Elipse: supressão de uma palavra ou de uma ideia facilmente entendida no contexto da situação. Exemplo: 'Seus olhos brilhavam e sua sobrancelha se arqueava em deboche, e tudo era como se sua boca dissesse que me queria'
Quando eu tinha doze anos, minha mãe me disse – depois de chamada na escola junto com meu pai por causa de uma resposta que eu dera para o professor de Feitiços – que admirava toda essa minha impetuosidade e que achava totalmente certo que eu defendesse algumas coisas com paixão e certeza, mas que teria também que deixar as coisas meio subentendidas e, às vezes, saber a hora de calar minha boca e descobrir os tais momentos em que ficar em silêncio era melhor do que falar.
Tirando minha vontade de rir – poderia apostar que aquela frase fora tirada do meu falso livro de astronomia – eu peguei a frase e tentei dizer a mim mesmo que eu teria muito mais noites livres se eu simplesmente calasse a boca e concordasse com tudo que os professores dissessem, mesmo que isso incluísse Snape receber mais pontos que eu num feitiço de mudar o cabelo – e eu só disse para o professor que era óbvio que era a primeira vez que aquilo funcionava, senão ele faria todo dia – e significasse um momento único de vitória dele.
Mas eu não conseguia, de jeito nenhum. Sempre tinha que responder alguma coisa quando alguém dizia uma frase que eu discordava totalmente, e sempre tinha que praticar um ou dois feitiços se a frase fosse totalmente errada na minha convicção.
Eu era, segundo papai dizia com uma voz grossa toda vez que me via – mas eu era capaz de perceber diversão ali também. E mamãe explicava; eu era idêntico a ele quando pequeno - um menino mal criado que tinha respostas felizmente ótimas para tudo.
(Ele achava que eu não via seu sorrisinho de satisfação quando ele terminava seu discurso de visita. E essa era a única coisa que eu não falava na cara – no começo porque mamãe me ameaçava ficar sem os biscoitinhos que eu amava e que já roubara com a capa, agora porque eu me imaginava fazendo algo exatamente igual com meu filho – e que gostava de ficar calado).
Isso não mudara.
Porque, depois de sete anos de respostas bem estruturadas aos professores, depois de sete anos recebendo detenções por responder alunos com alguma coisa mais que voz e depois de receber um elogio de Lily – no final do ano passado, quando eu respondera Snape por ele ter dito uma coisinha meio desonrosa para ela – dizendo que sinceridade era um ponto forte, eu sentia que não deveria ter ouvido mesmo mamãe e levado em consideração os sorrisos de meu pai exatamente como eu fiz.
Eu tinha certeza que uma das coisas que ela mais gostava em mim era falar tudo o que eu queria, da mesma forma que seus olhos verdes mostravam o que ela realmente desejava. Sabia que ela adorava a minha revirada de olhos antes de discordar em voz alta do que alguém dizia, e que até mesmo gostava da ironia em minhas respostas e da diversão que tinha por trás delas. Dizia Lily que meu trunfo era dizer exatamente o que meu corpo queria dizer. Era seguir as regras dele e não mentir de jeito nenhum, era estreitar o olhar em discordância e não dizer exatamente o que seria concordar. Era arquear a sobrancelha em descrédito e ceticismo e não soltar nenhuma palavra de incentivo quando não concordava plenamente.
Eu concordava com ela, quer dizer. Sabia que, nem sempre, um gesto era a única coisa necessária – apesar daquele ditado trouxa, de que um gesto vale mais que mil palavras – e que ele precisaria ser complementado com palavras para ser totalmente compreendido.
Por isso, dizia também. Não custava nada, custava?
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Eu passei alguns dias interessantes nas minhas férias, me atualizando sobre os avanços trouxas em campos científicos. Peguei uma revista, peguei outra revista, repeti o ritual com uma terceira e continuei assim até ter uma pilha de exatamente onze ao meu lado, a décima segunda – só para concordar com aquela maldita lei de Murphy, que na maioria das vezes escolhia se manifestar em mim – ainda em minhas mãos com a primeira matéria interessante.
Dizia alguma coisa sobre formação mental nos seres humanos. Nos homens, acontecia mais ou menos aos vinte e um, quando as mulheres estavam praticamente formadas e com pouquíssimas chances de mudanças bruscas e reais. Nessa idade, nós já pensávamos em formar uma família e se estabilizar financeiramente – seja essa estabilização com a gente trabalhando fora de casa em algum emprego realmente bom ou servindo de empregadas para nossos maridos – enquanto os homens continuavam na descoberta pelas drogas, na onda dessa nova moda hippie e na vontade de 'pegar' quantas mulheres pudessem.
Não que eu precisasse de uma revista para perceber um negócio desses. Quer dizer, era só olhar para os meninos à minha volta - apesar de eu gostar de algumas respostas dele, James continuava criando algumas situações do meio do nada, e essas eram geralmente resolvidas com uma ou duas luzes saindo da varinha; Sirius, com uma petulância e cheio de 'Eu estou certo' não era exatamente a imagem de crescimento; e mesmo Severus, com pensamentos de 'sangue ainda significa poder', era uma criança de marca maior.
Quem precisava de revistas?
Eu que não. Mas, mesmo assim, eu a reli uma vez no trem para ir para Hogwarts na tentativa de ver se tinha alguma coisa errada ou algo que me dissesse que meninos podiam sofrer mudanças tão bruscas a ponto de não receber detenções, mas sim dá-las.
Não tinha, mas eu, de novo, li a parte das mulheres, e de novo estava ficando toda metida por minhas observações terem sido comprovadas cientificamente e com destaque em revista de circulação mundial – eu poderia muito bem ter escrito aquilo, quer dizer. E sem 1500 pessoas de cobaia - quando eu finalmente resolvi levantar minha bunda do banco acolchoado da sala da monitoria e seguir James pelos corredores.
Mas eu pensava demais sobre isso enquanto mandava as pessoas sentarem ou pararem de deixar os amiguinhos com a roupa rosa fluorescente. Pensava que, quase totalmente, minha personalidade estava formada, e que nada, nada mesmo – nem uma matéria da mesma revista, que dizia que, inconscientemente, poderíamos mudar a personalidade por causa de uma paixão ou um amor – poderia mudar esse fato.
Até que eu me apaixonei por James. Até que percebi que ele era uma pessoa que valia a pena ser reconhecida. Até que comecei a rir demais com ele, do jeito como nunca havia rido antes. Até que eu passei praticamente o fim de semana inteiro com ele e, quando cheguei no meu quarto, não senti a vontade de sempre de sair contando tudo para as minhas amigas.
Não. Eu queria guardar para mim, me jogar na cama, fechar os olhos e me lembrar dele. Do gosto dele, do toque dele, da risada abafada em meu ouvido e das nossas respirações se misturando no ar gelado da noite. Não queria sair por aí contando, descrevendo o jeito que ele me abraçara, o modo como brincamos, a maneira como tomamos sorvete e nos recostamos no banco antes de recomeçarmos os beijos.
Eu não sabia se era uma evolução. Eu não fazia idéia se era a coisa certa, se James me seguia nisso ou se eu dava um passo para trás. Só sabia que era uma mudança que eu não planejara e que, de alguma forma, eu adorara essa primeira experiência.
Era uma coisa só minha, e ia ficar assim até eu ter uma necessidade insuportável de contar para alguém o quanto eu adorara tudo isso.
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Talvez fosse por essa minha capacidade de falar tudo que eu tenha contado um monte de coisas para Lily, desde falar que só não queria ser jogador de Quadribol porque queria ser um fator determinante para o fim dessa guerra quanto contar que, quando vi minha mãe sem roupa pela primeira vez, falei que ela tinha nascido com defeito por não ter a 'cobrinha-que-faz-xixi' no meio das pernas.
Ela ainda me faz passar pela vergonha de contar isso em todos os Natais. Nunca parou para pensar direito mas, se parasse, ia perceber que ficar com uma possível namorada em Hogwarts não era exatamente o motivo por eu não ir lá desde o quinto ano.
Lily falou que eu era especialmente malvado ao fazer isso – tenho certeza que a mãe dela não fica contando para a tia avó gorda que ela falava que queria colocar essa mesma cobrinha para poder fazer xixi de pé – mas sorriu e disse que Petúnia – a irmã malvada dela – ficava contando para as primas que ela era malcriada e que tinha que ir para um colégio interno.
Ela me ignorou quando eu disse para soltar um Silencio nela, mas eu realmente levei a sério seu conselho de fazer que mamãe fale algo vergonhoso sobre Sirius na próxima reunião familiar – já arquitetava até um planinho para ver se descobria algo que fosse mesmo vergonhoso – enquanto levava à mesa seus biscoitos de chocolate com carinha de duende.
E eu contei isso ao Remus. Sobre, você sabe, colocar a cara de Sirius no chão, mas ele veio com uma conversa mole sobre demonstração de verdadeiras amizades e sobre eu estar levando Lily muito a sério – 'É óbvio que é brincadeira, Prongs' -, o que eu tenho certeza que foi uma saída esperta para não ser alvo do meu plano para o próximo Natal.
Funcionou. Não porque eu ainda não fosse criar alguma coisa para Sirius, mas sim porque Lily me dissera isso na quarta – hoje é noite de sábado, exatamente uma semana depois de escaparmos da festa – e eu, depois de séculos tentando, simplesmente não ia perder meu tempo precioso com ela pensando em Sirius.
Deixei de lado. Não levei tão a sério, como Remus disse.
Mas o resto das coisas eu levava. Mesmo. Gostava de ouvi-la falar da sua infância à lá trouxa, gostava de ouvir seus risos quando eu contava sobre minhas quedas de vassoura com meu pai e sobre como mamãe ficava doida atrás de mim e dele, sem saber quem curava primeiro. Adorava o fato que ela gostava que eu a ouvisse, e adorava que ela me ouvisse também.
Sério. Sério mesmo, como eu disse desde o começo.
Acho que foi por isso – quer dizer, essa foi a teoria que Sirius me falaria no dormitório um pouco mais tarde, uma revirada de olhos sensacional e um sorrisinho estúpido de canto de acompanhamento – que, quando estávamos nós quatro, os Marotos, e mais o mapa, eu procurei rapidinho por seu nome. E, quando o achei, esqueci completamente do que eles falavam e o segui, sem reparar que nossos caminhos iam se cruzar.
Até que Peter ouviu passos na escada e disse o 'Malfeito feito', terminando as próprias buscas por Mcgonagall e se deparando com Lily Evans à sua frente.
Ela olhou para o pergaminho, e desse para Sirius, que o segurava. Desviou o olhar para Remus e, finalmente, para mim, sorrindo na minha direção.
"Isso é um mapa?" ela perguntou, meio divertida, espichando o pescoço e se colocando nas pontinhas dos pés para conseguir superar a altura de Sirius "É aquele mapa de Adivinhação?"
"Eu vou tentar não ficar muito magoado com essa surpresa mal escondida ai, ruivinha" Sirius disse, dobrando o pergaminho "Nós estamos realmente melhores agora. Quantas detenções você me deu esse ano?"
Ela sorriu.
"Nenhuma, porque seu amiguinho te protege" ela apontou para mim com a pontinha do indicador, a unha roçando na barra de minha blusa "Eu nunca mais te encontrei depois que ele começou a ditar os lugares que a gente ia"
É, eu realmente tinha minha parcela de culpa nisso.
"E essa cara de falso inocente dele já diz tudo".
Eu sorri, beijando sua testa e entrelaçando nossos dedos, brincando com os fios de seu cabelo ruivo com a outra mão. Ela sorriu também e se acomodou em meu corpo, a cabeça em meu braço virada para Sirius.
"É mesmo o mapa?" ela voltou a perguntar, e dessa vez eu senti que Sirius não tinha exatamente alguma coisa para retrucar "Porque eu realmente não entendi como a constelação de Leão-"
"Ah, essa Sirius pode te ensinar. O irmão dele é Regulus" Peter interrompeu, pegando o papel da mão de Sirius e começando a esboçar uma caminhada em direção à escada lateral "Eu vou terminar o mapa e dormir para..."
"É claro. Porque amanhã é domingo, o prazo para a entrega disso é daqui a duas semanas e você vai realmente ficar parado um sábado à noite" Sirius interrompeu com uma meia ironia, mandando a língua para Peter "As desculpas inteligentes são minhas, por favor"
"Desculpas?" Lily se separou um pouco de mim, os olhinhos verdes piscando na direção de Peter, depois na de Sirius e depois na de Remus, estreitando-se nesse último como se ele continuasse a ser sua última esperança.
Não fosse eu um cara esclarecido com total orgulho do meu passado criminoso, eu ficaria magoado.
"James"
Esse era o preço a se pagar por ser o quase-namorado.
"Isso é o mapa de Adivinhação?"
"Não"
"O que é, então?"
Eu me separei um pouquinho dela, olhando em seus olhos por um segundinho antes de estender minha mão e tentar pegar o mapa de Peter. Quando ele, não me dando a mínima, guardou o pergaminho no bolso e fez que não, eu arqueei a sobrancelha.
Isso sempre deu medo nele.
"Vamos, Wormtail. Me dê o mapa"
Senti Lily franzir o cenho.
"Mas isso não é o mapa" disse, meio confusa "É?"
"Não, não é o mapa de Adivinhação" discordei, enfim recebendo o pergaminho nas mãos "É outro"
Eu deixei que ela pegasse o pergaminho das minhas mãos e o abrisse, prendendo um sorriso quando ela, ao não ver nada, piscou os olhos e pendeu o olhar para mim, interrogativa.
"A gente vai lá para... sei lá, algum lugar" eu disse, pegando o mapa de volta e o fechando para guardá-lo no bolso das vestes, voltando a entrelaçar meus dedos aos de Lily "Pode deixar, Pads, você fica com ele dois dias seguidos"
Lily me olhou ainda mais curiosa – eu podia imaginar seus pensamentos de 'Eles estão disputando um pedaço de pergaminho em branco?' mas me seguiu sem uma palavra mais, só com algumas tentativas frustradas de conseguir pegar o mapa e dois olhares curiosos nas minhas costas enquanto cruzávamos o caminho em direção à torre.
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Quando Peter soltou aquela desculpa estúpida de ter que terminar o dever em um sábado à noite, eu soube que havia alguma coisa de errado com aquele pergaminho. E devia ser alguma coisa meio séria - porque até mesmo Remus estava dentro disso – e realmente secreta, porque James não havia me contado nada sobre isso durante essa semana.
Eu nem esperava que eles me respondessem quando eu perguntasse. Insisti só na brincadeira e na esperança pequenininha que eu tinha deles me contarem, e até cheguei a me contentar com a atitude de Peter quando James estendeu a mão e pediu o pedaço de pergaminho para ele.
Eu devia esperar isso, quer dizer. Porque James sempre falava o que pensava e, para mim, sempre contava qualquer pedacinho de sua vida, mesmo que isso englobasse cobrinhas e mães com defeito no 'aparelho-de-fazer-pipi'.
"Vem, senta aqui" ele sentou no parapeito da Torre e deixou uma perna para o lado de dentro, batendo no espaço de perna entre elas. Tirava o pergaminho do bolso dois segundos antes de eu me sentar, minhas costas do abdome dele e minha cabeça sob seu queixo "É um segredo"
Bom, eu não esperava nada menos que isso.
"Mesmo, ruiva"
"Mesmo"
Eu o senti sorrindo contra a parte de trás da minha cabeça.
"Nada de contar a Marlene, Alice ou Mary" continuou, escorregando a boca por meu cabelo até beijar o lóbulo de minha orelha. Eu tive que lembrar meus pulmões de assimilarem o ar "Eu sei como a sua boca tende a se abrir quando elas estão no meio"
Eu me virei e lhe mandei a língua divertidamente, porque nessa eu estava meio em vantagem. Quer dizer, ele não sabia que eu havia contado pouquíssima coisa sobre a gente para elas.
E eu não ia contar simplesmente por não saber explicar.
"Minha boca é um túmulo"
Ele riu.
"É melhor que seja" concordou, beijando a pontinha do meu nariz exatamente quando eu descia do parapeito e me acomodava entre suas pernas, que imediatamente se juntaram atrás das minhas e me trouxeram mais para perto.
Foi assim pela semana inteiro. Quando a gente se encontrava pela manhã na sala comunal, quando a gente roubava comida da cozinha e dava pedacinhos de chocolate na boca um do outro. Quando a gente escapava no intervalo das aulas e ia para uma sala deserta, quando a gente fazia alguma tarefa de aula juntos e respondia alguns comentários de alunos que perguntavam se a gente tava namorando.
E seria assim se dependesse de mim.
"Bom, acho que é hora de te mostrar, então" ele disse, pegando meu queixo na mão e levantando meu rosto até que nossos lábios se tocassem. Ele sorria contra eles, dando três beijinhos antes de encostar a testa na minha "Juro solenemente que não vou fazer nada de bom"
Eu estava pronta para protestar por ele conversar e me enrolar quando alguma coisa – ou melhor, a frase inteira – soou sem sentido algum nos meus ouvidos.
Pisquei, ao invés disso. E pisquei de novo quando ele sorriu de novo, se afastou um pouco e pegou o pergaminho, abrindo-o diante dos meus olhos.
Eu quase me embasbaquei com o que eu vi.
"É um mapa"
Bom, isso eu conseguia ver.
"De Hogwarts" ele continuou, puxando o papel um pouco mais para perto dele e inclinando o rosto para a frente. Seu indicador direito começou a correr pelos traços até pararem em um ponto na parte de cima do papel, onde eu vi os nossos nomes escritos.
Mas, imediatamente, outro pedacinho dessa parte de cima me chamou a atenção. Ali, em letras bruxas – aquelas coisinhas bonitinhas, antigas, uma caligrafia que eu não consegui aprender – estavam os nomes pelos quais eles se chamavam.
"Somos nós" ele chamou minha atenção para o 'Lily Evans' e o 'James Potter' "Ele foi feito há algum tempo. É quase perfeito, com todas as passagens de Hogwarts que nós descobrimos por aí nas noites em que éramos pegos para a detenção. Nem uma capa de invisibilidade pode enganar esse mapa"
Eu ainda estava meio surpresa pelo desenho à minha frente, pelas linhas entremeadas e pela complexidade de tudo aquilo. Descobrir que eles realmente se empenhavam em alguma coisa antes desse sétimo ano – mesmo que essa coisa esteja voltada levemente para o lado de burlar regras – foi realmente inesperado.
Hmm, talvez eu estivesse um pouco errada por ter chamado James de sem-objetivo no quarto ano.
Mas, apesar de estar num quase torpor de incredulidade, as últimas palavras dele fizeram ainda menos sentido do que o resto da conversa inteira.
"Capa de invisibilidade?" eu perguntei um pouco cética, minhas mãos se apoiando em suas pernas e minha sobrancelha arqueada "Aquela dos contos do Beedle?"
Ele sorriu e deu de ombros "Por aí"
Eu pisquei.
"James" comecei, tirando minhas mãos de onde estavam – perfeitamente acomodadas, vou te contar – para tirar o mapa do meio da gente e colocá-lo ao lado dele no parapeito "Eu não acreditaria que vocês fizeram um mapa de Hogwarts – aliás, ainda é meio difícil mesmo com ele na minha frente - mas, sério, ele é o máximo. Meticuloso, metódico, perfeito e tudo o mais, o que é ainda mais impressionante"
Ele fez uma expressão satisfeita.
"Mas uma capa de contos de fada bruxos? James, é brincar com a minha imaginação"
Dessa vez, ele soltou um sorrisinho convencido, afastando-se um pouco mais de mim. Tocou minha franja com uma das mãos e a colocou para cima – exatamente do jeito que eu não gostava, mas que ele jurava que ficava sexy – beliscando minha bochecha.
"Vejo que a minha ruiva é do time do 'ver-pra-crer'" disse, brincalhão, a mão anteriormente em meu rosto voltando para as vestes e, delas, tirando um manto escuro "Que veja – ou não"
.Merlin.
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Algumas coisas são inesquecíveis. A primeira vez no Quadribol, a primeira vez de castigo e o primeiro sonserino acertado com um feitiço seriam os três primeiros exemplos que eu citaria se alguém me perguntasse as três coisas que eu jamais esqueceria.
Mas, dois segundos atrás, ela mudaria para 'A primeira vez em que Lily Evans olhou para mim com mais que surpresa nos olhos'.
Era demais.
"Cadê a sua mão?"
"Embaixo da capa"
"Que capa?"
"A da Invisibilidade"
"Mas..."
"Coloque, ruiva" propus, descendo do parapeito. Tirei a capa da minha mão - com um sorriso meio preso quando ela me olhou surpreendida quando viu minha pele surgir – e coloquei-a por trás do corpo de Lily, fechando-a na frente e de tal modo que só sua cabecinha ruiva ficasse de fora "Olhe para si mesma"
Ela me obedeceu, baixando o rosto. Seus olhos piscaram ao ver que não tinha nada onde deveria ter, e ela chegou a esboçar um pulinho para trás devido ao susto.
Podia ouvir seus pensamentos de 'Não acredito'.
"Eu tive o direito de trazê-la para a escola no meu terceiro ano, quando jurei a mamãe que não a usaria de jeito nenhum para me esconder dos professores ou entrar no banheiro feminino para colocar cobras enfeitiçadas" mais ou menos como eu fiz no meu primeiro ano aqui. Foi divertido ver as carinhas das garotas assustadas, mas eu acho que ela não gostou muito da semana de detenção e dos cem pontos perdidos para a Grifinória "Herança de família"
Ela piscou os olhos de novo, tirando parcialmente a capa para me cobrir com ela também. Arregalou novamente os olhos quando viu que eu desaparecia junto com ela, e os piscou – só para, você sabe, ser um pouco original – com um pouco de confusão para mim.
"Você jura que não é um feitiço de confusão?" perguntou, desviando novamente o olhar para onde nossos corpos deveriam estar. Quando, de novo, só viu parcialmente metade deles, mordeu o lábio inferior em uma meia excitação "Jura, jura, jura?"
Eu tive que rir.
"Juro, ruiva" eu peguei a capa de novo e, dessa vez, me cobri com ela. Lily olhou para onde eu estava antes, o cenho franzido quando ouviu o som dos meus passos um pouco à sua esquerda "Você não me parece confusa, quer dizer. Só surpresa"
"É?" perguntou, virando-se para onde tinha ouvido minha voz. Tinha um sorriso quase imperceptível nos lábios "Pois eu estou confusa"
"Por quê?"
"Ora, James" dessa vez, ela olhou para a porta, errando por pouco onde eu estava "Desde criança eu aprendo que contos de fada são estereótipos utilizados por adultos para explicar às criancinhas que mulheres não são nada sem homens, que a vilã principal é sempre invejosa e, invariavelmente, mulher, e que dragões caracterizam o mau que se deve enfrentar. Ah, claro, tirando a parte que eles não são de verdade"
Eu soltei uma risadinha, dando a ela uma pequena noção de onde eu estava agora, mais perto da janela que dava para o jardim oeste.
"Por que os seus contos não deveriam ser apenas lições de moral e com histórias e personagens inexistentes?" ela continuou, resolvendo se apoiar no mesmo parapeito em que eu estava, quase me acertando. Prendi o riso dessa vez e lhe dei um selinho por cima da capa, assustando-a um pouco antes dela, finalmente, rir "A Bela Adormecida não existe. Por que os Peverell deveriam?"
"Quem é Bela Adormecida?"
"A minha princesa favorita"
"É aquela que você tentou desenhar no quarto ano e..."
"Não, era a Ariel. Ela era – é, sei lá – ruiva. Mais ou menos como eu" eu pisquei, praticamente agradecendo a Merlin por estar com a capa e ela não ver minha expressão meio confusa. Isso lá era nome de princesa? "E como você sabe disso?"
Fiz um festo de descaso inconsciente. Nem eu me lembrava direito; algo como uma ida à sala de Slughorn, um caderno que ela tinha esquecido e um pedido dele para entregá-lo a ela.
E uma folheada sem compromisso minha, claro.
"Acho que fui meio enxerido. Meninos de quatorze anos fazem isso" me defendi, sorrindo, de novo na porta. Ela olhou para mim – ou para onde eu me encontrava, mas seus olhos acertaram exatamente o lugar dos meus - e estreitou o olhar, os lábios juntos com um leve quê de sorriso.
Lily Evans ou não, todas as meninas gostavam de ser meio paparicadas.
"Mas podemos discutir isso outra hora" eu continuei, andando para outro lugar agora. Ela se desencostou do parapeito e começou a seguir minha voz, sussurrando um 'Lumus' antes da varinha se iluminar "Ei, não vale"
"Você está invisível, James. A luz só serve para eu não tropeçar"
"Que nem anteontem?"
"Por que você precisa me lembrar disso a cada duas horas e meia?"
"Porque foi extremamente engraçado ver você de quatro no chão e com uma carinha de choro por causa de um arranhão de meio centímetro na palma da mão"
"Tomara que você caia daquela maldita vassoura no jogo contra a Sonserina para entender como eu me senti"
Eu ri "Ruiva, você caiu 1,5..."
"1,61, para ser mais exata"
"Com o salto"
Ela soltou um sorrisinho falsamente sem graça.
"É, com o salto. Mas ele é baixo" responder, estendendo a mão. Eu fugi no último segundo, mas toquei seu braço quando ela tentou novamente "E você tem mais de 1,8. É óbvio que eu tenho que usar alguma coisinha para não parecermos tão discrepantes"
Eu sorri, abrindo o sorriso quando ela me tateou em busca de algum ponto que pudesse puxar a capa. Quando ela finalmente achou, primeiro repuxou o tecido para depois, enfim, deixar que ele deslizasse por seus dedos.
"Você se esconde muito nela?"
Eu dei de ombros.
"Só quando Sirius está com o mapa e eu preciso ir à cozinha" respondi, deliciando-me quando os dedos dela andaram, de dois em dois, por meu corpo até alcançar minha bochecha, apertando-a antes de beijar meu queixo "Usava mais quando mais novo"
"E mais levado"
"Eu colocaria 'e sem o título de monitor chefe', mas acho que por esse lado fica mais legal"
Ela riu, dando tapinhas gentis em meu nariz como que em represália. Com um gesto da varinha, apagou a luz para, em seguida, levar a capa um pouco mais para o lado, juntando parcialmente nossos corpos.
"Eu não sei se ela combina com você" disse, baixinho,a respiração saindo em meu pescoço graças ao fato de seu rosto estar levantado "Só se eu te imaginar junto comigo em um desses corredores, sem ter que fugir a cada som que se parece com passos"
Eu sorri.
"Isso, claro, se eu for a única garota que..."
"Conhece o mapa e a capa" eu interrompi, meu sorriso se abrindo quando ela estreitou exageradamente os olhos e fez uma falsa expressão de ciúmes "É claro que é"
Lily sorriu, fechando os olhos e encostando seu rosto em um ponto pouco abaixo de meu ombro. Rodeou minha cintura com seus braços e deixou que eu afagasse seus fios, se acomodando logo no meu abraço.
"Por quê?"
Foi uma pergunta simples. Uma pergunta que poderia ser facilmente respondida com um simples 'Ora, porque nunca teve nenhuma outra como você, dãã' mas que eu não consegui responder.
Porque eu queria dizer mais. Queria dizer que nunca teve outra garota que me fizesse persegui-la por dois anos, que nunca teve outra que me fizesse querer ser amigo dela além de namorado – pensando melhor, nenhuma outra que me fizesse querer estar em um namoro - e que me fizesse virar a noite só com beijos inocentes.
Queria que ela soubesse que eu nunca mostrei a capa para mais nenhuma outra garota porque nunca sentira vontade de ver nenhuma a cada segundo como eu sentia com ela. Queria que ela tivesse certeza que eu só mostrara essas duas coisas a ela – e poderia mostrar muito bem um terceiro segredo meu se esse não envolvesse o resto dos garotos – porque confiava nela, e confiava mesmo antes desse sétimo ano.
Mas eu não disse nada.
Só me afastei um pouco dela e peguei seu queixo, levantando seu rosto em direção ao meu antes de beijá-la. Ela sorriu um pouco contra minha boca antes de entreabrir a dela e dar passagem à minha língua, uma das mãos deslizando para minha nuca e o corpo se apertando contra o meu.
Geralmente, eu só teria certeza sobre o entendimento dela se ela me dissesse. Mas só pelo olhar que ela me lançou logo depois de nos separarmos, no único segundo que eu demorei antes de me inclinar na direção dela de novo, eu percebi que ela sabia só pelo brilho de seu olhar.
Entendi mamãe quando ela disse que era melhor, às vezes, ficarmos em silêncio e não dizermos nada. eu sabia que poderia ter dito aquilo tudo, quer dizer; mas soube, apenas dois segundos antes, que poderia dizer a mesma coisa com um olhar e deixar tão claro quanto se eu combinasse isso com palavras.
Ela entendeu ali o quanto eu estava apaixonado por ela sem que eu precisasse dizer nada.
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Oiiiii, todos vocês. E aí, sentiram saudades? Eu senti, estava doida para vir aqui e falar com vocês, leitores adoráveis que conseguem melhorar o dia de qualquer escritor(a) com reviews fofas e lindas e tudo o mais *-* Aliás, começo por elas; tive uma semana extremamente difícil na escola, uma briga feia com meu namorado, um irmão chato que conseguiu quebrar meu netbook e uma visita adorável do meu afilhado que, de novo, pegou o Trakininhas - que eu adoro, de paixão - tirou o recheio, passou no rosto, cuspiu na mão e passou por sobre o chocolate porque estava, veja só, fazendo a barba como o papai.
Adorável.
Então, acho que não é de se admirar que as respostas para as reviews não tenham saído. Mas eu juro, juro mesmo, que elas devem sair no mais tardar até o final de semana que vem - devagar se vai ao longe XD - porque espero que as coisas melhorem até lá. Agradeço imensamente por todas elas - Cuca Malfoy, Little I, Rafa Black, Flor Cordeiro, Sophie Ev. Potter, Justine Sunderson, Sakura Diggory e Dani Prongs (a quem, de novo, dedico esse capítulo. Está cansada de ver seu nome aqui, Dani?) e dou livre e espontânea vontade de me amaldiçoarem caso eu não consiga escrever tuuuuuuuudo até domingo que vem.
Agora, as que não posso responder por e-mail:
b . a - acredite, eu sei direitinho do que você está falando - e a sua comparação com o gibizinho da Mônica é extremamente apropriada - e também me sentia muito mal com isso. Pouquíssimas autoras por aqui passam da fórmula 'James-perseguidor-incansável e Lily-gritos-no-corredor-até-perceber-sua-paixão' e, apesar de algumas realmente inovarem dentro desse mesmo quesito, acho que não desenvolvem muito bem. Então, resolvi inovar - uma ideia quando meu namorado estudava a desconhecida lítotes - até mesmo o meu próprio jeito de escrever e contar histórias. Espero mesmo que tenha gostado *-*
Nathália - esqueça os acentos, eles não funcionam XD. Obrigada por mais essa review, more.
Nathália - vide primeira frase acima, por favor. Viu, viu, viu? ERa um beijo. De verdade.
Samantha - sim, eu sempre quis ser versátil XD
Bom, por hoje é isso. E, claro, mais um pedido de reviews X)
