Oneshot feita para a I Ship War - fórum Ledo Engano.

Tema: choro.


Cristalize

por Luna Fortunato


Não entendia aquele garoto. Ele rugia, grunhia, rosnava, um milhão de coisas. Às vezes ele se debatia contra as correntes e era tão interessante vê-lo assim, como um animal acorrentado, os olhos prontos a lhe perfurarem se pudesse. Era bom que não fosse um basilisco, senão tinha a certeza absoluta de que estaria morto antes mesmo de tentar sibilar um bom dia.

Harry era uma figura.

O negócio é que ele chorava às vezes. Tinha certeza que Harry odiava que fosse visto chorando e como ele odiava, era óbvio que Tom dava um jeito de vê-lo nesses momentos tão íntimos e um tanto perturbadores. Odiava ver pessoas chorando. Elas ficavam nojentas, com meleca no nariz, as bochechas molhadas, os olhos inchados e vermelhos. Nunca era agradável. Ainda mais que as pessoas sempre choravam quando ele apontava a varinha ameaçadoramente, implorando que pelo amor de Deus, que não os matasse, porque, sabe, piedade existe e tudo o mais. Aí elas iam lá e choravam. E morriam com o corrimento do choro e tudo o mais.

Era nojento.

Mas apreciava ver Harry chorando. Ele ficava lá, em um cantinho, no ponto mais escuro da cela que preparara especialmente, e desandava a chorar. Provavelmente pensava nos pais ou em seus queridos amigos, ou pensava em Dumbledore, Sirius, Remus, bla bla bla. Uma lista de pessoas que já tinham morrido ou que iriam morrer em breve de qualquer jeito.

O probleminha que incomodava Tom, lá dentro, lá onde nenhum dos seus Comensais sabia a respeito, era apenas que Harry não ficava nojento chorando.

Nem um pouquinho.

Na verdade, até que ficava uma graça com aquele nariz vermelhinho e olhos magoados. Porque os olhos deles pareciam esmeraldas úmidas e esmeralda era uma pedra muito bonita, os seus cabelos apontavam para todas as direções e suas lágrimas eram cristal.

Cristal. Que palavra mais estranha para descrever a lágrima de uma pessoa. Mas era isso:

As lágrimas dele eram cristal.

Nunca tinha visto alguém com lágrimas cristal. E muitas pessoas já haviam chorado diante de si, implorando perdão ou o direito à própria vida. De modo que Tom apenas sentava e observava aquele estranho garoto, aquele que quase o matou anos atrás, aquele que queria esmagar seu coraçãozinho nas próprias mãos, chorar.

Ele chorava tão bonitinho.

— Potter – disse uma vez – por quem você está chorando?

— Por quem me ama – ele lhe respondeu venenosamente – coisa que o senhor, Tom Riddle, não deve saber o que é.

— E quem te ama?

Harry ficou em silêncio, estreitando os olhos como se quisesse machuca-lo especialmente, de um jeito só dele. Não que pudesse. Estava trancafiado, seus poderes se reduzindo lentamente, até se tornarem fiapo, resquício, sombra e fantasma de tudo que Harry Potter era.

Pobre Harry Potter.

Dia após dia, noite após noite, os escombros se espalhando por todo o país, corpos queimados e corpos empilhados em montes, pessoas desaparecidas, casas abandonadas e Tom lá. Harry já não chorava. Fraco e abatido, muito mais magro do que o normal, as faces encovadas pelo tempo prolongado em cárcere privado, ele apenas lhe observava. Seus olhos cintilavam mais do que o normal desde que Tom quebrara seus óculos em um acesso de raiva, e o homem não sabia o que estava por trás daquele brilho anormal.

Não conseguia decifrar nem mesmo se era ódio. Parecia profundo demais para ser ódio, amável demais para ser rancor, assassino demais para ser piedoso. Era o olhar de um garoto que vivera coisas inarráveis, coisas que marcaram sua alma tão profundamente que nunca teria conserto. Era um olhar frio, calculado, cansado e crítico.

— Potter, como você está?

Harry não respondeu.

Não havia mais lágrimas cristal.

— Potter, você está bem?

Ele lhe olhou vagamente, o rosto ossudo, suas feições quebradiças. Pela primeira vez, Tom odiou vê-lo assim. Como um cão sem dono. Como um órfão abandonado – e era exatamente isso que Harry era. Um órfão.

(e a vozinha lhe lembrou gentilmente que se Harry era órfão, isso se devia aos esforços muito bem-sucedidos de Tom)

Ele lhe odiava.

Odiava tanto.

E por que isso lhe incomodava? Por que incomodava que seu maior inimigo lhe odiasse? Por que incomodava que ele se mantivesse atrás de muros e gelo, longe demais das suas palavras? Por que incomodava que ele não chorasse mais? Por que incomodava que suas lágrimas já tivessem secado devido a tanto tempo de privação e pesadelo?

Por que ainda mantinha Potter vivo? Deveria tê-lo matado no primeiro instante, preservado o seu corpo como troféu, tê-lo esfregado na cara de todos que disseram que nunca conseguiria. Mas não fizera. Ao contrário, o aprisionara nas suas próprias grades e exterminara quaisquer outras pessoas.

Os amigos, os queridos, todos esses que defenderam e amaram Harry Potter já caíram.

O próprio Harry Potter já caíra.

Mas a sensação que lhe invadia os sentidos e violava qualquer conceito que construíra para si mesmo era de que quando Harry Potter caíra, Tom caíra junto.

• • •

Uma guerra só é guerra quando ambos os lados estão em condições de lutar. Quando um dos lados não tem mais força sequer para ficar em pé, deixa de ser guerra e vira massacre. A guerra acabou no momento que virou massacre. A névoa preenchia as ruas, e até mesmo os trouxas notaram que alguma coisa estava acontecendo. Era mais difícil andar pelas ruas tamanho o frio, mais pessoas apareciam mortas por motivos estranhos e cada vez mais histórias de fantasmas e ecos de gente morta apareciam por aí.

Mas Harry continuava ali.

E ele era Harry, não mais Potter, Harry aprisionado por tanto tempo que já perdera a noção dos dias. Já não sabia mais se era outono ou se era verão.

O que impressionava Tom era que independente do quão ruim Harry estivesse, ainda assim os seus olhos verdes permaneciam com o mesmo brilho assassino. Como se ele soubesse que no instante que abrisse as grades, Harry o mataria só de olhá-lo, tal como basilisco.

Tom ainda não sabia disso, mas ele começou a amar Harry por aí.

• • •

Perdera-se.

Essa é a verdade. Perdera-se. Como se perdera? Não sabia. Mas perdera a si mesmo em algum lugar naquela prisão, mais precisamente: atrás daquelas grades. Em algum lugar que pertencia ao Harry. Perdera-se.

Dumbledore sempre dissera que havia coisas piores que a morte. Nunca deu atenção. Insistira em vencer a morte como uma dona-de-casa insistia em vencer os gnomos do seu jardim. Foi um mago excepcional quanto a isso, tendo mais sucesso do que muita gente. Tendo o corpo do seu velho Tom, com seu nariz reto e cabelos negros, como se tivesse dezessete ou vinte anos por toda a eternidade. Tom, Voldemort, Você-Sabe-Quem, Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, Lorde das Trevas, toda uma série de nomes e sobrenomes e apelidos que recebera.

Ninguém sabia que ele mesmo se chamava de Tom. Que pensava em si mesmo como Tom.

— Potter, você está bem?

E novamente Harry não lhe respondeu. A fúria contida em seu tremor de dedos, a sensação de torpor quando ele lhe olhava, como se não lembrasse quem era Potter. Harry vinha tendo uns pesadelos, pelo que Tom observara, e aquilo não era algo bom.

Por que não era?

Deveria ser.

Por que não o mata, Tom?

Harry o encarou. O mesmo olhar, a única coisa que ainda vivia em todo aquele corpo magro e esfomeado. As esmeraldas cintilando. Tom sentia saudades da época que elas brilhavam mais do que o normal por conta do pranto desesperado de Harry, porque agora as esmeraldas cintilavam por causa de outra coisa, tão secas quanto um cacto.

— Por quem você mais chorou, Harry?

Chamou-o de Harry.

Harry estreitou os olhos, desconfiado, abraçando os próprios joelhos em posição defensiva. Era compreensível. Tom acabara de transpassar uma fina linha entre perguntas razoáveis de pessoas que agiam como carcereiros e perguntas feitas por pessoas amigas.

Harry respirou fundo.

— Por mim. – e a voz saiu fraca.

Não era a resposta que Tom esperava. Ansiava ouvir um "por meus pais, seu lixo humano" ou um "por Ron e Hermione, seu nojento". Ou mesmo por "por meu padrinho que morreu graças à sua serva horrorosa". Harry não era um herói que colocava os outros acima de si? Capaz de se arriscar perigosamente para salvar qualquer um? Não entrara na Câmara Secreta apenas para salvar Ginny? Não era leal, honrado, bom?

Por que chorava por si mesmo, então?

Mas conteve a vontade de zombar. Porque ainda que a pergunta tivesse ocorrido por um breve instante, a resposta lhe veio instantaneamente. Era óbvio que Harry choraria mais por ele mesmo do que por qualquer outra pessoa. Ele era humano.

Ele não era herói o tempo todo.

Às vezes era apenas Harry, assustado e com medo, querendo morrer logo para que toda aquela tortura acabasse. Provavelmente ficava no canto torcendo para que seus amigos não sofressem quando morressem ou para que não acreditassem que Harry havia traído alguém. Talvez ele até mesmo rezava para alguma entidade que Tom desconhecia a existência.

O que realmente fizera?

O mundo em cinzas e Tom apenas observando Harry, tentando desesperadamente entender o porquê de mesmo tendo aniquilado qualquer oponente e reduzido a Ordem a pó, ainda assim ele sentia que a guerra tinha sido perdida.

• • •

— Como eram os trouxas com que você viveu?

— Horríveis.

Harry começara a responder em palavras curtas que carregavam todo o sentido do mundo. Era algum progresso, visto que passara meses sem pronunciar uma palavra, como se fizesse voto de silêncio.

— Por quê? Eles lhe maltratavam?

— Sim.

— Eles odiavam o que você era?

— Sim.

— Por que você ainda defende os trouxas?

— Olhe para você – retorquiu Harry. Sua voz estava ficando mais forte e Tom providenciara que a ração destinada ao Harry Potter melhorasse um pouco. Aparentemente Harry estava aceitando a comida extra que estava recebendo, julgando pela cor voltando lentamente ao seu rosto.

E Tom não entendeu a resposta.

Ele deveria ter entendido.

• • •

Um dia depositou uma arma de fogo aos pés de Harry.

Ferro e pólvora. Atravessou as grades, se posicionou diante de Harry e deixou a arma lá. Ele lhe encarou duvidoso, como se o perguntasse o que raios significava aquilo sem ter que dizer em voz alta. Tom não disse nada. Virou as costas e foi embora.

No dia seguinte, a arma estava exatamente no mesmo lugar.

No outro dia, Harry chutara a arma para longe, como que tentando ficar longe de um monstro. E ela ficou lá, no outro lado da cela, por algumas manhãs. Até que um dia Tom a pegou. E ele a apontou para Harry.

Seu dedo no gatilho, o cano na direção da cabeça de Harry, acima dos seus olhos.

E a única pergunta que Harry tinha era o por quê de Tom ter escolhido uma maneira trouxa de assassinar Harry Potter. Apenas um feitiço pronunciado da forma correta e tudo daria certo, e teriam um novo cadáver para comemorar.

— Você morreria se eu atirasse com isso, certo?

Era uma pergunta idiota e ambos sabiam disso. Harry não respondeu.

— Imagina que fantástico morrer como um trouxa – debochou Tom.

Harry sorriu enviesado.

— Morreria como humano – murmurou – o que é mais do que você vai conseguir.

— Eu não vou morrer, Potter.

E toda a resposta de Harry se uniu em um único olhar sarcástico.

• • •

Só há morte quando se há vida.

O que fizera? O quanto distorcera o compasso da própria música? O quanto descartara dos seus sentimentos? O que ainda dava para salvar? O quanto quebrara as próprias leis? Havia sangue em suas mãos e maldições proferidas ao seu redor, sua história calçada em assassinatos e dor. Tom murmurou algo baixinho aquela manhã e seus servos não ouviram.

Os seus servos deveriam ter ouvido. Eles nunca ouviriam novamente a voz de Tom.

• • •

Só se morre quando se vive.

— Se eu abrisse as grades – Tom perguntou baixinho – você fugiria?

— Não.

Tom franziu a testa levemente, como que tentando entender a franqueza de Harry.

— Se eu pedisse a você para se matar, você o faria?

— Não.

— E se eu pedisse a você para me matar?

Harry o observou longamente. Não havia ódio, rancor ou desejo assassino. Apenas uma longa e profunda observação, como se tentasse penetrar através da sua alma partida em pedaços.

— Mas – Harry disse sério – você não tem humanidade suficiente para morrer.

A resposta foi como um soco, uma porrada dada por um gigante bem no seu estômago. Aquilo já foi dito noutras ocasiões, mas nunca o machucou tanto como dessa vez. Nocauteado por umas poucas palavras, ferido verbalmente por Harry, ainda que ele tivesse dito no tom mais gentil do mundo.

Aquilo o magoou.

É engraçado pensar que Tom se magoara com alguma coisa.

— E se eu pedir mesmo assim? – insistiu Tom.

Harry sorriu. Por que ele não tinha mais ódio no brilho dos seus olhos. Por que agora só havia esse maldito, perverso sorriso em suas esmeraldas? Por que ele passara pelo choro e pela raiva, e agora o aceitava como carcereiro, quando o próprio Tom não saía do que ele era? Por que Harry crescia lentamente, trancafiado, sua mente se acostumando com a comida e as grades, e Tom não conseguia entender o que se passava na massa cinzenta que chamava de cérebro?

— Me mata.

Tom respirou fundo, tenso pela antecipação, aguardando Harry terminar de olhá-lo assim, com as sobrancelhas erguidas em uma expressão pensativa e irônica. A resposta veio mais rápido do que esperava, quando Harry se ergueu, um tanto debilitado pela confinação, mas ainda assim melhor do que já estivera em muito tempo.

Ambas as mãos, direita e esquerda, seguravam a arma de fogo e a apontavam para Tom.

Então Harry apertou o gatilho.

E tudo se estilhaçou.

• • •

Suas lágrimas eram cristal.

Se Tom tivesse visto, se Tom ainda não tivesse se deixado contaminar pelo seu inimigo, se sua alma ainda estivesse tão quebrada, tão ferida, ele teria visto. Ele teria visto as lágrimas cristal de Harry se derramarem pelas suas bochechas quando ele atirou. Ele teria visto novamente o choro de Harry e teria se encantado novamente. Teria percebido que eles apenas haviam retornado ao começo.

Mas ele não viu.

Ele não viu Harry tremer com a arma nas mãos, não viu suas lágrimas atingirem o chão após ter feito o que fez, não viu seu choro se tornando audível, cada vez mais alto e desesperado.

E ele não viu Harry apontar a arma para a própria cabeça.

Suas lágrimas eram cristal.

Elas continuaram cristal quando Harry desabou em lágrimas e sangue.