Capítulo 4 – Reencontros

Parte 1 – Silas e Misao

Misao observava os guardas, que não falavam e não faziam movimentos bruscos para não correrem mais riscos que já corriam. Com o canto dos olhos, eles perceberam que a criada do castelo corria para o mesmo, e consideraram que, se ficassem ali por muito tempo, a guarda do castelo viria. Ao mesmo tempo, as pessoas que ali se encontravam fugiram para suas casas. Foi quando ouviram novamente a voz da garota que os ameaçava.
- Bela forma de se começar o dia...
Os guardas não resistiram. Aquele lamento parecia a chance perfeita para atacar. Seria necessário apenas que um deles a distraísse. Ambos se olharam, então o guarda desarmado começou a rir maniacamente.
- Qual é a graça?
- Ora, você não percebeu? Todas as pessoas fugiram.
- E daí? - Misao perguntou, visivelmente irritada.
- Simples. Entre eles, havia uma criada do castelo, que saiu correndo para chamar as guardas. - e novamente riu.
Aquela risada irritava cada vez mais Misao, que já não sabia quanto tempo iria suportar sem matar o guarda. Poderia até ser um blefe dele, mas ela não iria se entregar.
- Então eu só tenho que apagar vocês e fugir... - e soltou uma leve risada, que mal foi ouvida pelos próprios guardas.
Ainda com a foice apontada para os dois, ela deu um passo para trás, coisa que chamou a atenção dos guardas. Logo após, ela golpeou o guarda desarmado no estômago com a parte cega da lâmina, que era uma parte não protegida do corpo pela armadura, e este apagou devido a força do golpe.
Tão logo o primeiro guarda caiu, o segundo guarda sacou sua espada e atacou Misao, que esquivou-se sem problemas do golpe. Não desistindo tão facilmente, o guarda resolveu continuar em sua investida, tendo cada golpe esquivado ou aparado por Misao, sem muitas dificuldades. Permaneceram assim por volta de dez minutos.
- É só isso que você consegue? - Misao ria enquanto falava, observando o guarda ofegar cada vez mais. - Assim não é mais divertido. Vou acabar logo com isso.
Tão logo terminou sua frase, Misao tomou a ofensiva violentamente. Seus primeiros golpes foram desviados, mas ela não desistiu, e continuou até que golpeou o guarda com a parte de trás da foice o guarda, fazendo-o desmaiar. Aquele era o momento para fugir. Começou a caminhar para sua segurança quando cavalos surgiram a sua frente, bloqueando a passagem.
- Daqui não irá passar! - rugiram dois guardas montados que bloqueavam a passagem. Misao se afastou sem tirar seus olhos deles, e entrou em posição de combate, coisa que fez os guardas sacarem suas espadas.
- Podem vir! Serão apenas mais dois que vou ter que derrubar!
Um dos guardas avançou para a ofensiva, sem descer de seu cavalo. Misao ligeiramente entrou em posição defensiva, e ao aparar o golpe, desequilibrou-se e caiu, indefesa. O outro guarda, que mantinha sua posição bloqueando a passagem então desceu de seu cavalo, sacou sua espada, e rendeu Misao, que ficou estirada no chão, sem forças para levantar.
"Maldita dor... por quê logo hoje?" pensou Misao. Pouco tempo depois, ela ouviu a chegada de outro cavalo.
- Qual a situação? - perguntou o recém chegado cavaleiro. Pela pergunta, provavelmente aquele era o líder, pensou Misao.

- Senhor, a garota que causava os problemas está sob custódia.
- E os outros dois guardas? Como estão?
- Apenas desacordados, senhor.
- Certo. Tragam os três para o castelo, e coloquem-na na masmorra.
- Sim, Senhor.
Misão fora levantada pelos guardas que haviam a derrotado, e fora separada de sua foice. Mas ela não iria deixar que a levassem dessa forma para uma masmorra qualquer. Lutando contra sua dor e contra os guardas, ela libertou-se, pegou sua foice, e partiu na direção do líder montado em seu cavalo, e com um forte golpe derrubou-o do cavalo. Com a ponta de sua lança, dominou o cavaleiro e pôs-se a gritar para os outros guardas.
- Mexam-se e ele vai pagar por isso!
Ao ouvir a voz da de Misao, o cavaleiro caído mostrou uma expressão que significava para que a escutassem e que ficaria bem. Lentamente levantou-se, de modo que não fosse percebido, segurou a foice e falou com ela.
- Você conseguiu me fazer de seu refém, mas como pretende fugir, Misao?
- Isso não te importa! - gritou para o cavaleiro, sem se virar para olhá-lo. Foi quando percebeu que ele sabia seu nome. - Como você sabe meu nome!? - e virou-se para encará-lo. Quando olhou o cavaleiro dominado no rosto, ela instantaneamente largou a foice e caiu de joelhos.
A inesperada reação da garota fez com que os guardas avançassem, mas foram impedidos por Silas, o líder dos cavaleiros. Sem dizer uma só palavra, sinalizou para que deixassem que ele cuidasse da situação. Ajoelhou-se em rente a Misao, e começou a falar.
- Eu sabia que não era o único aqui, e quando me contaram do ocorrido, eu logo imaginei que era você a causa do problema. - e deu uma leve risada, para fazer Misao reagir. A reação de Misao foi totalmente diferente da que Silas esperava, quando ela abraçou-o e pôs-se a chorar.
- Eu estava assustada... Não sabia onde estava... e nem se veria um rosto conhecido... - disse entre soluços. Silas abraçou-a, enquanto falava com os guardas.
- Tudo bem, não precisam levar ela para a masmorra. Eu a conheço, e garanto que ela não mais irá fazer isso. Apenas peço para que não façam comentários sobre sua altura, que a respeitem como se fosse a mim. Dispensados. - os guardas entreolharam-se, mas logo acataram as ordens de seu líder, e partiram de volta ao castelo. Tão logo os guardas estavam fora de vista, ele levantou e ajudou Misao a fazer o mesmo. Entregou-lhe a foice e começou a falar.
- Nosso primeiro dia nesse mundo e você já arruma confusão? Eu sabia que era você desde o começo. - mais uma vez riu.
- Seu eu fosse você não me tirava do sério. É aquela época, e eu não tô legal... - Misao respondeu, com uma expressão de dor, devido a todos os movimentos bruscos que havia realizado.
Silas sabia muito bem o que significava aquela época. Era uma época onde a menor faísca poderia provocar um incêndio de nível épico. Seria mais prudente de sua parte parar com as brincadeiras, e assim o fez. Olhou Misao no rosto e pode perceber a crescente expressão de dor, e ele sabia que iria ficar cada vez pior. Assobiou, e com isso seu cavalo se aproximou, segurou-o pelas rédeas.
- Sobe no cavalo, Misao. - Silas disse, voltado-se para ela, que permanecia em silêncio, concentrada em alguma outra coisa. Ele então cutucou-a no rosto, tentando fazê-la reagir. Após pouco tempo de começar a realizar essa ação, fora fortemente estapeado na nuca.
- Você sabe que isso é muito chato, né?
- Bom, pelo menos você ainda fala e escuta. - e deu uma leve risada, prosseguindo em seguida. - Sobe no cavalo, que até o castelo é uma boa caminhada, e no seu estado, você não iria muito longe.
- Como assim, "no seu estado"? - disse Misao, encarando Silas. - Até parece que eu vou morrer.
- Provavelmente não vai, mas essa sua cara tá dando dor em mim só de ver. Então sobe no cavalo.
- Eu vou piorar se essa coisa correr...
- Sobe logo no cavalo!
- Não grita, ou vou te bate tanto que ninguém vai te reconhecer!
A expressão de dor era sobreposta por uma de raiva. Silas parou um instante, e logo após começou a falar novamente.
- Olha, eu não faço a mínima idéia do tamanho da dor que você sente... Mas eu vejo pelo seu rosto que você sente muita dor, então sobe no cavalo e vamos pro castelo...
Ela não queria dar o braço a torcer, mas a dor era tanta que ela mal conseguia se manter em pé, muito menos andar uma longa distância, mas mesmo assim não iria admitir tão facilmente. Deu mais dois passos e novamente a dor veio, parou e pediu ajuda para Silas colocá-la no cavalo, e assim esse o fez.
- Que bom que você mudou de idéia. - Disse Silas, com um largo sorriso no rosto, que d chão olhava Misao. Logo após subiu no cavalo, e falou novamente. - Não precisa se preocupar, que o cavalo não vai passar dessa velocidade. - e cutucou o cavalo, de modo que sua velocidade não fosse maior que de uma caminhada. - Vai demorar um pouco mais, mas vamos chegar lá e você não vai ter dores maiores por causa disso.
- Pelo seu bem, espero que sim. - Disse Misao, descansando sua cabeça nas costas de Silas.