Narrado por: Vittorio



Não dormi direito durante o dia, sempre pensando em Aya... como ele era bonito, como era inteligente, como era isso ou aquilo...e realmente, confesso também em como pensei que ele era meu... só meu! Meu e de mais ninguém! Aquela criança humana nojenta pensa que pode tirá-lo de mim? NUNCA! Jamais eu deixarei de lado o meu amor em prol dele... não sem lutar com garras e dentes e não ser apenas derrotado, mas morto, pois lutarei até o fim, até a última centelha de minha força...Andei pela noite solitária, caçando minhas vítimas sem muita escolha, apenas com o prazer sádico de vê- las gritar e, numa ironia da vida-quase-morte, vê-las gemer de prazer pela mordida...Voltei pra casa como uma raposa numa noite chuvosa, mas de bom banquete: molhado e com frio, mas com a barriga cheia e o desejo saciado.

Entrei em casa, sequei meus longos cachos com uma toalha felpuda e troquei de roupa... logo depois me dirigi ao quarto de Aya, me sentindo ainda bem quente pelo sangue alheio correndo em minhas veias e disposto a deixar meu amor provar das mesma iguarias que provei... sem contar que ter sua língua e seus dentes em meu pescoço seriam um deleite completo para meu ser.

Adentrei o aposento maior, chamando por Aya, não o vendo em lugar nenhum... liguei a luz, começando a duvidar de minha própria visão quando tive a impressão de enxergar um amontoado de roupas perto do sofá... Meu amor era tão organizado, o que teria acontecido...? Com certeza meus olhos quase saltaram das órbitas quando, ao chegar perto do amontoado, senti um cheiro adocicado, algo misturado a essência do ruivo...NÃO! Simplesmente não pode ser... ele não faria isso comigo...

Corri para o quarto com uma das peças estranhas na mão. Pensei em abrir a porta bruscamente, gritar e fazer escândalo... mas o que eu ganharia com isso? Somente mais ódio dele...Não... melhor ser sutil, calmo, meticuloso e calculista como um verdadeiro vampiro...Elevei minha mão até o trinco sem nenhum ruído, abrindo a porta do mesmo modo...e definitivamente não gostei do que vi... como essa coisa nojenta, esse fedelho sujo e vivo se atreveu a abraçar o meu ruivo...?...Ele vai ter o que merece... ah vai... não me importa que ele provavelmente tenha visto o brilho de ódio em meus olhos... ele vai sofrer... é só esperar pela hora certa...

Andei até meu quarto com passos pesados, machucados... deitei em meu lugar sem um pio, não permitindo aos meu olhos derramar uma única lágrima... a batalha ainda não estava perdida... não peguei no sono, senti o ar esquentando: estava amanhecendo. -Hunf... - Eu estava ali, imbecilmente acordado quando não deveria, deitado naquele caixão imbecil, machucado como um imbecil e choroso como um imbecil... Duh, eu ERA um imbecil...

Fiquei mais umas duas horas acordado. Quando estava finalmente sendo assaltado pelo tão merecido sono que me poria as idéias no lugar, ouvi barulhos estranhos... De dentro de uma caixa de mogno grosso e trabalhado não se podia ouvir muita coisa, então simplesmente abri a tampa com um estrondo, fazendo Athra (nosso tão amado gato branco) correr como um desvairado pra fora do meu quarto...Ah sim, agora eu podia ouvir... AYA!? Sim! Aquele ERA MESMO Aya gritando!... a janela! O fedelho abriu a janela!

Levantei com toda minha velocidade, pegando um cobertor para me proteger e escancarando a porta do quarto de meu companheiro...agora sim aquele garoto iria sentir na carne o que é sofrer...

o

Narrado por: Omi



Fiquei parado, estaqueado em meu lugar, sentindo o calor da luz do sol sobre meu dorso nu...Mas o que...?...Nem vi o que estava acontecendo, só senti a repentina dor aguda em minha bochecha e a escuridão tomou conta do quarto novamente, antes mesmo de meu corpo encontrar o chão por causa do tapa que eu havia levado. E mais um veio...e mais um....e mais, mais, dessa vez com unhas afiadas começando a rasgar a pele...ou talvez fosse só dor demais q dava essa impressão... isso continuou pelo o que me pareceram horas, mas hoje sei que não foram cinco segundos:

-CHEGA! Pare Vittorio! Eu estou mandando! - A voz grossa e imponente irrompeu o ar, assustando a coisa grande e peluda que eu vi na porta (Sim, sim... o nossa amado Athra que se foi há muitos anos atrás) - EU MANDEI PARAR! - E, como em um passe de mágica, meus olhos voltaram a tentar algum foco e a dor começou a diminuir...Não entendendo bem até hoje o que se sucedeu nos segundos após, pois minha cabeça girava e eu não me sentia com forças pra levantar-me.

De repente abri os olhos e me encontrava na cama, via o olhar cuidadoso de Aya em meu rosto, mas não em meus olhos, que como os seus, deveriam estar iluminados pelas chamas laranjas das velas que agora dominavam o aposento... provavelmente na parte em que ele tocava com algo úmido...é, meu rosto havia mesmo sido cortado.

- Aya...? - Minha voz saiu fraca, eu me sentia tonto...

-Shhhhhhh... - Voz suave... melodiosa... a mesma que me embala toda a noite...

- Vai ficar tudo bem... tudo bem... - e continuava com seus toques calmos e indolores... trocava de algodão quando o que ele segurava ja se encontrava escarlate e depois voltava com um novo, sempre procurando não me encarar, não me olhar nos olhos como sempre....Seria medo? Sim...e muito dele...

- Aya... por que... na janela... o que está acontecendo....? - Parei sua mão com a minha, olhando eu mesmo profundamente dentro dos olhos violeta...

- O que aconteceu?... Eu quero a verdade... e quem era aquele cara?...Aya... - Sentei-me, dessa vez o olhando severamente, meu íntimo me dizia que algo estava errado...e eu tinha razão...Muita coisa estava errada...muita coisa que depois quase custou muito mais que somente nossa relação...custou quase nossas vidas...

CONTINUA...