Não era delírio causado pela sede. Havia mesmo um barulho suave de água correndo, agora quase inaudível por causa dos gritos do sedentíssimo Kuririn. Esquecido de todos os cuidados que até aquele momento havia tomado, o jovem lutador disparou pelas árvores que compunham a borda da floresta:

—ÁGUAAA! ÁÁÁÁÁÁÁGUAAAAAA!

A partir dali, encontrava-se numa clareira muito maior do que aquela onde haviam se escondido na véspera. Um largo rio pontilhado de pedras abria-se diante de um alto paredão rochoso, do qual pendia uma imensa cachoeira. Era atrás desta que Bulma e Oolong haviam se abrigado desde que seus amigos guerreiros partiram levando as esferas do dragâo. Não havia esconderijo melhor, pois nenhum dos piratas pensaria em procurá-los num lugar tão aberto.

Ao contrário de Kuririn, Gohan atravessou calmamente as árvores, feliz porque a longa caminhada havia terminado. Encontrou o amigo de quatro num trecho sem pedras, bebendo como se quisesse secar o rio inteiro. Ajoelhou-se para beber também, mas sentiu alguma coisa dura sob seu joelho.

—Ai!—olhou feio para a relva úmida, pensando que havia ajoelhado em cima de algum galho. Estranho, já que não havia árvores na beira do lago. Suas sobrancelhas se ergueram enquanto pegava o objeto: não era galho e sim uma vara, com um longo fio de linha preso numa ponta.

—Uma vara de pescar?—_ Kuririn havia tirado o rosto da água e também fitava o objeto, intrigado.

Nenhum dos dois teve tempo de dizer mais nada, porque um rugido os fez se virar num pulo, os punhos instintivamente cerrados para o ataque.

Diante deles estava um ogro cabeludo de quase três metros de altura e com dois longos chifres no alto da cabeça, vestido somente com uma tanga de pele manchada. Sua aparência assustadora contrastava um pouco com o despropósito de sua arma: em vez de uma clava ou maça imensa, como seria de esperar de um gigante daqueles, ele segurava uma espécie de espada verde, da qual só se via a pontinha - a impressão que dava era que o monstro usava aquilo para palitar os dentes. Na outra mão, segurava uma linha de onde pendiam cinco peixinhos.

Escancarou uma goela cavernosa, exibindo duas fileiras de dentes amarelados e tão pontudos quanto os chifres:

—Eu sou o Senhor deste lago! Como se atrevem a invadir os meus domínios?

Kuririn e Gohan se entreolharam, depois sorriram.

—Eu respondo se me responder outra pergunta _brincou o monge_Como foi que o senhor conseguiu arrumar uma tanga de pele de leopardo, aqui, neste fim de universo?

O ogro olhou bem para os recém chegados e arregalou os olhos. Houve um som de estouro acompanhado de uma nuvem de fumaça. Quando a nuvem se dissipou, ele era novamente um porquinho, ainda segurando o fio com os peixes obviamente recém-pescados e a adaga que haviam encontrado enterrada numa rocha, na véspera. No cinto, uma das pistolas laser tirada dos piratas que Kuririn e Gohan haviam surpreendido tentando invadir a nave.

—Até que enfim! Pensei que vocês haviam sido apanhados. Por onde andaram esse tempo todo?

—Não devia ter se transformado desse jeito, senhor Oolong —Gohan censurou _Se a gente não tivesse reconhecido o seu ki, teria atacado o senhor.

—Vocês me deram um susto, garoto. Eu estava pescando uns peixinhos pro jantar quando os guinchos desse cabeça de lua quase me mataram do coração! Vocês dois estão tão sujos que nem os reconheci...—olhou com mais atenção para os dois, reparando nas roupas rasgadas e no rosto vermelho de Gohan—Que aconteceu com você?

—A gente explica depois—Kuririn cortou, impaciente —Onde está Bulma?

Oolong torceu o focinho com desprezo:

—Lá dentro, é claro. Onde mais aquela folgada estaria? Desde que vocês saíram ela só fica mexendo naquelas geringonças e dizendo "Oolong faz isso, Oolong faz aquilo..." Só tirei uma folga agora porque ela está cochilando.

—E aproveitou pra roubar as calcinhas dela, não foi? —Kuririn riu malicioso, apontando uma coisa branca que "espiava" de dentro do bolso do porco —Não admira que Bulma esteja mantendo você ocupado!

—Se o senhor não tem roupa de baixo limpa, não precisa roubar _ censurou Gohan _Eu tenho muita cueca de reserva que a mamãe me obrigou a traz...

A gargalhada de Kuririn abafou seu inocente oferecimento, assim como qualquer outro som em volta. O monge caiu para trás de tanto rir, e quanto mais tentava explicar para Gohan, mais ria. Só parou quando Oolong atirou os peixes em seu colo, gritando que, se ele tinha tempo para gracinhas podia muito bem limpar os bichos. Protestando, discutindo e rindo muito, o grupo começou atravessou o lago pulando sobre pedrinhas estrategicamente dispostas dentro da água, depois atravessou a cachoeira. Um par de olhos enormes destacou-se nos matos próximos ao lago. Poderiam pertencer a um lêmure ou uma coruja, se esses bichos existissem naquele planeta... e se tivessem sobrancelhas em "V".

As folhagens se abriram revelando um Vegeta completamente atordoado.

—Que... que tipo de gente... é essa?—_as palavras saíram de sua boca quase por vontade própria.

Não fora fácil seguir o anãozinho careca e o pirralho, depois que eles escaparam de serem massacrados por Kófi. Vegeta também fora pego de surpresa pela luz do estranho golpe "taioukê", mas, ao contrário do débil mental super crescido, ele não contava somente com a visão para se orientar. O barulho causado pelos dois fugitivos e os odores sutis de ambos os tornavam tão evidentes em meio aos sons e cheiros comuns da mata quanto um ponto preto numa folha de papel. Ao menos para Vegeta. Mas a cegueira temporária e suas partes íntimas doloridas o haviam atrasado bastante. Por mais de uma vez ele perdera seus rastros; fora muita sorte os dois terem sido obrigados a caminhar e o moleque ter passado mal.

Olhou para a cachoeira com raiva. Aquele animal falante estava com a sua preciosa adaga de lutânio - mesmo que Vegeta a tivesse esquecido cravada na pedra, ainda era sua. Sua toca fora invadida e saqueada pelos piratas de Turles; agora, havia perdido o lugar que fora seu refúgio e santuário para um bando de malucos. "Sempre que consigo algo de valor, alguém tira de mim." pensou amargamente.

Bem, e daí? Se tudo desse certo, nunca mais veria aquele lugar, então por que se aborrecia tanto? Esperou um pouco para ver se ninguém saía, depois entrou na lagoa. Não se espantara de ver os estranhos desaparecendo atrás da cachoeira porque há muito tempo ele mesmo já havia descoberto a caverna escondida ali atrás. Teria usado o lugar como toca, se não fosse tão frio e úmido; ainda assim, era o esconderijo perfeito, bem na vista de todos. Apurou o ouvido: nenhum som indicava que algum deles estivesse voltando. "O espaço é grande. Eles devem ter se abrigado bem lá no fundo, por isso não ouço nenhum barulho." Criou coragem e começou a se lavar, cuidando apenas para que sua silhueta não fosse vista através da cortina de água. A última vez que tomara banho fora depois da caçada aos langossauros, há uns... dois dias. Parecia muito mais tempo.

Hum... mesmo com o barulho da água, deveria poder ouvir a conversa dos cretinos lá dentro. A caverna não era tão funda assim, e aqueles três eram tão silenciosos quanto uma manada de tetracornos! Deixando a prudência de lado, Vegeta aproximou-se da cachoeira e enfiou a cabeça através da água.

E retirou-a.

Pestanejou por um instante, como querendo se certificar se o que vira não fora uma ilusão causada pela água nos olhos, depois enfiou a cabeça novamente. Devagarinho, com muita cautela, colocou um pé à frente, depois o outro, e atravessou a cachoeira de uma vez, ainda sem saber como processar aquela espantosa visão.

Diante dele estava uma porta presa a algo que parecia uma gigantesca fruta rosada, ocupando toda a caverna. Olhando com mais atenção, Vegeta notou algumas estruturas transparentes que só poderiam ser janelas. Deu alguns passos, um de cada vez, como se tivesse medo de que a coisa explodisse na sua cara. Antes de olhar mais de perto já sabia que se tratava de uma casa, mas alguma coisa nele queria ter certeza, talvez por fazer muito tempo que não via nenhum abrigo que não fosse feito de terra, galhos ou escavado numa rocha. Devagarinho, estendeu a mão e tocou o material. Era liso e suave ao toque, sem imperfeições; em resumo, deliciosamente sintético. Um suspiro escapou dos lábios de Vegeta, inundado pela mesma sensação nostálgica que sempre tinha ao rever suas velhas roupas.

Era mesmo uma casa, e parecia ter sido construída de modo a aproveitar todo o espaço da caverna, mas ainda assim... aquela gente não estava ali há mais que dois dias! Que tipo de tecnologia haviam usado para construir algo daquele tamanho em tão pouco tempo?

O som de vozes abafadas vindo de dentro interrompeu suas especulações. Vegeta percebeu que ainda acariciava a parede e recolheu a mão, envergonhado. Sentia também os cheiros do pirralho, do careca, do animal e outros odores que não conseguia identificar. Alguns desses cheiros eram de comida, não havia dúvida quanto a isso.

A razão porque Vegeta não ouvira muitos sons era que Bulma ainda estava dormindo. Cercada por Oolong, Gohan e Kuririn, ela ressonava sobre uma mesa inteiramente coberta de papéis rabiscados, dispositivos eletrônicos, pacotes de salgadinhos vazios e muitas, muitas xícaras de café. Segundo Oolong, ela havia ficado ali desde que montara a casa dentro da caverna, saindo somente para ir ao banheiro ou tomar banho (ele deu um sorriso quando disse isso). Acrescentou que devia ter levado ao menos umas trinta xícaras de café pra ela. Gohan lembrou que Bulma havia falado sobre um projeto importante e apontou para um scouter em meio à bagunça. Era um dos aparelhos que Kuririn havia tirado dos piratas que encontraram a nave, e estava conectado ao computador e a um outro dispositivo que ninguém reconheceu.

Era óbvio que Bulma ainda estava tentando decifrar a misteriosa linguagem que os piratas usavam para se comunicar. Quando os quatro deixaram apressadamente a nave em busca de um novo abrigo, diversas vezes haviam tentado escutar as transmissões via scouter, mas tudo que ouviam era uma algaravia de sons incompreensíveis e desagradáveis, capaz de deixar qualquer um com dor de cabeça. Nem mesmo o tradutor criado por Bulma, que supostamente deveria traduzir qualquer linguagem, havia funcionado.

—Tadinha —disse Kuririn, num misto de pena e troça—Ela vai morrer tentando decifrar esse negócio, mas não vai admitir que até a sua genialidade tem limites. Bom, vamos deixá-la descansar e tomar um banho. Estamos parecendo uns mendigos...—reparou que Gohan parecia constrangido—Desculpe,estava brincando...

— É que eu só tenho esta roupa pra vestir —o garotinho olhou desanimado para seu traje namekuseijin, transformado em farrapos durante a briga com Kófi. A imensa gola branca fora totalmente destruída e a camisa estava pendurada apenas por um ombro—Esqueci minhas roupas na nave, e também... foi a mamãe que escolheu todas elas.

—Eca!—Oolong e Kuririn fizeram caretas, lembrando-se do ridículo terninho que Gohan fora obrigado a usar quando partiram da Terra. O gosto de Chichi para roupas datava de várias décadas atrás. Sem falar que não eram nada práticas para alguém que voa e luta com alienígenas.

—Por que não fez uma cópia reserva dessa aí? _quis saber o porco.

—Nem pensei nisso. Já foi difícil eu arrumar uma chance de pedir pro vovô mandar fazer esta roupa, porque a mamãe não saía do meu quarto lá no hospital... Tive que aproveitar quando ela tava dormindo.

—E eu que achava a minha infância difícil_Oolong abanou a cabeça, penalizado_Vou te emprestar umas roupas, mas fica me devendo— exigiu, enquanto conduzia os rapazes até um dos banheiros da imensa casa —Aproveita e tira esse troço do cabelo, parece que você tá usando um capacete!

Por sugestão de Gohan, dividiram a banheira. Ele tomava banho com seu pai em casa, e Kuririn participara de banhos coletivos diversas vezes em sua vida; não havia sentido um esperar o outro terminar por causa de pudores bobos. Estavam brincando de jogar água um no outro quando ouviram a porta abrir e depois bater - obviamente era Oolong com as roupas. Aquilo lembrou a Kuririn o último comentário do porco:

—Oolong tem razão numa coisa: você deveria parar de usar gel. Seu cabelo ficava bem melhor ao natural.

—Mas... a mamãe...

—Diga pra ela que o gel acabou _viu pela cara do garoto que ele não gostava da idéia —Tá bom, seria errado mentir. E se...—efletiu por alguns segundos— Me diz uma coisa: você não pretendia voltar pra casa fantasiado de namekuseijin, pretendia?

—Claro que não. Eu ia botar uma das minhas roupas comuns antes da gente chegar. Se mamãe me visse vestido como o senhor Piccolo ia ficar furiosa... —os olhos de Gohan brilharam—_Entendi! Só vou alisar o cabelo de novo quando a gente voltar pra Terra!

—Exatamente!_Kuririn riu, e ia acrescentar algo quando Gohan o interrompeu:

—O senhor ouviu a porta fechar de novo?

—Não. Oolong deve ter esquecido alguma coisa.

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, mas não ouviram mais nenhum som. Gohan espiou pela cortina que separava a banheira do resto do toalete: não havia ninguém.

—Engraç certeza de que tinha alguém aqui, mas acho que não era o senhor Oolong.

—Então só pode ser a Bulma. Deve ter ficado apertada com todo aquele café, mas quando viu que a gente tava aqui foi embora—despreocupadamente, Kuririn saltou da banheira procurando a toalha. Enquanto se enxugava, chegou até a porta... e parou.

As roupas que Oolong prometera a Gohan estavam ali, dobradinhas num pequeno balcão junto à pia. Mas as roupas limpas que Kuririn havia pendurado na porta ao entrar - uma cueca samba-canção e uma cópia do traje de luta que usara no mato - estavam espalhadas pelo chão. Um exame mais atento revelou que suas calças estavam faltando. E não podia vestir as calças que estava usando antes, porque todas as roupas sujas haviam sido recolhidas. Teria que sair só de camisa e cueca.

—Então foi por isso que ele saiu de fininho. O malandro ainda não me perdoou pela gozação com a calcinha. Mas ele me paga! — vestiu rapidamente as peças que restavam e correu até a cozinha, aos gritos:

—OOLONG! Cadê você, seu safado? OOLOOOONG!

O porco, que limpava os peixes, deu um pulo na cadeira:

—Tá louco, Kuririn? Quase cortei meu dedo fora!

O monge postou-se na frente dele com as mãos na cintura e mostrou todos os dentes num riso forçadíssimo:

—Hahaha! Muito boa essa sua piada. Mas você deveria ter levado toda a minha roupa e também as toalhas, pra eu não poder sair do banheiro!

—Tá maluco? O que está fazendo aí de cueca?

Gohan chegou nesse momento e ficou assistindo a briga, sem saber se ria ou se tentava apartar os dois.

—Como se você não soubesse—Kuririn prosseguiu, irritado—Cadê a minha calça?

Os olhos de Oolong ficaram enormes de indignação:

—Como é que é? Tá me acusando de armar pra ver VOCÊ de roupa íntima? Cê pirou mesmo de vez! Se ainda fosse a Bulm... ah, mas é claro que é coisa dela! Ficou o tempo todo resmungando que vocês dois eram irresponsáveis e não sei quê...

—Faz sentido.—_Kuririn ficou pensativo—Ela adora aprontar essas vinganças infantis com a gente. Mas será que ia roubar minhas calças só porque demoramos um pouco?_especulou, sem notar os sinais frenéticos que Gohan fazia para ele_Ela tá começando a exage... ui!—um punho bateu no alto de sua cabeça com um sonoro "tunc". Oolong arregalou os olhos, mas antes que pudesse fugir levou um cascudo que o fez cair sentado:

—É CLARO QUE EU NÃO FIZ ISSO!—trovejou Bulma. Obviamente, ela havia acordado com a gritaria _Como se atreve a jogar a culpa em mim, Oolong? E quanto a você, Kuririn, eu estou decepcionada! Do Oolong eu já esperava que ele falasse de mim pelas costas, porque ele é um fingido, mas você...

—Bulma, que foi que você fez com a sua roupa?

Quando se está gelado de medo fitando uma pessoa, nota-se os detalhes mais esdrúxulos. Por isso, Gohan não pode deixar de notar que o traje que Bulma vestira durante toda a viagem - um conjunto de malha colante preta que a cobria dos pés à cabeça e um colete acolchoado por cima - havia sido modificado radicalmente. A blusa de malha, que antes ia até o pescoço, agora era uma regata com um generoso decote em "U". As calças haviam sido cortadas até o meio das coxas, transformadas em uma bermuda. Por cima, uma minissaia acolchoada que nada mais era que o famoso colete, cortado ao meio. Kuririn e Oolong trocaram rápidos olhares de "isso é hora de reparar em roupa de mulher?" mas o comentário de Gohan desligou a raiva da cientista, que deu um largo sorriso vaidoso:

—Gostou? Eu não aguentava mais o calor deste planeta e fiz umas alteraçõezinhas. Me sinto mais como eu mesma agora... —todos sorriram, aliviados, até que ela fechou a cara de novo _Mas se está tentando se salvar com elogios, está perdendo tempo! Fiquei muito preocupada com vocês dois, viu? Que história foi essa de desaparecer e deixar as esferas do dragão pros piratas?

—O... o quê? _Kuririn abriu a boca _Como é que você sabe?

—Parece óbvio—zombou Oolong—Se vocês dois estão aqui, quem ficou cuidando das bolas? O Homem Invisível?

—O senhor Kuririn não teve outra escolha—Gohan apressou-se a defender o amigo _Um grupo daqueles bandidos chegou perto demais do nosso esconderijo. Eu tentei distraí-los pro senhor Kuririn levar as esferas pra longe, mas um deles quase acabou comigo, enquanto os outros...

_—...tentaram roubar as esferas, mas foram mortos. Coisa do Kuririn, aposto_Bulma sorriu, maliciosa.

Desta vez, até Oolong ficou sem fala. Por alguns segundos, os três pensaram que Bulma tivesse trazido escondida a bola de cristal da Vovó Uranai. "Sempre pensei nela como uma bruxa, mas só no sentido figurado" pensou o porco, e colocou nervosamente a mão no bolso "Ela deve saber que roubei suas calcinhas... e que..."

Mas uma risadinha de Bulma acalmou o medo:

—Calma, rapazes, não me tornei uma vidente. Apenas andei acompanhando as transmissões dos piratas. Praticamente assisti a sua luta com aquele fanfarrão, Gohan.

—Então conseguiu descobrir que língua eles falavam?—admirou-se Kuririn, com uma pontinha de vergonha por ter debochado da capacidade dela.

—Não era realmente uma linguagem; é por isso que o tradutor não funcionava. Tive que transformá-lo num desencriptador - um decifrador de códigos. Levei muitas horas até criar um sistema capaz de encontrar todas as chaves aleatórias...

—Desencri... o quê? Que chaves?

—Chaves para decifrar códigos secretos, sr. Kuririn_o rostinho de Gohan se iluminou—É claro! O Turles deve ter desconfiado que fomos nós que eliminamos aqueles dois sujeitos, e que podíamos estar com os transmissores deles. Então ele mandou encriptar as mensagens pra gente não entender.—percebendo que seus dois amigos não entendiam nada, tentou explicar de maneira simples —Encriptar é quando você altera as mensagens que está enviando porque não quer que gente estranha leia.

—Tipo escrever na língua do pê ou de trás pra frente, como os bilhetes que as crianças trocam na escola?—indagou o porco.

—Um pouco mais complicado que isso. Imagine que uma vez você manda uma mensagem na língua do pê e de trás pra frente ao mesmo tempo; depois manda outra mensagem na língua do... S, por exemplo, e combina com uns números. Nunca vem do mesmo jeito. É mais ou menos isso, não, Bulma?—virou-se para a cientista, lembrando-se que ela podia não gostar da interrupção.

—Hum... por aí — Bulma estava um pouco aborrecida por não ter sido ela a explicar, mas percebeu que as explicações "feijão com arroz" de Gohan seriam mais compreensíveis para as mentes simples de Kuririn e Oolong. Às vezes era duro que nenhum dos seus amigos se interessasse por assuntos mais complexos que luta, comida ou mulheres —Eu teria sido mais precisa, mas é mais ou menos isso, sim.

—Agora entendi! Mas... é incrível, Bulma!—Kuririn estava sinceramente entusiasmado —Você é uma nova Mata Hari! Agora poderemos saber tudo o que aqueles bandidos estão fazendo...

—...e nos antecipar aos movimentos deles! _ela concluiu animadamente—Eu sou genial!

Mas Oolong não participava daquela alegria:

—Você é uma dissimulada, isso sim! Me chama de fingido, mas me manteve ocupado pra que eu não soubesse o que estava acontecendo com Kuririn e Gohan! Acha que eu não estava preocupado com o que podia estar acontecendo com eles? Sem falar que vocês todos estão esquecendo que as esferas que a gente teve tanto trabalho pra juntar estão perdidas!

Todos olharam pra ele com ar culpado.

—A culpa é minha—começou Kuririn—Tive que escolher entre cuidar das esferas e deixar que matassem Gohan... Até pensei em pedir ajuda pelo rádio quando acabou a gasolina, mas não queria que Bulma se arriscasse a topar com algum daqueles piratas — frisou "Bulma" porque sabia muito bem que Oolong não poria o pé para fora do esconderijo nem pelas vidas dos amigos_E se estava tão preocupado, por que não chamou a gente? Bulma me disse que você deixou o walkie-talkie com ela!

—Justamente por isso—acrescentou a própria num tom meio severo —achei que você não estava assim tão preocupado. Na verdade, pensei que você fingiria interesse nas mensagens só pra espiar dentro da minha blusa!

—Então não devia ter cortado esse decote tão baixo—retrucou o porco, desavergonhadamente—Você sabe que eu tô na seca desde que saímos da Terra.

Gotas de suor apareceram nas cabeças de Kuririn e Gohan. "Prefiro nem entender" pensou o garoto "Se mamãe descobre o que acontece aqui, ela nunca mais vai me deixar falar com nenhum dos amigos do papai".

Bulma preferiu falar do que realmente importava:

—E as esferas não estão que os piratas encontraram o buraco onde Kuririn as jogou, mas eles não fizeram NADA! Apenas deixaram dois por perto, vigiando... acho que estão esperando que vocês voltem pra segui-los até nosso esconderijo. Ou capturá-los, é claro. Alguns deles estão loucos pra botar as mãos em vocês por causa dos companheiros mortos.

Kuririn engoliu em seco, e ela acrescentou:

—Outros dizem que eles mereceram ter sido eliminados por desobedecerem às ordens de Turles. Parece que ele proibiu todo mundo de mexer nas nossas esferas. Aquele grupo de piratas que encontrou vocês nem deveria ter chegado perto... haviam sido instruídos para colherem plantas e animais vivos... —Bulma hesitou um pouco ao dizer isso, como se quisesse falar outra coisa, mas apenas acrescentou_É difícil de acreditar, não?

—Eu acredito_Gohan falou —O tal de Kófi me ofereceu... umas coisas em troca das esferas, e um dos bandidos disse que Turles não queria que mexessem nelas - isso, é, nas esferas. Mas outro malvado falou que o Turles só proibiu de procurar e não ia ficar bravo se achassem as esferas "por acaso". Por isso eles tentaram tirá-las do senhor Kuririn.

Todos se entreolharam, confusos com aquele aparente descaso pelas valiosas esferas do dragão. Tudo indicava que era uma armadilha, porém havia alguma coisa ali que não encaixava.

Foi Kuririn quem quebrou o silêncio:

—Bem, seja qual for o plano do Turles, parece que ele não está com pressa de chamar Shen-long. Isso nos dá um pouco de tempo pra agir... e pra comer alguma coisa, o que acham? Eu tô morrendo de fome e ainda não consegui botar uma calça!

Todos desataram a rir.

Como a fome geral era maior que a vontade de tirar escamas, de comum acordo os peixes foram guardados no refrigerador para o dia seguinte. Jantaram na sala, acomodados confortavelmente no sofá e poltronas com bandejas de macarrão instantâneo no colo. Embora todo mundo sonhasse com bolinhos recheados e outros petiscos mais bacanas, o alívio de estarem juntos de novo e a possibilidade de passarem a perna nos piratas dava um clima de festa à ocasião. Esse clima chegou ao auge quando Bulma deu a todos uma notícia que vinha guardando ansiosamente para a chegada dos rapazes:

—O GOKU ESTÁ VINDO?!

—Recebi essa notícia do meu pai logo depois que nos acomodamos aqui. Faz dias que ele estava tentando nos avisar, mas vocês lembram que a transmissão andava ruim. Papai encontrou a nave em que Goku veio pra Terra quando era bebê - os restos dela, na verdade - e a reconstruiu, combinando com o que sobrou da nave do Radditz. Goku já está perto de Namekusei, mas avisou que vai seguir em frente. Papai ficou muito confuso porque não entendia como Goku já sabia que a gente não ficou por lá, e também...

—O senhor Kaioh deve estar orientando ele!—Kuririn levantou-se, tão entusiasmado que quase derrubou sua porção de lamen — Com o Goku aqui e mais aquela seiva, nós temos alguma chance de viver! Vivaaa!—agarrou as mãos de Oolong e os dois começaram a dançar.

Gohan juntou-se aos dois, cantarolando "meu papai vai chegar, meu papai vai chegar". Era uma cena insólita, os três dançando e cantando como loucos no meio do círculo formado por poltronas e sofá, com bandejas de comida esquecidas. Apenas Bulma não parecia tão animada; permaneceu em seu lugar, com ar pensativo, o que era muito estranho dado a sua natureza exuberante. Não demorou para Gohan, com sua sensibilidade, perceber o silêncio da amiga:

—Tem alguma coisa errada, não é? É com o Yamcha?

Ao som da voz dele, os outros também pararam para ouvir. Bulma confirmou:

—Quando Goku recebeu os senzus do Yajirobe, lá no hospital, ele comeu um e deu outro pro Mestre Kame dar pro Yamcha. Mas Yamcha não podia comer porque recém foi operado... o meu pai, que é quem está pagando o hospital, não podia mais atrasar a intervenção cirúrgica por que a vida do Yamcha estava em perigo. Yamcha está recebendo alimentos por sonda, e com a cara toda enfaixada _ela cobriu o rosto com a palma da mão, para esconder as lágrimas.

Oolong, surpreendentemente, ofereceu-lhe o próprio lenço, apesar dele também ter os olhos molhados. Depois de enxugar o rosto, Bulma respirou fundo e prosseguiu, um pouco mais calma:

—Mestre Kame tentou tirar as bandagens do Yamcha pra fazê-lo comer o senzu e foi expulso do hospital. Mas Pual e Chichi ainda vão lá todo dia, e prometeram arrumar um jeito de dar a Yamcha a semente dos deuses.

—Que coisa...—Kuririn olhou para o chão, penalizado—Eu deveria saber que estava bom demais. Mas não fique assim, Bulma. Você sabe como é a Chichi: quando ela se mete a fazer uma coisa não deixa ninguém ficar no caminho. Tenho certeza de que ela e os outros vão arrumar um jeito de salvar o Yamcha. Se não, o pessoal de Namekusei prometeu que os próximos desejos serão nossos, assim que as esferas deles voltarem a funcionar.

Gohan fez hum-humm, balançando a cabeça com energia, e tocou no joelho dela num gesto de conforto.

—Tomara...—Bulma fungou, depois ficou alguns segundos em silêncio, antes de mudar de assunto com seu tom decidido habitual—Falando em feridas, você e Gohan disseram várias vezes que ele havia ficado muito machucado, mas ele me parece muito bem agora, a não ser por uns arranhões e essa irritação no rosto.

—Rocei numas folhas venenosas —Gohan preferiu não dar detalhes sobre isso, porque ainda estava confuso com o comportamento contraditório de Kófi, e não havia clima para discutir o assunto —Ele me deu uma cabeçada no estômago e eu senti muita dor, mas o que tinha mais era fome e cansaço, não conseguia mais acompanhar o senhor Kuririn. Mas aí a gente achou uma seiva mágic..._ levou as mãozinhas à boca, numa imitação perfeita do quadro O Grito —Ai não! O embrulho com a resina ficou no bolso da roupa que o senhor Oolong botou pra lavar... —seus olhos ficaram enormes, imaginando as roupas meladas dentro da máquina.

—Relaxa, garoto—disse o porco—Achou mesmo que eu ia fazer tudo pra vocês? Larguei seus trapos no cesto de roupa suja.

Todos riram, aliviados. Gohan foi correndo buscar o embrulho, enquanto Kuririn dava mais detalhes sobre como haviam encontrado aquele estranho remédio. Infelizmente, o pacotinho feito com tanto cuidado revelou-se inútil para análise, porque Gohan provavelmente contaminara a seiva com mãos sujas, saliva e substâncias contidas na folha-envelope, entre outras coisas, . Mesmo assim, eles haviam feito uma descoberta valiosíssima, já que não tinham senzus. Bulma providenciaria o material adequado para que pudessem coletar a seiva ("Já vi que vai sobrar pra mim" Oolong resmungou).

Ela também achou muito estranha a maneira como os rapazes haviam descoberto a seiva:

—Acha mesmo que foi um animal que arrebentou a casca?_franziu a testa.

—Bem... nenhum de nós chegou a ver, porque quem fez aquilo fugiu muito rápido. Mas se fosse um dos piratas, teríamos sentido a presença dele. Eles não podem reduzir seu poder de luta como a gente.

—Talvez... mas eu tenho uma terceira possibilidade. As primeiras mensagens que consegui traduzir, depois que achei o código, falavam das buscas por um homem que vive aqui - um homem selvagem.

Ela pausou alguns segundos, satisfeita com as expressões de surpresa que havia causado, antes de continuar:

—Lembram da esfera do dragão que a gente viu isolada no radar, quando estávamos nos espaço? Estava na caverna dele! Os piratas o capturaram uma vez, mas esse homem matou o bandido que estava cuidando dele e fugiu. Turles mandou patrulhas atrás dele - incluindo aquela que topou com vocês.

—E não o encontraram ainda?—Kuririn já adivinhava a resposta, mas tinha que perguntar.

—Nem sinal. Da última vez que chequei, um dos bandidos estava sugerindo que terminassem as buscas. Estão achando que o homem pode ter morrido na destruição causada por Kófi. Ou fugido para bem longe daqui._terminou, com um ligeiro tom de admiração.

—Você quer dizer que ele pode ter seguido a gente, e por isso nos ajudou?—Gohan somou dois e dois—Mas é impossível! Nós teríamos sentido se...

—Hã-hã— ela balançou o indicador —O que torna esse homem misterioso tão difícil de encontrar é que o poder de luta dele é tão pequeno QUE NENHUM SCOUTER CONSEGUE DETECTÁ-LO.

Arquejos involuntários partiram dos dois guerreiros.

—E... mesmo com um ki tão pequeno... ele matou um daqueles piratas? —Gohan deixou cair o queixo. Trocou um rápido olhar com Kuririn, que pensava exatamente a mesma coisa:

—Oolong, quantas vezes você entrou no banheiro enquanto a gente tomava banho?—o monge indagou apressadamente.

—De novo? Eu já te disse que não..

—Não estou te acusando de nada. Só quero saber se você entrou uma segunda vez, depois que trouxe as roupas pro Gohan. Foi quando você recolheu nossa roupa suja, não foi?

O porco olhou Kuririn como se este fosse louco:

—Eu peguei os trapos de vocês quando deixei minha roupa lá e fui direto pra lavanderia. Não ia perder tempo fazendo duas viag...—a ficha caiu e ele ficou pálido _É o que eu estou pensando que é?

Mas Kuririn já havia se voltado para outro lado:

—Bulma, você não entrou no banheiro quando a gente tava tomando banho?

—Claro que não. Eu nem vi vocês chegarem porque estava dormindo, lembram? Mas por que estão tão preocupados que alguém tenha espiado vocês dois? Não sabia que eram tão tímidos —ela brincou, piscando o olho.

—Se o tal selvagem seguiu mesmo a gente, ele pode estar aqui dentro—Gohan explicou, num leve tom de censura—Foi ELE quem roubou a calça do senhor Kuririn!

—Ah meu...—ela levou as mãos ao rosto e não conseguiu dizer mais nada.

Kuririn olhava em torno, tentando sentir qualquer coisa:

—Gohan, vá com Bulma checar a parte oeste da casa. Eu fico com a outra metade.

—E...espere u-um pouco, Kuririn—Bulma lutava para ficar calma —E se esse.. esse homem estiver do nosso lado? Ele matou um dos capangas do Turles. Já pode ter até ido embora...

Gohan concordou com ela, mas o rosto de Kuririn estava severo:

—Ele matou em legítima defesa. Se estivesse do nosso lado, já teria dado as caras, em vez de entrar aqui escondido pra roubar nossas coisas. Não podemos facilitar como fizemos com aqueles falsos namekuseijin.

—Achei... que vocês é que eram falsos namek... namekuseijin—zombou uma voz do outro lado da sala. Era uma voz rouca e áspera, e começou de modo hesitante, como se seu dono estivesse tentando lembrar como falar com outras pessoas; mas logo ganhou firmeza.

Antes dele terminar de falar, Kuririn e Gohan já haviam se voltado, soltando seus kis, enquanto Bulma ficava atrás deles. Oolong não estava mais ali: havia fugido quando a cientista confirmou que não tinha sido ela a entrar no banheiro.

A pouco metros de distância deles estava um homem musculoso, que devia ser da altura de Bulma. Estava vestido somente com a calça de Kuririn e uma espécie de cinto imundo, onde se via o coldre de uma pistola laser. Numa das mãos, um peixe obviamente roubado da geladeira e já meio comido. Seus olhos duros fitam com desprezo as pessoas reunidas dentro do círculo de poltronas, como se elas é que fossem as intrusas.

Deu uma bocada no peixe, mastigou um pouco e engoliu, antes de prosseguir:

—O careca tem razão. Estou apenas do meu lado. Mas, se... se eu quisesse matar vocês todos, teria matado enquanto esses dois inúteis se lavavam. São muito...descuidados pra serem bons guerreiros.

A única resposta foram os zunidos sutis dos aparelhos elétricos ligados pela casa e o suave barulho da cachoeira lá fora. Kuririn não conseguia tirar os olhos de sua calça roubada, que nas pernas musculosas do estranho ficava curta e bastante justa. As costuras, notou, estavam quase arrebentando nas coxas.

—Preciso pedir desculpas pro Oolong_murmurou para Bulma.