CAPITULO VIII: See Who I AM – Breaking the Surface.

-Do que está falando?

-Disso. - respondeu lhe atirando uma pasta que estava escondida em seu sobretudo.

-Que porra é essa?

-Eu tô tirando você da desconfiança. Verônica? RA! Tá bom. O nome dela não é esse. Ela se chama Manuela Mendez. A única coisa que ela não mentiu pra você, foi a origem latina, porque o resto... Ela é uma assassina profissional, procurada pela Scotland Yard, Interpol, FBI, CIA, IPF e todas as outras siglas que você quiser. Se bobear, até pelo CSI... Uma verdadeira sopa de letrinhas. E adivinha por que ela tá aqui? No seu hotel... Saindo com você... Te deixando burro... Você desconfiava de algo Saga. Podia ter feito isso sozinho.

-Vai se vangloriar agora por ter descoberto isso no meu lugar?

-Você ainda não acredita né? Pode conferir. Eu posso garantir que a fonte é segura.

-Se você é mais esperta do que eu, sabe que eu não vou conferir nada.

-Porque você já acreditou. Ótimo. Posso ter de volta meu adversário à altura? Tá ficando monótono jogar sozinha, sabia?

-Tá se achando agora não é?

-Tenho motivos pra isso.

-Será que vai ter motivos quando eu te cortar fora a cabeça?

-Ora Saga, veja pelo lado bom da coisa. Essa história não daria certo mesmo. Eu só te fiz um favor. - ela deu um sorriso jocoso.

-Você sabe de mais alguma coisa. - e isso não foi uma pergunta. Saga entendeu quando o sorriso jocoso transformou-se num sorriso de satisfação. Mais uma vez. Mais uma vez tinha caído no jogo dela. Vampira desgraçada. - O que mais você sabe?

-Essa era a parte que eu queria deixar pra você mesmo descobrir. - o tom de brincadeira que ela estava usando sumiu.

-Fala logo de uma vez Jillian! O que mais você sabe?

-É meio irônico sabe? E muito, muito sacana.

-O que é irônico?

-Um caçador de vampiros é contratado por um vampiro pra caçar uma vampira. Então o patrão vampiro do caçador de vampiros contrata uma assassina profissional para acabar com o caçador de vampiros que também é um assassino profissional. Muito irônico, você não acha?

-Patrão vampiro? - perguntou sentindo a corrente sanguínea ferver dentro de si.

-Você também não sabia disso? - ela desatou a rir – William, seu contratante, é o vampiro mais imundo dessa cidade.

-William? Esse não é o nome certo.

-Ah não? E qual é?

-Por que o nome do meu contratante importa tanto agora?

-É apenas um nome pra mim.

-Então fique sem ele!

-Tudo bem. Então você fica na dúvida se o que eu falo realmente é verdade. A vítima da ironia não sou eu. E não é o meu sangue que tá fervendo e nem eu que estou sendo privada de uma parte do meu orgulho. E aí? Vai perguntar pra quem se isso é verdade? Pra Verônica? Ela não acredita nem no que ela própria inventa! Vai perguntar pro seu chefinho? Ah, claro que ele vai dizer. Acorda de uma vez Saga! Não me faça acreditar que você é burro assim! Apenas um nome.

-Por que de repente você pareceu tão interessada em me ajudar?

-Porque eu acho que você vale o desafio.

Saga ficou observando a vampira por um tempo. E se ela estivesse mesmo falando a verdade? Contratado por um vampiro? Isso era muito mais do que seu orgulho podia permitir. Radamanthys não era um vampiro, mas podia muito bem acobertar o verdadeiro responsável por estar ali em Londres. Ela havia lhe contado sobre Verônica... Talvez estivesse falando sério.

-Que desafio eu valho?

-Um dos bons.

-Radamanthys. Esse é o nome.

-Radamanthys? - Saga observou ela lhe olhar com uam expressão que escondia uma certa surpresa. - Ele é muito mais do que o homem de confiança de William!

O sangue voltou a ferver. Borbulhar. Isso explicava muita coisa! Toda aquela falsa moral daquele playboy! Ele só faltava mijar nas calças quando tinha que dar uma ordem mais rígida.

-Eu já imaginava que ele tinha algo de estranho, mas confesso que não era do meu interesse, ainda, saber disso. Assim que caçar você, meto umas balas nesse playboy e caço esse William também. - disse numa calma que impressionou até a si mesmo.

-O que mais te chocou foi saber dela, não foi?

-De novo esse assunto? Você não cansa de falar da Verônica? Ou Manuela, ou qualquer que seja o nome dela.

-Você se incomoda mais do que eu. É por que não deu certo né? Você pensou que ela poderia ser uma boa companhia pra esquecer sua solidão não foi? Eu sei como se sente.

-Do que diabos está falando?

-Você tenta encontrar alguém pra preencher o espaço que ficou vazio pela perda. - Saga viu que ela se afastara em direção à raiz volumosa da árvore, onde havia depositado o sobretudo antes. Ficou aliviado ao perceber que ela não falava somente dele, mas de uma forma generalista. - Procura em cada olhar, em cada pele, em cada corpo, em cada som... Você procura em qualquer coisa alguma característica que seja semelhante à que aquela pessoa tinha antes de partir. Mas você nunca encontra. E então continua procurando. E sempre que você encontra alguém fica torcendo pra acabar gostando de verdade daquela nova pessoa, mas no fundo você sabe que não vai ser assim. A noca pessoa nunca vai chegar aos pés daquela que fez parte da vida que você tinha antes da imortalidade. Eu sei como é. Sei muito bem como você se sente. O sentimento nas pessoas imortais feito nós, costuma ser mais intenso.

-Feito nós? Você... Olha aqui vampira, eu não vou... Não ouse me comparar com você, ouviu? NÃO OUSE! EU NÃO SOU UM LIXO COMO VOCÊ!

-Eu acho que alguma coisa afetou a sua mente, só pode. Será que você não percebeu?

-O que? - perguntou furioso..

-Você e eu somos parecidos. É tão difícil assim enxergar isso?

-NUNCA! NÃO ME COMPARE A VOCÊ!

-E por que não não? Você e eu já fomos pessoas que constituíram família. E temos nessa história caminhos semelhantes. Sua esposa foi assassinada por um vampiro, meu esposo também. O mesmo vampiro que matou sua esposa, fodeu sua vida e o mesmo vampiro que matou meu esposo, ferrou com a minha. Já viu alguma semelhança até aí? Porque eu posso lhe dar algumas mais. Pra mim não tem problema nenhum.

-Cala essa boca!

-Já entendeu o que eu quero dizer?

-Por inferno com o que você quer dizer!

-Tudo o que você sente, eu já senti! E eu sei que agora que você sabe da verdade, sua válvula de escape vai ser querer me atingir de todas as formas. E eu nem ligo...

-Está se divertindo, não é? Era isso que queria desde o início, não era?

-Não.

Saga olhava furioso para Jillian. É claro que era aquilo que ela queria! O tempo todo! Seu auto-controle se esvaía pelas mãos, como finos grãos de areia. Lentamente. O sangue fervia. O peito subia e descia rapidamente. Quanto mais ar entrasse, mais ele controlava os pensamentos, mas estava ficando um pouco difícil. Realmente difícil. Principalmente com o olhar que ela lhe lançava. Como que esperando qual reação ele finalmente teria. Um olhar calmo e ao mesmo tempo penetrante. Ela realmente esperava. Sentada na raiz, pernas cruzadas, postura ereta, as mãos pousadas no colo. Uma dama. Maldita! Ele não conseguia controlar a raiva. Era difícil demais. O cheiro dela que chegava ao seu nariz graças ao vento era um ultraje. Um convite para acabar com tudo aquilo de uma vez. Ele podia fazer isso, não podia? É claro que podia! Ele tinha uma espada na mão. Seria apenas um movimento e o corpo cairia decapitado. Ele podia. Tinha que fazer isso! Aquele cheiro estava irritante! E aquela falta de atitude dela, apenas esperando era mais irritante ainda! Tinha que se controlar. Precisava. Era exatamente o que ela queira mais uma vez. Que ele perdesse o controle. Mas isso não iria acontecer!

-O que eu quero realmente Saga, é que você abra os olhos pra que então, nós dois possamos ter nosso verdadeiro duelo.

-Verdadeiro duelo? - rosnou ele.

-Sim. Você não acha que vou mesmo lutar com você fraco desse jeito não é?

-Fraco? - o rosnado foi mais forte e ele não conseguiu manter qualquer controle que fosse.

Avançou nela com a espada erguida, mas não percebeu e, que momento ela saiu da sua mão e fincou-se no chão. E nem em que momento aquela outra lâmina tinha entrado no caminho e ficado na altura do seu pescoço. E aquele maciço nas costas viera de onde?

-Sim. Fraco. Como agora. Vê? Percebe o que eu estava falando? Você está fraco. - disse lentamente as três últimas palavras. - Eu duvido que eu conseguiria tirar a espada da sua mão de forma tão fácil se você não estivesse assim. Du-vi-do. Tem algo mais te perturbando. Eu não sei o que é e nem quero saber. Mas eu tenho certeza, absoluta, de que uma parte da sua distração eu já eliminei. - disse baixando a lâmina e afastando-se dele. Ou você vai continuar brincando de casinha com a ruiva falsa? Seria muito burro se fizesse isso.

-E por que?

-Porque ela não se interessa por você como você tenta se interessar por ela. Pra ruiva falsa você não passa de uma forma fácil de ganhar dinheiro. Um pescocinho valioso.. Sim, porque a exigência de William foi cortar fora a sua cabeça. Ambos sabemos porque. O preço por isso tudo eu vou deixar pra você adivinhar. Mas você realmente vale muito. Ela é muito burra. Porque, não se interessar por você é algo realmente difícil. Pena que você é meu inimigo. Mas me diz uma coisa Saga, você realmente queria esse tipinho como companhia? Ou foi por que ela se ofereceu pra você?

-Eu acho que você deve ter uma certa inveja... Já reparou que sempre volta esse assunto pra ela?

A resposta de Jillian foi uma sonora gargalhada. Inveja de Verônica? Jamais! Podia ter uma pontada de inveja de qualquer outra mortal, mas da ruiva falsa, isso jamais!

Deu pra contar piadas agora Saga? Pensei que quem tirava gracinhas aqui era eu... - disse ela recuperando-se.

-Não. Achei que era somente uma coisa de lógica.

-Não me fale de lógica caçador porque a sua anda bastante errada, cá entre nós.

-Será mesmo?

-Você sabe que sim. E não tente dissimular. Eu sou muito melhor nisso do que você. Admita que você não sabe mentir. Até a ruiva falsa mente melhor que você.

-CHEGA VAMPIRA! Será que dá pra parar de falar dela? Verônica agora é problema meu!

-Será que eu estou ouvindo um pouco de ressentimento nessa frase? O que? Você realmente gostava dela? Eu não posso acreditar nisso. É sério mesmo? Você... e ela? - outra gargalhada sonora – Olha, eu quero acreditar mas não consigo! Sério!

A única reação de Saga foi baixar a cabeça e dar um leve riso. Depois levantou o rosto e olhou para o nada, como que fugindo do que ela dizia. Deu um outro riso abafado e manteve a expressão com o sorriso comprimido entre os lábios.

-O que? Qual foi a graça? - perguntou ela ainda rindo.

-Nada. - disse em voz baixa e desfez a expressão anterior desviando os olhos.

-Espera... Você... Entendi. Você sabia o tempo todo que ela não prestava, mas mesmo assim queria tentar. Você achava que podia dar dar certo.

-Pára com isso.

-Você não ligava exatamente pra ela e nem pra você. Só queria acalmar esse buraco no peito. Uma pena que escolheu a pessoa errada. Você realmente sente falta de alguém né? E estar aqui com certeza não está lhe ajudando. Você amava Helena mais do que muita coisa pra ela lhe fazer tanta falta. Tanta dor no peito. Tanto vazio durante tanto tempo. Você sabe que vai ser duro fechar esse buraco ou dar um jeitinho nele. A sua dor nem se compara perto da minha.

-Pára.

-E a sua esperança quanto a isso me dá inveja. Mas... Quem é ela? Quem é essa mulher com quem você tanto sonha e tanto espera encontrar?

-PÁRA DE LER A MINHA MENTE! PÁRA! Você já tá abusando desse jogo! Sai da minha cabeça!

-Desculpa.

-Desculpa? Pelo que?

Jillian foi até a espada dele e a tirou do chão.

-Eu... não... Eu não queria acabar com nenhuma esperança sua. Mas você tem que admitir que nós dois temos que resolver isso de uma vez. Essa caçada já se prolongou demais.

-Uma caçada leva o tempo necessário pra se realizar.

-Você sabe que essa já se estendeu mais do que devia. Já me encontrou, já me acertou. Já sabe coisas demais sobre mim. Não tem mais sentido ficarmos nesses joguetes.

-O caçador aqui sou eu. Eu decido quando está na hora de parar.

-Você sabe que as coisas não são bem assim. - disse lhe entregado a espada. - Quando estiver preparado, é só me chamar.

-E como eu vou te achar? Você saiu da mansão. Vai ter um outro surto de pianista profissional?

-Você já me achou uma vez não foi? Por que não tenta de novo? Aliás, você vai saber como me achar com certeza. Você já sabe na verdade. Te vejo logo caçador.

x-X-x-X-x-X-x-X-x

-Então...

-Você voltou.

-Você ainda estava descrente da minha volta? Que belo amigo você hein... - disse ela desencostando do batente da porta. - Aposto que ficou pedindo pra tudo quanto é deus grego...

-É assim que agradece a preocupação que tenho por você?

-Qual é Aiolos? Você sabia o tempo todo que eu ia voltar.

- Isso não me impediu de me preocupar.

-Tá bom. Agora para de bancar o irmão mais velho.

-Por que não comemoramos?

-Comemorar o que?

-Bom, você venceu o Saga.

-Na verdade, eu não o venci. Não houve duelo. O que eu queria mesmo era acordá-lo para a verdadeira luta entre nós dois. Acho que consegui. Quando saí de lá ele parecia mais consciente.

-Acordou a consciência de Saga?

-Espero que sim.

-Divirta-se bastante até o próximo...

-Aiolos. - ela o interrompeu já sabendo o que ele falaria.

-Desculpe, mas é difícil pra mim Jillian, vê-la ansiar tanto para enfrentar Saga Você não o conhece como eu o conheço! Eu não duvido das suas habilidades. Nem um pouco! Você já me venceu uma vez, lembra? E praticamente de mãos vazias! Mas eu, não sou o Saga, Jillian. Ele é bem melhor que eu! E ele tem motivos suficientes pra ser. Ele não vinga só a morte de Helena. Ele vinga também uma imortalidade não desejada.

-Todos nós tivemos uma imortalidade não desejada Aiolos.

-Será que foi realmente não desejada Jillian? Ambos tivemos a chance de escolher e ambos dissemos sim. Saga não passou pelo processo da troca de sangue. Ele não teve tanta sorte de escolhas assim. Por isso tem motivos suficientes para ser muito melhor do que era.

-Melhor do que era?

-Sim.

-Estou ouvindo o resto.

-Eu sei apenas o que já contei pra você.

-Então estou ouvindo os detalhes esquecidos.

-Não existem detalhes esquecidos. E por que isso está lhe interessando tanto de uma hora pra outra?

-Apenas curiosidade... - movimentou as mãos com causalidade demonstrando desinteresse enquanto avançava pelo cômodo.

-Curiosidade... "Sei..."

Aiolos fitava-a. Ela estava diferente. E ele sabia muito bem o que estava acontecendo. O silêncio entre eles era de causar agonia. Mas foi ela quem decidiu quebrá-lo.

-Esse Aiden devia mesmo ser alguém muito poderoso realmente pra passar suas habilidades assim de forma tão fácil.

-Você nem acredita 100% nessa história...

-Está enganado.

-Como mudou de opinião tão rápido?

-Você tem uma visão muito errada das minhas opiniões.

-Eu conheço você muito bem e sei quando algo muda.

Ela apenas sorriu e olhou pela mesma janela que ele olhava quando ela estava prestes a sair para encontrar o caçador.

-E então? O que mais mudou? - Aiolos já estava ao lado dela, de costas para a janela, apoiando-se com as mãos.

-Não mudou nada Aiolos. Pega leve e pára com isso.

-Sabe que não consegue me enganar, não é?

-Nem que eu quisesse.

-Ótimo. Agora me conta. O que mais aconteceu lá?

-Depois eu que estava interessada.

-Eu tenho motivos para me interessar por isso. Motivos que você não tem.

-Tudo bem, o que é isso que tá rolando aqui entre nós dois? Sei lá, tá estranho.

-Acho que deve ser tensão.

-Tensão é algo realmente chato.

O vampiro apenas olhou em seus olhos e no instante seguinte, as coisas que haviam em cima da mesa daquele escritório estavam no chão.

x-X-x-X-x-X-x-X-x

Saga não acreditava na noite que tivera. Estava preparado para um duelo, mas tudo o que teve foi uma vampira maluca que achava que sabia como ele se sentia. Tudo bem. Ela sabia. E estava ficando cada vez mais difícil evitar que ela não... Não. Não era nada daquilo. Não admirava a adversária. Impossível! Isso jamais aconteceria!

Bufou emburrado e derrotado. Já havia feito aquilo. E muitas outras vezes. Já estava ficando difícil controlar os próprios pensamentos. Tudo lhe levava à ela. Jillian.

"-Uma caçada leva o tempo necessário pra se realizar.

-Você sabe que essa já se estendeu mais do que devia.

-O caçador aqui sou eu. Eu decido quando está na hora de parar.

-Você sabe que as coisas não são bem assim."

Os olhos claros e intensos lhe fitando o tempo todo.

Balançou a cabeça na tentativa vã de afastar tudo aquilo de sua mente, mas tudo que ouvira naquela noite ecoava em sua cabeça por um tempo longo o suficiente para que ele tivesse que concordar que a vampira tinha toda razão. Estava completamente fraco. E aquela que ele achava que podia lhe ajudar, estava na verdade se preparando para separar sua cabeça de seu corpo. E era difícil admitir até para si mesmo, mas, a possibilidade dela conseguir era alta. O que faria com ela? Podia muito bem aproveitar o arsenal que tinha ali, mas em 300 anos nunca usara suas armas contra um mortal que fosse. Estava ponderando usá-las em Radamanthys, mas o playboy era outro assunto. Talvez fosse mesmo a melhor saída deixar os verdadeiros interessados resolverem o problema de "Verônica". Assim que o Sol estivesse lá em cima, ele lhe faria uma visita.

-Você e eu somos parecidos. É tão difícil assim enxergar isso?"

Eles eram parecidos. Não tinha como negar. Diferentes, mas parecidos.

Mais uma vez aquela sensação de que ela o conhecia sem conhecê-lo. E ele achou um certo reconhecimento nos olhos dela. Para tantos pontos parecidos, talvez ela também tivesse sofrido o tanto que ele. Apesar de que, ela não parecia nada com alguém como ele. Toda aquela impetuosidade e confiança que parecia não acabar nunca... Tolo. Era mesmo um burro. Quanto tempo mais iria ficar babando pela inimiga? Engraçado. Aquela palavra. Sentiu uma coisa estranha. A palavra "inimiga" de repente fez gerar um arrepio pelo corpo todo, uma coisa estranha no peito. Não tinha jeito. Ela era sua inimiga.

Nem que ele quisesse conseguiria dormir. Sua mente parecia receber descargas contínuas e pesadas de pura adrenalina. Devaneios, pensamentos reais, lembranças, vozes, vontades e desejos. Fraqueza. Falta de concentração. De repente um espécie de torpor lhe invadia. Estava acordado. Sabia disso. Mas não conseguia pensar. Não sabia se eram os milhares de fatos, as milhares de cenas e coisas que fervilhavam tanto em sua mente, que de repente nada mais importava, ou simplesmente elas haviam parado ou... Já não sabia de mais nada.

x-X-x-X-x-X-x-X-x

Já recuperados da "tensão" que os afetava, Aiolos e Jillian repousavam juntos no longo e confortável sofá de couro preto, ainda no escritório. A vampira tinha seu descanso no peito nu de Aiolos. Enquanto ele lhe acariciava o braço esquerdo, a mão direita havia se unido à da vampira e ambas repousavam no joelho dele, flexionado por ele tirar o pé direito do sofá e depositar no chão somente para Jillian ter mais conforto. Vez ou outra o vampiro roçava o rosto nos fios vermelhos do cabelo dela. Era algo quase inconsciente já que seus pensamentos não pareciam tão próximos assim.

Jillian estava diferente. Ele percebeu isso. E o pior de tudo, sentia-se incompetente. Seus esforços, ainda sequer empregados, estavam sendo em vão. A "mudança" tinha motivo e nome evidentes. Mas, mesmo com tudo isso, ainda era possível conseguir algo. Jamais desistiria de tentar. Jillian era a pessoa mais importante de sua existência. Estava amargamente arrependido de ter escondido por tanto tempo o motivo de sua real aflição. Mas ainda havia tempo. Não suficiente, mas havia. E ele tinha que aproveitar, afinal de contas, sua existência ali era só por causa dela.

Mas ele a conhecia muito bem. Ela ainda não estava consciente daquilo. Então ele precisava com urgência aproveitar aquele resto de tempo que tinha. E... talvez devesse arriscar o que já devia ter arriscado. Precisava deixar de ser covarde daquele jeito.

Respirou fundo e quando ia abrir a boca para começar a falar, surpreendeu-se com o que acabar de ouvir.

-Aiolos, você algum dia já amou alguém verdadeiramente, assim como Saga ama Helena e eu amei David?

x-X-x-X-x-X-x-X-x

Jillian sentia os cabelos ruivos serem afagados de vez em quando, mas os carinhos no braço permaneciam o tempo todo. A mão direita entrelaçada na dele. Vestida com a camisa que ele usava antes, a vampira descansava no peito nu do vampiro grego. Adorava ficar nos braços dele depois dos momentos tórridos. Seus braços eram tão protetores. Sentia-se bem, envolvida por eles.

Aiolos era assim. Sempre procurava lhe proteger. De tudo que fosse possível. E era maravilhoso sentir-se protegida por ele. O tempo todo sempre teve em seu pensamento que seu amigo grego era um amante sem igual! E tê-lo daquele jeito era mais maravilhoso ainda. Mesmo que ultimamente ele andasse superprotetor demais. Com certeza Aiolos faria qualquer mulher feliz. Sorte daquela que fosse dona daquele coração, mesmo que ele já não batesse mais.

De repente seus pensamentos migraram. Saga. Aquela dor toda que ela viu nos pensamentos do caçador era realmente profunda. Helena marcara a vida de Saga de uma forma tão intensa que sua ausência eterna era tudo que mais o machucava. E ele queria realmente tentar diminuir aquilo. Assim como ela tentou no passado, quando a morte de David ainda era algo que lhe causava dor, assim como acontecia com o caçador.

Era incrível aquela semelhança. Em um instante viu-se refletida nos olhos dele. Aquele instante, por menor que tivesse sido, pareceu estar acontecendo realmente. O passado voltando. A dor queimando no peito. Não era nada fácil. Aquele sofrimento era terrível. Estremeceu e Aiolos pensou que fosse pelos afagos e parou por um momento, mas logo recomeçou. Não queria de forma alguma sentir tudo aquilo de novo. Sentiu um aperto no peito. Sabia muito bem que só não sentia mais aquela dor queimando dentro de si por causa da companhia de Aiolos. Se não tivesse o amigo ao seu lado talvez estivesse na mesma situação do caçador. Não. Não mesmo. Se tivesse de passar por aquilo de novo, talvez fosse preferir não mais existir do que... do que aquilo novamente. Era complicado quando alguém marcava sua vida de uma forma tão forte que você depois não conseguia esquecer.

Então se deu conta de onde estava. Será que ele um dia já havia passado por aquilo? Sabia tão pouco sobre ele.

-Aiolos, você algum dia já amou alguém verdadeiramente, assim como Saga ama Helena e eu amei David?

x-X-x-X-x-X-x-X-x

Tudo bem. Aquela pergunta foi repentina demais. Sorte que ela não podia ver sua cara de espanto.

-P-por que isso agora Jillian?

-Curiosidade. Nunca ouvi você falar nada sobre isso.

-É porque no final das contas acabou sendo só coisa de garoto.

-Então aconteceu? - perguntou empolgada trocando sua posição, virando-se totalmente de frente pra ele – Vai, fala!

-Er... Jillian... - começou se contorcendo no sofá procurando desesperadamente ma posição mais confortável – Aconteceu... mas...

-Fala logo! - estava empolgada e dava pulinhos no colo do grego. Parecia uma adolescente.

-Jillian, é serio. Eu conto! Mas... com você assim... - apontou para ela, montada em si - ... em cima "dele" e pulando desse jeito, sem estarmos "fazendo", complica as coisas você não acha? Eu posso ser um vampiro, mas ainda sou sensível em algumas partes...

-Tá, tudo bem. - disse ela ajeitando-se na posição de antes – Agora conta.

-Bom... Talvez vocês não se surpreenda com o nome e nem com a pessoa. Você já ouviu falar dela.

-Quem?

-Helena.

-Helena? A Helena de Saga? - perguntou virando-se parcialmente para ele.

-Sim. A Helena de Saga. Lembra que eu disse que Saga e eu crescemos juntos e éramos amigos?

-Apesar do jeito e opiniões diferentes. Sim. Eu lembro.

-Eu tinha 12 e o Saga tinha 13. Nós estávamos jogando algo na varanda da casa dele quando a família dela passou. Ambos vimos quando ela desceu. Os cabelos dela eram longos e escuros e tinham uma série de cachos. Os olhos eram claros. Não como os seus. Os dela eram castanhos. Castanhos bem claros. A pele era bem branca. Pálida. Mas não uma palidez como a nossa. Helena sempre teve um jeito doce de menina. E era tão linda. Impossível não olhar e não se apaixonar.

-Mas o que aconteceu?

-Bom... Nós crescemos e você sabe o que acontece.

-Competiu com Saga por ela?

-Não, não. Eu... eu sempre soube que ela preferia ele.

-E você deixou assim? Nem tentou fazer alguma coisa?

-Tentei Jillian. Mas um bom guerreiro sabe quando a luta acabou. E não foi surpresa nenhuma para mim o casamento deles um ano depois.

-E o que você fez?

-Tomei um porre. - disse rindo e escondendo o rosto entre os fios vermelhos. - Depois, da mesma forma que veio, foi embora.

-E nunca mais você sentiu algo em relação a isso?

-Não. Pensei que fosse voltar a sentir quando soube da morte dela, mas...

-Engraçado, né?

-O que?

-Como essas coisas acontecem. Imaginei agora você no lugar do Saga.

-Eu preferiria não imaginar isso. - ou preferiria?

-Já imaginou se, sei lá, acontecesse com a gente? Se a gente se apaixonasse um pelo outro?

Mais uma pergunta daquelas. E tinha certeza absoluta que ela não estava tirando aquilo de dentro de seus pensamentos. Haviam feito um acordo. Nada de entrar na mente um do outro. Então... Qual a explicação para todas aquelas perguntas? Talvez fosse um sinal. Um sinal de que deveria contar.

-Ahn... Jillian...

-Eu acho que seria algo estranho.

-E-estranho? - agradeceu novamente por, naquela posição, ela não poder ver sua cara surpresa.

-É... A gente se conhece há tanto tempo. Apesar de tudo "isso" - disse gesticulando com o dedo, apontando a bagunça da mesa no chão, as roupas espalhadas, os corpos seminus de ambos – Somos amigos! Os melhores. Você pra mim é um grande irmão Aiolos. E eu sei que você me vê da mesma forma.

Ok. Um balde de água fria.

-Irmão? Isso é incesto então. - disse tentando disfarçar a frustração.

-Você sabe o que eu quis dizer.

-É, eu sei. - dissono meio de um suspiro entristecido.

-Pareceu não gostar muito. O que foi?

-Não. Não é isso. É que... Eu tô cansado Jillian. Só isso.

-Um desculpa bastante "conveniente" para um vampiro.

-Pára com isso.

-Acho que devo te ensinar a mentir um pouquinho melhor.

-Você me mata ainda, sabia?

-Você já está morto. Agora pára de falar e faz o que você tem que fazer. - disse puxando-o para um beijo.

x-X-x-X-x-X-x-X-x

Aquele torpor e aquele vazio permaneciam e Saga sabia que permaneceria por muito mais tempo. Mas sabia desde o início que nada ali seria fácil.

Os raios do sol começavam a subir no céu e adentrar o quarto onde o caçador se encontrava. Mais umas horas e resolveria aquela problema da "ruiva falsa". Não pôde deixar de formar um sorriso em seus lábios diante daquela expressão.

Só então sua mente parou para pensar no que aconteceria depois que o episódio de Verônica se resolvesse. Não haveria como não envolver o nome de Radamanthys nisso. Nem cedo e nem tarde. E claro, ficaria óbvio saber que ele havia sido o responsável. E ele queria que eles soubessem disso. Mas depois, se o outro vampiro, William, resolvesse jogar com artilharia pesada para ir atrás dele, Saga teria de ser extremamente cuidadoso. Outras coisas precisavam começar a ser resolvidas imediatamente. As primeiras seriam aquele hotel e a Harley. Sentiria falta daquela moto, mas era algo que realmente precisava ser feito. Ligou para a recepção e acertou tudo. O golpe baixo seria devolvido com outro golpe baixo. Assim que desligou, puxou o fone novamente e chamou outro número, acertando outros detalhes.

Procurou pelo relógio e viu que os ponteiros marcavam quase 8 horas. Levantou-se e foi ao banheiro. Um banho frio àquela altura era muito bem vindo. E foi. De repente sentia-se cheio de energia e disposição. O jogo e caçada tinham começado realmente agora.

Antes de sair, trajando uma calça jeans escura, uma camisa cinza chumbo e sapatos de cadarço, ele fez uma última chamada.

-Verônica?

-Saga? É você

-Sim. Sou eu.

-Aconteceu alguma coisa? Você... você nunca liga tão cedo.

-Não. Não aconteceu nada. Desculpe se eu a acordei. Liguei só pra perguntar se tem algum problema pra você se eu passar na sua suíte mais tarde. Queria conversar com você.

-Não. Problema nenhum. Mais tarde que horas?

-Ahn... Não sei ao certo. Tenho algumas coisas para resolver, não sei que horas volto.

-Tudo bem. Nos vemos mais tarde.

Assim que desligou, Saga pegou a jaqueta de couro e saiu.

x-X-x-X-x-X-x-X-x

-Radamanthys? Sou eu... Sim. As coisas estão indo muito bem. O loiro está caindo. O filho da mãe acabou de ligar e de me acordar pra dizer que quer conversar... Claro que não!... Radamanthys corta essa! Eu sou profissional, tá legal?... Se a gente combinou que eu ia esperar o seu sinal, então eu vou esperar a porra do sinal!... Espero que você também cumpra a sua parte do trato! Eu já não agüento mais esse cara!

x-X-x-X-x-X-x-X-x

O loiro fechou o flip do celular e afundou mais na poltrona confortável no imenso escritório.

-O que foi? Boas ou más notícias?

-Ao que parece, são boas.

-Mas você não parece muito empolgado com isso, meu bem.

-Não sei Pandora. Eu acho que foi excesso de William ter contratado essa mulher.

-A gente só faz o que o vampirão manda, Radamanthys.

-Eu sei. Mas não precisávamos dela.

-Foram ordens dele. Ele não poderá contestar isso depois.

-Essa mulher vai acabar colocando essa história toda em evidência. Eu sei disso.

-E a gente só pode esperar isso acontecer.

-O problema Pandora, é que ela é procurada no mundo todo e o grego não é burro. Se ele descobre, vai abrir o bico e quem se ferra somos nós. Ninguém acredita em vampiros, esqueceu?

-Vai dar tudo certo.

-É o que eu espero.

x-X-x-X-x-X-x-X-x

-Oi. Você demorou! Entra.

-Desculpe fazê-la esperar.

-Nossa, como você tá sério.

-Apenas coisas do trabalho. Nada demais.

-Bom, você disse que queria falar comigo. O que era?

- Sim. Claro. Eu nem sei como posso começar isso. Mas vou fazer da forma mais simples. Quando cheguei aqui... Ou melhor... Você me apareceu em um momento em que eu não estava muito bem. E conseguiu me fazer esquecer alguns problemas que me atormentavam. Esses dias em que estivemos juntos foram muito bons. Mesmo. Muito obrigado por isso. Mas agora eu acho que está na hora de te perguntar algo.

-O que? - perguntou com um sorriso brilhante.

-Você acha realmente que eu sou burro?

-Oi? Desculpa, eu não entendi.

-Vou perguntar outra vez. Você acha mesmo que eu sou burro, Manuela?

A expressão dela paralisou por alguns segundos, mas logo em seguida ela recuperou.

-Manuela? Desculpa Saga, mas quem é Manuela?

-Você não precisa mais fingir. Pára com isso. Eu não vou prolongar isso mais do que devo, então vou te apresentar pra alguns amigos meus que estão esperando por você aqui fora. - disse abrindo a porta. - Detetive Smith.

-Obrigado detetive Komninos. Manuela Mendez, você está presa.

Os três policiais que vinham atrás do detetive inglês adentraram o cômodo. Dois deles dirigiram-se para Manuela para algemá-la, enquanto o outro vasculhava as coisas.

-Espera! Pára! Tira a mão de mim! Eu não sou Manuela Mendez! Me solta!

-Claro. Assim como também não é Verônica Haddad. - disse Saga – Agora pára com esse escândalo.

-Me solta! Tira isso de mim!

-É senhorita, um dia é da caça e o outro é do caçador.

Saga sorriu ao ouvir a palavra caçador.

-Como? Me diz como você descobriu? FALA!

-Presente de uma amiga. - o grego apontou para a pasta nas mãos do detetive.

-Você vai me pagar!

-Claro. Quando você sair da cadeia, eu vou estar aqui, esperando o seu acerto de contas. Não se preocupe.

Um dos guardas ia saindo da suíte com a mulher e sendo seguido pelo detetive que agradeceu Saga mais uma vez. Os outros dois continuaram na suíte investigando.

O loiro saiu dali e puxou o aparelho celular do bolso, digitou os números e ligou.

-Por quanto tempo mais você achou que essa história de Verônica daria certo? Só pra seu conhecimento, seu playboy de merda, sua amiguinha está sendo levada pela polícia nesse exato momento. Diga à William que eu gostei da brincadeira, mas que não vou aturar outra. Isso serve pra você também. Não sabe com quem está mexendo. Quanto você pagou à ela pela minha cabeça? Não. Melhor não. Não quero saber. Não me interessa. Mas você Radamanthys, é bom ficar de olhos bem abertos.

Desligou e continuou seu caminho para sua suíte.

Continua...