Capítulo IX
O casamento foi realizado na mansão, numa cerimônia simples, apenas com a presença da família de lorde Taisho. Kagome tinha a sensação de estar revivendo um sonho ao repetir os votos de casamento. Lembrou-se da família e perguntou-se como explicaria a troca de marido aos pais e às irmãs. Como todos só queriam sua felicidade, certamente, aceitariam a nova situação.
Lorde Taisho foi cortês, mas distante e quase não a fitou. O único indício de emoção foi quando, ao final da cerimônia, os olhares se encontraram de um modo expressivo, ambos reconhecendo que alguma coisa irreversível acabara de acontecer.
Na noite de núpcias, e nas outras que se seguiram, os recém-casados dormiram em quartos separados. Sesshomaru levava a sério sua decisão de esperar se conhecerem melhor antes de se tornarem íntimos. Kagome concordava, mas no íntimo estava desapontada.
A primeira semana passou rapidamente. Assim que se espalhou à notícia, vários membros da aristocracia apareceram para visitar o casal. Eram visitas de cortesia, mas principalmente para conhecer a jovem que, entre tantas outras, lorde Taisho escolhera para ser sua esposa.
Finalmente, depois de quinze dias de casada, Kagome foi apresentada oficialmente à sociedade numa recepção oferecida pelo duque de Warwick, o sogro de Sango.
No hall da mansão do duque, Kagome e Sesshomaru recepcionavam os convidados. Devagar, a tensão ia diminuindo, e por fim eles se dirigiram ao salão principal para dar início ao baile. A orquestra estava a postos, aguardando o sinal do maestro. A primeira dança de Kagome seria com o duque. Tentou disfarçar o medo ao ser conduzida até o centro da pista de dança. Ergueu o rosto e deparou com o olhar encorajador do duque.
— Não é hora de fraquejar, mocinha — ele declarou, envolvendo-a pela cintura. — Se notarem sua insegurança, o ataque será iminente.
— Eu sei Vossa Graça. — Kagome encolheu ligeiramente os ombros. — Mas parece que meus pés estão presos no chão.
O duque sorriu e fez sinal ao maestro, que se voltou para a orquestra. Os violinos começaram a tocar.
O duque era um exímio dançarino e, sob seu comando, Kagome executou os passos com facilidade. Na música seguinte, seu parceiro foi o marquês de Dardington. Apesar de ter comparecido ao casamento, o marido de Sango não disfarçava sua desconfiança.
Felizmente, era uma música estilo country, com passos floreados, giros e pouca chance para conversar. A seguir Kagome dançou com o pai de Sesshomaru, e depois com um parente distante do duque.
— Agora é a minha vez de dançar com a noiva, Berkley — disse Sesshomaru, assim que a música terminou.
— Claro. — Berkley fez uma reverência. — Ela é uma moça adorável, Taisho. Você é um homem de sorte por tê-la como esposa.
Sesshomaru inclinou levemente a cabeça e enlaçou Kagome.
— Berkley sempre teve um fraco por mulheres bonitas. Ela corou. Sesshomaru já fizera um modesto cumprimento ao vê-la arrumada para a recepção, observando que sua aparência era apropriadamente aristocrática. Não era exatamente o efeito que ela pretendera provocar.
Escolhera o traje pensando em impressionar o marido. O vestido era de cetim creme com delicados bordados em verde e dourado, com corpete justo e decotado. Calçava sapatilhas de cetim do mesmo tecido do vestido e, pendurado no pulso, o leque de madrepérola. Os cabelos estavam presos no alto da cabeça, com alguns cachos caindo sobre as orelhas e a nuca.
Kagome não era vaidosa, mas estava orgulhosa de sua aparência.
Sesshomaru conduziu-a a pista de dança. Os outros casais se afastaram para os lados, deixando-lhes o espaço livre. Todos os olhares estavam fixos neles, mas não foi isso que deixou Kagome nervosa.
Uma sensação de pânico a envolveu, e seus sentidos se aguçaram. Virando o rosto, deparou-se com Kikyou Manning, olhando insistentemente para eles.
Como a srta. Manning não passara pela entrada oficial da recepção, Kagome não sabia que ela estava entre os convidados. Sentindo que precisava fazer alguma coisa, inclinou levemente a cabeça, cumprimentando-a.
Percebeu a expressão confusa de Kikyou, antes de voltar-se para o cavalheiro que a acompanhava. Kagome não pôde ver o rosto dele, pois uma coluna de mármore bloqueava sua Visão do rosto do homem.
Então, a música começou a tocar e Kagome viu-se rodopiando pelo salão, nos braços do marido, sob os olhares dos convidados. Dançaram sozinhos por alguns minutos antes que os outros casais se juntassem a eles.
Sesshomaru continuou a contar suas peripécias, divertindo Kagome com as histórias de sua juventude rebelde.
— Duvido que alguém tenha sido realmente prejudicado por suas brincadeiras — ela disse. — Mas me conte alguma coisa chocante a seu respeito.
— Não está acreditando em mim, não é?
— Ao contrário, milorde.
— Muito bem. — Ele inclinou a cabeça e murmurou-lhe ao ouvido: — Uma vez, lutei num duelo.
— Num duelo! Mesmo?
— Você deveria ficar horrorizada, não intrigada.
— Deveria? Bem, não estou horrorizada. Você lutou por alguém a quem amava?
— Minha irmã.
— Você defendeu a honra de sua irmã?
— Sim, contra os insultos de Dardington.
— Você desafiou o marquês? Espadas ou pistolas? Sesshomaru balançou a cabeça e riu.
— Você é uma sanguinária. Se eu soubesse, jamais teria lhe revelado meu passado sórdido.
— Eu gostei muito de saber. — De repente, Kagome ficou séria. — Permitiu-me conhecer um pouco do homem que você realmente é.
— Não sou mais um jovem irresponsável e atrevido que arrisca tudo num impulso de rebeldia — Sesshomaru respondeu num tom frio, quase ríspido.
Kagome percebeu que tocara num ponto fraco, mas não tivera a intenção de ofendê-lo. Quando a música terminou, aparentemente Sesshomaru já esquecera a conversa, mas Kagome não.
— Venha, estou livre na próxima dança. Quero ouvir o restante da história do duelo. — Ela praticamente o arrastou em direção ao terraço, mas pararam na porta. — Está chovendo.
— E forte. — Com um sorriso travesso nos lábios, ele acrescentou: — O duque tem um jardim-de-inverno espetacular. E sei onde ele guarda a chave. Vamos!
De braços dados, atravessaram o salão. Excitada com a perspectiva de ficar a sós com Sesshomaru, Kagome nem notou os olhares mordazes de uma determinada pessoa.
O jardim-de-inverno ficava na mesma ala que o salão de baile, com paredes e teto de vidro. A chave estava pendurada ao lado da porta. Sesshomaru acendeu uma vela para iluminar e entrou. Kagome seguiu-o pela nave central.
O barulho da chuva batendo no vidro e o cheiro de flores, folhagens e umidade criava uma atmosfera quase irreal. Sesshomaru acendeu dois lampiões e a claridade revelou uma espécie de sala com um sofá e várias poltronas. Kagome circulou pelo aposento, admirando os vasos de folhagens exóticas. Sentindo que Sesshomaru observava seus movimentos, virou-se devagar. Encostado na parede, com sua imagem refletida no espelho, Sesshomaru sorria.
O coração de Kagome disparou. Num instante, esqueceu do baile, da aristocracia, do nervosismo e de tantos outros pensamentos que a atormentavam desde que concordara em ser esposa de Sesshomaru. Imaginou-se beijando os lábios dele, o queixo, o pescoço. Imaginou-se acariciando os ombros largos, o peito,
As coxas e a rigidez de sua masculinidade. Imaginou-o dentro dela. De repente, seus sentimentos pelo marido quase a sufocaram. Ela o desejava. Desejava-o com paixão, com intensidade, com urgência. A consciência dessa verdade despertou dentro de Kagome um instinto que sobrepujou sua natureza sensata e sua prudência, dando lugar a uma necessidade premente e excitante. Kagome sentia-se segura de seus sentimentos. Não era apenas desejo. Ela amava Sesshomaru. Era inconcebível uma mulher recatada ser tão atrevida, mesmo com o próprio marido. E, então, descobriu que poderia ser implacável quando queria alguma coisa. E ela queria Sesshomaru. Naquele instante, naquele lugar. Aproximou-se devagar e espalmou as mãos no peito dele.
— O que está fazendo? — perguntou ele.
— Não lhe parece óbvio? Estou tentando roubar um beijo do meu marido.
— Aqui? Agora?
Por um instante, Kagome temeu perder a coragem. Mas superando o momento de fraqueza, encostou o corpo no dele. Arrepiou-se toda ao perceber que ele estava excitado.
— A oportunidade não é ideal? — Enlaçando-o pelo pescoço, beijou-o na boca. Não foi um beijo suave nem gentil, mas sim exigente e apaixonado. Sesshomaru correspondeu com a mesma intensidade e Kagome sentiu-se derreter por dentro.
Devagar, ela foi despertando os sentidos dele, usando os lábios, os dentes e a língua, e deliciou-se ao ouvi-lo gemer. Os lábios se devoravam, e as línguas pareciam duelar pelo poder de dominação. Apesar de Kagome ter tomado à iniciativa, era Sesshomaru quem assumia o controle. Segurava-a com firmeza, beijando-a avidamente, pressionando-lhe a nuca com uma mão e os quadris com a outra, mantendo o corpo dela colado ao seu, para que sentisse a evidência de seu desejo.
Com a respiração ofegante, Kagome soltou o nó da gravata de Sesshomaru e em seguida desabotoou o colete e a camisa. Com dedos trêmulos, abriu a camisa e puxou-a para fora da calça. Fascinada, afagou o peito forte e contornou os mamilos com a ponta dos dedos. A sensação de acariciar a pele dele era erótica, e somente ao sentir uma brisa fria no corpo, percebeu que Sesshomaru abaixara o decote do vestido, deixando seus seios à mostra.
— Você é tão bonita! — ele disse com voz enrouquecida. Kagome o fitou, e a emoção que viu no rosto dele quase a levou às lágrimas.
— Você também.
Eles se abraçaram outra vez, e os beijos se tornaram cada vez mais ávidos. Sesshomaru deslizou a mão sob a curva dos seios de Kagome e inclinou a cabeça. Ela gemeu quando os lábios quentes e úmidos sugaram um mamilo, e depois o outro, mordiscando e contornando-os com a ponta da língua. Gritou ao sentir uma onda de calor envolvendo-lhe o corpo.
— É melhor pararmos agora, ou será tarde demais — murmurou Sesshomaru.
— Por que negarmos nossa paixão? — Kagome perguntou, deslizando a mão sobre a calça dele e detendo-se sobre a protuberância rígida.
Um nervo pulou no maxilar de Sesshomaru.
— Kagome, você me enlouquece!
— Sou sua mulher, Sesshomaru...
— Isto é uma loucura — ele resmungou com voz abafada. — Uma loucura absurdamente deliciosa!
— Oh, sim...
Os beijos recomeçaram ainda mais vorazes que antes, mas, mesmo assim, Kagome conseguiu abrir os botões da calça de Sesshomaru. No instante seguinte, o membro intumescido e latejante estava em sua mão. Os únicos sons que rompiam o silêncio dentro do jardim-de-inverno eram da respiração arfante e dos gemidos de ambos. Trêmulo de desejo, Sesshomaru levantou as saias de Kagome e tirou-lhe a roupa íntima.
— Vamos para o sofá — ela sugeriu num fio de voz.
— Não quero perder tempo. — Sesshomaru inverteu as posições, encostando Kagome na parede.
Ela estremeceu ao sentir a mão dele tocá-la intimamente. Sem inibições, abriu-se para ele que, com dedos atrevidos, encontrou o caminho para o centro de sua feminilidade.
Quando a força do desejo se tornou insuportável para ambos, Sesshomaru segurou-a pelos quadris e ergueu-a. Instintivamente, Kagome enrascou as pernas em volta do corpo dele e suspendeu o corpo, para facilitar a penetração.
Ao sentir Sesshomaru penetrando-a, ela estremeceu e deu um gemido de dor.
— Estou machucando você? — ele quis saber. Kagome o tranqüilizou com um gesto negativo de cabeça, e Sesshomaru pressionou mais, até penetrá-la por completo. Esperou um momento para os corpos se ajustarem e, então, começou a se mover devagar. Kagome acompanhava o ritmo, cada vez mais rápido, gemendo, ofegando, tremendo, deixando a cabeça pender para trás.
Seu corpo inteiro parecia pulsar e latejar. Movimentava os quadris freneticamente, e Sesshomaru respondia com força, investindo firmemente dentro dela. Kagome prendeu a respiração ao sentir a proximidade do clímax, enquanto seu corpo era sacudido por espasmos de prazer.
Sesshomaru fechou os olhos e gemeu, dando o impulso final. Kagome sorriu, satisfeita, ao sentir a seiva quente jorrando para dentro dela, e disse para si mesma que não poderia existir um momento mais glorioso entre um homem e uma mulher. Abraçou-o forte até a tensão se diluir. Passaram-se alguns minutos até eles se desvencilharem daquele enlaçamento íntimo. Finalmente, Sesshomaru a colocou no chão, mas Kagome continuou com a cabeça no peito dele, não querendo que o momento mágico terminasse.
A voz ainda enrouquecida de Sesshomaru arrancou-a dos pensamentos lânguidos.
— Vou pedir ao duque uma cópia do projeto deste jardim-de-inverno. Decidi construir um em nossa casa de Londres.
O riso contagiante de Kagome ecoou entre as paredes de vidro do jardim-de-inverno. Sesshomaru sentiu uma sensação de felicidade que logo desapareceu. Seu cérebro recomeçou a funcionar.
Era inacreditável ter se deixado seduzir e perdido o famoso autocontrole do qual tanto se orgulhava. E pior. Perdera também o senso de decoro ao fazer amor com Kagome durante o baile oferecido em honra deles, e num local potencialmente à vista de todos, onde poderiam ser surpreendidos a qualquer instante. Além disso, sua fraqueza provava que, afinal, ele não mudara. Sua natureza impetuosa, rebelde, destrutiva, não fora domada, mas sim, reprimida. Nunca mais deparara com um desafio, até Kagome, com seus sorrisos encantadores e beijos ardentes, entrar em sua vida.
Ao levar Kagome ao jardim-de-inverno, não imaginara que cometeria tamanha loucura. Desde o casamento, procurara manter-se distante dela. Na verdade, estivera apenas evitando a tentação, o risco. Afastara-se de Kagome pelo bem dos dois. Balançou a cabeça, tentando entender os próprios motivos, mas era impossível encontrar lógica na paixão.
Kagome fitava-o com expressão ansiosa, mas ele desviou o olhar. Não estava pronto para discutir o que acabara de acontecer. E duvidava que algum dia estaria.
Em silêncio, começou a ajeitar as roupas. Depois, ajudou Kagome a recompor-se. Notou as tênues marcas dos dedos dele na pele alva dos ombros e das costas dela. Evidências tangíveis de sua paixão e da perda de controle.
Só de pensar que ela teria marcas e manchas em outros lugares também, sentiu uma pontada de desejo castigando-o.
Respirou fundo. A última coisa que precisava era de imagens eróticas em sua mente. Todos os nervos de seu corpo ainda estavam pulsando; o prazer ainda corria em suas veias. Se por um lado recriminava-se pela falta de controle, por outro, ansiava desesperadamente por fazer amor com sua fogosa esposa.
A princípio, irritara-o saber que ela tivera outro homem em sua vida. Mas agora, depois de consumado o casamento, descobriu que o fato de Kagome não ter se casado virgem fazia pouca diferença. Agora ela era dele e sempre o seria. Até que a morte os separasse.
A explicação estava no fato de não ser apenas atração sexual.
Sesshomaru balançou a cabeça e sorriu. Todos aqueles anos de loucura e sexo desregrado tinham sido úteis, pois, mostravam a diferença entre fazer amor e praticar sexo.
Fazer amor com Kagome envolvera uma necessidade mais premente que existia dentro dele. Ao satisfazer essa necessidade, formara-se entre eles um vínculo poderoso e duradouro.
Finalmente, estavam prontos para voltar ao salão de baile.
— Gostaria de poder ficar mais um pouco aqui. — Ela sorriu. — Você não terminou de contar a história do duelo. Estou curiosa.
Sesshomaru riu.
— Infelizmente, não podemos nos demorar mais. Afinal, somos os convidados de honra. — Segurando-a pelo cotovelo, conduziu-a em direção à porta do jardim-de-inverno. — Mas só para que não fique tão curiosa, adianto-lhe que o duelo não aconteceu. Portanto, ninguém atirou ninguém morreu e nem ficou ferido.
—Está bem. Vou me contentar só com o final. Por enquanto.
— Agradeço sua compreensão — ele brincou. — Prometo lhe contar esse episódio e outros tantos divertidos, milady.
Rindo e de braços dados, eles saíram do jardim-de-inverno diretamente para o salão de baile, indiferentes aos olhares intrigados dos convidados que tinham notado a prolongada ausência dos noivos.
Os cochichos e conversas à meia-voz começaram quando lorde Taisho e sua esposa voltaram ao salão de baile. Entre os convidados curiosos, havia uma pessoa que não precisava tentar adivinhar o motivo da ausência do casal por um tempo escandalosamente longo.
Essa pessoa sabia muito bem o que acontecera entre o visconde e sua esposa. Uma pessoa que se irritara profundamente ao vê-los deixar a festa. Uma pessoa que vasculhara todos os quartos da mansão até descobri-los no jardim-de-inverno. Ao descobrir que a porta não fora trancada, essa pessoa entrou silenciosamente e, ao ouvir, vozes e sons estranhos, decidiu verificar de perto.
E, para seu desgosto, viu o interlúdio do casal — copulando como dois animais no cio, comportando-se como seres desclassificados, sem classe e sem tradição.
A decepção foi forte; a dor tão intensa que a pessoa quase gritou sua raiva. O autocontrole prevaleceu, e a pessoa saiu do mesmo modo como entrara — em silêncio e sem ser notada.
A fúria tomava conta de seu corpo, tão forte que deixava um gosto amargo na boca. Coração descontrolado, mãos suadas, mágoa ferindo-lhe o peito, a pessoa procurou refúgio num canto escuro do hall vazio. Sentou-se no chão, tentando convencer-se de que a dor passaria que as feridas cicatrizariam. Mas levaria tempo, muito tempo.
— Já bebeu bem mais do que devia sir.
— Cale a boca! — o fidalgo Dorchester respondeu. Fulminou Kikyou Manning com um olhar de reprovação antes de beber o conteúdo do copo em três goles. Depois, só para irritá-la ainda mais, chamou o criado e pegou outro copo de uísque.
— Está sendo imprudente — Kikyou avisou, erguendo o queixo e exibindo aquele ar superior que tanto enfurecia Naraku.
— Eu disse para calar a boca! Detesto mulheres resmungonas! Elas são patéticas, cansativas, e só conseguem a atenção dos homens uivando na orelha deles!
Como Naraku imaginara, Kikyou ficou vermelha de raiva.
— Só estou tentando proteger sua reputação.
— Se eu precisar de proteção, avisarei — rebateu, sabendo que Kikyou estava pensando na reputação dela, não na sua.
— Estamos em Londres, e não naquele vilarejo perdido no meio do nada! Aqui as regras são diferentes.
A insinuação de que não sabia se comportar apropriadamente em sociedade atingiu-o em cheio, pois continha uma ponta de verdade. Mas ele não respondeu. Manteve-se impassível para não dar essa satisfação a Kikyou.
— O que você sabe sobre os convidados de honra? — Naraku indagou.
— Apenas os comentários que correm por aí. Taisho é arrogante, e a esposa é uma coisinha insignificante do interior.
— São recém-casados?
— Não, apesar de só agora terem anunciado o casamento. Ninguém sabe quando e nem onde a cerimônia foi realizada.
Naraku bebeu um gole de uísque. Descobrira pouca coisa desde que chegara a Londres, e isso começava a incomodá-lo.
— Vi seu pai procurando por você ainda há pouco. Acho que devia ir falar com ele. — Naraku dançara com muitas mulheres, incluindo Rin, mas evitara levar Kikyou para a pista de dança, sabendo que isso a enfureceria. E para provocá-la mais, acrescentou: — Talvez, com pena de você, ele a convide para dançar.
Os olhos dela escureceram, e Naraku esperou pela explosão. Mas, aparentemente, Kikyou estava aprendendo o jogo. Soltando um suspiro exasperado, ela se afastou sem dizer nada.
O fidalgo riu. No início, ele precisara da ajuda de Kikyou para entrar nas festas mais exclusivas da aristocracia, mas agora que conhecia algumas damas da sociedade, já não precisava tanto dela. Mesmo assim, relutava em abandoná-la, pensando que ela poderia lhe ser útil no futuro. Além disso, decidira seduzi-la e a possibilidade de tirar sua virgindade era atraente demais.
Circulou pelo salão, tentando avistar Kagome. A emoção de vê-la pela primeira vez, desde que chegara a Londres quase o sufocara. Ela estava tão elegante, tão bonita, tão cheia de classe que ele precisou conter o impulso de apresentar-se diante dela.
Ainda não estava preparado para revelar sua presença. Era o primeiro evento social de lady Taisho e, certamente, outras e melhores oportunidades surgiriam para confrontar sua presa. De preferência, quando ela estivesse sozinha.
A orquestra fizera um intervalo e os convidados aproveitavam para conversar antes do jantar. Naraku caminhava entre eles, satisfeito com o lugar conquistado naquele mundo de nobres e aristocratas.
Suas andanças levaram-no até o salão de jogos. Ao entrar, logo avistou o visconde de Taisho confortavelmente sentado perto da lareira.
O frio da fúria e o calor do desejo reprimido entraram em conflito na mente do fidalgo. A prudência aconselhava-o a sair do salão, mas, como bebera demais, ignorou o aviso.
— Taisho.
O visconde olhou na direção dele.
— Boa noite.
Sua expressão era vaga, indiferente. Aos olhos de Naraku, insultante.
— Onde está sua mulher?
Oh, agora recebera sua atenção. Taisho colocou o copo na mesa e levantou-se devagar.
— Considero muito estranho, senhor, um desconhecido perguntar por lady Taisho.
Naraku comprimiu os lábios.
— Mais estranho é você não lembrar o meu nome, desde que nos encontramos em várias ocasiões — respondeu o fidalgo com os punhos cerrados. — E conheço sua esposa há mais tempo que você.
— Minhas desculpas. — Taisho lançou um olhar enviesado aos cavalheiros que assistiam à cena. — Aparentemente, você é uma pessoa de quem se esquece com facilidade.
Sem pestanejar, Naraku avançou e agarrou Sesshomaru pela lapela, empurrando-o contra a parede. O ciúme consumia-o por dentro, destruindo a fria postura que sempre o impedira de envolver-se em escândalos e de revelar sua verdadeira natureza. Mas aquele homem tratava-o como se ele fosse nada e ninguém, e ainda tomara o que era seu por direito. O fidalgo ficou cego de raiva.
— Tire suas mãos de mim — Sesshomaru ordenou. — Você está bêbado e, portanto, tem o direito à cortesia de um aviso. Entretanto, se não me soltar até eu terminar de falar, terei grande prazer em pôr uma bala na sua cabeça, amanhã ao amanhecer, no campo Harrows.
Embora a necessidade de cometer um ato odioso e violento contra o inimigo pulsasse no sangue do fidalgo, um lampejo de preservação ainda brilhava na mente dele. Taisho não era um almofadinha londrino. Sua reputação com a pistola e a espada não era para ser ignorada.
Com grande relutância, Naraku soltou a lapela de lorde Taisho e recuou alguns passos. Houve exclamações decepcionadas de alguns cavalheiros. O fidalgo quase gritou que eles não perdiam por esperar, mas não era tão tolo a ponto de ameaçar publicamente o visconde.
Já com os nervos sob controle, o fidalgo preparou-se pra sair, mas Taisho alcançou-o.
— Só mais um aviso antes de você ir.
— Qual? — Naraku sustentou o olhar do visconde.
— Se você puser a mão em mim novamente, você não sairá da sala nas mesmas condições em que entrou.
Os maxilares de Naraku se contraíram.
— Uma ameaça?
— Não. — Taisho esboçou um sorriso. — Uma promessa.
