Paro diante do Camaro Cupê SS branco, impressionado pelo modelo esportivo de luxo, enquando Lorenzo simplesmente entrava pela porta do motorista.
O loiro estica o braço em direção a porta do passageiro, abrindo-a rapidamente e indicando para que eu entrasse. Automaticamente entro no carro, acomodando-me no banco do passageiro e virando-me para encarar o garoto ao meu lado.
— Por acaso você tem idade para dirigir? – pergunto incrédulo – E se você tem um monstro caríssimo como esse, porque estudar em uma escola pública?
— Tirei minha habilitação assim que completei dezoito anos, dirigir é bastante útil quando se vive sozinho – ele dá de ombros – Escolhi estudar ali, por ser bastante perto de minha casa.
— Hum... – respondo por fim, voltando o olhar pela janela enquanto Lorenzo dava partida no carro.
A paisagem começava a se mover, ao lançar um olhar em direção aos portões do cemitério pela última vez, consigo notar um borrão escuro mover-se rapidamente no local e fazendo um calafrio descer por minha espinha.
— Está tudo bem? – ouço o sotaque arrastado de Lorenzo e rapidamente viro-me em sua direção – Você está muito pálido.
— Só… Foi uma noite longa – passo a mão por meu cabelo embaraçado e respiro fundo, inalando o cheiro de carro novo e hortelã – Acho que o estresse e a falta de sono já estão me prejudicando.
— Não se preocupe, logo te deixarei em casa – ele volta sua atenção para a estrada, dirigindo rápido.
— Sabe, eu não acho que será uma boa ideia você ir com esse carro até meu bairro – sinto minha pele corar enquanto dou um sorriso constrangido – Sabe que meu bairro é um pouco perigoso para pessoas de fora, vão acabar roubando seu carro.
— Tudo bem – ele dá uma risada curta – Então deixaremos meu carro em minha casa e seguiremos a pé até sua casa. O que acha?
Um sorriso involuntário brota em meus lábios com tanta gentileza vinda do garoto, ainda mais após sua grosseria. Talvez ele estivesse comovido por meu momento de fragilidade, decidindo redimir-se pelo outro dia na sala de aula.
— Me desculpe por ter sido tão mal educado nos nossos primeiros encontros – ele fala parecendo ler meus pensamentos.
Encontros. A palavra faz minha pele aquecer, logo em seguida acabo perdendo-me em seus olhos azuis, como sempre que os via.
Eu precisava manter pensamentos como esse longe de minha cabeça, afinal, apaixonar-me rapidamente só traria dores de cabeça e não havia momento mais importuno para isso.
— Está tudo bem, hoje você está sendo gentil – passo os dedos pela fivela do cinto de segurança – Eu que não estou falando muito...
— Eu entendo como você está se sentindo – ele tenta me reconfortar.
— Entende? Nem eu me entendo – falo massageando minhas têmporas – Quer dizer, nunca imaginei perder ninguém tão próximo. Talvez esqueci que ser humano é assim, estar conformado que ninguém é imortal.
— Sim… – ele fala pensativo, ao olhar pela janela, noto que passávamos em frente a escola.
Acabamos caindo em silêncio, devido ao assunto de morte, eu havia ficado comovido e Lorenzo parecia não saber o que dizer.
Alguns minutos depois, o carro para diante de um grande sobrado branco, o garoto loiro sai do carro e apressa-se em abrir a porta para mim.
— Obrigado – falo ao sair do carro e começo a observar o grande portão de madeira – Essa é sua casa?
— Sim. Gostaria de entrar? – ele pergunta, parando ao meu lado.
— Talvez outro dia – respondo, sentindo-me levemente tentado – Estou exausto…
— Tudo bem – ele sorri e coça sua nuca, indo abrir o portão de correr da garagem – Vou só colocar o carro para dentro e podemos seguir caminho.
Observo o garoto voltar para seu carro e colocar o veículo na garagem rapidamente. Eu finalmente sentia-me menos constrangido sem aquele monstro em forma de carro perto de mim, não parava de perguntar-me porque um veículo tão chamativo.
Instantes depois Lorenzo finalmente retorna caminhando até mim, fechando o grande portão de madeira logo atrás de si.
— Vamos? – o loiro fala com um sorriso, colocando suas mãos no bolso do jeans. Após eu assentir, ele volta a falar – Como você está?
— Estando distraído, fica tudo bem – falo enquanto começamos a caminhar – Mas confesso estar com medo de quando ficar sozinho…
— Neste caso, vamos mudar de assunto – ele dá um sorriso torto, sorrio involuntariamente ao ouvir seu sotaque.
— Tudo bem – observo as nuvens alaranjadas do fim de tarde e volto a falar – Então me fale mais sobre você.
— Eu venho de uma cidadezinha italiana, era um lugar bem tranquilo – ele comenta – Após minha emancipação, decidi viajar pela América do Sul e acabei parando aqui no Brasil.
— O que mais? Gosta de animais? – pergunto observando a linha de seu maxilar marcado – Sua cor preferida? Música? Você provavelmente gosta de carros...
— Eu amo animais, mas não levo muito jeito com eles – ele responde após dar risada da enxurrada de perguntas – O resto você vai descobrir aos poucos, afinal passaremos o resto do ano letivo lado a lado.
— É… – respondo corando, repentinamente envergonhado – Justo…
Ele dá risada da minha reação, em seguida acabamos caindo em silêncio, somente o som de nossos passos na estrada de terra que levava ao bairro em que eu vivia.
Quando finalmente chegamos em minha casa, Lorenzo me dá um abraço apertado, desejando-me melhoras.
— Se precisar de algo, pode me mandar uma mensagem – ele fala, passando o número de seu celular em seguida.
— Pode deixar – digo com as mãos no bolso da calça – Obrigado por hoje, pela carona e por ter sido tão gentil.
— Estou aqui para o que precisar – ele responde, dá um sorriso ladino e começa a ir embora, enquanto eu encaro suas costas largas cobertas por uma camiseta preta.
Debruço-me sobre a minha carteira, estava quase cochilando sentado, afinal, não havia conseguido dormir na ultima noite. Sempre que fechava os olhos, revivia os acontecimentos do hospital... Então aproveitei que eu e Allyson havíamos chegado mais cedo, e resolvi cochilar um pouco.
Sinto uma mão gelada encostar em minha nuca, fazendo um calafrio descer por minha espinha enquanto eu levantava a cabeça para descobrir quem era a pessoa. Lorenzo estava diante de mim com um sorriso ladino, travaja a camiseta preta da escola, que ficava justa contra seus músculos, também usava uma calça skinny vinho e calçava um par de coturnos de couro caramelo. Ao seu lado havia uma garota bastante parecida com ele, mas seus cabelos loiros carregavam diversas mechas azuis turquesa, ela trajava a camiseta preta da escola, jeans skinny claros com a cintura alta e calçava coturnos pretas.
— Não dormiu de noite? – ele pergunta ainda com o sorriso que faria qualquer um perder o ar.
— Infelizmente não – respondo correndo o olhar pela dupla em minha frente – Assim que fiquei sozinho, todo aquele mal estar e a tristeza me atingiram como um trem.
— Vai ficar tudo bem – suas palavras são tão confiantes que eu sinto-me instantâneamente reconfortado – Essa é Milenna, minha irmã gêmea, ela chegou antes de ontem da Itália.
— Oi, prazer em conhecê-la – digo para a garota que oferecia-me um sorriso simpático – Adorei seu cabelo…
— Obrigada – ela fala com o sotaque arrastado, passando a mão pelas madeixas encaracoladas – O prazer é meu em conhecê-lo, meu irmão não parava de falar de você.
— Bom Milenna, porque você não vai procurar uma carteira vaga para sentar? – Lorenzo se adianta parecendo pego de surpresa, em seguida senta-se ao meu lado.
A garota dá um sorriso diabólico para o irmão, que a fuzila com o olhar, típicas provocações entre irmãos… Eu havia gostado de Milenna, ela parecia bastante simpática, mas o que ela dissera sobre Lorenzo falar sobre mim não saía de minha cabeça
— Esse lugar atrás de você está vago – digo para ela, indicando a carteira ao lado do lugar em que Fabrício sentava-se.
— Oh, obrigada! Vou adorar sentar perto de vocês – ela fala animadamente, em seguida toma seu lugar e começa a arrumar seu material.
Viro-me para Lorenzo, que mexia distraidamente em seu celular, eu estava disposto a perguntar o que ele andava falando sobre mim, quando uma voz alta ecoa pela sala de aula.
— Bom dia meus amores!! – Guilherme adentra a sala de aula saltitando, junto com mais alunos que chegavam. Lança um sorriso torto para o garoto sentado ao meu lado, em seguida olha-me com cara de nojo.
Guilherme era meu último ex namorado, nosso relacionamento havia acabado de forma nada amigável após uma traição vinda da parte dele e desde então nós simplesmente nos odiavamos.
Sua pele era negra, tinha olhos castanhos escuros, lábios grandes carnudos e cabelos pretos raspados. Era alto e seu corpo magro era definido.
Trajava uma regata branca e uma bermuda bege, calçava um par de converse all star pretos.
— O grêmio estudantil finalmente decidiu o tema do baile de primavera – ele anuncia cantarolando e eu reviro os olhos – O tema é Baile de Máscaras!
Um burburinho toma conta da sala inteira, todos já fazendo planos e comentando o que iriam vestir. Eu rapidamente viro-me para Allyson e começo a fazer o mesmo. Afinal, não era sempre que a escola fazia festas com temas como este.
