Capítulo 8 - O Deus da Trapaça

Gina estava sentada em uma pedra, sob a sombra de uma árvore, perto de um riacho. Era como um pequeno oásis, com a única diferente que não havia deserto nenhum em torno dele. Algumas borboletas, que depois Gina percebeu serem fadas, brincavam, dando mergulhos nas águas cristalinas. Mais adiante, uma cachoeira desembocava no riacho; ela era enorme, e descia da montanha próxima por vários degraus de pedra cheios de musgos.

"Gina, você ouviu ao menos alguma coisa do que eu disse?" Perguntou Draco, num tom um pouco irritado pela expressão distraída e distante da ruiva, enquanto ele explicava o que estava acontecendo em Midgard.

"Eu ouvi. Vesta está destruindo tudo, mas nós não podemos fazer nada, não é mesmo? Estamos presos aqui. Só temos que esperar o momento certo para voltarmos." Falou Gina, de modo amargo. "Mas você esqueceu-se de perguntar se eu quero voltar."

Draco franziu as sobrancelhas.

"Por que você não iria querer?" Perguntou, sem conseguir esconder sua confusão.

"Draco," Gina olhou fundo nos olhos acinzentados dele. "Eu matei uma pessoa. Não tenho o direito de voltar. Eu nem deveria estar aqui! Deveria estar queimando em Nilfhem."

Draco não sabia do que Gina estava falando. Não sabia que ela matara alguém. Estava com os olhos arregalados em choque. Não conseguia imaginar a garota ruiva, pequena, de aparência frágil cometendo um assassinato. Então se lembrou de que ela quase o matara. Ela conseguia ser bem impulsiva quando queria.

Viu lágrimas descerem silenciosas pelas bochechas coradas.

"Eu não sei o que aconteceu, Draco! Quando eu vi, eu estava desviando as malditas flechas. Era como se não fosse eu, mas eu sei que se eu tivesse controlado toda a raiva que eu estava sentindo, eu poderia ter impedido de acontecer. Eu poderia ter impedido Vesta de voltar, e Derfel estaria vivo. É tudo minha culpa!" Gina falou tudo de uma só vez, sem respirar.

No final, tapou o rosto com as mãos e deixou os soluços e lágrimas virem à toa. Odiava chorar na frente dos outros, mas era inevitável. Ela matara o rapaz que sempre as ajudara em suas fugas, sempre fora gentil e atencioso. Sempre fora um amigo.

"Gina..." Draco, sentado também em uma pedra ao lado de Gina, puxou-a para seu colo. A ruiva não mostrou resistência, e enlaçou os braços em torno do pescoço de Draco, escondendo o rosto na curva entre o pescoço e o ombro.

Draco sentiu as lágrimas dela em sua pele, e apertou-a mais, passando uma mão pelos cabelos rubros. Gina sentia-se extremamente vulnerável, e ficou grata por Draco estar ali também.

"Isso aconteceu... durante o ritual?" Perguntou num tom leve. Ela assentiu com um movimento suave de cabeça. Aos poucos, começava a soluçar e chorar menos. "Não foi sua culpa, Gina. Era Vesta controlando seu corpo. Você mesmo disse, era como se não fosse você. Porque não era. Não pode ficar se culpando tanto."

Ela se afastou um pouco para olhá-lo nos olhos. Draco viu que o brilho genioso e teimoso dos olhos castanhos estava de volta.

"Você não entende! Era eu lá, eu sou a culpada." Gina se levantou e olhou em volta. Alseíde estava mergulhando no riacho e, aparentemente, brigando com um peixe esquisito que estava com a cabeça para fora da água. "Eu não posso viver com essa culpa. Não quero voltar."

Draco levantou-se também, sentindo irritação e exasperação crescerem em seu peito. Por que ela tinha que ser tão teimosa? Por que não podia simplesmente esquecer aquilo? Entender que a culpa não fora dela, que fora manipulada por aquele feiticeiro metido e controlada pela deusa pirada?

"Gina," Respirou fundo. "Seja sensata, ok? Você vai voltar comigo. Eu não sei como faremos isso, nem em que momento, mas nós vamos voltar juntos." Ele disse tudo pausadamente, tentando não soar muito rude.

Ela se virou e cruzou os braços sobre o peito.

"Você está perdendo seu tempo. Não pode me obrigar." Ela falou, como uma criança birrenta.

Draco queria sacudi-la para que deixasse de agir com tanta... nobreza. Ora, dane-se que ela matara aquele homem. Será que ela não podia pensar um pouquinho nela própria? Ou nele? Neles? Ele fora até ali por ela, e agora ela simplesmente lhe dizia que não voltaria com ele, que preferiria ficar ali, sem ele.

"Então eu vim até aqui por nada. Você está pouco se importando se eu quero ficar com você ou não, desde que a sua maldita consciência fique em paz, enquanto você passa o resto da eternidade mofando em Asgard." Ele retrucou, perdendo a pose calma e conciliadora.

Gina abriu e fechou a boca algumas vezes.

"É claro que eu me importo que você veio até aqui. Mas... Droga! Você não percebe o quão egoísta está sendo? Quer que eu volta para Midgard com você, mesmo que com isso eu passe o resto da minha vida atormentando pelo que eu fiz!" Gina agitou os braços no ar.

"Eu sendo egoísta? Eu sendo egoísta? Eu me sacrifico por você, e agora eu sou egoísta! Você está sendo egoísta, pensando somente no que você vai sentir quando voltar, e não considerando o que os outros vão sentir com a sua ausência." Draco se aproximou até ficar muito perto de Gina. Ela reparou que o topo de sua cabeça não alcança nem o pescoço dele. Sentiu-se ridiculamente pequena e imponente.

"E agora vai ficar jogando isso na minha cara? 'Eu me sacrifiquei, Gina, agora você tem que fazer tudo que eu mandar'." Ela ignorou o segundo argumento dele e tentou imitar o tom mandão dele.

"Não é isso que eu estou falando!" Draco segurou-a pelos ombros, e Gina se encolheu. "Você está sendo estúpida se martirizando do jeito que está. Não precisa passar séculos aqui, remoendo um ato impulsivo!"

"Um ato impulsivo que matou uma pessoa! Uma ótima pessoa, por sinal! Será que a vida de um ser humano vale tão pouco para você, Draco?" Ela interpôs, e ele percebeu o quanto os olhos dela brilhavam vivazes, e como as bochechas dela estavam afogueadas. Sentiu uma terrível vontade de beijá-la novamente, mas se concentrou na discussão.

"A sua vida vale muito para mim, para que se perca nesse lugar." Ele falou, e se assustou com as próprias palavras. Gina arregalou os olhos.

"Draco..." Ela começou incerta, toda a irritação de antes desaparecendo.

O loiro abraçou-a.

"Volte comigo, não posso retornar sem você." Ele sussurrou contra o ouvido dela. Gina o abraçou de volta e fechou os olhos com força, obrigando-se a não chorar mais.

"Posso dar uma sugestão?" Eles ouviram uma vozinha arrastada e infantil.

Os dois se separaram e olharam para a pequena ninfa, molhada e descabelada, voando perto deles, com um dedinho levantado.

"O que foi, Alseíde?" Perguntou Gina, curiosa.

"Eu não quis bisbilhotar, mas vocês realmente falam alto demais. Aposto como Heimdall os ouviu e está vindo agora mesmo para cá averiguar, se querem saber. Mas, Gina," A ninfa se aproximou timidamente da ruiva, olhando para baixo e entrelaçando as mãos atrás das costas. "Você pode tentar encontrar a alma de Derfel e pedir perdão para ele, assim você não viveria o resto dos dias sentindo-se culpada."

Draco olhou para Gina, e viu o rosto da garota se iluminar.

"Alseíde!" Gina gritou, assustando a ninfa, que pulou para trás. "É uma ótima idéia!"

A ninfa soltou uma risadinha e deu uma pirueta no ar, espalhando mais flores pelo chão.

"Você acha?" Alseíde suspirou. "Mas preciso dizer que tudo teria sido mais fácil se Luna tivesse me dado Derfel de presente." Gina e Draco franziram a testa, confusos. Alseíde continuou com seu monólogo. "Mas daí eu não estaria agora aqui em cima. Eu gosto daqui de cima. Tirando o fato que o lugar é cheio de sátiros. Eles me irritam, estão sempre me perseguindo, os tarados!"

Draco ignorou a ninfa e olhou para Gina.

"Como diabos iremos encontrar a alma do tal Derfel?" Questionou, internamente perguntando-se por que as mulheres sempre tinham que complicar tudo. Seria tão mais prático apenas darem um jeito de saírem de Asgard.

Gina não fazia idéia, mas mesmo assim, não queria perder o ar otimista.

Antes que pudesse responder, porém, eles ouviram um barulho vindo do riacho onde antes Alseíde se banhava.

O peixe – aparentemente um salmão – com quem ela conversava e discutia antes, transformou-se em um homem, de aparência bela e corpo bem feito, grossos cabelos negros ondulados caindo até depois dos ombros. Trajava apenas uma túnica marrom, que deixava parte do tórax bem definido descoberto.

Alseíde soltou um gritinho.

"Eu sabia que havia algo errado com esse salmão!" Ela exclamou e voou para trás do corpo de Gina, abraçando-a e espiando por cima do ombro da ruiva.

"Quem é você?" Perguntou Draco, recuperando-se do choque mais rápido do que Gina.

O homem saiu da água e encarou os dois jovens com um ar divertido.

"Sou o deus Loki, ao seu dispor." Ele disse, curvando-se.

Gina tentou lembrar-se de algo sobre algum deus chamado Loki. Ele tinha a aparência amigável, mas o sorriso... era de uma natureza maligna.

"Oh, isso não é bom..." Murmurou Alseíde.


Luna não sabia muito bem por que Dumbledore decidira levá-la junto em sua busca por novas forças para lutar ao lado do exército do bem no Ragnarok. Na verdade, a cabeça dela ainda não assimilara muito bem tudo que estava para acontecer.

Ela só sabia que o céu estava cinzento, o ar gelado e agourento, e pequenos tremores de terra aconteciam com freqüência. O mundo estava mudando.

Para pior.

"Os lobos Skoll e Hati estão mais fortes. O Sol e a Lua estão se escondendo deles. Se eles conseguirem devorar o Sol, o frio será insuportável em Midgard." Falou Dumbledore, mais para si mesmo.

Os dois cavalgavam lado a lado, em direção a Slytherin, onde ocorrera a batalha entre os dois reinos. Dumbledore queria organizar os sobreviventes, avisá-los do que estava por vir, e depois juntá-los aos exércitos de Hafflepuff e Ravenclaw.

Dumbledore não queria arriscar aparatar com Midgard envolta em trevas. Ele poderia ser desviado de seu caminho e acabar no limbo, no vazio entre os mundos, para sempre. Não tinha mais completo controle de sua magia.

Quando eles alcançaram a planície, Luna perdeu o ar. Centenas de homens jaziam mortos, ensangüentados, manchando a grama verde. Dumbledore balançou a cabeça. Os homens conseguiam destruir a si próprios sem a ajuda dos deuses.

"Vamos para o castelo. Os vencedores devem estar por lá. Fique próxima de mim. Esses cadáveres atraem criaturas indesejáveis." Avisou o feiticeiro.

Luna tremeu e adiantou o cavalo, assustada ao ver Wyverns, répteis alados, de dimensões muito menores que as de um dragão, desprezíveis e carniceiros, sobrevoando a planície. As aparições dessas criaturas anunciavam guerras ou pragas.

Quando alcançaram o castelo, guerreiros bebiam hidromel e cantavam canções de batalha, espalhados pela cidade e pelas tavernas.

"Tolos." Resmungou Dumbledore.

Avançaram para dentro do castelo. Dumbledore não teve problemas em passar pelos guardas. Ao que tudo indicava, era um homem conhecido, e também temido por sua magia. Antes mesmo de entrar no salão onde Arthur estava, ouviram a gritaria.

"Onde ela está? Disseram que estavam com ela!" Gritou Arthur para um rapaz.

"Eu já disse, senhor, ela fugiu antes mesmo que fôssemos para a batalha!" Exclamou o prisioneiro.

Luna soltou uma exclamação de surpresa.

"Blaise..." Murmurou.

A atenção de Arthur voltou-se para os dois recém-chegados.

"Dumbledore, você..." Começou Arthur, mas se interrompeu quando viu Luna ao lado do feiticeiro. "Luna!" Ele foi até a loira e a segurou pelos ombros. "Gina não deveria estar com você? Pensei que as duas haviam sido raptadas pelos homens de Lucius."

Luna mordeu os lábios.

"Eles levaram Luna, mas eu consegui escapar. Ela não está aqui, majestade. Aconteceu... algo..." Luna não sabia se deveria continuar.

Felizmente, Dumbledore veio em seu socorro.

"Nós precisamos conversar, Arthur. Há muito para dizer e fazer. E temos pouco tempo." Dumbledore começou a guiar Arthur para fora do salão.

"Mas, a minha filha..."

"É sobre ela o assunto também." Disse o feiticeiro, e as palavras terminaram por convencer o Rei.

Luna não gostaria de ver a reação de Arthur ao saber sobre o que acontecera com Gina. Depois que os dois saíram, ela correu até Blaise.

"Senhorita, ele é perigoso!" Disse um soldado Gryffindor, tentando impedi-la.

"Não, ele não é!" Disse Luna, tentando passar pelo homem.

"Eu não vou machucá-la! Por favor, deixem-me falar com ela ao menos." Pediu Blaise.

Contrariados, os guardas deram passagem a Luna.

"Luna, estou tão feliz que esteja bem." Ele disse, puxando-a para um abraço. Luna arregalou os olhos e corou.

"Também estou feliz... que não tenha morrido em batalha." Ela disse, sem graça. Eles se soltaram do abraço e se encararam por alguns segundos.

"O Rei Lucius morreu, os dois generais de guerra também, e Draco está desaparecido, assim como Gina. Eu estaria no comando, se não estivesse aqui preso." Falou Blaise, contrariado.

"Então, o que restou do exército de Slytherin obedece a você?" Perguntou Luna, com um sorriso que Blaise não compreendeu.

"Sim, mas... por que sorri?"

"Porque... precisamos que os quatro reinos se unam," Ela disse. Blaise franziu o cenho. "É uma longa história."


Começou a escurecer em Asgard. Gina achava que era sempre claro no domínio dos deuses e se surpreendeu quando a luz se foi.

"Parece que teremos que esperar até que a luz volte para continuarmos." Disse Loki, estirando-se na grama. Seguiam por uma trilha ladeada por grossas árvores; os altos troncos se entrelaçavam sobre o caminho, formando um teto verde.

Loki fez uma fogueira, no espaço entre duas árvores e se encostou a uma, colocando as mãos atrás da cabeça, em uma pose relaxada.

Ninguém confiava no deus Loki.

"Vocês são tão quietos. Pensei que poderíamos nos tornar bons amigos." Disse Loki, assim que todos sentaram em torno do fogo.

Gina achou engraçado sentir-se cansada, considerando que ela era apenas uma alma. Ela era 'sólida', por estar em Asgard, mas não deixava de ser apenas uma alma.

"Amiga do deus da trapaça e da travessura? Não, obrigada." Resmungou Alseíde, tapando-se com uma coberta de flores e sumindo da vista dos outros três.

"Então... Loki. Por que você acha que devemos ir até Valhala?" Perguntou Gina, aconchegando-se em Draco, que permanecia estranhamente calado desde que o deus aparecera.

Draco não gostava dele. O deus olhava para Gina com um olhar faminto e pervertido. Ela, aparentemente, não percebia. Talvez fosse inocente demais para ver as segundas intenções nos olhos e gestos do deus.

Além de deus da travessura e da trapaça, Loki era também o deus do sexo. E isso desagradava Draco ainda mais. Passou um braço em torno do corpo de Gina e trouxe-a mais para perto.

O deus percebeu o gesto, e a antipatia de Draco era evidente. Sorriu debochado para o loiro.

"Os deuses estão se reunindo em Valhala para o Ragnarok. Reunindo forças e seu exército de soldados para a batalha final. Também ouvi a discussão entre vocês dois. Precisarão da permissão de Odin para sair de Asgard e descer até Nilfheim. Com sorte, Hell estará por lá também, e poderão ganhar passe livre para o submundo." Ele explicou, num tom simpático e descontraído.

"E o que você ganha nos ajudando?" Perguntou Draco, sem esconder sua desconfiança.

"Ele provavelmente vai sabotar a viagem e se divertir muito com isso." A vozinha abafada de Alseíde veio de baixo do amontoado de flores. "Tomara que Geri e Freki lhe persigam de novo quando você chegar lá, salmão medroso."

Loki olhou com desagrado para o amontoado de flores, mas depois voltou à atenção para os dois jovens.

"Eu tenho meus motivos, e posso assegurar que eles nada têm a ver com vocês. Tenho que ir para Valhala também, só pensei que gostariam de um guia." Ele explicou e em seguida bocejou. "Bem, boa noite para vocês. Um deus também precisa descansar." Ele se deitou, virou de costas para os dois, e começou a ressonar em seguida.

"Você acredita nele?" Perguntou Gina em um sussurro.

"Acho que ele está falando a verdade. Mas não toda a verdade." Respondeu Draco, no mesmo tom.

"Também acho!" Alseíde exclamou, colocando a cabeçinha para fora de sua colcha de flores.

"Shhh." Fizeram Draco e Gina ao mesmo tempo. Ela tampou a boca com a mão e assentiu.

Os três miraram o deus por um segundo, pensativos.

"É melhor dormimos. Sinto que amanhã será um longo dia." Disse Gina, deitando-se.

Draco fez o mesmo; puxou Gina contra seu peito, mantendo o braço em torno da cintura dela. Não achava seguro que ela ficasse longe dele, com Loki por perto. E o calor do corpo dela... era muito mais agradável que o do fogo.


Lentamente, Gina abriu os olhos, sentindo falta do calor que a envolvia antes. Assustou-se ao ver apenas o fogo tremulando baixo e constante e ninguém envolta.

Sentou-se depressa e viu que estava sozinha no lugar onde todos antes haviam adormecido. Estava escuro ainda.

"Não podem ter ido embora sem mim." Murmurou, sentindo o coração acelerar.

Ouviu um barulho de passos, então Loki surgiu por de trás da árvore. Ele pareceu surpreso por vê-la. Por um lado, Gina sentiu alívio por não estar completamente sozinha, por outro, não gostou de estar sozinha com Loki.

"Não esperava que viesse, querida." Ele disse, aproximando-se, ao mesmo tempo em que Gina se levantava. "Eu não deveria estar surpreso, contudo. Você e ela realmente têm uma ligação."

Gina ergueu uma sobrancelha. Loki não estava fazendo sentido.

"Sim... são tão parecidas." Ele tocou uma mecha de cabelo de Gina, enrolando-a no dedo.

"De quem você está falando?"

Loki sorriu de lado.

"Você sabe, Ginevra." Ele falou. Gina permaneceu quieta. "Ela sempre aparecia em meus sonhos. Fui sua única companhia, por todos esses séculos."

Loki suspirou e havia tristeza e mágoa em seus olhos.

Gina nunca imaginou ver um deus em um estado tão... vulnerável.

"Você está falando de Vesta." Gina mais afirmou que perguntou. Um brilho passou pelos olhos escuros de Loki. Olhos terrivelmente negros e profundos.

"Eu fui o único deus que não se voltou contra ela. Como poderia, aman..." Ele parou, e deu alguns passos para longe de Gina, desviando o olhar.

"Você a ama?" Gina perguntou, abismada.

Ele permaneceu em silêncio por alguns minutos, até que começou a falar em um tom baixo e saudoso.

"Ela era tão casta, intocável e apaixonante antes. Trazia vida para Asgard. Todos os deuses a respeitavam e amavam, por mais temperamental que ela fosse. Nenhum deus conseguia, entretanto, atingir seu coração." Era como se Loki pudesse ver aqueles tempos passados com extrema clareza. "Nem mesmo eu."

Gina não conseguia desviar o olhar do deus. Queria escutar mais - toda sua curiosidade à flor da pele. Não sabia por que Loki estava se abrindo com ela. Talvez fosse por causa de sua semelhança com Vesta, ou talvez porque ele estivesse precisando disso há muitos séculos.

"Até que ela se apaixonou por aquele semideus miserável." O tom de Loki tornou-se amargo e áspero. "Ele destruiu o que havia de bom em Vesta e mesmo assim, ela nunca conseguiu esquecê-lo. Por mais que eu estivesse ao lado dela todas as noites, consolando-a, amando-a... Ela nunca poderia amar-me em retorno."

Gina sentiu-se compadecida pelo deus, por um momento. Queria poder dizer alguma palavra de conforto, mas ela realmente não sabia se havia como confortá-lo.

Entendia agora que, de algum modo, entrara no sonho de Loki. Ela entrara, ou ele que a trouxera para seus sonhos?

Loki virou-se novamente para Gina, com um brilho diferente nos olhos. Ele tornou a se aproximar, e Gina deu alguns passos para trás, até sentir o tronco da árvore contra suas costas.

"Vocês são tão parecidas." Repetiu Loki com uma voz grave e rouca. Gina sentiu o corpo tremer. Ele colocou uma mão no rosto da ruiva e começou a lentamente diminuir a distância entre os lábios.

"Tão parecidas..."

Gina abriu os olhos e sentou-se assustada, respirando com dificuldade. Loki não estava por perto. Continuava escuro, mas o céu já dava sinais de luminosidade.

"Gina..."

A ruiva deu um pulo, mas Draco abraçou-a, tentando acalmá-la.

"Tudo bem, foi só um pesadelo." Ele falou ao pé do ouvido dela, sem diminuir o aperto do abraço. Aos poucos, a respiração dela começou a normalizar.

"Onde está Loki?" Perguntou, olhando em torno.

"Não sei, mas espero que não volte mais." Resmungou Draco. Ele deu uma boa olhada no rosto de Gina, parcamente iluminado pela luz do fogo. "Você quer contar? Sobre o seu sonho?"

"Não há muito que contar." Falou Gina, encolhendo os ombros. O olhar dos dois se encontrou, e Draco deslizou uma mão para a nuca de Gina.

Ela fechou os olhos e entreabriu os lábios quando sentiu a respiração dele se aproximando; porém, no último momento, um barulho fez com que eles se afastassem.

Loki apareceu em seguida.

"Oh, já acordados, que ótimo. Vai amanhecer daqui a alguns segundos. É melhor nos apressarmos." Ele avisou, lançando à Gina um olhar perturbador.


Com a ajuda da águia, Belerofonte encontrou a fenda na colossal árvore. O tronco abriu-se apenas por um momento, no qual o semideus voou com Pégasus para dentro, antes que a fenda se fechasse.

Era como se ele tivesse sido mandado para dentro de um jardim, mas ele ainda estava dentro de Yggdrasil. No centro do lugar, envoltas por uma ramificação da árvore, e protegidas por ela, três mulheres jaziam sentadas, tecendo em frente a um lago.

O semideus desceu do cavalo alado e caminhou até elas. Sabia quem elas eram: as Nornes.

A função das três divindades é controlar a sorte, o azar e a providência. Elas também zelam pelo cumprimento e conservação das leis que regem as realidades dos homens, dos deuses, dos elfos e duendes, dos anões, dos dragões e de todos os seres míticos. Seus nomes: Urd, Verdandi e Skuld.

Urd é a guardiã do passado e é representada por uma mulher de idade extremamente avançada, que vive olhando para trás, por sobre os ombros. Dentro de suas obrigações está preservar os mistérios do passado e não fornecer as chaves dos segredos antigos.

Verdandi é encarregada do presente. É representada na forma de uma mãe e tudo que acontece é tecido por seus pensamentos. Ela representa o movimento, a continuidade.

Skuld é a guardiã do futuro, vive encapuzada e possui um pergaminho fechado sobre seu regaço, cheios de segredos relacionados a profecias e adivinhações. Ela é representada na forma de uma virgem.

As três têm poder sobre o destino.

"Nornes, busco por ajuda." Disse Belerofonte, ajoelhando-se frente às três deusas.

A única que ele conseguia encarar nos olhos era Verdandi, pois assim também o é com o presente, apenas ele nós podemos ver claramente.

"Busca a fonte de Mimir, semideus. Deseja encontrar a sabedoria para enfrentar novamente o Ragnarok." Disse Skuld, por baixo do capuz. Tinha a voz incrivelmente doce e envolvente.

"Sim." Assentiu Belerofonte. "Sei que para chegar até a fonte, preciso da ajuda de vocês."

"Há uma traição no seu passado." Disse Urd. "Posso ver todo o sofrimento que ele trouxe... e ainda trás."

"Essa traição não é sua, porém." Interrompeu Verdandi, ainda tecendo. "Ainda assim, é considerado o culpado por aquela que mais lhe importa saber a verdade."

"Jamais conseguirá desvendar o mistério se não encontrar o verdadeiro traidor." Completou Skuld.

"Como posso saber quem é o verdadeiro culpado, depois de tantos séculos?" Perguntou Belerofonte. "Como posso provar a verdade à Vesta?"

Verdandi passou a mão sobre a água cristalina e nela o semideus viu um caminho a seguir.

"Jamais posso revelar os segredos do passado." Avisou Urd, sempre sem olhá-lo.

"O presente nos confunde. O futuro nos fascina. O passado nos condena. Mas nos condena apenas se esquecermos seus mais preciosos detalhes." Falou Verdandi.

A Fonte de Mimir apareceu por um momento refletida na água do lago.

"Quando beber da fonte, os preciosos detalhes, que estavam sempre ali, esperando para serem decifrados, tornaram-se claros, e você entenderá o que precisa fazer." Terminou Skuld.

"Seu coração é puro, semideus." As três falaram em uníssono. "Você tem nossa permissão para passar."

As três Nornes desapareceram, revelando um novo caminho. Uma trilha de chão batido que descia em zigue-zague, até sumir de vista, envolta pelas sombras.

Belerofonte virou-se para Pégasus.

"Espere por mim." Pediu, antes de seguir o caminho.


"Você tem certeza disso, vesta?" Perguntou Riddle.

Vesta olhou para o gigantesco lobo preso por amarradas que apenas um deus poderia destruir. Ele se contorcia, raivoso pelos séculos preso sob as montanhas de Numengard, guardadas pelos Alaisiagae.

Fora fácil convencer os deuses inferiores da guerra – que temiam a ira de Odin - a libertar Fenris, agora que o Ragnarok começara.

"Não há o que duvidar." Disse Vesta, erguendo os braços.

Riddle tapou os olhos, devido ao clarão vermelho que se procedeu. Quando olhou novamente, as amarradas estavam soltas.

Fenris se ergueu e uivou.

Um uivou que até mesmo Odin seria capaz de ouvir.


Nota da autora: Mais um capítulo quentinho saindo do forno. Acho que a maioria já deve ter captado algumas coisas fundamentais da história aqui.

Espero que tenham gostado! Eu adorei escrever esse capítulo.

As Nornes eram exatamente como eu coloquei na história. ^^

Agradeço de coração a: Lika Slytherin, Tati Black e Kimberly Anne Evans Potter, por terem comentado no último cap. Vocês são meus combustíveis. Huahauau!

Beijão!

Curiosidade: Deus Loki.

Loki deus do fogo, das travessuras, das trapaças, do sexo e dos ladrões.

É ligado ao fogo e as magias e pode se transformar em outras coisas sendo cavalo, falcão e mosca as suas formas preferidas.

É filho adotivo de Odin e irmão de sangue de Thor (ao fazer um pacto de sangue). Ele sempre criava confusão, e isso sempre resultava em grandes danos e ferimentos. Loki tem uma cara amigável e aparenta ser uma boa pessoa, mas é muito maligno, porém heróico, sendo que ele sempre dava um jeito da arrumar suas confusões.

Loki, com o passar do tempo, foi perdendo a confiança dos deuses, como quando ele foi responsável pela morte de Balder, ou quando ele insultou os deuses num grande banquete e para fugir se transformou num salmão, mas é claro que Odin percebeu, com seu olho que tudo vê.

De acordo com a profecia, durante o Ragnarok, Loki vai comandar as forças do mal para destruir os deuses e será morto por Heimdall.