Acordei sobressaltado e ofegando um pouco. Tive a sensação de ter sonhado algo ruim, mas não me lembrava exatamente o que. Bem que poderia ter sido um sonho o que aconteceu ontem, mas não foi. Levei alguns minutos até me acalmar e resolver tomar um banho rápido. O toque da água em meu corpo me fez perceber o quanto meus músculos estavam rígidos.
Depois que terminei de me arrumar fui comer, e como acabei atrasando durante o banho, sai de casa depressa. Ao chegar na escola, notei que não havia nada diferente, exceto alguns olhares de canto dos jogadores do time de basquete e é claro, dos amigos mais próximos deles. Continuei meu caminho até a sala normalmente, ignorando alguns e cumprimentando outros.
A aula começou poucos minutos após soar o sinal. Não conseguia prestar atenção em nada do que os professores falavam. Sempre me pegava fazendo desenhos aleatórios na borda da folha, pensando no que poderia acontecer no treino, e bem, pensando nele também. Não preciso dizer que os professores chamaram minha atenção muitas vezes, até disseram que iriam me mandar à diretoria, e quando perceberam que nada funcionaria, apenas desistiram, se concentrando em explicar a matéria aos interessados.
Finalmente o intervalo começou e eu pude retornar a atenção a minha volta. A maioria dos alunos já havia saído e decidi fazer o mesmo, pegando uma maçã na mochila e indo ao terraço. Estava terminando de comer quando uma ideia me ocorreu. Por que o Atsushi havia faltado sem nenhum motivo aparente? Decidi mandar uma mensagem e recebi uma resposta bem simples e um tanto quanto evasiva.
"Eu me atrasei e não quis ir depois."
"Hm sei"
"Está sentindo minha falta?"
"Nem um pouco". Idiota!
"Mentiroso. Se você quiser, eu te encontro quando a aula acabar."
"Você que sabe...". Na verdade eu queria sim, mas não preciso dar muito na cara, certo?
"Só vou se você pedir, Murocchin."
Seu gigante idiota. Adora me deixar contra a parede, e eu sempre acabo deixando. Demorei alguns minutos para responder e nesse meio tempo o sinal tocou, me forçando a responder rapidamente.
"Venha me encontrar então. Me espere na esquina da escola... Tchau "
Ele me respondeu com um "ok" e uma carinha envergonhada. Deixei um sorriso bobo escapar. Um simples coração no final da frase o deixa encabulado ao ponto de não mandar mais uma provocação depois do meu pedido? Interessante e animador. Já tinha percebido algumas reações dele após eu ter feito ou falado algo... romântico, mas achei que fosse apenas no calor do momento e agora conclui que estava errado. Completamente errado.
Consegui prestar mais atenção nas últimas aulas. Tinha leve sensação de que seria mandado à diretoria se continuasse devaneando e achei melhor não testar a paciência dos professores. Quando a última aula chegou ao fim, acabei encontrando alguns bilhetes entre meus cadernos. "Você é estranho", "saia do time", "eu gosto de você". Esses foram os que eu li, os outros nem dei o trabalho de olhar, joguei tudo na mochila e fui em direção a saída, encontrando Atsushi no local combinado.
Seguimos o caminho até minha casa conversando sobre assuntos triviais. Indaguei novamente sobre ele ter faltado e obtive a mesma resposta. Falei sobre a matéria, a parte que havia prestado atenção, pelo menos.
— Hm? Estava pensando em mim por acaso? — perguntou me encarando pelo canto dos olhos.
— De certa forma sim. O que será que vai acontecer hoje no treino? — decidi contar-lhe a verdade.
— Não sei... — respondeu e desviou o olhar para frente. Continuamos em silêncio até entrarmos em casa, o que não demorou muito.
Fui ao banheiro lavar as mãos e voltei a cozinha a fim de fazer o almoço para nós. Atsushi se limitou a sentar na cadeira e tirar uma barra de chocolate do bolso e comer. Lancei um olhar reprovador em sua direção que foi completamente ignorado. Que seja. Continuei com o que estava fazendo com a sensação de estar sendo observado minuciosamente. Vez ou outra acabava derrubando alguma coisa e ouvia uma risada nasal tentando ser contida sem muito sucesso.
— Oe, Atsu... — falei enquanto virava em sua direção a fim de lhe recriminar, mas parei no começo da frase. Sua aproximação foi tão silenciosa que quando o vi, acabei me sobressaltando. Meu coração bateu mais rápido e em uma fração de segundo, nossas bocas se tocaram de maneira voraz e necessitada. Meu corpo era explorado pelas mãos de Atsushi, e ao mesmo tempo, rondei meus braços em torno de seu pescoço. Estava ficando cada vez mais difícil respirar e por isso, me afastei, separando nossos lábios. Inclinei ligeiramente minha cabeça para trás e foi a deixa para Atsushi atacar meu pescoço.
— Murocchin... — sussurrou em meu ouvido, tocando-me com mais avidez.
— Pa-pare, Atsushi. Tenho que terminar... — droga, a situação estava perigosa. — Atsushi!
Empurrei-o para longe com esforço, dizendo para ele se sentar e esperar. Não precisava me olhar no espelho para saber que meu rosto estava vermelho. Aos poucos, senti meu corpo relaxar, mas ainda com a impressão de estar sendo analisado.
Depois de terminar de preparar o almoço, arrumei a mesa com ajuda de Atsushi e nos servimos em seguida. Um silêncio confortável se instalou entre nós, e percebi que ele tentava disfarçar um sorriso petulante. Confesso que fiquei um pouco irritado. Na maioria das vezes ele é um livro aberto, mas em certos momentos... eu realmente não tenho ideia do que se passa na cabeça dele.
Lavamos a louça, me troquei e fomos para a escola. Diferentemente de quando estávamos indo para minha casa, fizemos o percurso todo em silêncio. Queria falar alguma coisa, mas nada me vinha a mente. A única coisa que consegui fazer foi controlar a angústia, que aumentava a cada passo.
Encontramos Okamura na entrada da escola, que pediu para esperarmos a treinadora chegar. Conversamos sobre assuntos aleatórios, evitando um em especial. Alguns minutos depois, Masako chegou e fomos para a quadra.
O olhar de todos se direcionou em nossa direção, entretanto ninguém comentou nada. Apenas voltaram ao aquecimento. Provavelmente haviam combinado de esperar a treinadora trazer o assunto à tona e por isso, mesmo a contra gosto, ficaram calados. Mas não precisavam de palavras. Seus olhos demonstravam o que sentiam em relação a nós. Pelo menos tinham alguns que mantiam-se neutros, e até mesmo amigáveis, o que me surpreendeu de forma positiva, óbvio.
— Ei, vocês dois! O que estão esperando? O treino já começou. — Masako nos repreendeu.
Acenei com a cabeça, guardei a mochila no vestiário e esbarrei com Atsushi quando ele estava entrando. Preguiçoso como sempre... Trocamos um breve sorriso e fui me aquecer.
Aqueles que haviam me importunado ontem no vestiário estavam agindo como crianças. Aproveitavam o momento em que a treinadora não estava olhando para fazer algum comentário baixo o suficiente para eu ouvir. Como era esperado, me tinham como alvo. Por um lado era melhor, não sabia até que ponto Atsushi iria ficar só escutando.
A bem da verdade, estava surpreso comigo mesmo. Normalmente eu não estaria apenas ouvindo como se não fosse nada, mas não dava para vacilar naquela circunstância. Arrumar briga com quem quer que fosse não seria uma boa ideia.
Durante todo o treino aguentei as provocações sem retrucar, contudo dizer que eu não estava irritado seria uma mentira. Não é como se pudesse mudar alguma coisa ter tais pensamentos agora. Por que as coisas terminaram desse jeito tão de repente? Ah, é claro. Brincadeiras do Fukui. Essa era a intenção dele? Ou estava apenas querendo um pouco de animação? Será que ele imaginou que ao contar sobre nós, todo mundo aceitaria numa boa e agiria como se nada tivesse acontecido?
Ao sermos liberados, todos seguiram para o vestiário, com uma exceção. Pouco tempo depois senti alguém se aproximando e me virei para ver quem era.
— Murocchin, você não vai pegar suas coisas? — Atsushi indagou.
— Daqui a pouco. — não estava fugindo como qualquer pessoa pensaria. Se eu aparecesse lá, iria criar um clima estranho e propício para uma discussão sem fundamento. Alguns jogadores iam embora depois de conversar rapidamente com a treinadora, enquanto outros ficavam na quadra. Fui me trocar e pegar minha mochila quando percebi que a maioria já havia saído.
Me juntei àqueles que ainda estavam na quadra e notei Atsushi do meu lado. A conversa foi parando aos poucos e deu lugar a um silêncio desconfortável.
— Então, qual o problema de vocês? — Masako perguntou a ninguém em especifico e não obteve nenhuma resposta de imediato. — Agora ninguém quer falar, né? Bem, se vocês que ficaram aqui quiserem falar alguma coisa, essa é a hora.
— É que... treinadora, eles estão namorando, e...
— E... ?
— E é estranho. Ter dois caras gays no time... A gente troca de roupa e às vezes até tomamos banho no mesmo banheiro. Vai saber se eles não ficam nos olhando com segundas intenções. — desabafou um dos jogadores sendo apoiado pelos outros. É sério isso que eu acabei de ouvir?
— Até parece. — Atsushi resmungou.
— Você sai olhando todas as garotas com segundas intenções por acaso? — perguntei.
— Nã-não, mas é diferente. Se eu ficasse olhando elas sempre se trocando...
— Pode até ser diferente, mas eu tenho uma pessoa que gosto, então não tenho motivo para ficar desejando outros. Na verdade isso nunca me passou pela cabeça, por que começaria a reparar em vocês? — opa, acho que falei demais e até o Atsushi se virou em minha direção, porém eu não estava me importando mais. A única coisa que tinha em mente era os momentos em que ele esteve comigo e percebi o quão importante ele havia se tornado. Quando começamos a jogar basquete juntos, quando fomos derrotados pelo Taiga, quando demos nosso primeiro beijo. Quando descobri que o amava. De uma coisa eu tinha certeza. Não iria perdê-lo por causa de outras pessoas. Se voltaríamos a ser apenas amigos ou quem sabe... namorados, não interessa, desde que ele esteja aqui, comigo.
— Nee Tatsuya, você deve estar bem sério sobre o relacionamento de vocês. — a treinadora afirmou ironicamente. Nem se deu ao trabalho de tentar disfarçar. — Querem que eu os tire do time, assim vão se sentir melhor?
— Sim! — quem respondeu foi o mesmo que havia me perturbado no dia anterior. Os outros não falaram nada e vi uma leve culpa em seus semblantes. A ideia de perder dois importantes jogadores não parecia ser muito agradável. — Vamos nos sentir bem melhor.
— Concordam? — Masako pressionou os outros.
— A-acho que isso não é necessário. — enfim alguém se pronunciou. Se não me engano ele é do segundo ano mas faz parte do time reserva.
— Não é necessário? É claro que é necessário! — lá vai ele de novo... — Tenho certeza que todos vocês são iguais a eles! Ah, e pelo que disseram, os dois estavam se agarrando lá no terraço da escola no intervalo, não é mesmo, Himuro? Deveriam ser expulsos do colégio, isso sim.
— Oe, Koji, você já está passando dos limites. — o capitão interviu.
— Vocês me dão nojo. — dito isso se afastou sendo seguido pelos dois amigos.
O clima havia ficado mais tenso do que deveria. Em algum momento eu segurei o braço de Atsushi, que estava com o punho cerrado. Provavelmente alguém teria sido agredido se eu não tivesse o impedido.
— Voltamos à estaca zero. — Masako lamentou. — Vão para casa, está ficando tarde. Até amanhã.
— Nos desculpe... — ouvi uma voz e não identifiquei quem disse pois eles já estavam se afastando.
— Não se preocupe muito com aquele cara, ele está pensando que irá entrar para o time principal se vocês saírem. — Okamura nos disse.
— Eh? Mas ele não joga bem, além disso ele é pequeno — Atsushi rebateu emburrado.
— Tem razão, mas deixando isso de lado, melhor irmos embora, antes que nos prendam aqui. — o capitão se despediu e foi embora.
Saímos da escola e começamos a caminhar na direção oposta à minha casa. Pouco tempo depois chegamos a um parque que estava parcialmente vazio e nos sentamos no banco mais distante. Nos minutos seguintes nenhum de nós falou, até que uma brisa me fez aconchegar em Atsushi, que se limitou a pegar uma barra de um doce na mochila. Ele me ofereceu, o que era algo raro e de bom grado aceitei.
— Acho que não foi tão problemático quando poderia ter sido — murmurei comigo mesmo.
— Uhum... aquele cara tentou complicar tudo. Mas, Murocchin, ainda não acredito que você se confessou na frente deles.
— Eh? Eu não me confessei. — menti. Ainda me lembrava muito bem do que disse, "mas eu tenho uma pessoa que gosto", então era óbvio que não iria passar em branco.
— Claro que se confessou, ou não gosta mais de mim? — me encarou sério. Sorri divertido. Mais uma vez tentando me fazer falar o que ele quer ouvir... A diferença é que dessa vez vou entrar no seu jogo por vontade própria.
— Ahh, você adora fazer isso hein, Atsushi. E sim, eu gosto de você. — segurei seu rosto e o puxei contra o meu selando nossos lábios. — Eu te amo — sussurrei e o beijei mais uma vez.
— Muro...
— Va-vamos para casa, está tarde!
— Hmm quer dizer que eu vou para a sua casa? — perguntou malicioso.
Arqueei a sobrancelha e o fitei. Essa era a intenção dele desde o começo! Por isso ele estava com a mochila. Eu já estava com vergonha de tê-lo beijado em público e ainda tinha que responder às suas provocações. Acenei com a cabeça e segui em frente e ele se apressou para chegar ao meu lado.
Quando chegamos, perguntei se ele queria tomar banho primeiro, e a resposta foi um "não, vou depois de você" resmungado. Tudo bem, eu iria primeiro enquanto ele descansa. Peguei roupas no quarto e segui para o banheiro, me certificando de trancar a porta. Deixei a água correr pelo meu corpo e me lembrei do que aconteceu mais cedo. A sensação que eu tinha era que o Koji estava influenciando os outros para agirem de acordo com o que ele queria, e até mesmo o Okamura disse que ele queria entrar para o time principal. Mas não foi de todo ruim, no final um deles até se desculpou. De uma coisa eu sabia, não teria que sair do time, pelo menos não por enquanto.
Com o tempo essas coisas iriam se ajustando. Colégios que tenham um time de basquete há em qualquer lugar, e Atsushi... bem, só um.
Mandei o Atsushi tomar banho em seguida e fui preparar algo rápido para nós. Dentro de 20 minutos ele apareceu na cozinha secando os fios de seu cabelo molhado. Pequenas gotas de água escorriam em seu peito exposto trilhando um caminho em seu abdômen. Como ele conseguia me deixar estagnado sem fazer esforço. Seu olhar distante e despreocupado mostrava que era uma mania e não uma forma de me provocar.
— Ei, vai colocar uma camiseta. — pedi e me virei para outra direção. Senti como se pudesse entrar em combustão só por olhá-lo.
— Já estou colocando...
Jantamos e conversamos sobre assuntos diversos. Depois que organizamos tudo na cozinha Atsushi ligou a televisão e eu fui para o quarto fazer uma tarefa de matemática. Estava cansado e com muito esforço consegui terminar. Ainda ouvia o som da TV ainda quando resolvi me deitar.
Uma leve movimentação na cama me fez despertar. Quanto tempo havia passado? Alguns minutos ou horas? Senti a respiração de Atsushi em minha nuca.
— Murocchin, está acordado?
— Uhum... — respondi sonolento e virei-me para observá-lo.
Seus olhos encaravam-me com tamanha intensidade que acabei ficando constrangido. Atsushi levou sua mão até meu rosto traçando linhas invisíveis no meu maxilar. Meus olhos se fecharam.
— Murocchin?
— Hmm?
— Eu te amo. — disse quase sussurrando. Meu coração bateu mais rápido e um sorriso estampou em meu rosto. Mesmo se quisesse eu não conseguiria esconder o quanto estava feliz por ouvir aquelas palavras. Enfim sua resposta.
Até um segundo atrás o sono me dominava completamente e de repente senti mais acordado do que nunca. Abracei-o forte e ele retribuiu no mesmo instante. Se me perguntasse o que estava passando em minha cabeça eu não saberia como responder. Não tinha como responder com palavras. Afastei-me o suficiente para visualizar seu rosto. Ele estava com aquela expressão que raramente mostrava. Com um leve rubor em suas bochechas.
Beijei seus lábios transmitindo tudo o que não poderia dizer. Parecia com a primeira vez que nos beijamos, porém, dessa vez havia toda a certeza de nossos sentimentos.
— Eu também te amo Atsushi. Muito.
Deitei em seu ombro e seus braços me acomodaram ternamente.
— Será que vai ficar tudo bem quando descobrirem sobre a gente? — Atsushi indagou. — Provavelmente a escola toda vai ficar sabendo amanhã.
— Acho que sim, não é todo mundo que vai nos recriminar. Eu acho.
— … Bem, eu não me importo.
— Hmm isso é bom. — cochichei.
Apenas desfrutamos da presença do outro por um tempo. Fui adormecendo aos poucos e a última coisa que ouvi foi um boa noite. Infelizmentenão tive tempo de respondê-lo. Nós dois teríamos uma ótima noite...
Quem imaginaria que tudo começou com simples fotos tiradas às escondidas. Eu deveria perguntá-lo há quanto tempo ele fazia aquilo. Um dia. Qualquer dia.
