Capítulo nove
O telefone estava tocando quando Gale destrancava a porta. Ele correu pra atender, receando que a pessoa desligasse antes de saber quem era. "Alô?"
"Oi, Gale." A voz delicada de Annie falou do outro lado da linha.
Ele sorriu, "Annie, oi." Ele sentou e relaxou no sofá.
Eles começaram a ligar um pro outro durante semanas. A maioria das vezes falavam sobre Finn e o que ele estava aprontando. Uma vez ou outra eles conversavam sobre algo mais sério, como Katniss e a tentativa de Gale voltar a ter uma vida social. Eles nunca falavam sobre Finnick. Quando Gale mencionava nele, Annie mudava de assunto.
"Então," Ele falou, "Como foi seu dia hoje?"
"Não foi muito bom. Mas saí da cama e levei o Finn na escola hoje de manhã."
"Levou o Finn até a escola?"
"Nos últimos dias ele tem faltado as aulas. Eu disse pro diretor dele que o levaria pessoalmente pra garantir que ele vá."
"Isso é bom...eu acho."
"Finn não gostou da ideia. A gente brigou ontem a noite. Eu...uhm...me tranquei no quarto. Não consegui lidar com isso. Ele com certeza teria se saído bem melhor nessa situação do que eu."
Gale não precisava perguntar quem era o "ele" a que ela se referia, e falou, "Você acha?"
"Ele sempre foi mais forte do que eu, Gale."
"Não penso assim. Acredito que você seja forte da sua maneira."
"Eu praticamente tive que me arrastar da cama hoje." Ela falou baixo.
"Mas levantou. E levou seu filho pra escola."
"Levei."
"Como o Finn está hoje?"
"Ele 'tá bem. Está no quarto estudando."
"E você está fazendo o quê?"
"Sentada no sofá." Ela falou tímida.
"Você parece sonolenta." Ele falou de repente.
"Como assim?"
"Você 'tá bem?"
Ela parou por um segundo, "Eu não sei." E ficou quieta de novo, "Às vezes, sinto tanta saudade dele que dói. Machuca mais quando lembro alguma coisa relacionada a ele."
"É como você está hoje?"
"Hoje não, mas amanhã. É o aniversário dele." Ela prendeu um soluço. "Ele faria trinta e cinco anos."
"Annie?"
"Preciso ir, Gale." Ela falou.
Ele não sabia o que dizer, mas sentiu a necessidade de falar alguma coisa pra ela continuar na linha. "Finn sabe disso?"
"Sim. Eles homenageiam todos os vitoriosos no dia do seu aniversário. Eles avisam antes da aula começar."
"Você não gosta muito disso, não é?"
"Nunca gostei. Especialmente quando eles começaram a anunciar o meu. Ninguém é obrigado a terminar os estudos, mas foi minha escolha. Às vezes, os estudos eram o que mantinha a minha sanidade."
"E você tinha o Finnick."
Houve uma pausa. Então ela falou, "Preciso ir, Gale."
E antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, ela desligou.
Ele deitou no sofá, tirando as botas com os pés. Pegou o telefone e quase ligou de volta, mas sabia que não ia conseguir ajudar muito. Colocou o telefone de volta e foi fazer seu jantar.
O telefone tocou quando ele estava lavando os pratos da janta. Ele correu quase em desespero. "Annie?"
"Não, é Katniss. 'Tá tudo bem?"
"Eu estava falando com ela antes e ela simplesmente desligou."
"Aconteceu alguma coisa?"
"Amanhã é o aniversário do Finnick."
"Oh."
"É. A gente estava conversando e ela mencionou. Aí ela desligou. Acha que devo ligar de volta?"
"Talvez ela só precise de um tempo."
"Mas e o Finn?"
"O que tem ele?"
"Devo ficar preocupado que ela...faça alguma coisa?"
"Você acha que ela vai?"
"Eu não sei. É que as vezes tenho essa sensação que ela faria se tivesse a chance."
"Ela é mais forte do que isso. Não acha?"
"O luto pode destruir até a pessoa mais forte."
"Aprendeu isso por experiência própria?"
"Vi acontecer com você depois que Prim morreu." Ele falou cuidadoso. "E de tudo o que Peeta passou depois Quaternário. Quando ele estava na Capital e você no Treze. Você estava sem vida, Katniss. Doía demais te ver daquele jeito e não poder fazer nada. E agora dói ver Annie do mesmo jeito e saber que não estou lá pra ajudar."
"Você a ama, Gale?"
"Disso não sei, mas me importo com ela. E com o Finn. Ele é um bom garoto e merece a chance de ter uma infância normal. Coisa que ele não tem."
"Então você culpa a Annie por isso?"
"Não, não, de jeito nenhum. Tenho pena da situação dela. Eu quem devia ter morrido nos túneis naquele dia. Se eu tivesse, Finnick ainda estaria aqui. E teria facilitado a sua escolha."
"Não diga isso, Gale. Se você morresse…" A voz dela falhou. O silêncio tomou conta da ligação.
"Você me odiaria depois de morto, e não precisaria mais me perdoar por ter criado aquela bomba."
"Eu não aguentaria se você tivesse morrido. Eu posso ter te culpado por Prim, mas teria me culpado por você. Você é importante pra mim, Gale. Sempre foi. Você quem ajudou a manter minha família viva por quatro anos."
"Grande coisa que eu fiz."
"Você fez sim."
"E por quê você ligou?"
"Só queria saber como estava. Faz dias que a gente não se fala."
"Bom...eu 'tô bem."
"Talvez seja melhor ligar pra Annie."
"Talvez."
"Liga pra ela, Gale."
"Okay."
"Tchau."
"Espera." Ele falou de repente.
"O que foi?"
"Você me odeia? Eu sei que me perdoou, mas ainda me odeia?"
"Você me salvou tantas vezes. Não sei como poderia te odiar. Eu fiquei magoada, ainda fico às vezes. Mas eu te amo, Gale. Depois de tudo o que a gente já passou, eu sempre vou te amar."
"Katniss...obrigado. Até mais."
Quando terminaram de se despedir, ele desligou. E depois de ficar olhando um tempo, Gale pegou o telefone novamente. Mas ele tocou antes que pudesse discar. Ele atendeu.
"Annie?" Gale falou ansioso.
Uma voz assustada falou, "Gale?"
"Finn, o que houve?"
"É minha mãe... depois que falou com você ela simplesmente saiu de casa. Pensei que fosse voltar logo, mas já faz mais de uma hora."
"Avisou aos pacificadores?"
"Avisei. Eles disseram que mandariam alguém procurar, mas não podiam mandar muita gente porque ela não saiu há muito tempo."
"Eu não sei o que dizer, Finn."
"Fica comigo no telefone até ela voltar?"
"Fico." Ele falou, esticando as pernas no sofá. "Fala pra mim da escola. Por quê andou faltando?"
"Não estava com vontade de ir. Não sou bom em nada."
"Sua mãe falou que você é bom em matemática."
"É, mas só porque é fácil. O resto eu não entendo nada."
"Sabe de uma coisa, Finn? Eu também não entendia nada."
"Sério?"
"Sério. Eu era um mestre na matemática. Podia entender as formas geométricas e tudo mais. Via os gráficos na minha cabeça."
"Nossa. Eu vi o pessoal da minha sala com dificuldade nisso. Nem com a calculadora eles entendem."
Gale riu, "Meus professores ficavam frustrados comigo porque eu nunca mostrava os cálculos, só escrevia as respostas."
"Mas estavam sempre certas?"
"Estavam sim."
"A mesma coisa acontece comigo. Minha professora de matemática me acusou de colar na última prova."
"Quando foi a prova?"
Finn parou. "Segunda."
"Foi por isso que não foi mais na escola?"
"Mais ou menos. Acho que ela não gosta de mim. A filha dela participou dos mesmos Jogos que meu pai."
"Ah, entendi. Ela não gosta de você porque seu pai sobreviveu e a filha dela não."
"Acho que sim. Ela faz de tudo pra diminuir minha nota. E não é só ela. A maioria das pessoas desse Distrito, aqui na vila, só gosta de mim por causa dos meus pais. Mas tem gente que não gosta. Ou então, sente pena de mim por causa da minha mãe."
"Por causa do jeito que ela se comporta?"
"Pode se dizer que sim."
"O que quer dizer?"
"Quando eu era bebê, tentaram me tirar dela. Disseram que ela era uma mãe irresponsável."
"Sua mãe está longe de ser irresponsável."
"Disseram pra mim uma vez, que logo depois de eu nascer, ela saiu de casa sem mim. Eu gritava de tanto chorar, mas ela foi embora. Alguém ouviu e me encontrou deitado no chão. Eles encontraram ela na praia, sentada na areia, olhando pro nada."
"Essa foi a única vez que isso aconteceu?"
"Disseram que foi."
"E quem te contou isso?"
"Um vizinho nosso, Dale, marido de Mags. Ele sempre ajuda a gente. Acho que é porque Mags gostava muito do meu pai. Ela foi mentora dele. E ele gosta da minha mãe, acredita nela, eu acho."
"Ele que ajudou Annie a ficar com você?"
"Foi, ele prometeu às autoridades que ficaria de olho em mim. Ele costumava vir bastante, mas está ficando velho e meio esquecido das coisas."
"Sinto muito."
"Ele é o mais próximo de um avô que tenho. Não restou mais ninguém da família dos meus pais."
"Eu sei como isso é difícil."
Houve uma pausa na linha e então Finn disse, "Mãe?"
"Ela voltou?"
"Voltou. Um pacificador está vindo com ela."
"Ótimo, então eles sabem que ela foi encontrada. Por favor, coloca ela na linha e vá pra cama, okay?"
"Okay."
Gale ouviu o barulho do telefone sendo deixado num móvel. Ouviu uma conversa abafada. E então, o telefone foi pego por alguém.
"Gale?" A voz de Annie tremia quando falou.
"Annie, onde você estava?"
"Na praia. Me desculpa."
"Bom, você precisa se desculpar com o Finn pelo o susto que ele levou."
"Sou uma péssima mãe, Gale."
"Você não é, Annie. Mas acho que precisa de ajuda. É por causa do Finnick, não é?"
Ela soltou um soluço rouco. "É..." Sussurrou desesperada, "Não consigo fazer isso sem ele."
"Consegue, sim. Você se saiu bem nos últimos dez anos. E vai conseguir pro resto da vida."
"Não posso."
"Você pode." Ele respirou fundo. "Só...não some assim de novo, por favor."
"Por você ou por ele?"
"Eu não sei—"
"Eu também não. Esquece o que falei. A gente se fala depois."
"Você vai ficar bem?"
"Não sei."
"Só tente fazer o seu melhor. Por ele."
Ela desligou sem dizer mais uma palavra.
Gale acabou dormindo no sofá, preocupado com sua amiga.
