AMANHÃ
por Nina Neviani
Capítulo IX - Esclarecendo o passado
Marin se encontrou com Shina há uma quadra do barzinho onde se encontraria com Touma.
– Como você está, Marin? – A policial perguntou.
– Bem – respirou fundo e admitiu – Não. É muita coisa ao mesmo tempo.
– Muita coisa? Como assim?
– Eu e o Aiolia estamos perto de nos acertar. Eu acho. E agora estou perto de reencontrar o meu irmão. Ou melhor, de conhecer o meu irmão.
– Calma. Entre lá e explique as coisas pra ele. Ele chegou pouco antes de você. Não se preocupe. Tudo vai dar certo. E não se preocupe em não reconhecê-lo, ele é a sua cara.
– Você não vai entrar comigo?
– Não. Você dá conta sozinha. Alem do mais, esse é um assunto de família.
– Está bem.
– Estarei aguardando aqui no carro.
Marin se lembrou das outras pessoas que tinham prometido esperar por ela. Afastando Athina e Aiolia do pensamento, entrou no estabelecimento. Não demorou muito para que logo encontrasse uma cabeleira tão ruiva quanto a sua, porém com cabelos mais curtos. Sentiu uma emoção forte ao ver como era o seu irmão. Seu irmão.
Aproximou-se do rapaz e disse:
– Olá.
– Olá. – Ele respondeu e levantou-se para apertar a mão da Marin – Você deve ser Shina?
– Bem... não.
Tivera vontade de dizer: sou sua irmã, mas se contivera a tempo. Sabia que o mais acertado seria dar a notícia da maneira menos brusca possível. Por isso, perguntou:
– Eu posso me sentar?
– Sim, claro. Como você deve saber, eu me chamo Touma.
Marin, sentada, pôde ver melhor o quanto Shina falara a verdade. Touma parecia-se com ela tanto nas feições do rosto como na cor vibrante dos cabelos.
– Eu me chamo Marin.
– Deseja algo para beber, Marin?
– Sim. Um café, por favor.
Touma chamou o garçom e pediu dois cafés. Marin respirou fundo e começou a falar:
– Touma, eu sei que a pergunta pode parecer estranha, mas... será que você poderia me falar da sua família?
– Você deve ter um motivo importante para me perguntar isso, sim?
– Sim, tenho.
– Tudo bem. A minha mãe é japonesa. Meu pai provavelmente deve ser. Minha mãe engravidou e para evitar um escândalo, ela veio, ou melhor, foi mandada para a Grécia. Aqui ela conheceu um homem que a aceitou como ela era, com um filho bastardo e tudo. Eles foram muito felizes, até o acidente aéreo que os vitimou há três anos.
– Eu sinto muito. – Marin disse sinceramente, sabia o que era perder alguém tão próximo.
Touma assentiu, antes de tomar um longo gole de seu café.
– Eu sou japonesa. – Marin começou – Quando eu tinha 18 anos, eu estudei aqui na Grécia. Tive que voltar para o Japão no mesmo ano e dois anos depois o meu pai faleceu. Eu assumi os negócios da família. Por mim, eu jamais voltaria para a Grécia, mas a minha mãe me pediu para que eu viesse para cá. Ela queria que eu resolvesse um assunto que ela não tinha conseguido.
– Que era?
– Encontrar meu meio-irmão. – Marin disse de um só fôlego.
– Seu meio-irmão? Filho dela?
– Não, filho do meu pai. Ele teve um filho fora do casamento. Na época, a minha mãe não o deixou assumir a criança. Mas depois que ele morreu, a consciência dela começou a pesar e... o resto eu já contei.
– Você sabia do seu meio-irmão?
– Fiquei sabendo há um mês.
Seguiu-se um pequeno silêncio, até que Touma perguntou:
– Eu sou o seu irmão, Marin?
Ela sorriu e, emocionada, disse:
– Sim.
Horas mais tarde...
Já era quase onze horas da noite quando Marin voltou para casa. Na sala, Aiolia estava sentado no sofá vendo TV e Athina dormia com a cabeça apoiada no colo do pai.
– Assim que você saiu, ela acordou. Tentou ficar acordada até você chegar, mas o sono foi mais forte.
– Tadinha... – Marin foi até os dois e beijou a testa de Athina. Quando ergueu a cabeça, Aiolia puxou-a para um leve beijo.
Sorriram e Aiolia perguntou:
– Como foram as coisas?
– Ótimas! Estou tão feliz.
– E eu fico feliz por você.
– Nós ainda temos que terminar a nossa conversa. – Marin lembrou.
– Sim, temos sim. Mas não agora. Hoje foi um dia muito emocionante para você. E amanhã, a Athina tem aula e eu também.
– Claro.
– O que você acha de sábado, nós sairmos?
– Nós três?
– Ou só nós dois, se você quiser. Meu irmão está me cobrando um tempo com a Athina. Ele diz que eu nunca deixo a Athina passar um dia com ele.
– Eu acho que seria bom. Esse assunto tem que ser resolvido entre nós dois.
– Sim. Eu te buscarei no sábado, então.
– Até o sábado.
Aiolia novamente a beijou e saiu com a filha nos braços.
O sábado chegou logo para Marin. A japonesa durante quase todos os dias daquela semana tinha conversado com o seu irmão. Tinham descoberto várias afinidades e aos poucos iam descobrindo o que era o chamado "amor fraternal".
Marin e Aiolia tinham decidido passar o dia em uma praia há algumas poucas horas de distância. Sozinhos. Aiolos tinha ficado muito feliz com a incumbência de passar o sábado com a sobrinha.
Aiolia, que já estava com os pés descalços e tinha erguido a barra da calça para que ela não se molhasse no mar, perguntou para Marin:
– E então? O que achou?
– É linda. Mesmo em um dia sem sol, ela é linda.
Por causa da garoa fina que caía naquela manhã, a praia na qual eles estavam se encontrava vazia. Eram as únicas pessoas em quilômetros.
Aiolia deu alguns passos para frente e abriu os braços, sentindo a leve brisa tocar o seu corpo e espalhar os seus cabelos. O professor respirou fundo. Sempre amou o mar. Ele se surpreendeu quando Marin praticamente jogou-se nas costas dele. Desde que tinham se reencontrado, ela não tinha atitudes tão espontâneas.
– Você me faz sentir novamente com dezoito anos. – Ela confessou.
– Que bom. E eu também me sinto mais vivo quando estou ao seu lado.
Aiolia fez com que ela se virasse e a beijou. Beijou-a como a quisera beijar desde que namoravam, mas não o fazia porque a achava jovem e inocente demais.
Marin respondeu da forma mais passional possível. Mesmo tendo estado separados por muito tempo, ela sabia que nunca tinha deixado de ser dele.
– Algo me diz que nós viemos aqui para conversar. – Aiolia falou.
– Sim. Vamos nos sentar?
Sentaram-se um pouco mais distante do mar e se abraçaram.
– Sabe por que eu trouxe você justamente pra essa praia? – Aiolia perguntou.
– Não.
– Quando nós namorávamos existia uma pequena pensão bem ali. – Ele disse apontando para uma construção que agora se encontrava vazia. – Era pequena, mas muito aconchegante. Era ali que eu pretendia que fosse a nossa lua-de-mel.
Marin sentiu o coração falhar uma batida.
– Lua-de-mel?
Aiolia tirou uma pequena caixa do bolso.
– Esse foi o anel de noivado que eu comprei há mais de seis anos para você. É claro que hoje eu poderia dar um anel bem mais sofisticado.
Marin ainda um pouco chocada pelo que tinha acabado de descobrir perguntou:
– Por que você não o deu para Thalassa?
– Porque esse era o seu anel. Eu tinha escolhido enquanto pensava em você. Representava o meu amor por você. O meu casamento com a Thalassa foi um casamento, de certa forma, por obrigação. O meu casamento com você seria por amor. E a Thalassa jamais seria você. Cada vez que eu visse o anel no dedo dela, eu saberia que ela não era a mulher que realmente queria pra mim.
– Mas será que o amor duraria até mesmo quando você descobrisse que eu sou estéril?
– Sim. – Aiolia respondeu sem titubear – Eu já disse que a amo pelo que você é. Mas você parece não acreditar. Se bem que eu não trouxe você aqui e nem estou dizendo tudo isso, para ficarmos pensando no que nós perdemos. Não, não foi por isso. Foi apenas para que você soubesse o que aconteceu, e assim, o nosso passado deixasse de ser tão problemático.
– Eu entendo. E... um ano depois que eu deixei a Grécia, eu pensei em voltar para você. Eu comentei com a Shina sobre isso, e ela me contou que você estava casado. E que tinha uma filha... de cinco meses.
– Então você concluiu que eu a trai.
– O que mais eu poderia pensar?
– Sim. Eu compreendo. Provavelmente, no seu lugar, eu teria pensado o mesmo.
Ficaram mais um tempo observando o movimento da maré, até que Marin disse:
– É uma pena que o nosso passado tenha tido tantos empecilhos...
– Sim.
– Porém, graças a ele existe a Athina.
– Sim. Marin, ver a Athina... faz com que você pense na sua impossibilidade de ter filhos? Vê-la a machuca de alguma maneira?
– Não. Claro que não. Eu amo a Athina. No início eu fiquei um pouco triste, porque aquela poderia ser a nossa filha, caso eu pudesse ter filhos. Mas foi por pouco tempo. Até porque se eu pudesse ter filhos e ela fosse a minha filha, ela não seria da maneira que é. E não seria tão encantadora. Eu sou e sempre serei imensamente grata a Thalassa por tê-la colocado no mundo.
– Você é uma mulher incrível, Marin.
– Não, não sou. Mas obrigada mesmo assim.
– Será que essa mulher incrível quer tentar fazer com que dessa vez a nossa história de certo? Tudo bem que dessa vez tem um brinde a mais: uma menina de seis anos que odeia cor-de-rosa.
Ela riu, mas no fundo estava muito emocionada.
– Você...
– Sim. Eu estou perguntando se você quer se casar comigo. E se de quebra, aceita ser a mãe da Athina.
– Oh, Aiolia. Sim, claro que sim. Só que a Athina não vai achar ruim?
– Não. A Athina é inteligente como todos os Priamos. Esses dias mesmo ela me "sugeriu" que seria muito legal ter você como mãe.
Novamente Marin riu.
– Você está enganado, ela é incrível.
– E antes de conhecer você, ela era bem mais tímida. E como se depois que ela conheceu ela tivesse percebido que pode falar e ser ouvida.
– Eu prometo ser uma boa mãe para ela.
– Eu sei que você será.
Continua...
Nota da autora: Quem já leu "Liberdade" deve pensar que eu tenho uma queda por praias desertas. Na verdade, não tenho. E pra ser mais sincera ainda nem gosto muito de praia. Porém, acho que praia combina com esse casal.
Uma ironia que eu mesma achei na minha fic, foi a de que mesmo o Aiolia amando o "mar", ele não conseguiu amar "aquela que veio do mar", que, pra quem não sabe, é um dos significados do nome Thalassa.
O próximo capítulo vai ser um epílogo curtinho, só pra encerrar de vez.
Aguardo os reviews – todos já sabem que eles são o meu combustível.
Beijos!
Até.
Nina Neviani
