Reflexos distorcidos
'Uma nova escola para um novo tempo' era um dos lemas utilizados pela escola de Mitakihara, traduzido em menos regras tradicionais e mais tecnologia, que se aplicava em todos os âmbitos da instituição, até mesmo nos mais depressivos.
Madoka olhava para um espaço vago na sala, onde haveria uma carteira, mas esta estava recolhida no chão. Um letreiro luminoso vermelho dizia o motivo:
Hitomi Shizuki – Ausente
"Esse é o terceiro dia consecutivo," disse ela.
Em uma carteira vizinha à Madoka, Homura respondeu, "Nós sabemos o porquê."
"Mas três dias..." Madoka olhou para ela. "Hitomi-chan estava melhor, ninguém está mais culpando ela e ela não estava faltando à escola. Ainda mais por tanto tempo."
"As lembranças apenas adormecem, nada pode ser feito."
Madoka assentiu com a declaração da outra garota.
"Ela está tentando, lutando." Homura olhou de relance para ela. "Você não acredita na sua amiga?"
"É claro que sim," Madoka afirmou.
"Nakazawa-kun!"
As duas garotas observaram a cena que estava se desdobrando na frente da sala.
Uma garota de óculos e cabelo verde estava de pé ao lado da carteira do garoto. Ela carregava consigo uma pilha de papéis. "Vai se juntar ao nosso clube?"
Nakazawa coçou a cabeça e fez uma careta. "Ehhh... Eu vou?"
A garota fechou os olhos e suspirou. "Nós já falamos sobre isso. Se não quiser entrar no nosso, tudo bem, mas você precisa escolher um clube."
O garoto de cabelo castanho curvou-se em desânimo. "Eu não sei..."
A garota balançou a cabeça, desaprovando aquela atitude. "Suas notas não estão boas. Ter participado de um clube em seu histórico escolar vai ajudá-lo na hora de tentar uma vaga para o ensino médio."
Com ambas as mãos, Nakazawa coçou a cabeça com mais vigor. "Eu sei... eu sei..."
"O que acha disso?" Madoka disse para Homura, "de nós entrarmos em um clube da escola."
A garota de tranças respondeu, "Nós precisamos?"
"Seria divertido." Madoka ficou mais preocupada com a falta de entusiasmo da outra. "Mas somente se você quiser..."
"Sim, me parece bom." Homura olhou para ela com um leve sorriso, mas logo desviando o olhar.
"Vou lhe dar mais um tempo para pensar." A garota deixou ele.
Madoka e Homura notaram que ela vinha na direção delas.
"Mais um dia..." comentou a garota, com tristeza.
"Sim." Madoka esboçou um sorriso. "Talvez... Talvez ela esteja doente."
"Vamos acreditar nisso." A garota ofereceu a pilha de papéis. "Esses sãos as tarefas acumuladas. Eu estou ocupada hoje, poderia entregar para ela?"
Madoka esticou os braços. "Claro, eu-"
Porém outro par de mãos havia alcançado os papéis. "Sem problema."
As duas garotas olharam para Homura.
Sentindo o silêncio que havia se instaurado, Homura continuou, "Eu sei onde ela mora."
Madoka voltou a olhar para a garota que estava de pé e sorriu. "Sim, nós sabemos."
Ela assentiu e retribuiu o sorriso. "Obrigada."
Madoka acenou enquanto a garota se afastava.
[Eu irei sozinha.]
Com a telepatia de Homura, ela parou de sorrir. [Por quê?]
[Para ela, você era a amiga mais próxima de Miki-san.] Homura já guardava os papéis em sua mala. [Não precisamos lembrá-la disso.]
Madoka nada disse. Era verdade, havia aflições além do seu alcance.
/人◕‿‿◕人\
Na saída da escola, com elas atravessando o portão, Madoka voltou perguntar, "Você realmente quer ir sozinha?"
"Sim." Homura dava passadas firmes, olhando para a frente. "Se não quiser mencionar nada a respeito de Shizuki-san aos seus pais, diga a eles que eu fui fazer exames médicos."
Madoka se aproximou mais dela, seus braços se tocando. "Eu devia ir contigo. Eu entendi o que você disse sobre Sayaka-chan, mas Hitomi-chan é minha amiga também. Eu posso confortá-la... eu posso..."
Homura parou. "Por que você insiste?"
Madoka se assustou.
Vendo tal reação, Homura relaxou sua expressão. "Por que se preocupar? É apenas uma entrega de tarefas acumuladas. Acha que eu não posso fazer isso? Acha que eu machucaria os sentimentos dela?"
"Não..." Madoka balançou a cabeça. "Nem de longe passou isso pela minha cabeça."
"Então..." Homura sorriu. "Eu te vejo em breve."
"Certo." Madoka assentiu e sorriu também. "Tchau e se cuide."
As duas se separaram, com Homura se dirigindo para a estação de metrô. Sem olhar para trás, pois poderia perder a sua chance.
Espero que Shizuki-san esteja aceitando visitas.
Em seu ritmo firme e olhar cauteloso, a garota de cabelos escuros já avistava a movimentação em frente à estação.
Devo pensar bem antes de cada palavra...
Uma garota usando o uniforme da escola, de longos cabelos brancos, atravessou a rua e desapareceu na esquina.
Charlotte? Homura parou e semicerrou o olhar. Era ela? Essa não seria a rota que ela utilizaria para voltar para o apartamento da Tomoe-san.
Ela se sentiu compelida em segui-la, mas a sua mala estava pesada com a pilha de papéis.
... Eu te vejo em breve...
Homura pressionou os lábios, resignando-se a continuar indo até a estação.
A viagem era curta, mas de muitas paisagens. Através das janelas de seu vagão, Homura observava o veículo entrar e sair de túneis, passar por trilhos elevados sobre a parte antiga da cidade, e outras estações. Ainda havia muitos guindastes trabalhando, reerguendo edifícios antigos ou novos, acelerados pela comoção que uniu a nação naquele desastre.
Esse não era o caso para o luxuoso edifício onde Hitomi morava. Ele ficava próximo, mas não no centro da cidade, localização que o valorizava ainda mais e foi o que o salvou da destruição.
Homura saiu na estação mais próxima, a poucas quadras do lugar, em questão de minutos ela já estava na guarita.
Uma mulher com uniforme impecável falou com ela. "Pois não?"
"Eu sou Homura Akemi, colega de classe de Hitomi Shizuki-san e gostaria de entregar algo para ela."
"Só um momento." A mulher pegou o telefone.
Enquanto aguardava, Homura observou o movimento na rua, os sons da cidade, algumas luzes que se acendiam... O sol já dava sinais que iria partir. De repente, o bater de asas de uma ave próxima do seu ouvido. Ela se virou e não encontrou nada, exceto por uma pequena pena negra presa no tecido de seu uniforme. Ela a pegou e examinou.
"Sim, Homura Akemi."
A forma peculiar de afirmar que a mulher utilizou distraiu a garota, fazendo com que ela deixasse escapar a pena de seus dedos.
A mulher colocou o telefone no gancho e abriu o portão. Com um sorriso educado, disse, "Ela encontrará contigo no saguão. Por favor, fique à vontade."
"Obrigada."
O saguão era bem iluminado, com um piso cerâmico polido e paredes clara e com espelhos. A mobília era de madeira para trazer um pouco de calor ao ambiente. Homura sentou-se em uma poltrona, ficando frente a frente com um grande espelho. Ela notou no reflexo que acima dela havia um antigo relógio de pêndulo em funcionamento, repetindo continuamente seu som mecânico.
O tempo passava. Pessoas entravam e saíam dos elevadores, mas nenhuma delas era quem ela queria encontrar. Tinha o poder de parar o tempo, mas quando se tratava do próximo segundo, nada podia fazer.
Chegou o momento que o saguão ficou vazio. Homura esfregou o rosto, já preocupada se Hitomi havia mudado de idéia, temia que a demora convencesse Madoka de ir atrás dela, que a voz dela clamando por seu nome rompesse aquele silêncio.
Silêncio?
Homura voltou a olhar para o espelho e confirmou a sua surpresa. O relógio de pêndulo havia parado.
Um som mecânico. Era a porta do elevador que se abria.
Homura se levantou. Dali saía uma garota com um belo conjunto de saia de cintura alta com uma blusa de renda e sandália. Sua pele tinha uma aparência fresca, seus lábios reluzentes mostrando um sorriso, cílios bem penteados e seu cabelo verde vibrante e ondulado... Homura sabia muito bem que, não importa como, é assim que você sempre veria Hitomi Shizuki.
Com certa hesitação, ela falou, "Desculpe pela demora."
"Você parece surpresa," disse Homura, "esperava por outra pessoa?"
Em um movimento quase imperceptível, Hitomi havia erguido suas bem delineadas sobrancelhas, para logo depois abrir mais o seu sorriso. "Sim, pela representante de classe. Você veio aqui para trazer os trabalhos da escola."
"Está correta." Homura pendeu a cabeça de lado. "Mas você sabe que não é só isso."
Hitomi ficou mais séria e assentiu levemente. "Sim. O que você quer?"
Homura sorriu. "Um passeio, eu e você."
A expressão de Hitomi congelou. "A-Agora?"
"Com certeza. Você até já está pronta para isso."
A garota de cabelos verdes olhou para as suas roupas e sorriu. "Mas... Mas eu não posso ir longe."
"Nós não iremos."
Elas saíram juntas e atravessaram a rua até um calçadão. O céu já escurecia e os postes, acesos.
"A sala deve estar bem preocupada com a minha ausência," Hitomi comentou.
"Todos estão." Homura olhou de relance para ela. "Madoka também."
"Eu acredito." Ela abaixou a cabeça. "Eu gostaria de ser que nem outros e seguir em frente quanto ao que aconteceu com Sayaka-san, mas tem vezes que não consigo parar de pensar... chegar à escola e ver que ela não está lá, nem Kamijou-kun..."
Homura olhou novamente para ela.
"Algumas vezes eu penso que ele morreu também e o pior é que posso estar certa disso em partes. Minha esperança é que a Alemanha seja distante o suficiente para ele esquecer."
Elas tinham entrado em um parque com inúmeras estátuas de mármore, muitas delas representando figuras angelicais. Elas caminhavam entre duas extensas, porém rasas, piscinas de água. Uma delas continha um chafariz que mais parecia com uma cachoeira, deixando a água turbulenta. Como o caminho estreito lembrava uma ponte, criava-se a ilusão de que as duas piscinas estavam conectadas.
Hitomi ficou preocupada com o silêncio da sua companheira. "Desculpe... eu comecei a falar e nem levei em consideração se você estava interessada em ouvir..."
Homura parou na frente dela.
Aquele movimento repentino, aquela olhar intenso, fez Hitomi dar um passo para trás.
"Eu serei honesta contigo," disse Homura, "Kyousuke Kamijou ama Sayaka Miki."
A face de Hitomi se contorceu enquanto ela assentiu. "Eu sei... eu sei... é por isso que dei uma oportunidade para Sayaka-san se confessar para ele. Eu queria que esse sonho que me consumia acabasse."
Homura abaixou o olhar.
"Eu me convenci, eu mascarei esse egoísmo como um ato de amizade. Eu..." Hitomi virou a face e pressionou os lábios. "Eu sou tão cruel que não vi a fragilidade da minha amiga. Sempre considerei ela melhor do que eu quando se tratava de relacionamentos com pessoas. Agora... eu tenho vidas destruídas em minhas mãos sujas."
"Você já ouviu isso o bastante, mas eu irei dizer. Não se culpe pela morte dela." Homura procurou pelo olhar de Hitomi no reflexo da piscina. "Foi declarado como suicídio, mas a polícia considera misteriosa as circunstâncias da morte dela. Eles encontraram perto do corpo várias embalagens de comida, mas nenhuma consumida por ela, o que significa que haveria outra pessoa envolvida."
Hitomi balançou a cabeça. "Eu ainda me sinto responsável por isso. Se eu não tivesse falado com ela sobre Kamijou-kun, talvez Sayaka-san não tivesse encontrado esse destino."
"Lembre-se que nas últimas semanas ela estava faltando à escola. Ela tem outros motivos que não são de vosso conhecimento que poderia levar a isso."
Hitomi olhou para ela. "Ela tem..."
"Ela teria..." Homura se corrigiu. "Por isso, você está sendo injusta em carregar esse fardo sozinha."
A outra garota suspirou. "É mais fácil dizer do que acreditar..."
"Quer mais provas? Valorize o que tem. Procure por sua família, seus amigos, seus colegas de classe. Ouça o que eles têm dizer e compare comigo." Em um olhar perdido, Homura levemente fechou os olhos. "Eu estou certa de que Miki-san não quer ver você assim e... Kamijou-kun tem as mesmas esperanças que você tem por ele."
Então momentos onde apenas se ouvia o som da água do chafariz, com as duas se encarando.
Hitomi estava boquiaberta, depois sua face voltou a se contorcer, engolindo seco. Ela então se aproximou e a abraçou.
Para a surpresa de Homura. "Shizuki-san..."
"Obrigada... obrigada..." A voz dela era chorosa. "Eu queria tanto conversar sobre isso, mas na escola eu não tinha coragem. Madoka-san... Eu não quero reabrir feridas."
Homura retribuiu o abraço, sentindo o soluçar dela. "Eu entendo."
"Akemi-san... você seria uma boa amiga para Sayaka-san, melhor do que eu fui."
"Não te menosprezes."
Hitomi se afastou, mais calma, porém ainda com olhos vermelhos.
"Está melhor?"
"Sim." Ela fungou o nariz e sorriu. "Obrigada novamente. Eu... Eu irei amanhã para escola, você pode dizer isso para Madoka-san. Eu garanto que irei."
"Bom." A voz de Homura baixou de tom e soava mais com um sussurro. "Antes de você voltar para casa, eu tenho uma pergunta a fazer e acredito que só você pode me ajudar."
"E-Eu?" Hitomi ficou confusa.
"É sobre Madoka." Homura ergueu levemente suas sobrancelhas. "Você vê algo de diferente nela?"
"Diferente?" Hitomi ficou ainda mais confusa. "Mas você não saberia disso melhor que eu? Você está vivendo com ela."
Homura levou a mão ao peito. "Eu preciso de uma segunda opinião. Você a conhece desde a infância, afinal de contas..."
"Claro." Hitomi desviou o olhar, ponderando, "Mas devo dizer que não vi nada, exceto se..."
Homura arregalou os olhos e piscou. "Exceto?"
Hitomi sorriu diante da reação. "Não é nada especial, apenas algo que eu sei que ela faz."
Homura assentiu. "Então seria um segredo entre amigas..."
"Não é um segredo, apenas que essa deve ser a sua primeira vez, mesmo já sendo uma amiga tão próxima," disse Hitomi, sem hesitar, "ela deve estar escondendo algo."
A garota de tranças estremeceu. "O quê?"
"Não se assuste. Huhu..." Hitomi escondeu seu riso com a mão. "Madoka-san é uma boa garota. Quando ela comete algo errado, ou algo que ela acha que é errado, ela tende a agir mais alegre e confiante, para aliviar a tensão."
Homura cerrou os punhos.
"Quando eu e Sayaka-san percebíamos que ela estava agindo assim, nós sempre tentávamos adivinhar o que seria. Ela ficava bastante envergonhada e..." Hitomi sentiu o nervosismo na outra garota. "Akemi-san?"
Ela controlava a respiração o quanto podia. "Tem certeza disso?"
"Eu pensei que ela estivesse agindo assim por causa de ti, mas como você está perguntando..." Hitomi juntou as mãos. "Então eu sei o porquê. Não se preocupe."
"O que seria?"
"Ela deve estar escondendo a dor pela morte de Sayaka-san." Hitomi assentiu, triste. "E ela está conseguindo lidar com isso melhor do que eu."
Homura desviou o olhar, seus lábios tremendo. "Sim... deve ser isso..."
"Akemi-san? Está tudo bem?"
Ela suspirou e sorriu. "Sim, sim... Eu agradeço por ter me contado. Agora posso cuidar melhor de Madoka."
"Você já está fazendo isso sendo amiga dela." Hitomi levou ambas as mãos ao peito. "Eu gostaria também, mas não estou em posição."
"Ela ainda considera você amiga dela."
"Sim, mas eu sinto que as feridas ainda precisam cicatrizar," disse Hitomi, "hoje você me ajudou com isso e volto agradecer por esse en-"
Homura franziu a testa com a repentina paralisia da outra garota.
"P-Por essa conversa..." Hitomi abaixou o olhar e passou a mão no cabelo. "Certo, hmmm, meus pais devem já estar preocupados, eu preciso voltar."
Homura acenou com a cabeça. "Claro, eu não vou tomar mais do seu tempo."
Hitomi começou a andar para trás. "Então..."
"Shizuki-san!"
"S-Sim?!" Ela corou.
Homura abriu sua mala. "Suas tarefas..."
"Oh, claro! Claro..." Hitomi recebeu a pilha de papéis. "Nós nos veremos amanhã na escola."
"Sim." Homura acenou e viu ela sair com pressa. Quando a garota já estava distante o bastante, seu educado sorriso se foi.
Ela olhou para as suas próprias mãos, que continuavam tensas.
Ela deve estar escondendo algo.
"Madoka..." Enquanto sussurrava para si mesma, seus olhos captaram algo familiar.
No reflexo da piscina, sobre uma estátua, havia uma sombra com um par de olhos vermelhos brilhantes.
Ela rapidamente se virou, mas nada havia sobre a estátua, apenas ela e o som das águas.
Homura jogou sua trança para trás e saiu.
Próximo capítulo: É um encontro!
