante do ceticismo do "noivo".

- Eu acho que ela tem razão. – a voz confiante de Ayako cortou o silêncio.

'E agora ela está do meu lado?', Mai observou, erguendo as sobrancelhas, admirada. Para alguém que estivera prestes a irromper em chamas momentos antes, a miko era a perfeita imagem da calma quando olhou para Mai, os olhos escuros brilhando, compreendendo. A garota virou para olhar os outros: o monge e o padre pareciam concordar com a colega; Yasuhara e Masako não pareciam ter nenhuma opinião formada. Lin estava sentado na mesa dos monitores, às suas costas.

E diante dela, Naru encarava com obstinação adamantina.

- Mesmo que essa teoria tenha algum fundamento, eu ainda preciso pesquisar a respeito, enquadrar os exemplos. – o rapaz informou, friamente. – E então, se você estiver correta, poderá respirar aliviada.

Primeiro, os olhos castanhos e expressivos de Mai ficaram confusos, tentando encaixar aquela colocação no discurso de Naru. Depois, arregalaram, horrorizados, e nublaram com as lágrimas contidas bravamente.

Era isso mesmo que ele achava, não era? Desde o início. Por todo aquele tempo. Cientista idiota, com certeza.

Levantou da cadeira como se houvesse levado um choque, e caminhou a passos largos até a porta, sem olhar para ele nem uma vez mais. Parou diante da porta, lívida.

- Não, Naru. É você quem vai respirar aliviado, se eu estiver certa.

A voz saiu baixa e controlada, como havia aprendido dele nos últimos três anos de convivência. Sem mais nenhuma palavra, Mai abriu e fechou a porta, sob o olhar espantado da maioria do SPR. Naru não se virou para a porta nem mesmo quando escutou o som dos chinelos de madeira disparando pelo corredor.

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Mai correu por um longo tempo, mas não derramou nenhuma lágrima. Na verdade, corria tão rápido que o vento frio acabara secando seus olhos. Quando finalmente parou, eles ardiam tanto que as lágrimas secas teriam sido muito bem vindas. Respirou e inspirou diversas vezes antes de olhar ao redor e perceber que estava completamente perdida.

Para fechar o dia com chave de ouro.

A mansão dos Morinozuka era muito antiga, e a maioria dos corredores tinha forma e comprimento semelhante. Fazia Mai lembrar os labirintos de tatame presentes nas lendas japonesas e em alguns jogos de videogame que batera quando ainda tinha tempo para eles. Também não tinham eletricidade e precisavam ser iluminados por lamparinas, o que era muito perigoso em um local cuja matéria-prima consistia principalmente em madeira e papel. E era por isso que apenas as alas habitadas da casa eram iluminadas.

Ou seja, Mai estava parada no meio de um corredor escuro e aleatório de uma mansão gigantesca, perdida, desorientada e cansada. Com fome, também. Puxou da memória o palavrão mais criativo que conhecia e fez bom uso dele. Encostou numa parede e escorregou até o chão, encolhendo as pernas e encostando a testa nos joelhos.

Precisava se acalmar. Precisava ser lógica. O comentário dele não havia sido tão surpreendente, ou ofensivo. Ele estivera apenas recitando sua opinião. Claro que Naru pensava daquele jeito – ela nunca tentara fazê-lo entender o contrário, certo?

Fazê-lo entender que ela seria a próxima vítima da miko, sem sombra de dúvidas.

Rosnou para a seda que cobria suas pernas. Naru deveria ser um gênio, certo? Como ele podia não notar o coração acelerado, os sorrisos gratuitos, a felicidade sem sentido – o fato dela persistir naquele emprego, mesmo com os casos arriscados e as mudanças bruscas de humor. Estava tudo lá, diante dele, porque ela não colocaria aqueles sentimentos em palavras como fizera da última vez, porque ele não entenderia. Não esperaria por respostas ou retribuições, mas tentara canalizar tudo nos gestos que pareciam valer mais para ele do que qualquer tipo de discurso.

Tivera a esperança de que ele havia entendido. Mas Naru sequer notara. A mente dele estava presa naquela noite, meses antes, quando havia negado a possibilidade de que Mai pudesse gostar dele daquela forma especial. Porque Naru acreditava que apenas Gene poderia ser amado.

O coração de Mai quase explodiu de tristeza. Quando as lágrimas vieram, choraram por ela e por ele, porque os dois estavam sozinhos. A lua já entrava pelas janelinhas compridas e gradeadas do corredor mal-iluminado quando os soluços deram lugar ao ressonar de um sono profundo e agitado.

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Era noite, novamente. Noite fria – estava usando diversas camadas de tecido para se manter aquecida, enquanto caminhava pela neve espessa. Seus pés afundavam vários centímetros a cada passo, mas parecia já estar acostumada com aquele tipo de caminhada e mantinha o equilíbrio com facilidade. O capuz que cobria o rosto por completo dificultava a visão periférica, mas no momento em que os olhos ergueram do chão congelado, Mai pode ver que estava no fim da antiga vila que se tornara a mansão dos Morinozuka, e que havia uma carruagem simples esperando logo após as últimas casas, quase escondida por um emaranhado de arvores enormes.

A miko estava fugindo no início do Inverno, como o combinado. Podia sentir a ansiedade e a culpa dela como se fossem suas. Não havia ninguém nas ruelas do vilarejo, mas ela continuava lançando olhares nervosos para os lados. Correu a distância que a separava da carruagem, tropeçando várias vezes. Parou para respirar ao lado da roda de madeira envolta em correntes de ferro, pronta para andar em estradas congeladas, e quase teve uma experiência extracorpórea quando uma mão pálida tocou seu ombro.

Uma risada cristalina fez com que o medo derretesse como a neve na primeira chuva de Primavera.

- Assustei você? – Naru-Feudal perguntou, a voz rouca, enquanto abraçava a miko fortemente. Mai sentiu a mente ficar leve demais, e uma tontura que parecia estranhamente familiar.

Ah, sim. A mesma tontura que vinha sem ser convidada toda vez que Naru encenava seu papel de noivo de forma impecável.

- O que você acha? – a miko sibilou, com um quê de irritação na voz. Mai sabia que ela estava apenas tentando esconder o alívio que sentira ao ouvir aquelas palavras.

Naru-Feudal não se enganou.

- Também senti a sua falta. – ele disse, placidamente. Mai podia jurar que seu coração tinha mudado de posição depois do salto que dera. – Fico meio irrequieto quando você não está por perto.

Foi a vez da miko sorrir, enterrando ainda mais a cabeça no peito dele. Mai achou que ele tinha cheiro de chuva, mas podia estar enganada – Naru recendia a chuva, também.

- Está apenas procurando justificar a sua usual insensibilidade e ainda jogar a culpa em mim. – a resposta foi abafada pelos vários centímetros de tecido que cobriam a pele dele, mas ainda assim Naru-Feudal escutou.

- Tudo o que eu sou é culpa sua. – ele riu, quietamente. – Mas vamos deixar essa conversa para depois, miko-sama. Sua carruagem está prestes a partir.

O rapaz puxou a miko para a parte de trás da carreta coberta e empurrou o pedaço de pele grossa que cobria a entrada. Ajudou a mulher a se equilibrar enquanto subia, e a mente da miko fez Mai notar o quão macia e gelada era a mão dele.

No segundo seguinte, uma flecha prendia o ombro esquerdo dele contra a madeira da carruagem. O coração da sacerdotisa – o coração de Mai – errou uma batida, e então afundou quando ela virou para olhar. Com um movimento das mãos, a mulher fez a flecha saltar para longe do ferimento, quebrada no meio. Sem nem pensar duas vezes, colocou a mão sobre o ferimento e reuniu aquela energia que fazia a pele de Mai saltar, canalizando-a para recuperar os tecidos lacerados. No instante seguinte, apenas a mancha vermelha do sangue lembrava que o rapaz havia sido atingido.

Outras flechas voaram em direção à carruagem, mas todas pararam no ar, no meio do trajeto, antes de partirem em vários pedaços e caírem por terra. Mai podia sentir a adrenalina correndo em suas veias, bem como a ira, e o medo.

Só após verificar o ferimento regenerado a miko conseguiu virar o rosto e encarar os atacantes. Haviam vários rapazes usando peles para se aquecer, montados em cavalos e com flechas armadas apontadas para a carruagem. No meio deles, estava um homem austero, de cabelos grisalhos firmemente presos num coque no alto da cabeça.

Chichiue,a mente da miko ecoou, desesperada, por todos os deuses, não, Chichiue descobriu.

Uma nova chuva de flechas ameaçou o casal e foi triturada pelos poderes PK da miko. Depois da terceira investida, os atacantes desceram dos cavalos e desembainharam as espadas. Mai soube, naquele instante, que a miko estava cansada demais para lidar com todos eles sem arriscar a própria vida. Ela também não queria machucá-los.

Naru empurrou o corpo dela para trás, gentilmente, e colocou o punho sobre o cabo de sua espada presa na cintura. A postura imóvel dele indicava que ele sabia se defender muito bem. A mente da miko, no entanto, sabia que ele não sairia vivo daquele combate.

- Chichiue. – a miko gemeu, implorando. – Por favor.

Mas os olhos do velho não estavam sobre os dela. Não, estavam fixos no rosto de Naru. Escuros, medonhos, perpétuos.

- Esta mulher pertence ao templo. Ninguém pode tocá-la. – o sacerdote falou, numa fúria velada. – Você não pode tê-la.

- Eu não tenho absolutamente nada. – Naru retrucou, entre dentes. – Porque ela não é propriedade de ninguém, apenas dela mesma.

O ancião sorriu. O som fez um arrepio desagradável subir pela espinha de Mai.

- Ah. Você não pensa assim, ou não teria marcado ela como sua. – os dedos longos das mãos enrugadas indicaram a miko. – E com uma coisa tão chamativa.

A miko olhou para baixo, para a pulseira de contas vermelhas pendendo inocentemente de seu pulso. Amaldiçoou a própria ingenuidade.

- Uma marca do que eu sinto por ela. Para que ela não esqueça, como eu não vou esquecer.

O riso assustador tornou a reverberar pelas árvores, e o velho senhor estalou os dedos. Atendendo ao sinal, os guerreiros atacaram Naru. Os três primeiros foram rapidamente derrotados, mas ainda haviam dezenas. Mai, a miko podia ver, claramente, o destino de Naru se aquela batalha continuasse por um segundo sequer.

O poder fluiu por seu corpo facilmente, e um pulso poderoso fez todos os adversários se afastarem como que soprados por um vento sobrenatural. Os cavalos correram do lugar, relinchando, assustados.

- Pare. – a miko pediu, quietamente, os olhos encarando o pai, desafiando.

O sorriso de escárnio persistiu nos lábios crispados do velho.

- Eu estou vendo o seu rosto empalidecer a cada segundo, menina. Você não conseguirá manter essa luta por muito tempo. Está cansada, e precisa ir para casa.

- Sim, ela está cansada. E a culpa é sua, por forçá-la a definhar diariamente enquanto dá tudo o que possui pelo bem dessa vila. – Naru interrompeu, obviamente possesso. Também havia um quê de desespero naquela voz.

- Sim, definitivamente precisa ir para casa. Como seu pai, preciso protegê-la das impurezas do mundo. – o velho prosseguiu, o sorriso torto grudado no rosto. – Venha, minha filha, está tudo bem agora. Esse seqüestrador será devidamente punido.

A miko estava furiosa. Mai compartilhava a raiva dela, vigorosamente.

- O quê? – a mulher exclamou, tremendo.

- Ora, mas como é tola. Eu sei que esse moleque envenenou sua mente e ludibriou seus sentidos para fazê-la vir até aqui, esta noite. Mas não se preocupe. Basta acusá-lo, e poderá voltar à sua rotina normal, sã e salva.

Naru apertou a mão dela com força, a espada ainda em riste.

- Ele será condenado e você nunca mais tornará a vê-lo.

Algo na voz dele fez com que a miko soubesse exatamente que tipo de condenação Naru receberia. A fúria subiu vários graus.

- Eu vim aqui com meus próprios pés.

- Ah, é isso o que você acredita. Mas assim que o moleque for executado, esse feitiço vai desfazer e você voltará a ser o que era antes.

A filha obediente, a miko dedicada, a mulher infeliz. Mai sentiu suas unhas enterrarem na palma fria da mão de Naru.

- Estou aqui por livre espontânea vontade.

Um brilho muito, muito perigoso relampejou nos olhos escuros do velho sacerdote.

- Ah, nesse caso, você teria que ser condenada no lugar dele, não é verdade?

- Não! – Naru gritou. Não demorou nem mesmo um segundo para que ele aceitasse um destino sombrio diante daquela ameaça. – Eu admito que sou o responsável pela...

Mai sentiu vontade de gritar, espernear, rasgar alguma coisa. A miko sentiu uma calma repentina e falou com uma autoridade quase divina.

- Ele continuaria livre?

O silêncio pairou pela orla da floresta como a calmaria da tempestade de gelo. O sacerdote estreitou os olhos.

- Se você veio aqui porque quis, a culpa é sua, menina. – ele tornou a sorrir. – Basta declarar, agora, que foi forçada a aparecer aqui esta noite.

O rosto da miko continuou impassível. Naru virou de repente, para encará-la, suplicante. Os olhos dele tremiam, escuros como nunca, e pareciam gritar, implorar. Por um breve momento, a mulher olhou de volta, resoluta, e sorriu.

- Por favor. Não faça isso. – ele pediu, baixinho. – Não vale à pena.

- É a única coisa que vale a pena. – ela respondeu. Depois encarou o próprio pai, serena. – Eu amo este homem. Vim aqui por causa disso, e não por qualquer ameaça. Se o que eu sinto é um crime que me custará minha própria vida, que seja. Não me arrependo.

A cena passou como um borrão, no segundo seguinte. Vários dos guerreiros cercaram a miko e seguraram-na pelos braços. Ela não tentou resistir – Mai podia sentir a dor letárgica e aguda da exaustão causada pelo PK.

Naru foi detido contra a carruagem, alvoroçado. Gritava e se debatia enquanto ela era empurrada brutalmente até um dos cavalos, e tinha mãos e pés amarrados com força o bastante para parar a circulação sanguínea. Mai estranhou a paz que tomava conta do espírito da mulher depois de tomar aquela decisão.

- Sayuri! Sayuri! Por favor, Sayuri, retire o que disse! – Naru gritava, inconformado, enquanto a miko era jogada sobre a sela de um dos cavalos, inerte. – Sayuri! SAYURI!

A miko fechou os olhos diante do último grito. Quando Mai tornou a ver, a cena estava diferente. O mundo não estava mais sendo filtrado pelos olhos da miko, e era um dia branco, muito branco, numa planície coberta de neve. Mai se viu ajoelhada no meio de toda essa neve. Naru estava diante dela, também ajoelhado, olhando em sua direção.

O olhar opaco indicava que não estava vendo nada. Não havia nada nem ninguém ao redor dos dois – nenhuma casa, ou árvore, ou pessoa. Só Mai, Naru e uma espada desembainhada.

- Sayuri.

Mai arregalou os olhos. Naru ergueu a espada diante da cintura, no lado direito. Os olhos continuaram vazios quando a lâmina perfurou o corpo, mas o rosto contorceu de dor, por reflexo. Naru puxou a lâmina para o lado, rasgando ainda mais a pele e as entranhas.

Ondas de náusea assaltaram a garota quando o sangue começou a jorrar profusamente do ferimento. Naru sorriu debilmente quando seus joelhos não suportaram mais e seu corpo caiu para frente, atravessando Mai. A menina levantou num salto e deu vários passos vacilantes para trás, os olhos vidrados no corpo moribundo. A neve estava muito vermelha.

Yuki. Yuki. Yuki. Yuki. Yuki.Por quê?

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- YUKI! – Mai gritou, desesperada, agarrando a primeira coisa que apareceu em sua frente depois de acordar do sonho.

A "coisa" em questão era John Brown, e as feições do padre estavam representando toda a preocupação que ele estava carregando naquele momento. A garota demorou alguns segundos para reconhecer aquele rosto familiar antes de começar a arfar loucamente.

John pareceu ainda mais preocupado depois disso.

- Mai-kun, respire fundo. Tente se acalmar. – John pediu, com aquela voz calma e ritmada que todos os padres pareciam ter. Mai encostou a testa na frente das vestes negras dele, a cruz que pendia do pescoço marcando a pele dela. – Você estava sonhando. Já está acordada, agora.

'E fria como a morte', John pensou, rezando silenciosamente para que a pele dela assumisse um tom mais vivo. Mai começou a balbuciar.

- Yuki... Era o nome do meu Naru, no sonho... Ele se matou... – ela inspirou forçosamente, mas o ar não entrava em seus pulmões. – Ela foi condenada... O sacerdote! E a neve... Ela escolheu...

- Mai-kun, respire primeiro. Nós vamos escutar o que você tem a dizer quando você estiver melhor.

- Ela escolheu morrer. – Mai gemeu, fracamente, sem fôlego.

Nos minutos seguintes, John tentou ajudar Mai a levantar e caminhar, apoiando-a pela cintura e passando um braço dela pelos ombros, mas sem sucesso. Ela continuava com o olhar vidrado, arfando, descontrolada, e repetindo aquele nome na cabeça. Yuki, Yuki, Yuki.

O nome dele era Yuki. 'Não era Naru. O nome dele era Yuki. Naru ainda está vivo. Não precisa se preocupar. Não precisa enlouquecer', pensava, como um mantra. Em algum lugar de sua mente conturbada, sentiu uma pontada de culpa por estar pensando assim, por estar tão aliviada, por querer tanto confirmar que aquele era Yuki, e não Naru. Mas depois de assistir aqueles olhos escuros perderem a vida antes mesmo do corpo seguir o mesmo caminho, Mai não pôde deixar de sentir como se estivesse morrendo, também. Precisava se certificar de que aquele no meio da neve vermelha não era Naru.

A voz dura e cortante soou como as badaladas dos sinos celestes.

- Mai.

A garota riu, fracamente, e seus joelhos cederam de uma vez. Pego de surpresa, John perdeu o equilíbrio e quase caiu por cima dela. Ele e Naru trocaram algumas palavras incoerentes enquanto o padre tentava levantá-la novamente.

- Erga o corpo dela novamente.

O cheiro de chuva antecipou os dedos frios que escorreram por sua nuca até seus ombros. No instante seguinte, estava sendo carregada, a cabeça pendendo para trás.

- Consegue levá-la?

- Ela emagreceu muito nos últimos meses. – Naru respondeu, simplesmente, enquanto chacoalhava levemente os ombros dela para que a cabeça castanha encostasse em seu peito. A respiração entrecortada da garota imediatamente ganhou um ritmo normal. – Vá na frente e avise Matsuzaki-san para preparar um futon no quarto dela. Quero que ela sele o aposento completamente. Mai já teve sua cota de sonhos por hoje.

- Vou reforçar uma barreira. – John respondeu, e logo Mai escutou passos apressados clicando no chão de madeira.

Os dedos frios e compridos seguravam seu ombro com força, e o andar constante teve o efeito de acalmar o coração agitado da garota.

- Você é idiota e inconseqüente, Mai. – a voz era impaciente, e muito viva.

Quando aquilo havia começado? Não conseguia definir. No começo ele era só arrogante e narcisista. Depois, arrogante e admirável. Quando se apaixonara pelo sorriso de Gene e pensava que aquele "Naru" que aparecia nos sonhos era apenas seu subconsciente, reclamava sem parar daquela atitude prepotente, daquele egoísmo desmedido.

E então notara as pequenas-grandes coisas. A moeda que falava. Agüentava calado enquanto ela o acusava de ser insensível quando, na verdade, ele era muito mais bondoso do que ela própria. Procurava explicar aquilo que sabia de forma didática, para incluí-la na investigação. A dor oculta pelas palavras frias e pela atitude pragmática.

Os sorrisos relutantes.

A lembrança de Gene – e daquele sentimento especial que sentira por ele por causa daqueles sonhos – foi se tornando distante, quase inacreditável. A presença de Naru preenchia tudo, significava tudo, a ponto de Mai se perguntar às vezes como era sua vida antes dele. Lembrava um pouco dos pais e do conforto de ter uma família. Lembrava da dor de perdê-la. E o resto, todo o resto, era Naru.

'Isso é ridículo', concluiu, por fim, enquanto os passos deliberadamente calmos e o cheiro de chuva embalavam sua mente de volta ao sono. 'Absolutamente ridículo'.

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Não tornou a sonhar naquela noite. Quando tornou a recobrar a consciência, estava encolhida em um futon, debaixo de dezenas de cobertores grossos. Não lembrava como viera parar ali. Também não lembrava ter trocado o kimono por aquele pijamão folgado que pegara emprestado de Naru no dia anterior.

Sua mente relampejou com a imagem de Naru caído sobre a neve vermelha, e Mai levantou imediatamente da cama, nervosa. Arrependeu-se no segundo seguinte, quando sua cabeça batucou como a bateria de uma escola de samba brasileira.

- Itai. – gemeu, segurando a cabeça com as duas mãos.

- Naru comentou que você sentiria muita dor de cabeça quando acordasse, então eu seria gentil nos movimentos, se fosse você.

Mai reconheceu a voz de Ayako e abriu um olho. Diante dela havia um copo de vidro cheio de água e um comprimido, ambos segurados por mãos de unhas muito vermelhas. A garota aceitou de bom grado, espiando a miko com o rabo do olho enquanto virava o conteúdo do copo para conseguir engolir o remédio.

- A palavra exata que ele usou foi "cefaléia", mas acho que você não iria entender se eu usasse esse termo.

Fulminando a miko com os olhos, Mai jogou as cobertas para o lado e sentou melhor no futon. Tremeu um pouco pela falta do calor provido pelos lençóis, mas procurou ignorar enquanto o frio repentino clareava suas idéias. O quarto iluminado provava que já era dia.

- Eu dormi a noite toda? – perguntou, incrédula.

- Todinha. – Ayako confirmou, satisfeita. Depois apontou para as quatro paredes do quarto. – Naru pediu para que eu fizesse uma kekkai para manter os espíritos longe de você. Houshou e John também fizeram algumas coisas lá fora.

Quatro ofudas compridos estavam grudados nas paredes, um em cada ponto cardinal. Mai soltou a respiração que não percebera ter prendido – estivera mesmo apreensiva diante da possibilidade de tornar a sonhar sobre aquela maldição. Mas precisava engolir aquele medo se quisesse ser útil naquela investigação.

- Os nomes deles eram Sayuri e Yuki. – falou, lentamente. Ayako ficou surpresa. – Ela era uma miko bastante poderosa, no vilarejo que existia nessa mansão. Eles se apaixonaram e planejaram fugir para Edo.

Os olhos da miko ficaram mornos e compreenderam.

- As regras para as sacerdotisas eram bem mais rígidas, antigamente.

- Eles foram descobertos. O pai dela ofereceu as opções. Ela escolheu assumir a verdade ao invés de acusá-lo, e foi levada para ser executada. – Mai engoliu em seco. – Ele se matou logo depois.

Penalizada, Ayako afagou os cabelos curtos da amiga.

- Nos meus sonhos, eu sempre sou a miko. E Naru é sempre o rapaz que ela ama.

- Entendo. – a ruiva falou, quietamente. – Você vai ter que repetir isso para Naru e Lin, quando eles voltarem.

Os olhos castanhos da garota ficaram curiosos. Ayako achou a mudança mais fácil de lidar do que os olhos perdidos que ela usara até segundos antes.

- Bom, depois da sua teoria ontem, Naru chegou à conclusão de que a forma mais fácil de entender tudo e terminar logo com isso é usar psicometria no altar do Templo.

A outra levantou do chão num átimo.

- O quê? Mas ele...

- Ele sabe o que faz, Mai. Ao contrário de você. – a miko brincou, levantando também e empurrando a garota para o banheiro conjugado. – Tome um banho quente e escove os dentes, e depois volte aqui para sentar e esperar, quietinha, seu "noivo" voltar. Lá fora não é mais seguro para você.

Mai abriu a boca para protestar, mas os lábios de Ayako contraíram como de uma mãe irritada. Suspirando, conformada, a garota arrastou os pés até o banheiro e encostou a porta sem muito entusiasmo. Uma olhada no espelho já foi o suficiente para fazê-la odiar o dia: estava desgrenhada como uma bola de pelo regurgitada por um gato, tinha olheiras mais profundas do que o Fosso das Marianas e estava mais pálida do que o normal – mais do que Naru, por Buda!

Suspirando, admitiu que precisava de um belo banho. Encolheu as mangas para lavar as mãos e molhar o rosto. Só lembrou de tirar o anel de noivado – para não desgastá-lo – quando já tinha esfregado bastante os olhos com a água térmica de pia.

Como fazia todos os dias – quando precisava fazer alguma atividade que pudesse danificar o anel – Mai estendeu os dedos para puxar o círculo de ouro da mão direita. Arregalou os olhos.

O anel não saíra.

Mai respirou fundo e puxou novamente. Podia ser apenas momentâneo. Apenas um reflexo do nervosismo e ansiedade.

O aro de ouro persistiu no dedo anelar direito.

"Quando o seu anel, aquele que você vai ganhar hoje, ficar preso no seu dedo. Tome cuidado. Isso quer dizer quer está quase na hora."

- Ayako. – Mai chamou, cautelosa. – Meu anel está preso.

Assim que terminou de falar, Mai ergueu seu semblante assustado para o espelho. Ali, encarando-a de volta, estava uma figura pálida e excepcionalmente bonita, de cabelos muito compridos e olhos rasgados. Não conseguiu nem mesmo gritar de horror – as mãos pálidas e duras saltaram do espelho e agarraram a frente das vestes de Mai.

Ayako escancarou a porta no exato momento em que o corpo de Mai desaparecia pelo espelho, seu grito agonizante ecoando como uma despedida sufocada.

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File #9 – Closed

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N/A: Antes de mais nada, sinto muito pela demora. Também sinto muito pela ortografia, estou bêbada de sono. E por fim... Não me matem pelo cliffie! (cara de Gato de Botas). Não conseguia escrever mais. As palavras estão todas embaralhadas nos meus dedos (quase dormindo no teclado).

Mas, gostaria de agradecer: às pessoas que me escreveram reviews (grandes, curtas, loucas, normais, para todos os capítulos, para um capítulo), às pessoas que leram mais não comentaram, pessoas que colocaram nos Favorites ou Alerts, pessoas que ainda vão ler e... Cami Elize, por ter me inspirado a escrever esse capítulo com aquela conversinha no MSN (a propósito, boa sorte nos trabalhos de Química, moça).

Espero que tenham gostado de ler! Estou escrevendo isso desde as sete horas da noite...

Yume

PS: Etiene, coloquei um pouco mais de sangue e terror para você! Próximo capítulo tem mais alguns litros de plasma sanguíneo esparramado por aí, não perca, kukuku!