Capítulo 9:

"O que pensa que fará? "Morse encarou Dean, em tom questionador."Desafiará o monstro para um duelo ao meio-dia?"

"Sabe que não é má idéia..." Nessas horas eu tinha a mais absoluta certeza de que alguém tinha deixado meu irmão cair do berço porque, quem, em sã consciência, pensaria em desafiar um pretenso Cavaleiro-Fantasma possuído para um duelo? " O que você acha, Sammy?"

"Sinceramente? Acho que o sol fritou seus miolos, cara"

" E você estava há pouco nos tomando por loucos por querermos explodir aquela coisa" Colt cruzou os braços sobre o paletó empoeirado. "Ainda penso que nossa melhor chance está em soterrarmos o maldito, o que nos dará tempo suficiente para realizarmos um exorcismo em segurança."

"Olha, Dean, talvez o cara esteja certo."Por um momento tive que concordar com Samuel Colt. "Talvez apenas exorcizar o demônio resolvesse o problema porque o bandido, definitivamente, não sobreviveria à avalanche de pedras que cairia sobre ele." Um plano um tanto dramático, mas viável.

"Você está brincando, não é, Sammy?"

"Não. Não estou" Ele estava me olhando daquele jeito outra vez."Só acho que loucura por loucura, podemos tentar a deles, já que estamos aqui e toda essa porcaria explosiva já está enterrada onde deveria."

"Certo" Dean apertou os lábios e estreitou mais ainda as sobrancelhas, largando Morse de seu abraço. "Então agora são três contra um e eu sou voto vencido." Um bico, um estalo e aquele sorriso de lado no canto direito do lábio. Isso não era bom. Não era nada bom. "Acho que vou levar o meu traseiro até aquela carroça e assistir de camarote os três patetas quebrarem a cara."

"Qual é, Dean. Ninguém está te colocando de lado. Só acho que devemos dar algum crédito a eles. Vai que funciona?"

" Você não aprendeu nada, não é Sam?" Dean deu-nos as costas, voltando para a carroça. "Depois não vai dizer que eu não avisei."

Colt e Morse adiantaram-se para terminar de preparar a armadilha para o Cavaleiro-Fantasma.

Dean nos observava de longe com a insatisfação estampada no rosto e a impaciência no ritmo em que a bota batia contra a madeira do carroção.

Juntei-me aos dois para acelerarmos o serviço e sairmos daquele lugar o mais brevemente possível porque aqueles calafrios insistiam em subir pela minha coluna.

Aguardamos o entardecer, hora em que, segundo nossos amigos do passado, o Cavaleiro-Fantasma costumava surgir no encalço das diligências que chegavam.

Não demorou muito para que Colt reagisse à nuvem de poeira que observava ao longe através das lentes de sua luneta. Ele gritou para que Dean levasse a carroça para a curva depois da ravina e a escondesse lá.

Meu irmão obedeceu contrariado e se juntou a nós, em seguida, sentando-se atrás de uma das rochas que nos servia de escudo.

Não queria admitir, mas algo lá no fundo do meu estômago estava me dizendo que poderíamos ter surpresas desagradáveis.

A diligência se aproximava numa velocidade absurda, com os cavalos babando e se atravancando ao som das chibatadas do cocheiro que ressoavam, em estalos, no ar acima dos animais. O som das rodas se chocando com o solo e os estalos dos arreios era ensurdecedor.

'Em instantes, apareceu, entre a poeira levantada pela corrida, o demônio que havia nos colocado naquela enrascada, acompanhando o galope frenético da carroça. A minha vontade era de descer e esganá-lo. Na verdade, é ridículo para um caçador pensar desse jeito..."

Pois bem, assim que passaram por nós, Colt acionou o detonador e explodiu a base do despenhadeiro.

...E CABUUUUUMMM!!!

Vimos toda a lateral esquerda da parede desabar sobre o cavaleiro que seguia a diligência de perto. Uma massa espessa de pó se espalhou por todo o corredor, enchendo nossos pulmões e olhos de poeira.

Uma chuva de fragmentos caiu sobre nós e, quando pude finalmente abrir meus olhos e respirar novamente, percebi que Colt e seu parceiro já entoavam o ritual de exorcismo junto ao monte de escombros.

A fumaça negra saía por entre as pedras amontoadas, subindo pelo céu alaranjado do pôr-do-sol, misturando-se ao que restava da nuvem acinzentada que baixava aos poucos.

Meu primeiro impulso foi correr até eles e recitar o ritual do exorcismo romano que, pelo jeito, aqueles sujeitos não sabiam, porque o que eles usavam, só afastaria o demônio e não o mandaria de volta ao inferno, mas meus olhos pararam no risco vermelho que se formara no rosto de meu irmão.

Dean estava inconsciente, com um baita galo na testa e um corte que eu teria que costurar mais tarde. Corri até ele e o sacudi, mas sem resposta. Tinha sido uma pancada e tanto e o sangue já escorria pela gola da camisa, misturado ao pó de pedra e terra que cobria seu rosto.

***

_ Como? Não, senhora. Meu irmão não morreu, felizmente. Ele estava aqui agorinha mesmo, lembra-se? Sim, é o mesmo. Dean é meu único irmão. Mas levei um susto danado.

Olhei por sobre meus ombros a tempo de ver o rolo de fumaça negra desaparecer no ar. Aquilo ainda não tinha acabado, isso era certo.

Morse correu em direção à carroça e Colt aproximou-se de nós.

"Você tem um lenço?" Estiquei a mão livre em direção a Colt. "Dean está ferido. Preciso limpar isso."

"Tome" Samuel Colt abaixou-se ao meu lado e retirou do bolso interno do paletó uma pequena garrafa prateada." Lave o ferimento com isto, vai ajudar."

" Dean vai ficar puto quando acordar." Limpei a poeira com o lenço, como pude e lavei o corte com a bebida alcoólica. " Ele vai ficar puto e com razão..."

"Vamos tirar seu irmão daqui, Samuel." Morse saltou da carroça e ajudou-me a carregar Dean.

***

Voltamos à cidade, como saímos. Procuramos ser discretos e usamos os becos que se formavam atrás das casas mais afastadas para alcançarmos a casa de Colt.

Já era noite fechada quando colocamos Dean na cama no quarto de Colt e finalmente pude cuidar dele direito.

Estávamos cobertos de poeira.

"Não estou gostando disso..." Sentei na beira da cama onde estava meu irmão e limpei a ferida mais uma vez. "Dean já deveria ter acordado."

"O rapaz levou uma bela pancada na cabeça, tenha paciência." Colt aproximou-se com uma bacia com água e toalhas limpas.

"Você tem uma agulha e linha?" Vocês precisavam ver a cara de Samuel Colt quando ouviu o meu pedido.

" Está pensando em costurar a cabeça do seu irmão?" Morse, que estava logo atrás, secando o rosto, ficou meio azulado.

" Bem, alguém terá que fazer isso ou teremos aqui uma cicatriz bem feia, sem falar no perigo de infecção e no tempo que levará para sarar."

Aceitei a bacia com água e as toalhas. Lavei minhas mãos enquanto Colt saiu do quarto silenciosamente, voltando em seguida com o que eu havia pedido. Comecei a suturar o corte. Tenho prática nessas coisas. Nem sempre temos um hospital disponível ou podemos usar um, então, ajeitamos nossos ferimentos como podemos quando precisamos.

Morse segurou a ânsia quando a agulha entrou na pele de meu irmão, saindo do outro lado, presa à linha dobrada. Eles não estavam acostumados àquilo e é bem compreensível que ficassem meio abalados.

" Se quiserem esperar na sala, tudo bem" Afirmei, dispensando-os do nosso showzinho bizarro. " Nós ficaremos bem."

Terminei o que tinha que fazer e limpei meu irmão o melhor que pude, tirando-lhe as roupas empoeiradas e deixando-o confortável. Aquela seria uma longa noite. Eu não pregaria os olhos. Precisava vigiar Dean caso tivesse uma concussão, o que era bem provável, dada a intensidade da pedrada que levara.

As coisas tinham tomado um rumo inesperado. Talvez se tivéssemos feito como Dean queria, poderíamos ter invocado o demônio e metido uma bala na cabeça do bicho. Puro, simples e direto. Agora não adiantava chorar sobre o leite derramado. O que estava feito, estava feito. Nós só poderíamos esperar que Dean acordasse bem e que Colt cumprisse o prometido e nos desse a arma para que pudéssemos salvá-lo do acordo.

Eu estava cansado. Muito. E preocupado.

***

No meio da madrugada Dean se mexeu sobre a cama, agitado. Havia em seu rosto uma expressão de dor e confusão.

"Ei, Sammy" Seus olhos demonstravam dificuldade em focalizar o meu rosto. "Acho que um meteoro caiu na minha cabeça."

"Quase, cara. Quase..." Meu irmão tem essa mania de fazer piada de tudo, mesmo todo ferrado e nas situações mais difíceis. Ele pensa que não sei, mas sei bem que só está tentando me distrair. Eu não sou mais criança. Posso lidar com os problemas como qualquer adulto. E eu queria que Dean pudesse ver isso. " Como está se sentindo?"

"Péssimo." Ajudei-o a subir um pouco o corpo e a recostar na cabeceira da cama, sobre os travesseiros. " Estou com uma dor de cabeça dos infernos." Ele apertou levemente as têmporas. "O que eu não daria por um par de aspirinas agora..."

"Infelizmente, só tenho mais um comprimido no vidro que estava na mochila. Fui buscar enquanto você dormia" Entreguei-lhe o copo com água e o comprimido. "Você bateu a cabeça com muita força e precisa descansar."

"Você também, mãe. Está com uma cara péssima. O que andou fazendo, além de me detonar com aqueles malucos?"

"Eu estou legal. E não precisa dizer que você me avisou. Eu já sei. Você tinha razão, desculpe-me. Agora tente dormir novamente." Me ajeitei na cadeira e passei a folhear o diário do pai, que tirei de dentro da sacola. " Vou ler um pouco e ficar de olho em você".

"Eu não preciso de babá e só vou dormir se você for também." Dean mal conseguia manter os olhos abertos, mas eu não ia discutir com ele. Sei o quanto meu irmão pode ser teimoso.

"Está certo, está certo." Abandonei o diário sobre a cadeira e estiquei meu corpo moído sobre a cama improvisada, com cobertores que havia arrumado no chão, ao lado do leito de Dean. "Pronto. Ambos vamos descansar, okay? Durma um pouco."

Não percebi quando meu irmão adormeceu e também não demorei muito a apagar. Eu sentia dores em meu corpo em lugares que sequer imaginava ser possível.

***

O aroma do café fresco penetrou em minhas narinas e acionou os sensores em meu cérebro. Morfeu que me perdoasse, mas eu precisava de uma xícara de café quente e fresco, com urgência.

Dean continuava dormindo, mas já se mexia, vez ou outra. Logo o perfume da bebida preparada no outro cômodo traria meu irmão de volta do mundo dos sonhos.

Levantei-me com certa dificuldade pela noite mal dormida e lavei o rosto na bacia que havia sobre a mobília de madeira, num canto do quarto. Observei meu reflexo no espelho da parede e, Dean tinha razão, minha aparência estava péssima.

Nem bem me aproximei da porta e um gemido vindo da cama chamou minha atenção. Meu irmão me fitava, meio fora do ar, mas com um pequeno sorriso desenhado no rosto. Era o cheiro do café. Podia apostar.

"Me diz que esse cheirinho é de café fresco, Sam." Tive que rir abertamente da expressão de Dean.

"Eu acho que Colt e Morse estão fazendo café" ofereci minha mão. "O que acha de levantar daí e ir até lá conferir?"

"Já estou indo, maninho!" O grande sorriso que Dean exibiu se desvaneceu à medida em que se corpo se elevou, provocando pontadas em sua cabeça. Por sorte, amparei-o antes que caísse.

"Vá com calma, Dean" Mantive seu braço seguro, dando-lhe apoio.

" Eu estou legal. Já passou, Sammy..." Não era isso que eu via, portanto, não tiraria os olhos de cima dele nem por um decreto. "Vamos tomar aquele café logo."

Atravessamos a porta e encontramos os dois outros homens à mesa. O bule fumegante estava lá, convidativo, liberando no ar aquele cheirinho delicioso que nos atraía como um encantamento.

Nos juntamos a Colt e Morse e fomos servidos do líquido quente e escuro. Finalmente.

" Então," Morse iniciou a conversa, um tanto ressabiado. "Como se sente hoje?"

"Maravilhoso..." Dean não tirou os olhos da sua caneca de café, bebendo-o aos goles.

" Você tem uma cabeça dura, camarada." Foi aí que percebi o quanto Colt se parecia com meu irmão: A sensibilidade de um rinoceronte.

"Sorte minha." Dean levantou os olhos e sorriu aquele seu sorriso de escárnio. "Principalmente tendo um irmão e amigos como vocês."

"Ah, não seja tão severo com Samuel." Colt aproximou o rosto da cabeça de Dean, observando seu ferimento de perto. " Ele fez um excelente trabalho aqui."

"Pode chegar pra lá?" fechou os olhos devagar e inspirou profundamente. "Estou com dor de cabeça."

Houve um silêncio incômodo por um longo minuto, até que Dean decidiu quebrá-lo.

"Quando é que vocês vão me dizer que eu quase tive meu crânio esfacelado por nada?" Eu sabia que não ia demorar para meu irmão enfiar o dedo na ferida. Ele sabe como ninguém fazer isso.

"Não podemos dizer que nosso ardil foi um total fracasso." Morse afastou um pouco a cadeira e levantou-se, parando diante da janela, de costas para nós. "Ao menos o corpo do Cavaleiro-Fantasma está soterrado e, sem um corpo, o demônio não fará mais tantos estragos."

"Ah, fala sério!" Dean levantou o canto do lábio naquela sua expressão de total desagrado "Você realmente pensa que essa palhaçada que vocês armaram vai ficar por isso mesmo?" Seu olhar perfurante correu por cada um de nós. " Aquela coisa maligna já deve estar entrando pelos buracos de um pobre coitado qualquer e não vai demorar para estar aqui, doidinho pra meter na gente com areia!"

"Será?" Colt estava mesmo em dúvida. Penso que ele realmente acreditou que o demônio ficaria assustado o suficiente com aquela insanidade e fugiria com o rabo entre as pernas.

"Com certeza, um demônio não se assustaria assim tão facilmente" Eu tinha que dar a mão à palmatória e concordar com meu irmão.

"Eu acho que estou devendo a vocês um 'eu não disse?' do tamanho do universo!" Dean estava chateado. Chateado não, puto da vida, como eu já havia previsto. Estava com aquela cara de quem ia entrar no modo fuzileiro naval a qualquer momento.

"Então," Colt continuou "seria providencial que todos deixássemos essa casa o mais rapidamente possível e nos escondêssemos em algum lugar seguro."

"E que lugar seria esse?" Morse voltou-se, incrédulo, encarando seu amigo. "Não há como nos escondermos de um espírito maligno."

"Na verdade há." Eu gostaria de saber que espécie de caçador não sabe fazer um feitiço pra se esconder de demônios. "Mas não creio que esta seja a melhor solução. Precisamos de algo mais definitivo."

"Como assim, mais definitivo?" Samuel Morse ficou meio pálido com a perspectiva que o silêncio que sucedeu minha fala apresentou.

"Vamos matar aquela coisa." Um brilho intenso nos olhos de meu irmão provavam que ele não estava para brincadeiras. "Invocamos o maldito e metemos uma bala nele com a arma especial do Professor Pardal ali."

"Nós não invocaremos coisa alguma!" Colt pareceu decidido. " E não sabemos se realmente a minha arma é capaz de matar um demônio!"

"Não sabemos?" Aquilo não estava no programa. Como não sabemos? "Eu sei que seu Colt não vem com manual de instruções, mas quem te ensinou a fazer isso não explicou os detalhes?"

"Quando recebi as instruções para preparar a arma, a sacerdotisa mencionou que ela teria o poder de matar qualquer coisa, mas nunca a testamos." O armeiro revelou tudo de uma vez. "Nunca a usamos para matar coisa alguma, muito menos um demônio. Não há como saber se..."

"Funciona." Dean não deixou que Colt terminasse. "Nós sabemos que vai funcionar, acredite."

"Mais uma das visões de seu irmão?" Morse havia se aproximado mais e me encarava com um olhar abismado.

"Sim, eu tive uma visão" Afirmei para acabar com o assunto. " Sua arma matará o demônio e depois poderemos voltar para casa e resolver nosso problema."

"Bem," Os dois Samuel, o Colt e o Morse, trocaram olhares desconfiados e o último arrematou: "Se você garante, acho que podemos tentar"

"Sim, eu garanto." Nem acabei de fechar a boca e um objeto voou para dentro da sala, estilhaçando o vidro da janela e indo parar de encontro a parede do fundo, num baque surdo contra a madeira.

Oooooooo

Continua...