Capítulo 9 – Espelho de Osejed

"Decidi que vou passar o natal aqui", informei, sentando-me ao lado de Harry. Hermione – que estava sentada na primeira carteira, com Neville - já ia viajar com os pais e alguém precisava ajudar o Harry com as pesquisas sobre Nicolau Flamel.

Harry ergueu os olhos de 'Quadriboll através dos séculos' e me encarou.

"Por quê?", questionou.

"Bem, temos coisas mais importantes para resolver por aqui", falei, bem no momento que o professor entrava na sala, junto com o resto da turma.

Draco Malfoy e seus pitbulls adestrados e acéfalos ocuparam a mesa ao lado da nossa. Harry e eu estávamos medindo pó de espinha de peixe-leão, quando o sonserino comentou, baixo para que Snape não ouvisse – não que ele fosse se importar -, mas alto o suficiente para que sua voz chegasse aos nossos ouvidos.

"Tenho tanta pena dessas pessoas que têm que passar o Natal em Hogwarts porque a família não as quer em casa", e lançou um olhar maldoso na direção de Harry.

Esse era outro motivo porque eu não estava voltando para casa nesse Natal. Harry teria que ficar sozinho e, pelo pouco que ele me contara da convivência com seus tios, acho que ele já ficou sozinho por tempo demais.

XxXxX

Quando estávamos saindo da aula de poções, Hermione se juntou a nós e Fred e Jorge nos alcançaram.

"Rony, vai passar o natal em casa?", Fred perguntou.

"Não", encolhi os ombros, "Vocês vão?"

"Não", os dois responderam juntos, trocando olhares culpados, "Mamãe acabou de descobrir sobre a nossa detenção por causa dos bonecos de neve, estamos tentando manter uma distância segura", explicou Jorge.

"Droga, nós estávamos contando com você para entregar umas tampas de privada para a Gina", resmungou Fred, "Já mandou uma carta avisando?"

"Não", estremeci, "Ela vai ficar furiosa. Estou pensando em simplesmente não aparecer", expliquei.

"Você sabe que isso não vai impedi-la de colocar fogo no seu pôster do Chudley Cannons, certo?", Fred ergueu as sobrancelhas, "Nós", fez um gesto indicando a si mesmo e ao Jorge, "a criamos muito bem"

Soltei um gemido baixinho.

"Percy vai?"

"Não sei, mas ele não levaria a tampa da privada para a gente, e muito menos impediria Gina de botar fogo no seu pôster", Fred murmurou, "Bem, vamos nos encontrar com o Lino agora. Até mais tarde, Rony", e os dois saíram correndo, acenando para Harry e Hermione.

Quando deixamos as masmorras, percebemos Hagrid atrás da gente. Voltamo-nos para ver um grande tronco de pinheiro bloqueando a passagem, mesmo para um cara gigante como Hagrid, aquilo era pesado.

"Oi, Rúbeo, quer ajuda?", perguntei, tentando ser prestativo, mesmo que eu batesse alguns centímetros acima da cintura do homem e minha ajuda seria tão útil quanto à de Perebas.

"Não, estou bem. Obrigado, Rony", ele ofegou, voltando a tentar empurrar a árvore.

"Você se importa de sair do caminho?", rangi os dentes e girei nos meus calcanhares para encarar Draco Malfoy. Ver esse garoto mais do que uma vez por dia devia ser contra as regras, "Está tentando ganhar uns trocadinhos, Weasley? Vai ver quer virar guarda-caça quando terminar Hogwarts. A cabana de Rúbeo deve parecer um palácio comparado ao que sua família está acostumada"

Com muita mais violência do que eu sequer achei que tinha, avancei na direção do garoto, agarrando a frente de suas vestes com toda a minha força e empurrei-o contra uma das paredes. Hermione ofegou, surpresa.

Bem nesse momento, Severo Snape apareceu, berrando:

"WEASLEY!"

Hagrid tentou explicar a situação, mas Snape não ouviu e tirou cinco pontos da Grifinória – e só da Grifinória, que fique bem claro. Enquanto os sonserinos, acompanhados pelo crápula que se dizia professor, se afastavam, rangi meus dentes novamente.

"Eu pego ele", prometi, "Um dia desses, eu pego ele"

"Odeio os dois", Harry se pronunciou, enquanto voltávamos para perto de Hagrid, "Draco e Snape"

Mas antes que eu pudesse me empolgar e começasse a adjetivar as duas cobras em pele de gente, Hagrid nos interrompeu, murmurando sobre ver os enfeites de natal. Assim que pisamos no Salão Principal, professora McGonagall mostrou ao Hagrid onde ele deveria colocar a árvore que, penosamente, empurrava.

"Quantos dias faltam até as férias?", perguntou o meio-gigante, lançando um olhar para os alunos que andavam em grupos, conversando animados.

"Um", Hermione se pronunciou pela primeira vez naquele dia – o que, ao meu ver, era um milagre de natal antecipado -, "Ah, isso me lembra: Harry, Rony, falta meia-hora para o almoço, devíamos estar na biblioteca"

Normalmente, minha lista de coisas que eu preferiria fazer antes de ficar enfornado em uma biblioteca era bastante extensa – provavelmente só perdia para conversar com Draco Malfoy sobre quadriboll e ter dobradinha de poções -, mas tendo em vista que ainda não tínhamos conseguido desmascarar o crápula de cabelos sebosos (lê-se Snape), tínhamos ficado mais tempo na biblioteca do que em qualquer outro lugar do castelo. Como era animador.

"Ih, é mesmo", soltei, voltando minha atenção para ela.

"Biblioteca? Na véspera das férias? Não estão estudando demais?", Hagrid franziu o cenho, enquanto empurrava a árvore e tentava mantê-la onde a professora McGonagall havia pedido.

"Ah, não estamos estudando", Harry retrucou, distraído, "Desde que você mencionou o Nicolau Flamel estamos tentando descobrir quem ele é"

"Vocês o quê?", Hagrid estava tão chocado que parou de lutar contra a árvore que quase se desequilibrou, não fosse o fato do gigante ter se recordado de sua tarefa e rapidamente firmá-la com suas mãos gigantescas, "Ouçam aqui: já disse a vocês, parem com isso. Não é da sua conta o que o cachorro está guardando", resmungou.

"Só queremos saber quem é Nicolau Flamel, só isso", Hermione retrucou, o que não era exatamente verdade.

O que realmente queríamos era desmascarar Snape e nos livrarmos das aulas de poções – OK, Hermione não queria se livrar das aulas, só Harry e eu ficamos alegres com essa possibilidade.

"A não ser que você queira nos dizer e nos poupar o trabalho?", Harry sugeriu, esperançoso, "Já devemos ter consultado uns cem livros e não o encontramos em lugar nenhum. Que tal nos dar uma pista? Sei que já li o nome dele em algum lugar"

E, por pior que seja, eu também tinha essa impressão. O nome dele não me era incomum. Mas de onde?

"Não digo uma palavra", Hagrid declarou, decidido.

"Então, vamos ter que descobrir sozinhos", disse, enquanto nós nos encaminhávamos para a biblioteca.

XxXxX

"Rony, pára de olhar para as figuras e leia o livro", Hermione resmungou, exasperada, enquanto fechava o vigésimo livro que folheava desde que tínhamos sentado na mesa, com uma pilha tão grande de livros que Madame Pince nos lançava olhares desconfiados o tempo todo.

"Mas eu to cansado", choraminguei, "E eu estou começando a ficar com dor de cabeça", o que era parcialmente verdade. Eu não estava começando a sentir nada, mas se continuasse lendo como eu estava, provavelmente começaria.

Hermione lançou-me um olhar veemente.

"Rony..."

"Tá bom, tá bom", resmunguei, voltando o livro para o sumário, acompanhando o nome dos capítulos com os dedos. Soltei o ar, cansado, "To começando a achar que esse Nicolau Flamel é um amigo imaginário do Dumbledore ou coisa parecida", resmunguei, fechando o livro e puxando mais um da pilha que eu tinha escolhido aleatoriamente, abri o novo livro no sumário e comecei a procurar pelo nome do homem – nada -, "Onde Harry está?"

"Tentando entrar na Seção Reservada", ela respondeu, fechando o livro que estava folheando e abrindo o próximo, "Já falei que é inútil procurar lá: você tem que ter uma autorização por escrito de um dos professores"

"Podíamos pedir para o Snape", sugeri, mal humorado, "Aí fazemos uma parceria e dividimos o que quer que encontremos lá embaixo"

Hermione me lançou outro olhar exasperado.

"Por que não perguntamos para Madame Pince?", Hermione perguntou, enquanto fechávamos os livros que estávamos analisando ao mesmo tempo e puxávamos um novo de nossas respectivas pilhas.

"Já falamos sobre isso", abri o sumário e, com o queixo apoiado em uma das mãos, lia o nome dos capítulos, entediado, "Não podemos correr o risco de o Snape descobrir...", então, Madame Pince mandou alguém sair da biblioteca.

Erguemos nossos olhos e vimos Harry saindo da biblioteca, com as mãos nos bolsos.

"Eu bem que disse", Hermione resmungou, "Mas é claro que ninguém nunca me ouve..."

Com um suspiro, comecei a me levantar e guardar os livros em seus devidos lugares, enquanto Hermione me ajudava. Cinco minutos depois, saíamos da biblioteca para encontrar Harry sentado no chão, as costas apoiadas contra a parede do corredor.

Balançamos a cabeça de um lado para o outro, indicando que não tínhamos descoberto nada.

"Vocês vão continuar procurando enquanto eu estiver fora, não vão?", Hermione perguntou, enquanto caminhávamos em direção ao Salão Principal, "E me mandem uma coruja se encontrarem alguma coisa", acrescentou.

"E você poderia perguntar aos seus pais se sabem que é Flamel", sugeri, enquanto enfiava as mãos no bolso da calça, "Não haveria perigo em perguntar a eles"

"Nenhum perigo, os dois são dentistas", Hermione retrucou, erguendo as sobrancelhas.

Ela estava certa. A menos que Nicolau Flamel tivesse criado uma escova de dentes elétrica, os pais dela não seriam muito úteis.

XxXxX

"Mamãe,

Resolvi que não vou com vocês para Romênia esse ano. Espero que não se importe.

Mande um abraço ao Carlinhos por mim.

E também fale para a Gina que a verei assim que as férias chegarem e contarei tudo o que ela quiser saber. E diga que eu peço desculpas por não estar com ela no natal, como prometi.

Ah, olhe... Eu sei que a situação está um pouco apertada, mas será que a senhora poderia mandar alguma coisa – qualquer coisa – para o Harry? Os tios dele não são muito amigáveis e duvido que ele vá receber muitos presentes de natal.

Com carinho,

Rony"

Observei a carta, enquanto tampava o tinteiro e guardava a pena.

Atei-a à pata de uma das corujas e sai do corujal.

XxXxX

Mordi meu lábio inferior, tentando não gargalhar, enquanto um dos peões de Simas (Harry pedira as peças do garoto emprestado, para que pudesse aprender) reclamava sem parar – 'olha só para onde ele está me mandando... não é à toa que vamos perder esse jogo...' – e Harry pareciamuito atordoado.

"Eu nunca joguei isso antes", Harry murmurou, na defensiva, "Não ria da minha cara"

"Você é muito ruim, Harry", gargalhei, enquanto meu cavalo jogava o peão de Harry para fora do tabuleiro, "Não que meu ego não agradeça, claro", acrescentei, enquanto observava o lado do tabuleiro de Harry praticamente vazio, enquanto as minhas peças ainda estavam todas de pé.

Harry fez uma careta, enquanto voltava a olhar, concentrado, para suas peças.

"Tente mover sua torre para o G7", sugeri.

"É, faça isso", suplicou a peça, "Eu não mereço ser morta graças ao seu péssimo senso de lógica", resmungou.

Abafei uma risada.

O garoto conseguia derrotar Você-Sabe-Quem, mas não sabia mover suas peças propriamente. Harry, a contragosto, ordenou que a peça o fizesse que alegremente moveu-se e empurrou um dos meus peões para fora do tabuleiro.

"Ah, olha só", murmurei, com fingida surpresa, "Seu rei ficou sem proteção"

Harry arregalou os olhos e ficou boquiaberto, depois voltou sua atenção para mim, incrédulo.

"Seu traidor", murmurou, enquanto observava minha rainha se aproximar e empurrar o rei dele para fora do tabuleiro.

"Nha, é só uma tática de jogo", revirei os olhos, "Então, mais uma?" perguntei, erguendo as sobrancelhas.

XxXxX

Quando acordei, naquela amanhã, fiquei animado ao ver o número de presentes depositados no chão do dormitório. Como só Harry e eu tínhamos ficado para o natal, isso significava que todos eles eram só nossos.

Sentei-me, sonolento, no chão e comecei a separar meus embrulhos dos de Harry. Mal eu tinha terminado de empilhar os presentes dele, ao pé de sua cama, ele sentou-se na cama e colocou o óculos, bocejando.

"Feliz Natal", desejei, entre um bocejo.

"Para você também", Harry piscou os olhos, tentando focá-los. E, então, enxergou os presentes, "Olhe só isso!", exclamou, "Ganhei presentes?"

"E o que é que você esperava, nabos?", voltei-me para os meus próprios presentes, tentando acertar meus cabelos.

Estava abrindo um dos pacotes que chegara de Tia Muriel e franzi o cenho, perante um lenço que fedia à naftalina – de verdade, por que é que ela me manda essas coisas? -, os gêmeos haviam me mandado uma bala de aparência suspeita que resolvi deixar de lado, por precaução. Peguei uma caixa bem embrulhada, mas antes que eu pudesse abrir, ouvi Harry exclamar.

"Que simpático!", ergui os olhos curioso, e o vi encarando uma coisa redonda e achatada, brilhante, também.

"Que esquisito!", exclamei, deixando o embrulho no chão e me aproximando da cama de Harry, "Que formato!", lembrando-me da vez que papai descrevera como o dinheiro trouxa, "Isso é dinheiro?"

"Pode ficar com ela", Harry jogou-a a minha direção, dando uma risadinha perante minha surpresa, "Rúbeo, minha tia e meu tio. E quem mandou esse?", levantou um embrulho que tinha um formato redondo e era embrulhado num familiar papel de embrulho vermelho vivo.

"Acho que sei quem mandou esse", murmurei, sem graça, "Mamãe. Eu disse a ela que você não estava esperando receber presentes... ah, não... ela fez para você uma suéter Weasley", murmurei, encolhendo os ombros.

Harry rapidamente abriu o embrulho e puxou uma suéter verde com uma barra de chocolate caseira. Não era exatamente o presente mais legal do universo, mas ele parecia realmente satisfeito com ele.

"Todos os anos ela faz uma suéter para nós", expliquei, abrindo a minha, "e a minha é sempre cor de tijolo", resmunguei. Quero dizer, é legal, mas depois de oito anos recebendo a mesma coisa, você meio que começa a esperar por alguma – qualquer – outra coisa.

"Foi realmente muita gentileza dela", Harry deu uma mordida na barra de chocolate.

Abri o presente que eu tinha deixado de lado para encontrar uma grande caixa de feijões de todos os sabores. Franzi o cenho, e peguei o bilhete que estava grudado nela com uma fita adesiva – "Rony, espero que você goste. Hermione".

Achei um pacotinho menor que era de Carlinhos – uma miniatura de dragão – e de Gui – dois galeões que eu poderia gastar com o que quisesse. Foi então que Harry pegou o seu último embrulho. Ergui os olhos e vi quando um material prateado escorregou entre as mãos do meu amigo, depositando-se aos seus pés.

Pisquei os olhos, perplexo.

"Já ouvi falar nisso", murmurei, piscando, enquanto me colocava de pé e deixava a caixa de lado, "Se isso é o que eu penso que é, é realmente raro e realmente valioso", soltei, piscando mais uma vez.

Porque o mundo é realmente muito justo, certo? Eu ganho uma suéter cor de tijolo e o garoto ganha uma capa de invisibilidade.

"E o que é?", Harry fitou-me, curioso.

E ele nemao menos sabia o que era!

É a prova de que coisas boas vão para as pessoas erradas...

Harry se abaixou para recolher o material que tinha deixado cair.

"É uma capa de invisibilidade", murmurei, ainda perplexo demais para acreditar nos meus olhos, "Tenho certeza que é. Experimente", pedi.

Curioso, Harry vestiu a capa e, incrédulo, assisti seu corpo simplesmente desaparecer. Papai já tinha comentado sobre esses tipos de capas para a gente, mas nunca tínhamos visto uma – elas são muito caras e quase nenhuma pessoa do nosso círculo social teria capacidade de comprá-la.

"É, sim!", exclamei, surpreso, "Olhe para baixo!"

Harry obedeceu e, então, seus olhos também se arregalaram, enquanto ele voltava rapidamente para encarar o espelho, depois, rindo, ele cobriu também a cabeça, sumindo completamente. Foi então que um pedaço de pergaminho caiu de uma das dobras da capa, depositando-se no chão.

"Tem um cartão!", informei, enquanto me abaixava para pegar minha caixa de feijõezinhos de todos os sabores, "Caiu um cartão!"

Harry se despiu da capa e abaixou-se para apanhar o cartão. Distraído, enquanto lia o cartão, ele me entregou o tecido, que eu analisei, cuidadosamente, segurando-o com reverência.

Uma capa de invisibilidade. E eu a estava segurando! Isso sim era inacreditável.

"Eu daria qualquer coisa para ter uma dessas", choraminguei, sentindo aquele estranho sentimento amargo dentro de mim, "Qualquer coisa...", ergui meus olhos e percebi que Harry ainda lia o bilhete – ou o garoto tinha dislexia ou..."O que foi?", perguntei, me aproximando.

"Nada", Harry disse, um pouco rápido demais. Entreguei a capa para ele e estava prestes a repetir minha pergunta, quando a porta do dormitório se escancarou e Fred e Jorge entraram, com um estrondo.

"Feliz Natal!", desejaram, em uníssono.

E o que quer que eu quisesse perguntar, teria que ser deixado para depois.

XxXxX

Harry e eu estávamos caminhando pelo jardim, duas horas depois do delicioso almoço de Hogwarts, e virei-me para ele.

"Guardou a capa?"

Ele soltou um 'huhum' que foi enfatizado por um aceno de cabeça.

"Quem mandou?", perguntei, interessado.

"Não sei", ele respondeu, voltando a atenção para mim, "Mas era do meu pai. A capa. Era isso que dizia no cartão", explicou, enfiando as mãos dentro do bolso do casaco.

Abri a boca para falar alguma coisa – até mesmo eu sei que alguma coisa tem que ser dita num momento desses -, quando uma bola de neve cortou o ar e acertou bem as minhas costas.

Girei nos calcanhares bem a tempo de ver duas manchas avermelhadas se escondendo atrás de um pinheiro gigantesco.

"O que foi?", Harry perguntou, também parando de andar e olhando em volta, obviamente ele não tinha sido um alvo.

"Meus queridos irmãos", respondi, com uma careta, enquanto juntava uma quantidade considerável de neve e moldava-a no formato de uma bola, "Estão querendo se divertir um pouco", acrescentei, erguendo as sobrancelhas, "Pode ser que eu precise de um companheiro, você sabe... eles são em dois"

Harry sorriu, aquiesceu, e também abaixou-se.

XxXxX

Nossos dentes tilintavam de frio, enquanto nos sentávamos nas poltronas do Salão Principal. Harry, então, começou a arrumar as peças do xadrez de bruxo, jurando que, dessa vez, ele venceria. Os gêmeos e Percy (que tinha corrido para abafar a guerra de neve, mas no fim juntara-se a nós) trocaram olhares significativos – todos eles já disseram a mesma frase e nem um conseguiu cumprir com sua palavra. Como já disse uma vez, alguém sempre tem que ser bom em alguma coisa.

Depois de exatamente treze minutos e oito segundos – cronometrados por Fred e Jorge -, eu era vitorioso e Harry resmungava alguma coisa sobre 'teria me saído bem melhor se tivesse jogado sozinho...' que provavelmente se referia ao fato de Percy ter tentado aconselhá-lo o jogo inteiro. O único problema era que Percy era péssimo em xadrez, então, se Harry fazia o que ele queria, estava condenado, se não fazia e seu movimento dava errado, tinha que aturar Percy exclamando que 'se tivesse me ouvido' e 'você é péssimo, mas se fizesse como eu falei...' até o ponto em que Harry estava ignorando tudo o que ele falava automaticamente – uma habilidade que todos nós desenvolvemos muito bem depois de anos de convivência com Percy.

Depois de assistirmos Percy perseguir Fred e Jorge por terem escondido seu crachá de monitor. Joguei-me na cama, exausto e, antes que pudesse dar por mim, estava adormecido.

Ouvi, então, um barulho e entreabri os olhos, sonolento. Vi Harry puxar algo debaixo da cama que refletiu, prateado, à iluminação da lua que vinha da janela. Era a capa de invisibilidade. Ele desceu da cama e desapareceu. Murmurei algo como 'onde você vai?', mas logo voltei a dormir.

XxXxX

Encontrei Harry sentado no Salão Principal, com seu prato preparado – mas, aparentemente, intocável.

"Harry?", sentei-me no lugar de frente para ele, esfregando os olhos, "Você está bem?"

Lentamente, Harry voltou os olhos na minha direção.

"Eu saí ontem a noite", ele respondeu, a voz inexpressiva, "Fui até a biblioteca, procurar pelo Nicolau Flamel na Seção Reservada, mas abri um livro que começou a berrar, e o Filch e... e... e o Snape estavam atrás de mim – bem, não de mim, porque eles não podiam me ver... eu comentei que estava com a capa? Bem, eu estava com a capa. Aí eu saí correndo e... e... e não sei como, parei numa sala que tinha um espelho", parou, tentando recuperar o fôlego, "E eu vi meus pais"

"Na sala?", ergui as sobrancelhas, cético.

"É. Não. No espelho que estava na sala", esclareceu.

"Você viu os seus pais... num espelho?", repeti, cauteloso.

Como é que você fala para alguém que, provavelmente, ele deveria visitar um hospício? E, talvez, não sair de lá por algum tempo?

"Eu sei que parece estranho", Harry murmurou, desanimado, "Mas eu sei o que eu vi. Talvez seja um espelho que mostra a família das pessoas!", sugeriu, animando-se, "Se ao menos eu tivesse te chamado..."

"Você poderia ter me acordado", concordei, rabugento.

"Você pode vir hoje à noite. Vou voltar, quero lhe mostrar o espelho", Harry resolveu.

"Eu gostaria de ver seu pai e sua mãe", animei-me.

"E eu quero ver toda a sua família, todos os Weasleys, você vai poder me mostrar os seus outros irmãos e todo o mundo", Harry também parecia bem mais alegre agora, tinha até perdido a expressão cansada.

"Você pode vê-los a qualquer hora", dei de ombros, "É só vir à minha casa neste verão. Em todo o caso, talvez o espelho só mostre gente morta", notei minha completa falta de sensibilidade e mudei drasticamente de assunto, "Mas é uma pena você não ter achado o Flamel. Coma um pouco de bacon ou outra coisa qualquer, por que é que você não está comendo nada?"

Será que ele esqueceu o que eu disse?

Honestamente, espero que sim.

XxXxX

"Harry, estou falando sério", murmurei, enquanto caminhávamos juntos, protegidos pela capa de invisibilidade, "Vamos esquecer tudo e voltar"

À medida que os minutos se arrastavam noite a dentro, eu tinha cada vez mais certeza de que Harry tinha alucinado em relação ao espelho. Aliás, ao passar daquele dia, eu tive a impressão de que Harry estava alucinando incontáveis vezes. Ele simplesmente ficava olhando para o nada, com uma cara estranha.

"Não!", Harry sibilou, irritado, "Sei que é em algum lugar por aqui", rosnou.

Nunca discorde de um louco. Aquiesci e continuei a andar com ele. E andei. E andei. E andei. Até que meus pés começaram a ficar doloridos.

"Harry, será que nós podemos voltar agora? Meus pés estão me matan..."

"É aqui... logo aqui... é", Harry me interrompeu, enquanto nos guiava pelos corredores, fazendo com que passássemos por uma armadura e paramos na frente de uma grande porta. Nós a empurramos e, assim que Harry se viu na sala, saiu correndo em direção ao espelho, deixando a capa escorregar pelo seu corpo e pelo meu.

Então, o Espelho realmente existia.

Agachei-me e recolhi a capa, depois me aproximei do espelho, curioso.

"Está vendo?", Harry sussurrou, enquanto encarava o espelho, os olhos brilhando.

Olhei de relance para o espelho, mas mal consegui ver o reflexo de Harry, imagine então os dos pais dele.

"Não consigo ver nada", respondi, aproximando-me ainda mais do espelho.

"Olhe! Olhe eles todos... ali, montes deles...", não que Harry fosse louco – afinal, o espelho existia, não é? -, mas que era estranho ver ele apontando para a superfície aparentemente normal de um espelho, clamando que seus pais – aqueles que estavam mortos – estavam ali com ele era, no mínimo, desconfortável.

"Só consigo ver você", retruquei.

"Olhe direito, vamos, fique aqui onde eu estou", Harry me puxou pelo ombro e me posicionou onde ele estava, bem de frente para o espelho, enquanto, ansioso, se colocava ao meu lado, os olhos esverdeados brilhando de ansiedade.

Então, me vi usando um crachá como o do meu irmão Gui, segurava em uma das mãos uma vassoura e, em outra, a Taça das Casas e, a julgar pelas minhas vestes de quadriboll, eu era o capitão do time. Eu também parecia mais velho... e bem menos desengonçado e mais bonito.

"Olhe só para mim!", exclamei, satisfeito.

"Você está vendo toda a sua família à sua volta?", perguntou, ansioso.

Neguei e expliquei exatamente o que estava vendo.

Depois, animado, mirei-me uma vez mais.

"Você acha que esse espelho mostra o futuro?", sorri para meu próprio reflexo, esperançoso.

"Como poderia?", Harry pareceu miserável pela primeira vez em vinte e quatro horas, "A minha família toda está morta. Me deixe dar outra espiada"

Eu ainda não estava pronto para me afastar da imagem que eu sabia muito bem que nunca seria realidade. Eu sabia que não era inteligente o suficiente para virar Monitor-Chefe, e também sabia que nunca conseguiria virar capitão do time e, na verdade, deixar aquilo parecia muito difícil. Como se... como se fosse desistir de algo que, embora eu soubesse que nunca ia acontecer, ainda esperava,secretamente, que acontecesse.

"Você teve o espelho só para você na noite passada, me deixa olhar um pouco mais", resmunguei, levemente irritado.

"Você só está segurando a taça de quadriboll, que interesse tem isso? Eu quero ver os meus pais", na lógica, ele estaria correto, e eu me afastaria.

Mas aquele espelho tinha um poder estranho sobre mim, eu não conseguia afastar meus olhos do outro Rony e... e tinha uma sensação boa dentro de mim. Era uma sensação que me aquecia por dentro... fazia com que eu me sentisse como quando eu ganhava de alguém num jogo de xadrez particularmente difícil, como eu não jogava a muito tempo.

Fazia com que eu me sentisse alguém, não apenas mais um Weasley.

"Não me empurre...", retruquei, lutando ombro a ombro com Harry pelo local de frente ao espelho, e acho que provavelmente começaríamos a berrar, se não fosse um barulho repentino se fazer ouvir naquele instante. Rapidamente, estendi a capa sobre nós dois, bem no instante que os olhos de Madame Nor-r-ra apareciam à porta. Ela fitou a nossa direção por alguns segundos e depois virou-se para ir embora.

"Isto é perigoso. Ela pode ter ido buscar o Filch, aposto que nos ouviu. Vamos", puxei-o porta afora e, em silêncio, nos encaminhamos para a Torre da Grifinória.

XxXxX

Fitei Harry em silêncio.

Eu já o tinha chamado para todos os programas e atividades em que pude pensar, mas ele se recusava a fazer qualquer coisa. Continuava olhando pensativo para o nada, ausente e alienado ao que quer que estivesse à sua volta.

"Sei no que você está pensando, Harry: naquele espelho. Não volte lá hoje à noite", aconselhei, sério.

"Por que não?", ele perguntou, na defensiva.

Observei-o, em silêncio por alguns segundos, enquanto tentava entender exatamente por que eu não achava que era uma boa idéia voltar lá. Mas não consegui encontrar uma justificativa decente.

"Não sei, estou com um mau pressentimento", cedi, "E, de qualquer forma, você já escapou por um triz muitas vezes... demais. Filch, Snape e Madame Nor-r-ra estão andando por lá. E daí se eles não conseguem ver você? E se esbarrarem em você? E se você derrubar alguma coisa?", questionei, logicamente.

"Você está falando igual a Hermione", ele retrucou, mal humorado, e, em qualquer outra ocasião, eu teria me sentido insultado, exceto pelo fato de que Hermione geralmente estava certa e, seguindo a lógica, eu estava certo.

"Estou falando sério, Harry, não vai, não", falei.

Mas Harry foi.

Quando acordei no meio da noite para fechar a janela e bloquear o vento frio que entrava por ela, vi que a cama dele estava vazia.

Deitei-me na cama me perguntando se, algum dia, Harry começaria a pensar que viver na frente daquele espelho seria melhor que viver de fato, como acontecera comigo, naquela única vez em que vi o meu reflexo.

E esperei, com sinceridade, que não.

Continua...

N/A: Aqui está o novo capítulo, gente!

Desse em diante foram meus capítulos favoritos! :D

Esse não teve muitas cenas com a Hermione, mas ela reaparecerá no capítulo que vem!

O que acharam das cenas extras??

Estão de acordo com os personagens?

Não esqueçam que vocês são meus críticos...

Aguardo as reviews de vocês sobre esse capítulo! ;D

Mayabi Yoruno: Vai demorar um pouco para ter romance... mas, como disse, vou me esforçar para fazer as cenas R/Hr valerem a pena! :D

ChunLi Weasley Malfoy: ahuahauihaha. Bem que percebi que não tinha seu comentário em lugar nenhum! XD Eu também estou ansiosa pelo 4º livro! Já está decidido, a fic cobrirá um pouco de pós-RdM!

Gabi Chorona: Aqui está o novo capítulo. É um pouco difícil, mas vale muito a pena! Gostou desse capítulo?

Mina: Eu também gosto só de Hagrid, mas no livro eles o chamam de Rúbeo, então, o que eu posso fazer? / Eu tenho que começar a escrever os novos capítulo antes que vocês me alcancem!

Mady: hauiahuiahuiaha. O Rony é tão normal...

(x Carol x): Que bom que você gostou das cenas que mostram a amizade deles... :D O que achou desse capítulo?

Anaisa: Eu também amo a minha sócia! \o/ A gente tem que escrever Oferta Irrecusável logo...

Thais Weasley Malfoy: ahuiahuihiauha. Sinto muito, mas esse capítulo não teve muitas cenas entre eles... Espero pela sua review sobre esse capítulo!

Guilherme McKinnon: Oi, Gui! Que bom, estou tentando fazer ela o mais fiel possível... é que ela é tão chata que eu tenho medo de estragá-la. XD Espero que tenha gostado das cenas desse novo capítulo! ;D

Bom, é isso!

Espero por mais reviews.

Até domingo que vem!

Beijos,

Gii.