"Sim, senhores." Disse teatralmente. "Diabretes da Cornualia recém capturados."
Simas não conseguiu se controlar. Deixou escapar uma risada pelo nariz que nem mesmo Lockhart poderia confundir com um grito de terror.
"Sim, senhor Finnigan?" Perguntou sorrindo.
"Bem, eles não são... Não são muito... Perigosos, são?" Engasgou-se Simas.
"Não tenha tanta certeza assim." Disse Lockhart, sacudindo um dedo, aborrecido para Simas. "Esses bandidinhos podem ser diabolicamente astutos!"
Os diabretes eram azul-elétrico e tinham uns vinte centímetros de altura, os rostos finos e as vozes tão agudas que pareciam um bando de periquitos fazendo algazarra. No instante em que a cobertura foi retirada, eles começaram a falar e a voar de maneira rápida e excitada, a sacudir as grades e a fazer caras esquisitas para as pessoas mais próximas.
"Certo, então." Disse Lockhart em voz alta. "Vamos ver o que vocês acham
deles!" E abriu a gaiola.
Foi um pandemônio. Os diabretes disparavam em todas as direções como foguetes. Dois deles agarraram Neville pelas orelhas e o ergueram no ar. Vários outros voaram direto pelas janelas fazendo cair uma chuva de estilhaços de vidro no canteiro. Os demais se puseram a destruir a sala de aula com mais eficiência do que um rinoceronte desembestado. Agarraram tinteiros e salpicaram a sala de tinta, picaram livros e papéis, arrancaram quadros das paredes, viraram a cesta de lixo, pegaram as mochilas e livros e os atiraram contra as vidraças quebradas.. Em poucos minutos, metade da classe estava abrigada embaixo das carteiras e, Neville, pendurado no teto pelo lustre de ferro.
"Vamos, vamos, reúnam eles, reúnam eles, são apenas diabretes!" Gritou Lockhart.
Ele enrolou as mangas, brandiu a varinha e berrou:
"Peskipiksi ksi pesternom!"
As palavras não produziam efeito algum; um dos diabretes se apoderou da varinha e atirou-a também pela janela. Lockhart engoliu em seco e mergulhou embaixo da mesa, escapando por pouco de ser esmagado por Neville, que despencou um segundo depois quando o lustre cedeu. A sineta tocou, e todos desembestaram para a saída. Na calma relativa que se seguiu, Lockhart levantou-se, viu Harry, Draco, Rony e Hermione, que estavam quase na porta.
"Bem, vou pedir a vocês que enfiem rapidamente os restantes de volta na gaiola." E, passando pelos três, fechou a porta depressa.
"Dá para acreditar?" Rugiu Rony quando um dos diabretes restantes lhe deu uma dolorosa mordida na orelha.
"Ele só quer nos dar uma experiência direta." Defendeu Hermione imobilizando dois diabretes ao mesmo tempo com um inventivo Feitiço Congelante e enfiandoos de volta na gaiola.
"Direta?" Repetiu Draco que estava tentando agarrar um diabrete que dançava fora do seu alcance dando-lhe língua.
"Hermione, ele não tinha a menor idéia do que estava fazendo." Completou Harry depressa antes o louro dissesse algo rude.
"Bobagem. Você leu os livros dele, vê só todas as coisas incríveis que ele fez."
"Que ele diz que fez." Murmurou Rony e Draco concordou com um aceno jogando um diabrete com força dentro da gaiola logo em seguida.
Harry dedicou muito tempo, nos dias seguintes, a desaparecer de vista sempre que Gilderoy Lockhart aparecia andando por um corredor. Lockhart parecia usar o moreno para ser autopromover ainda mais. Mais difícil foi evitar Colin Creevey, que parecia ter decorado o seu horário. Pelo visto nada dava maior alegria a Colin do que dizer: 'tudo bem, Harry?' seis ou sete vezes por dia e ouvir: 'oi, Colin', em resposta, por maior irritação que Harry demonstrasse ao dizer isso.
Ao menos Remus já havia sido liberado. Passara dois dias sendo interrogado a respeito do carro enfeitiçado e o Ministro ainda queria prende-lo, de acordo com a lei, mas Artur insistiu que não houve realmente uma infração visto que fato Harry e Draco quem havia usado o carro de forma errada e iriam ser punidos por isso. O que preocupava o moreno era que Lucius ainda não lhe falava e, pelas cartas de Narcisa, não tinha a intenção de faze-lo tão cedo.
Edwiges continuava aborrecida com Harry por causa da desastrada viagem de carro e a varinha de Rony continuava a, funcionar mal, superando os próprios limites na sexta-feira na aula de Feitiços, ao se atirar da mão de Rony e atingir o Profº. Flitwick bem no meio dos olhos, produzindo um grande furúnculo verde e Latejante no lugar em que bateu. Assim entre uma coisa e outra, Harry ficou muito contente ao ver chegar o fim de semana. Ele, Draco, Rony e Mione estavam planejando visitar Hagrid no sábado de manhã. Harry, porém, foi acordado muito antes da hora que pretendera pelas sacudidas de Olívio Wood, capitão do time de Quadribol da Grifinória.
"Que foi?" Perguntou Harry esquecendo de ser educado, tonto de sono.
"Prática de Quadribol!" Disse Wood. "Vamos!"
Harry espiou pela janela apertando os olhos. Havia uma névoa rala cobrindo o céu rosa e dourado. Agora que acordara, ele não conseguia entender como podia estar dormindo com a algazarra que os passarinhos faziam.
"Olívio." Disse ele com a voz rouca. "O dia ainda está amanhecendo."
"Exato." Respondeu Wood. Ele era um sextanista alto e forte e, naquele instante, seus olhos brilhavam de fanático entusiasmo. "Faz parte do nosso novo programa de treinamento. Ande, pegue a vassoura e vamos" Disse Wood animado. "Nenhum dos times começou a treinar ainda. Vamos ser os primeiros a dar a partida este ano."
Depois de trocar o pijama pelo uniforme vermelho do time e vestir uma capa para se aquecer, Harry rabiscou um bilhete para Rony explicando onde fora e desceu a escada em caracol até a sala comunal, a Nimbus 2000 ao ombro. Acabara de chegar ao buraco do retrato quando ouviu um estardalhaço às suas costas, e Colin apareceu correndo escada abaixo, a máquina fotográfica balançando no pescoço e alguma coisa segura na mão.
"Ouvi alguém dizer o seu nome na escada, Harry! Olhe só o que tenho aqui! Mandei revelar, queria lhe mostrar."
Harry examinou confuso a foto que Colin sacudia debaixo do seu nariz. Numa foto preto-e-branco, um Lockhart em movimento puxava com força um braço que Harry reconhecia como seu. Ficou satisfeito ao ver que o seu eu fotográfico resistia bravamente e recusava a se deixar arrastar para dentro da foto. Enquanto Harry observava, Lockhart desistiu e se largou, ofegante, contra a margem branca da foto.
"Você autografa?" Perguntou Colin, ansioso.
"Não." Disse Harry sem rodeios, olhando para os lados para verificar se a sala estava realmente deserta. "Desculpe, Colin, mas estou com pressa. Prática de Quadribol."
E atravessou o buraco do retrato.
"Uau! Espere por mim! Nunca vi um jogo de Quadribol antes!" Colin subiu pelo buraco atrás de Harry.
"Vai ser bem chato." Disse Harry depressa, mas o garoto não lhe deu atenção, seu rosto iluminava-se de excitação.
"Você foi o jogador da casa mais novo em cem anos, não foi, Harry? Não foi?" Perguntou Collin caminhando ao lado dele. "Você deve ser genial. Eu nunca voei. É fácil? Esta vassoura é sua? É a melhor que existe?"
Harry não sabia como se livrar do coleguinha. Era como ter uma sombra extremamente tagarela.
"Eu não entendo bem de Quadribol." Disse Colin sem fôlego. "É verdade que tem quatro bolas? E duas ficam voando em volta dos jogadores tentando tirá-los de cima das vassouras?"
"É." Disse Harry a contragosto, conformado em explicar as regras complicadas do Quadribol. Não que realmente o fossem, mas para alguém que nunca ouviu falar antes, devia ser. "Chamam-se balaços. Há dois batedores em cada time armados de bastões para rebater os balaços para longe do seu time. Fred e Jorge Weasley batem pela Grifinória."
"E para que servem as outras bolas?" Perguntou Colin, derrapando dois degraus porque olhava boquiaberto para Harry.
"Bem, a goles, a bola vermelha meio grande, é a que faz os gols. Três apanhadores em cada time atiram a goles um para o outro e tentam metê-la entre as balizas na extremidade do campo, são três postes compridos com aros na ponta."
"E a quarta bola?"
"É o pomo de ouro." Disse Harry. "E é muito pequena, muito veloz e difícil de agarrar. Mas é isso que o apanhador tem que fazer, porque um jogo de Quadribol não termina até o pomo ser capturado. E o apanhador que agarra o pomo para o time, ganha cento e cinqüenta pontos a mais."
"E você é o apanhador da Grifinória, não é?" Perguntou Colin cheio de admiração e respeito.
"Sou." Respondeu Harry enquanto deixavam o castelo e começavam a atravessar o gramado encharcado de orvalho. "E tem o goleiro também. Ele guarda as balizas. É isso, em resumo."
Mas Colin não parou de interrogar Harry o tempo todo, desde o gramado ondulante até o campo de Quadribol, e Harry só conseguiu se desvencilhar dele quando chegou aos vestiários; Colin ainda gritou com sua voz fina quando ele se afastava.
"Vou pegar um bom lugar, Harry!" E correu para as arquibancadas.
Os outros jogadores do time da Grifinória já estavam no vestiário. Wood era o único que parecia realmente acordado. Fred e George estavam sentados, os olhos inchados e os cabelos despenteados, ao lado de uma quartanista, Alicia Spinnet, que parecia estar cabeceando contra a parede em que se encostara. As outras artilheiras, suas companheiras, Katie Bell e Angelina Johnson, bocejavam lado a lado de frente para eles.
"Até que enfim, Harry, por que demorou?" Perguntou Wood eficiente. "Agora, eu queria ter uma conversinha com vocês antes de irmos para o campo, porque passei o verão imaginando um programa de treinamento completamente novo, que acho que vai fazer toda a diferença..."
Wood ergueu um grande diagrama de um campo de Quadribol, em que estavam desenhadas muitas linhas, setas e cruzes em tinta de cores diversas. Depois, puxou a varinha, deu uma batidinha no desenho, e as flechas começaram a se deslocar pelo diagrama como lagartas. Quando Wood deslanchou um discurso sobre as novas táticas, a cabeça de Fred Weasley despencou no ombro de Alicia Spinnet e ele começou a roncar. O primeiro quadro levou quase vinte minutos para ser explicado, mas havia outro por baixo daquele, e um terceiro por baixo do segundo. Harry mergulhou num estupor durante a falação interminável de Wood.
"Então" Disse Wood, finalmente, arrancando Harry de uma irrealizável fantasia sobre o que estaria comendo no café da manhã, naquele instante, no castelo. "Ficou claro? Alguma pergunta?"
"Tenho uma pergunta, Olívio." Disse George que acordara assustado. "Você não podia ter explicado tudo isso ontem quando a gente estava acordado?" Wood não gostou.
"Agora, ouçam aqui, vocês todos." Disse amarrando a cara. "Nós devíamos ter ganho a taça de Quadribol no ano passado. Somos sem favor nenhum o melhor time da escola. Mas, infelizmente, devido às circunstâncias fora do nosso controle."
Harry se mexeu cheio de culpa no banco. Estivera inconsciente na ala hospitalar no último jogo do ano anterior, o que significava que a Grifinória tivera um jogador a menos e sofrera sua pior derrota em trezentos anos. Wood esperou um instante para recuperar o próprio controle. A última derrota, visivelmente, continuava a torturá-lo.
"Então, este ano, vamos treinar mais do que jamais treinamos... Muito bem, vamos colocar as nossas teorias em prática!" Gritou Wood agarrando a vassoura e saindo do vestiário. As pernas dormentes e, ainda bocejando, o time o acompanhou.
Tinham passado tanto tempo no vestiário que o sol já estava todo de fora, embora ainda se vissem restos de névoa sobre o gramado do estádio. Quando Harry entrou em campo, viu Rony, Draco e Hermione sentados nas arquibancadas.
"Vocês ainda não acabaram?" Perguntou Rony surpreso.
"Nem começamos." Respondeu Harry olhando com inveja a torrada com geléia que Rony trazido do Salão. "Wood esteve ensinando novas jogadas ao time."
Ele montou na vassoura, meteu o pé no chão para dar impulso e saiu voando. O ar frio da manhã bateu em seu rosto, acordando-o com muito mais eficiência do que a longa conversa de Wood. Era uma sensação maravilhosa estar de volta a um campo de Quadribol. Harry sobrevoou o estádio a toda velocidade, apostando corrida com Fred e Jorge.
"Que clique-clique esquisito é esse?" Gritou Fred enquanto faziam uma volta rápida.
Harry olhou para as arquibancadas. Colin estava sentado em um dos lugares mais altos, a máquina fotográfica levantada, tirando fotos seguidas, o som estranhamente ampliado no estádio deserto.
"Olhe para cá, Harry! Para cá!" Gritava Colin se esganiçando.
"Quem é aquele?" Perguntou Olívio.
"O mais novo fã de Harry." Disse George aproximando-se.
"Ele não para de seguir o Harry pelo castelo." Completou Fred.
"E vive tirando fotos dele."
"Achamos que ele tem alguma paixão secreta-não-tão-secreta pelo Harry aqui." Disse divertido fazendo Harry corar.
"Não quero saber. Concentrem-se no jogo." Disse Olívio severo.
"Olívio." Chamou Angelina. "Temos um problema." Disse apontando para o time da Sonserina que atravessava o campo naquele momento.
Wood mergulhou até o chão, aterrissando em sua raiva, com muito mais força do que pretendia, e cambaleou um pouco ao desmontar. Harry, Fred e George o acompanharam.
"Flint!" Berrou Wood para o capitão da Sonserina. "Está na hora do nosso treino! Levantamos especialmente para isso!"
Marcos Flint era ainda mais corpulento do que Hood. Tinha uma expressão de trasgo astucioso.
"Tem bastante espaço para todos nós, Wood."
Angelina, Alicia e Katie tinham se aproximado também. Não havia mulheres no time da Sonserina, para ficarem, ombro a ombro, com ar de desdém, encarando os jogadores da Grifinória.
"Mas eu reservei o campo!" Disse Wood praticamente cuspindo de raiva. "Eu reservei!"
"Ah, mas tenho um papel aqui assinado pelo Professor Snape."
Eu, Professor Snape, dei ao time da Sonserina
permissão para praticar hoje no
campo de Quadribol, face á necessidade
de treinarem o seu novo apanhador.
"Vocês têm um novo apanhador?" Perguntou Wood distraído. "Onde?"
E por trás dos seis jogadores grandalhões surgiu diante o sétimo, menor, com um sorriso cínico.
"Zabini!" Exclamou Harry irritado.
"Isso mesmo, Malfoy." Disse ainda sorrindo. "E olha só o presente que meu pai deu ao saber que entrei para o time." Disse apontando para as vassouras Nimbus 2001.
"De longe batem a série Nimbus 2000. Imagine às velhas Cleansweep." Disse Flint olhando desdenhosamente às vassouras de Fred e George. "Ah, olha ai. Uma invasão de campo."
Draco, Rony e Hermione vinham atravessando o campo para ver o que estava acontecendo.
"O que está havendo?" Perguntou Hermione à Harry.
"O que ele faz aqui?" Perguntou Rony vendo Zabini usando as veste de quadribol.
"Sou o novo apanhador da Sonserina, Weasley." Disse Zabini presunsoço. "O pessoal aqui estava admirando as vassouras novas que meu pai nos deu."
Rony olhou boquiaberto as sete vassouras magníficas diante dele.
"Boas, não são? Mas quem sabe o time da Grifinória não levanta um ourinho com as velhas Cleansweep? Talvez um museu as compre." Falou fazendo o time da Sonserina gargalhar.
"Pelo menos ninguém do time da Grifinória teve que pagar para entrar." Disse Hermione com aspereza. "Entraram porque possuem talento."
"Ninguém pediu sua opinião, sua sujeitinha de sangue-ruim." Xingou ele.
Houve uma agitação logo em seguida. Flint teve de se meter na frente de Blaise para evitar que Rony pulasse sobre ele. Wood gritou algumas coisas ao restante do time a fim de controla-los, Harry e Draco postaram-se ao lado de Hermione brandindo, cada um, a varinha raivosamente, mas nada mais fizeram. Rony, por outro lado, escapuliu de alguma forma dos gêmeos e brandiu a própria varinha na direção de Blaise que postou-se ao lado de Flint, e lançou-lhe um feitiço. Contudo, o jorro de luz verde saiu pelo lado contrário o atingindo e lançando-o longe.
"Rony!" Gritaram Hermione, Rony e Harry juntos, correndo para perto do ruivo.
Rony abriu a boca para falar, mas não saiu nada. Em vez disso, ele soltou um sonoro arroto e várias lesmas caíram de sua boca para o colo. O time da Sonserina ficou paralisado de tanto rir. Flint, dobrado pela cintura, tentava se apoiar na vassoura nova. Blaise caíra de quatro, dando murros no chão. Os alunos da Grifinória agrupavam-se em torno de Rony, que não parava de arrotar lesmas enormes. Ninguém parecia querer tocar nele.
"É melhor levarmos o Rony para a casa de Hagrid, é mais perto." Disse
Harry que junto de Draco levantou o ruivo.
"Que aconteceu, Harry? Que aconteceu? Ele está doente? Mas você pode curá-lo, não pode?" Perguntou Colin que descera correndo das arquibancadas e agora dançava em volta dos meninos que saíam de campo.
"Sai da frente, Colin!" Disse Harry com raiva. Ele e Draco, seguidos por Hermione, carregaram Rony para fora do estádio e atravessaram os jardins em direção à orla da floresta.
"Estamos quase lá, Rony." Disse Hermione quando a cabana do guarda-caça tornou-se visível. "Você vai ficar bom num instante, estamos quase chegando."
Estavam a uns cinco metros da casa de Hagrid quando a porta de entrada se
abriu, mas não foi Hagrid que apareceu: Gilderoy Lockhart, hoje com vestes lilás clarinho, vinha saindo.
"Depressa, aqui atrás." Murmurou Harry, arrastando Rony e Draco para trás de uma moita próxima. Hermione seguiu-os, um tanto relutante.
"É muito simples se você sabe o que está fazendo!" Lockhart dizia em voz alta a Hagrid. "Se precisar de ajuda, você sabe onde estou! Vou-lhe dar uma cópia do meu livro. Estou surpreso que ainda não o tenha comprado: vou autografar um exemplar hoje à noite e mandar para você. Bom, adeus." E saiu em direção ao castelo.
Harry esperou até Lockhart desaparecer de vista, então puxou Rony da moita até a porta de Hagrid. Bateram apressados. Hagrid abriu na mesma hora, parecendo muito rabugento, mas seu rosto se iluminou quando viu quem era.
"Estive pensando quando é que vocês viriam me ver, entrem, entrem, achei
que podia ser o Professor Lockhart outra vez."
Harry e Draco ajudaram Rony a entrar na cabana sala-e-quarto, que tinha uma cama enorme em um canto, uma lareira com um fogo vivo no outro. Hagrid não pareceu perturbado com o problema das lesmas de Rony, que Harry explicou em poucas palavras enquanto baixava o amigo em uma cadeira.
"Melhor para fora do que para dentro." Disse Hagrid animado, baixando com
ruído uma grande bacia de cobre na frente do ruivo. "Ponha todas para fora, Rony."
"Acho que não há nada a fazer exceto esperar que a coisa passe." Disse Hermione ansiosa, observando Rony se debruçar na bacia. "É um feitiço difícil de fazer em condições ideais, ainda mais com uma varinha quebrada."
Hagrid ocupou-se pela cabana preparando chá para os meninos. Seu cão de caçar javalis, Canino, fazia festas a Harry, sujando-o todo.
"Que é que Lockhart queria com você, Hagrid?" Perguntou Draco coçando as orelhas de Canino.
"Estava me dando conselhos para manter um poço livre de algas." Respondeu Hagrid tirando um galo meio depenado de cima da mesa bem esfregada e pousando nela o bule de chá. "Como se eu não soubesse. E ainda fez farol sobre um espírito agourento que ele espantou. Se uma única palavra do que disse for verdade eu como a minha chaleira."
Não era hábito de Hagrid criticar professores de Hogwarts, e Harry olhou-o
surpreso. Mione, porém, disse num tom mais alto do que de costume:
"Acho que você está sendo injusto. É óbvio que o Professor Dumbledore achou que ele era o melhor candidato para a vaga ou não o teria contratado."
"Ele era o único candidato." Disse Hagrid oferecendo-lhes um prato de quadradinhos de chocolate, enquanto Rony tossia e vomitava na bacia. "E quero dizer o único mesmo. Está ficando muito difícil encontrar alguém para ensinar Artes das Trevas. As pessoas não andam muito animadas para assumir esta função. Estão começando a achar que esta enfeitiçada. Ultimamente ninguém demorou muito nela. Agora me contem." E indicou Rony com a cabeça. "Quem é que ele estava tentando enfeitiçar?"
"Blaise Zabini." Respondeu Draco. "Ele chamou Hermione de sangue ruim."
"Ele não fez isso!" Disse Hagrid indignado olhando para Hermione.
"Sim, ele fez." Confirmou Hermione. "Mas está tudo bem."
"É. Não deixe que aquele idiota te abale. Não nos importamos se seus pais são trouxas ou não." Disse Draco.
"Exatamente. Olhe para Neville, quero dizer.. Ele é puro sangue, mas não consegue fazer uma poção sem explodir o próprio caldeirão." Completou Harry.
"Você é uma menina inteligente, Hermione. Ainda não há um feitiço ou poção não consiga realizar." Disse Hagrid sorrindo bondosamente.
"Não se preocupe, Mione." Disse Rony num murmúrio. "Fred e George, com certeza vão aprontar alguma com ele." E voltou a vomitar.
"Obrigados, à todos." Disse Hermione sorrindo.
De volta ao castelo, mal chegaram ao salão e foram recepcionados pela Professora McGonagall e pelo Professor Snape.
"Que bom que chegaram." Disse McGonagall séria. "Ambos irão cumprir detenção hoje à noite."
"Er.. nos vemos depois, caras." Disse Rony contendo, nervoso, um arroto e se afastando junto de Hermione.
"Senhor Weasley, venha comigo." Disse Snape dando as costas saindo andando sem nem olhar para atrás.
Draco despediu-se de Harry com um rápido aceno e seguiu Snape.
"Senhor Malfoy, irá ajudar o Professor Lockhart a responder cartas de fãs."
"O quê?" Perguntou indignado. "Será que não posso ter a mesma detenção que Draco?"
"É claro que não." Respondeu ela erguendo as sobrancelhas. "O Professor Lockhart fez questão de que fosse você."
"Ah, aqui temos o bagunceiro!" Exclamou Lockhart ao ver o moreno entrar.
Rebrilhando nas paredes, à luz das muitas velas, havia uma quantidade de fotografias emolduradas de Lockhart. Havia até algumas autografadas. Outra grande pilha aguardava sobre a mesa.
"Você pode endereçar os envelopes!" Disse Lockhart a Harry como se isso fosse um prêmio. "O primeiro vai para Gladys Gudgeon, que Deus a abençoe, uma grande fã minha."
Harry apenas o olhou estranho, pois da maneira que ele falava parecia mais que a 'grande fã' estava morta. Uma fã do além, será?1
Os minutos se arrastaram. Harry deixou a voz de Lockhart passar por ele, respondendo ocasionalmente 'hum' e 'certo e 'sim'. Vez por outra, ele captava uma frase do tipo 'a fama é um amigo infiel, Harry' ou 'a celebridade é o que ela faz, lembre-se disto".
O moreno achava aquilo total perda de tempo, claro. Como alguém como Lockhart conseguiu um cargo como Professor de DADA em Hogwarts? Até Quirrell, sua gagueira e Voldemort escondido em sua nuca lhe parecia melhor. Aquele louro aguado não sabia como ser famoso, realmente. Harry podia imaginar a cara de Lucius caso encontrasse com Lockhart.
As velas foram se consumindo, fazendo a luz dançar sobre os muitos rostos de Lockhart que o observavam. Harry estendeu a mão dolorida para o que lhe pareceu ser o milésimo envelope, e escreveu o endereço de Veronica Smethley. Deve estar quase na hora de sair pensou Harry infeliz, por favor, tomara que esteja quase na hora... Desejou Harry ardentemente.
Então ele ouviu uma coisa - uma coisa muito diferente do ruído das velas que espirravam já no finzinho e a tagarelice de Lockhart sobre os fãs. Era uma voz. Uma que parecia distante, mas que era cortante e gélida e fez todos os pêlos de sua nuca eriçarem.
"Venha... Venha para mim... Me deixe rasga-lo... Me deixe rompe-lo... Me deixe mata-lo."
Harry deu um enorme pulo e, com isso, fez aparecer um enorme borrão na Rua de Veronica Smethley.
"Que?!" Exclamou em voz alta.
"Eu sei!" Disse Lockhart. "Seis meses inteiros encabeçando a lista dos livros mais vendidos! Bati todos os recordes!"
"Não." Disse Harry confuso e assustado. "Essa voz!"
"Perdão?" Disse Lockhart parecendo intrigado. "Que voz?"
"Aquela... A voz que disse.. O senhor não ouviu?" Perguntou Harry exasperado.
Lockhart o olhou muito surpreso.
"Do que é que você está falando, Harry? Talvez você esteja ficando com sono? Nossa, olhe só a hora! Estamos aqui há.. quase quatro horas! Eu nunca teria acreditado, o tempo voou, não acha?"
Harry não respondeu. Apurava os ouvidos para captar novamente a voz, mas não havia som algum, exceto Lockhart a lhe dizer que não devia esperar uma moleza como aquela todas as vezes que pegasse uma detenção. Sentindo-se atordoado, decidiu ir embora.
"Preciso matar... Sinto cheiro.. Carne.. Sangue.." Era a voz sibilando novamente.
Harry seguiu a voz pelo corredor e foi quase correndo, mas, de repente, ela parou. Foi quando ele dobrou num corredor que viu algo escrito, brilhando, na parede logo em frente. Alguém tinha pintado palavras de uns trinta centímetros na parede entre as duas janelas, que refulgiam à luz das chamas das tochas.
A CÂMARA SECRETA FOI ABERTA.
INIMIGOS DO HERDEIRO CUIDADO.
Aproximou-se lentamente e só então percebeu haver água espalhada pelo chão. Quando olhou para cima novamente, tomou um susto ao ver pendurado, no suporte de tocha, a Madame Nora, a gata do zelador. E ela parecia estar morta.
"Harry, onde você-" Começou Hermione parando de falar logo que viu o que estava escrito e olhando para Harry. "Por Deus, é a Madame Nora?" Perguntou arregalando os olhos.
"O que houve, cara?" Perguntou Rony confuso.
"Eu não sei. Eu estava saindo da detenção quando ouvi uma voz estranha e, de repente, vi isso." Explicou Harry.
"Pessoal?" Chamou Draco aproximando sendo seguido por Snape.
No instante seguinte, alunos e professores entravam aos encontrões pelos dois lados do corredor. Murmúrios eram ouvidos cada vez mais e Harry, junto de seus amigos, olhava para todos sentindo-se atordoado. Todos o olhavam e apontavam para ele.
"Que está havendo aqui?" Atraído pelo tumulto, Filch abriu caminho e chegou até o centro. Então ele viu sua gata imóvel e pendurada e recuou. "Minha gata! Minha gata!" Seus olhos saltaram e pousaram em Harry. "O que fez com ela, seu moleque?! O QUE FEZ COM MINHA GATA?!" Berrou.
"Argo." Chamou Dumbledore chegando ao centro seguido de McGonagall. "Venha comigo, por favor." E virou-se para Harry e os outros. "Os senhores também, por favor."
"A minha sala é a mais próxima, Diretor." Disse Lockhart presunsoço. "Fique à vontade."
"Obrigado, Gilderoy."
Ao entrarem na sala escura de Lockhart, ouviram uma agitação passar pelas paredes. Harry viu vários Lockharts nas molduras se esconderem, com os cabelos presos em rolinhos. O verdadeiro Lockhart acendeu as velas sobre a escrivaninha e se afastou um pouco. Dumbledore pôs Madame Nor-r-ra na superfície polida e começou a examiná-la. Harry, Rony e Hermione trocaram olhares tensos e se sentaram, observando, em cadeiras fora do círculo iluminado pelas velas.
A ponta do nariz comprido e curvo de Dumbledore estava a menos de três centímetros do pêlo de Madame Nor-r-ra. Ele a examinou atentamente através dos óculos de meia-lua, apalpou-a e cutucou-a com os dedos longos. A Professora McGonagall estava curvada quase tão próxima, os olhos apertados. Snape esticava-se por trás deles, meio na sombra, com uma expressão estranhíssima no rosto. E Lockhart andava à volta do grupo, oferecendo sugestões.
Finalmente Dumbledore se ergueu.
"A gata não está morta, Argo." Disse ele baixinho.
"Não está morta?" Engasgou-se Filch olhando por entre os dedos para Madame Nor-r-ra. "Então por que é que ela está toda... Toda dura e gelada?"
"Ela foi petrificada." Disse Dumbledore. "Mas de que forma, eu não sei dizer.."
"Pergunte a ele!" Gritou Filch virando o rosto manchado e escorrido de lágrimas para Harry.
"Nenhum aluno de segundo ano poderia ter feito isto." Disse Dumbledore
com firmeza. "Seria preciso conhecer Magia Negra avançadíssima."
Harry achou melhor não dizer que conhecia diversas Magias Negras Avançadas, mas, de qualquer forma, nenhuma que pudesse petrificar.
"Foi ele, foi ele!" Cuspiu Filch o rosto balofo congestionado. "O senhor viu o que ele escreveu na parede! Ele sabe que eu sou um... Sou um..." O rosto de Filch se contorceu de modo horrendo. "Ele sabe que sou um aborto! Todos sabem que a família não gosta de tipos como eu! Ele é o herdeiro!"
"JAMAIS ENCOSTEI UM DEDO NA SUA GATA! E MEUS PAIS NÃO SÃO MAIS ASSIM! EU SOU UM MESTIÇO, CASO NÃO SAIBA!" Explodiu Harry em voz alta,
sentindo-se incomodado por saber que todos o olhavam, inclusive todos
os Lockhart nas paredes.
"MENTIRA!" Rosnou Filch.
"Se me permiti falar, Diretor." Disse Snape tomando a palavra. "Sei que sou suspeito, mas, de fato, os pais do senhor Malfoy não são mais.. como no passado. E nem o senhor Malfoy se importa com essas baboseiras de sangue. Ele é um mestiço e possui amigos mestiços e, como dizem vulgarmente, traidores do sangue. Além do que, não estamos aqui para discutir sobre os antepassados dos Malfoy e muito menos as origens consangüíneas do senhor Malfoy e seus amigos."
"Tem razão, Severus." Concordou Dumbledore.
"Claro que concordo haver um conjunto de circunstâncias suspeitas neste caso." Continuou Snape olhando friamente para cada um dos alunos. "Por que é que estavam no corredor do andar superior, senhor Malfoy? Por que não estava na Festa das Bruxas?"
"Estava saindo da detenção com o Professor Lockhart, senhor."
"Isso é verdade. Perdemos o horário." Confirmou Lockhart.
"E quanto a vocês?" Perguntou Snape olhando para Rony e Hermione.
"Fomos procurar por Harry. Ele estava demorando e achamos que pudesse ter acontecido algo. Antes do senhor chegar com Draco, tínhamos acabo de nos encontrar com ele." Explicou Hermione. "Antes disso estávamos na Festa. Pode perguntar para qualquer um." Completou depressa.
"Minha gata foi petrificada!" Gritou Filch os olhos esbugalhados. "Quero ver alguém ser castigado!"
"Vamos curá-la, Argo." Disse Dumbledore paciente. "A Professora Sprout, recentemente, obteve umas mandrágoras. Assim que elas crescerem, vou mandar fazer uma poção que ressuscitará Madame Nora.
"Eu faço." Lockhart entrou na conversa. "Devo ter feito isto centenas de vezes. Seria capaz de preparar um Tônico Restaurador de Mandrágora até dormindo."
"Desculpe-me."Disse Snape num tom gelado. "Mas creio que sou o professor de Poções aqui nesta escola."
Houve uma pausa muito incômoda.
"Vocês podem ir." Disse Dumbledote a Harry, Draco, Rony e Hermione.
Os quatro saíram o mais depressa que puderam sem chegar a correr. Quando estavam um andar acima da sala de Lockhart, entraram em uma sala de aula e fecharam a porta silenciosamente. Harry procurou enxergar o rosto dos amigos no escuro.
"Acham que eu devia ter contado sobre a voz que ouvi?" Perguntou Harry.
"Que voz?" Perguntou Draco franzido o cenho.
"Harry disse ter ouvido uma voz estranha ao sair da detenção." Explicou Hermione.
"Na verdade, ouvi durante a detenção. Quando perguntei ao Lockhart, ele disse que não ouviu nada. E quando sai da detenção, ouvi a voz novamente, mas ao chegar no corredor vi aquilo."
"Lockhart não ouviu?" Perguntou Draco estranhando.
"O que a voz dizia exatamente?" Perguntou Rony.
"Algo sobre sangue e matar."
"Céus, Harry!" Exclamou Hermione assustada.
"Você ficou assim, imagine eu."
"Você fez bem em não contar." Disse Draco sério. "Ouvir vozes que ninguém mais ouve é um mal sinal."
"Mas vocês acreditam em mim, certo?"
"Claro." Disse Rony e Hermione ao mesmo tempo. "Mesmo que, você vai ter que concordar, seja estranho." Completou Rony.
"Draco?" Perguntou Harry olhando-o.
"Acho que a sua cicatriz afetou seu cérebro mais do que parece, Harry." Disse zombeteiro. "Mas eu acredito em você. Só não comece a falar sozinho e parar de piscar, por favor."
"Obrigado, Draco." Sorriu-lhe.
Durante alguns dias, a escola praticamente não conseguiu falar de outra coisa a não ser do ataque à Madame Nora. Filch o manteve vivo na lembrança de todos, perambulando pelo lugar onde ela fora atacada, como se achasse que o atacante poderia voltar. Harry o vira esfregando a mensagem na parede com Removedor Mágico Multiuso Skower, mas sem resultado; as palavras continuavam a brilhar na pedra, mais fortes que nunca. Quando Filch não estava guardando a cena do crime, esquivava-se pelos corredores, os olhos vermelhos, investindo contra estudantes distraídos e tentando impingir-lhes uma detenção por coisas do tipo 'respirar fazendo barulho' e 'parecer feliz'.
Gina Weasley parecia ter ficado muito perturbada com o destino de Madame Nora. Segundo Rony, ela adorava gatos.
"Mas você nem chegou a conhecer a Madame Nora direito." Disse Fred.
"Francamente, estamos melhor sem ela." Continuou George fazendo os lábios de Gina tremeram levemente.
"Calem a boca." Disse Draco rudemente. "Não se preocupe, Gina." Falou gentilmente à irmã. "Irão pegar o maníaco que fez isso."
"É. Irão manda-lo embora na hora." Concluiu Rony.
"Só espero que ele tenha tempo de petrificar o Filch." Disse George divertido.
"Ou que o leve junto. Assim nem a Professora Sprout e suas mandrágora darão um jeito."
Gina empalideceu.
"Brincadeirinha." Disseram o gêmeos rapidamente recebendo, cada um, uma cotovelada de Draco.
O ataque também afetara Hermione. Tornou-se comum ela passar muito tempo lendo, mas agora não fazia quase mais nada. Nem Harry, Draco e Rony, tampouco, obtinham alguma resposta quando lhe perguntavam o que pretendia fazer, e somente na quarta-feira seguinte ficaram sabendo.
A História da Magia era a matéria mais sem graça do programa, mesmo para Harry que sempre prestava atenção às aulas e fazia anotações. O Professor Binns, encarregado de ensiná-la, era o único professor fantasma, e a coisa mais excitante que acontecia em suas aulas era ele entrar em classe atravessando o quadro-negro.
Velhíssimo e enrugado, muita gente dizia que ele ainda não percebera que estava morto. Um belo dia ele simplesmente se levantara para dar aula e deixara o corpo sentado numa poltrona diante da lareira da sala de professores. Sua rotina não se alterara nem um pingo desde então.
Aquele dia de aula estava chato como sempre. O Professor Binns abriu seus apontamentos e começou a ler num tom monótono como um aspirador de pó velho, até que quase todos os alunos na sala caíram num estupor profundo, de que emergiam ocasionalmente o tempo suficiente de copiar um nome ou uma data e, em seguida, tornar a adormecer.
Estava falando havia meia hora quando aconteceu uma coisa que nunca acontecera antes em suas aulas.
Hermione levantou a mão.
O Professor Binns ergueu os olhos no meio de um discurso mortalmente maçante sobre a Convenção Internacional de Bruxos de 1289 e fez uma cara surpresa.
"Senhorita..?"
"Granger, professor. Eu gostaria de saber se o senhor poderia nos contar alguma coisa sobre a Câmara Secreta." Pediu Hermiione com voz clara.
Dino, que estivera sentado com a boca aberta, espiando para fora da janela, acordou de repente do seu transe. A cabeça de Lilá Brown deitada sobre os braços se ergueu e o cotovelo de Neville escorregou da carteira.
O Professor Binns pestanejou.
"Minha matéria é História da Magia." Disse ele naquela voz seca e asmática.
"Lido com fatos, Srta. Granger, não com mitos nem com lendas." Pigarreou fazendo um barulhinho como o de um giz que se parte e continuou. "Em setembro daquele ano, um subcomitê de bruxos sardos pr-"
O professor gaguejou antes de parar. A mão de Mione estava outra vez no ar.
"Senhorita Granger?"
"Por favor, professor, as lendas não se baseiam sempre em fatos?"
O Professor Binns olhou-a com tal espanto, que Harry teve certeza de que nenhum aluno vivo ou morto, jamais o interrompera antes.
"Bem" Disse lentamente "é um argumento válido, suponho." Estudou Hermione como se nunca antes tivesse olhado direito para um aluno. "Contudo, a lenda de que a senhorita fala é tão sensacionalista e até tão absurda que..."
A classe inteira ficou pendurada em cada palavra que o professor dizia. Ele correu um olhar míope por todos, rosto por rosto virado em sua direção. Harry percebeu que ele estava completamente desconcertado por aquela manifestação incomum de interesse.
"Ah, muito bem" Disse vagarosamente. "Vejamos... A Câmara Secreta... Os senhores todos sabem, é claro, que Hogwarts foi fundada há mais de mil anos... a data exata é incerta... pelos quatro maiores bruxos e bruxas da época. As quatro casas da escola foram batizadas em homenagem a eles: Godrico Gryffindor, Helga Hufflepuff, Rowena Ravenclaw e Salazar Slytherin. Eles construíram este castelo juntos, longe dos olhares curiosos dos trouxas, porque era uma época em que a magia era temida pelas pessoas comuns, e os bruxos e bruxas sofriam muitas perseguições."
Ele fez uma pausa, percorreu a sala com os olhos lacrimejantes e continuou:
"Durante alguns anos, os fundadores trabalharam juntos, em harmonia, procurando jovens que revelassem sinais de talento em magia e trazendo-os para serem educados no castelo. Mas então surgiram os desentendimentos. Ocorreu uma divisão entre Slytherin e os outros. Slytherin queria ser mais seletivo com relação aos estudantes admitidos. Ele acreditava que o aprendizado de magia devia ser mantido no âmbito das famílias inteiramente mágicas. Desagradava-lhe admitir alunos de pais trouxas, pois os achava pouco dignos de confiança. Passado algum tempo houve uma séria discussão sobre o assunto entre Slytherin e Gryfflndor, e Slytherin abandonou a escola."
O Professor Binns parou de novo, contraindo os lábios, parecendo uma velha tartaruga enrugada.
"É o que nos contam as fontes históricas confiáveis. Mas estes fatos honestos foram obscurecidos pela lenda fantasiosa da Câmara Secreta. Segundo ela, Slytherin construiu uma câmara secreta no castelo, da qual os outros nada sabiam. Slytherin teria selado a Câmara Secreta de modo que ninguém pudesse abri-la até que o seu legítimo herdeiro chegasse a escola. Somente o herdeiro seria capaz de abrir a Câmara Secreta, libertar o horror que ela encerrava e usa-lo para expurgar a escola de todos que não fossem dignos de estudar magia."
Fez-se silêncio quando ele acabou de contar a história, mas não foi o de sempre, o silêncio modorrento que dominava as aulas do Professor Binns. Havia no ar um certo constrangimento enquanto todos continuavam a olhá-lo, esperando mais. O Professor Binns fez um ar ligeiramente aborrecido.
"A história inteira é um perfeito absurdo, é claro. Naturalmente, a escola foi revistada à procura de provas da existência dessa câmara, muitas vezes, pelos bruxos e bruxas mais cultos. Ela não existe. Uma história contada para assustar os crédulos."
A mão de Mione voltou a se erguer.
"Professor.. O que foi exatamente que o senhor quis dizer com 'o horror que a câmara encerra'?"
"Acredita-se que haja algum tipo de monstro, que somente o herdeiro de Slytherin pode controlar." Respondeu o Professor Binns com sua voz seca e esganiçada.
Os alunos trocaram olhares nervosos.
"Afirmo que a coisa não existe." Disse ele folheando suas anotações. "Não há Câmara alguma e monstro algum."
"Mas, professor" Chamou Simas. "se a Câmara só pode ser aberta pelo verdadeiro herdeiro de Slytherin, ninguém mais seria capaz de encontrá-la, não é?"
"Bobagem, senhor Finnigan." Disse num tom irritado. "Se uma longa sucessão de diretores e diretoras de Hogwarts não encontraram a coisa..."
"Mas, professor" Ouviu-se a voz fina de Parvati Patil. "a pessoa provavelmente terá de usar Magia Negra para abri-la."
"Só porque um bruxo não usa Magia Negra não significa que não possa, senhorita Patil." Retrucou. "Eu repito, se uma pessoa como Dumbledore n-"
"Mas talvez a pessoa tenha que ser parente de Slytherin, por isso Dumbledore não poderia..." Começou Dino, mas para o professor aquilo já era demais.
"Basta!" Disse com rispidez. "É um mito! Não existe! Não há a mínima prova de que Slytherin tenha algum dia construído sequer um armário secreto de vassouras! Arrependo-me de ter contado aos senhores uma história tão tola. Vamos voltar, façam-me o favor, à história, aos fatos sólidos, criveis e verificáveis!"
E em cinco minutos a classe voltara a mergulhar em seu torpor habitual.
"Eu sempre soube que Salazar Slytherin era um velho maluco e tortuoso." Contou Rony a Harry e Hermione enquanto tentavam passar pelo corredor apinhado de alunos ao fim das aulas, para guardarem as mochilas antes do jantar "Mas não sabia que ele é quem tinha começado toda essa história de puro sangue. Eu não ficaria na casa dele nem que me pagassem. Francamente, se o Chapéu Seletor tivesse tentado me mandar para Sonserina, eu teria tomado o trem de volta para casa."
"Bom saber, Ronald." Disse Draco juntando-se à eles. "Quero apenas lembra-lo de que sou um sonserino."
"E sinto muito por isso."
"Não comecem uma briga por isso, por favor." Disse Hermione impaciente. "A Sonserina é uma casa tão boa quanto as outras. O fato de Salazar Slytherin ter sido um bruxo um tanto.. seletivo, não influi no tipo de bruxos que podem vir a se formar. Mesmo um lufa-lufa pode ser tornar um bruxo das trevas se assim ele quiser."
"Concordo com Hermione." Disse Harry firmemente. "Vejam meus pais."
"Sem querer ofender, Harry, mas seu pai foi um Comensal." Disse Rony.
"Mas não é mais." Emendou o moreno.
"Eu disse basta!" Gritou Hermione virando-se para encara-los. Os três garotos olharam-na um pouco surpresos e, por algum motivo, lembraram-se da senhora Weasley quando irritada. Decidiram ficar quietos. "Temos que descobrir algo mais sobre a Câmara Secreta e esse Herdeiro misterioso." Continuou mais calma voltando a andar.
"Quanto ao herdeiro, essa é fácil." Disse Rony. "Quem é que acha que os nascidos trouxas são escória?"
"Acha que Zabini pode ser o herdeiro?" Perguntou Draco.
"É claro!"
"Faz sentido." Disse Harry. "Toda a família dele fez parte da Sonserina, são uma das famílias mais tradicionais que existem e são do tipo que odeiam nascidos trouxas."
"E como poderíamos provar isso?" Perguntou Draco erguendo uma sobrancelha.
"Talvez haja um jeito." Disse Hermione pausadamente. "Mas estaríamos desrespeitando diversas regras, além de ser muito, muito perigoso."
"E o que seria?" Perguntou Rony sem entender.
"Muito bem." Disse Mione friamente. "O que precisamos é entrar na Sala Comunal da Sonserina e fazer umas perguntas ao Zabini, sem ele perceber que somos nos.
"Mas isto é impossível." Exclamou Rony.
"Não, não é." Disse Hermione.
"É impressão minha ou está falando da Poção Polissuco?" Perguntou Draco.
"Poção o quê?" Perguntou Rony.
"Snape mencionou essa poção em uma aula há umas semanas." Disse Harry.
"Ela transforma você em outra pessoa. Pense só nisso! Poderíamos nos transformar em alunos da Sonserina. Ninguém saberia que somos nós. Zabini provavelmente nos contaria qualquer coisa. Provavelmente anda se gabando disso na Sala Comunal da Sonserina neste instante, se ao menos pudéssemos ouvi-lo." Disse Hermione.
"Essa história de Polissuco me parece meio suspeita." Disse Rony franzindo a testa. "E se a gente acabasse parecendo três alunos da Sonserina para sempre?"
"Sai depois de algum tempo." Disse Draco fazendo um gesto de impaciência. "Mas conseguir arranjar a receita vai ser muito difícil. Snape falou que estava em um livro chamado 'Pociones Muy Potentes' e, vai ver está na Seção Reservada da biblioteca."
"Por que simplesmente não pedimos que Draco fique de olho em Zabini?" Perguntou Rony esperançoso.
"Porque Zabini não seria idiota de ficar falando que é o herdeiro aos quatro cantos." Respondeu Hermione impaciente. "Talvez fosse, mas acredito que se queremos provar realmente algo, teremos que parecer com Parkinson" Apontou para si. "Crabbe" Apontou para Harry. "e Goyle." Apontou para o ruivo.
Mas só havia um jeito de retirar um livro da Seção Reservada: o aluno precisava de uma permissão escrita do professor.
"Vai ser difícil entender por que queremos o livro." Disse Rony. "Se não temos intenção de preparar uma das poções."
"Mesmo se eu pedir, ele perguntaria a razão. Eu não poderia dizer simplesmente que gostaria de ampliar meu conhecimento sobre poções. Mesmo porque ele me faria ter aulas extras." Disse Harry.
"Acho que se fizermos parecer que só estamos interessados na teoria, talvez haja uma chance." Disse Hermione.
"Ah, qual é, nenhum professor vai cair nessa." Disse Rony. "Teria que ser muito tapado."
Desde o desastroso episódio com os diabretes, o Professor Lockhart não trouxera mais seres vivos para a aula. Em vez disso, lia trechos dos seus livros para os alunos, e, por vezes, dramatizava algumas passagens mais pitorescas. Em geral ele escolhia Harry para ajudá-lo nessas dramatizações. Até aquele momento o garoto fora obrigado a representar um camponês simplório da Transilvânia, de quem Lockhart curara um feitiço de gagueira, um iéti com um resfriado na cabeça e um vampiro que se tornara incapaz de comer outra coisa a não ser alface, depois que Lockhart dera um jeito nele. Harry foi chamado à frente da classe na aula seguinte de Defesa contra as Artes das Trevas, desta vez para representar um lobisomem. Se não tivesse uma boa razão para deixar Lockhart de bom humor, ele teria se recusado.
"Um belo uivo, Harry, exato, e então, queiram acreditar, eu saltei sobre ele, assim, joguei-o contra a porta, assim, consegui contê-lo com uma das mãos, com a outra apontei a varinha para o pescoço dele, e então reuni toda a força que me restava e lancei o Feitiço Homorfo, muitíssimo complicado, e ele soltou um gemido de dar pena... Vamos, Harry mais alto, bom, o pêlo dele desapareceu, as presas encurtaram, e ele voltou a virar homem. Simples, mas eficiente, e mais uma aldeia que se lembrará de mim para sempre como o herói que os salvou do terror dos ataques de lobisomem."
A sineta tocou e Lockhart ficou em pé.
"Dever de casa... Compor um poema sobre a minha vitória sobre o lobisomem de Wagga Wagga! Exemplares autografados de O Meu Eu Mágico para o autor do melhor trabalho!"
Os alunos começaram a sair. Harry voltou ao fundo da sala, onde Rony, Draco e Hermione esperavam.
"Prontos?" Perguntou Harry num murmúrio.
"Espere até todos saírem." Pediu Hermione nervosa. "Certo."
Ela se aproximou da mesa de Lockhart, um papelzinho seguro firmemente na mão. Harry, Draco e Rony logo atrás.
"Ah... Professor Lockhart?" Gaguejou Hermione. "Eu queria... Retirar este livro da biblioteca. Só para ter uma idéia geral do assunto." Estendeu o papelzinho, a mão ligeiramente trêmula. "Mas o problema é que ele é guardado na Seção Reservada da biblioteca, então preciso que um professor autorize, tenho certeza de que o livro me ajudaria a entender o que o senhor diz em Como se Divertir com Vampiros sobre os venenos de ação retardada..."
"Ah, como se divertir com vampiros!" Exclamou Lockhart apanhando o papelzinho de Hermione e lhe dando um grande sorriso. "Possivelmente é o livro de que mais gosto. Você gostou?"
"Gostei." Disse Hermione depressa. "Muito esperto o modo com que o senhor apanhou aquele último, com o coador de chá."
"Bem, tenho certeza de que ninguém vai se importar que eu dê à melhor aluna do ano uma ajudinha extra." Disse Lockhart calorosamente e puxou uma enorme pena de pavio. "Bonita, não é?" Disse ele, interpretando mal a expressão de indignação no rosto de Rony. "Em geral eu a uso para autografar livros."
Ele rabiscou uma enorme assinatura cheia de floreios no papel e devolveu-o a Hermione.
"Então, Harry." Disse Lockhart, enquanto Hermione dobrava o papel com dedos nervosos e o guardava na mochila. "Creio que amanhã é a primeira partida de Quadribol da temporada. Grifinória contra Sonserina, não é? Ouvi dizer que você é um jogador muito útil. Eu também fui apanhador. Convidaram-me para tentar a seleção nacional, mas preferi dedicar minha vida à erradicação das Forças das Trevas. Ainda assim, se algum dia você achar que precisa de um treino pessoal, não hesite em me pedir. Fico sempre feliz de passar minha experiência a jogadores menos capazes..."
Harry fez um barulhinho discreto na garganta e saiu correndo atrás de Rony, Draco e Hermione.
"Eu não acredito." Disse Draco quando examinaram a assinatura no papel. "Ele nem olhou o nome do livro que queríamos."
"É porque ele é um panaca desmiolado." Disse Rony. "Mas quem se importa? Temos o que precisávamos."
"Ele não é um panaca desmiolado." Disse Hermione em voz alta quando se dirigiam quase correndo à biblioteca.
"Só porque ele disse que você é a melhor aluna do ano." Retrucou Rony.
Eles baixaram a voz ao entrar na quietude abafada da biblioteca. Madame Pince, a bibliotecária, era uma mulher magra e irritável que parecia um urubu subnutrido. Ela ergueu o papel contra a luz, como se estivesse decidida a descobrir uma falsificação, mas a autorização passou no teste. Ela desapareceu silenciosamente entre as estantes altas e voltou vários minutos depois trazendo um livro grande de aparência mofada. Hermione guardou-o cuidadosamente na mochila e os quatro foram embora, procurando não andar demasiado rápido nem
parecerem muito culpados. Cinco minutos depois, estavam no banheiro interditado da Murta Que Geme. Hermione tinha vencido as objeções de Rony lembrando que seria o último lugar em que alguém sensato iria, e com isso garantiram alguma privacidade.
Murta Que Geme chorava alto no seu boxe, mas eles não lhe prestavam atenção nem a fantasma aos garotos.
Hermione abriu o Pociones Muy Potentes com cuidado, e os quatro se debruçaram sobre as páginas manchadas de umidade. Era claro, ao primeiro olhar, a razão por que o livro pertencia à Seção Reservada. Algumas das poções produziam efeitos medonhos demais só de se imaginar e, havia algumas ilustrações muito impressionantes, que incluíam um homem que parecia ter virado do avesso e uma bruxa com vários pares de braço que saíam da cabeça.
"Esta é a poção mais complicada que já vi" Disse Hermione enquanto examinavam a receita. "Hemeróbios, sanguessugas, descutainia e sanguinária." Murmurou ela correndo o dedo pela lista de ingredientes. "Bem, esses são bem fáceis, estão no armário dos alunos, podemos tirar o que precisarmos... Ah, olhem só isso, pó de chifre de bicórnio, não sei onde vamos arranjar isso... Pele de ararambóia picada, essa vai ser uma fria também... E, é claro, um pedacinho da pessoa em quem quisermos nos transformar."
"Dá para repetir isso?" Pediu Rony ríspido. "Que é que você quer dizer com um pedacinho da pessoa em quem quisermos nos transformar? Não vou tomar nada que tenha unhas do pé de Goyle dentro."
Hermione continuou como se não tivesse ouvido o amigo.
"Ainda não temos que nos preocupar com isso, porque os pedacinhos só entram no fim."
Rony virou-se, sem fala, para Harry, que tinha outra preocupação.
"Você percebe quanta coisa vamos ter que roubar, Hermione? Pele de ararambóia picada, decididamente não está no armário dos alunos." Franziu o cenho.
"Assalte o estoque do Snape." Disse Draco com firmeza. "Use a Capa de Invisibilidade."
"Não sei se é uma boa idéia. Já bastou eu desconfiar dele ano passado e, agora, rouba-lo?"
Hermione fechou o livro com força.
"Bem, se vocês vão amarelar, ótimo." Seu rosto se malhara de vermelho vivo e os olhos cintilavam mais do que o normal. "Eu não quero desrespeitar o regulamento, vocês sabem muito bem. Acho que ameaçar gente que nasceu trouxa é muito mais sério do que preparar uma poção difícil. Mas se vocês não querem descobrir se é o Zabini, eu vou direto à Madame Pince agora mesmo e devolvo o livro, e..."
"Eu nunca pensei que veria o dia em que você nos convenceria a desrespeitar o regulamento." Disse Rony. "Muito bem, nós topamos. Mas unhas dos pés não, está bem?"
"E quanto tempo vai levar para preparar a poção?" Perguntou Harry.
"Bom, uma vez que a descurainia tem que ser colhida na lua cheia e os hemeróbios precisam cozinhar durante vinte e um dias... Eu diria que vai levar, mais ou menos, um mês para ficar pronta, se conseguirmos todos os ingredientes."
"Um mês?" Exclamou Draco. "Até lá, Zabini poderia atacar metade dos nascidos trouxas na escola!" Mas os olhos de Hermione tornaram a se estreitar perigosamente e ela acrescentou depressa:
"Mas é o melhor plano que temos, portanto, vamos tocar para frente a todo vapor!"
Harry acordou cedo no sábado e continuou deitado por algum tempo, pensando na partida de Quadribol que se aproximava. Estava nervoso, principalmente quando pensava no que Wood diria se a Grifinória perdesse, mas também com a idéia de enfrentar um time montado nas vassouras de corrida mais velozes que o ouro podia comprar – não que não pudesse comprar, mas pedir a vassoura nova ao pai não seria sensato no momento, além do que, Harry ter ganho a sua há pouco mais de um ano-.
Nunca tivera tanta vontade de vencer a Sonserina. Depois de passar meia hora deitado, com as tripas dando nós, ele se levantou, se vestiu e desceu logo para tomar café e já encontrou o resto dos jogadores da Grifinória sentados juntos à mesa comprida e vazia, todos parecendo nervosos e falando muito pouco.
A medida que às onze horas se aproximaram, a escola inteira começou a tomar o caminho do estádio de Quadribol. Olhou rapidamente para as arquibancadas que seriam ocupadas pelos professores. Severus já estava lá, sozinho. Lucius continuava sem falar com Harry – o que o moreno percebera depois ser sua punição por ter ajuda Draco a pegar o carro do senhor Weasley -, e mesmo Narcisa falando com o filho normalmente, não iria comparecer aos jogos sem o marido ao lado. Remus fora indiretamente proibido de comparecer aos jogos também. Apesar de duas vezes terem se falado via lareira.
Fazia um dia mormacento com sinais de trovoada no ar. Rony, Draco e Hermione vieram correndo desejar a Harry boa sorte quando ele ia entrando no vestiário. O time vestiu os uniformes vermelhos da Grifinória e depois se sentou para ouvir a preleção que Wood sempre fazia antes do jogo.
"Hoje, Sonserina tem vassouras melhores que nós." Começou ele. "Não adianta negar. Mas nós temos jogadores melhores nas nossas vassouras. Treinamos com maior garra do que eles, estivemos no ar fosse qual fosse o tempo...
"Quem duvida." Murmurou Fred
"Não sei o que é estar seco desde agosto." Completou George também murmurando.
"... e vamos fazer com que eles se arrependam do dia em que deixaram aquele trapaceiro do Zabini pagar para entrar no time." O peito arfando de emoção, virou-se para Harry. "Vai depender de você, Harry, mostrar a eles que um apanhador tem que ter mais do que um pai rico. Chegue ao pomo antes de Zabini ou morra tentando, porque temos que vencer hoje, é muito simples."
"Por isso nada de pressioná-lo." Disse Fred piscando o olho ao moreno.
Quando entraram no campo, foram saudados por um vozerio, muitos vivas, porque a Corvinal e a Lufa-Lufa estavam ansiosas para ver a Sonserina derrotada, mas os alunos da Sonserina nas arquibancadas vaiaram e assobiaram, também. Madame Hooch, a professora de Quadribol, mandou Flint e Wood se apertarem as mãos, o que eles fizeram, lançando um ao outro olhares ameaçadores e pondo mais força no aperto que era necessário.
"Quando eu apitar." Disse Madame Hooch. "Três... dois... um...!"
Com um rugido de incentivo das arquibancadas, os catorze jogadores subiram em direção ao céu carregado. Harry foi mais alto do que qualquer outro, apertando os olhos à procura do pomo.
"Tudo bem aí, ó Cicatriz?" Berrou Zabini passando por baixo dele como se quisesse mostrar a velocidade de sua vassoura.
Harry não teve tempo de responder. Naquele mesmo instante, um pesado balaço negro veio voando a toda em sua direção. Ele o evitou por tão pouco que sentiu o balaço arrepiar seus cabelos ao passar.
"Esse foi por um triz, Harry!" Disse George, emparelhando com ele de bastão na mão, pronto para rebater o balaço para os lados de um jogador da Sonserina.
Harry viu George dar uma forte bastonada na direção de Adriano Pucey, mas o balaço mudou de rumo em pleno ar e tornou a voar direto para Harry. O garoto mergulhou depressa para evitá-lo, e George conseguiu atingir o balaço com força na direção de Zabini. Mais uma vez, o balaço voltou como um bumerangue e disparou contra a cabeça de Harry que imprimiu velocidade à vassoura e voou para o outro extremo do campo. Ouvia o assobio do balaço vindo em seu encalço.
Algo estava errado. Os balaços nunca se concentravam em um único jogador. sua função era tentar desmontar o maior número possível de jogadores... Fred aguardava o balaço no outro extremo. Harry se abaixou quando Fred rebateu o balaço com toda força, desviando-o de curso.
"Peguei você!" Berrou Fred alegremente, mas estava enganado. Como se estivesse magneticamente atraído para Harry, o balaço saiu atrás dele outra vez, e o garoto foi forçado a voar a toda velocidade.
Começara a chover. Harry sentiu grossos pingos de chuva caírem em seu rosto, molhando seus óculos. Não tinha a menor idéia do que estava acontecendo no jogo até ouvir Lino Jordan, locutor da partida, dizer: 'Sonserina na liderança, sessenta a zero...'
As vassouras superiores da Sonserina obviamente estavam dando-lhes vantagem, enquanto o balaço furioso estava fazendo o possível para tirar Harry do ar. Fred e George agora voavam tão junto dele, um de cada lado, que Harry não via nada exceto braços se agitando no ar e não tinha chance de procurar o pomo, muito menos de apanhá-lo.
"Alguém... alterou... esse... balaço..." Rosnou Fred, brandindo o bastão com toda força quando o balaço desfechou um novo ataque contra Harry.
"Precisamos de tempo." Disse George tentando simultaneamente fazer sinal a Wood e impedir o balaço de quebrar o nariz de Harry.
Wood obviamente entendera o sinal. O apito de Madame Hooch soou e Harry, Fred e George mergulharam até o chão, ainda tentando evitar o balaço maluco.
"Que está acontecendo?" Perguntou Wood quando o time da Grifinória se reuniu à sua volta ao som das vaias da Sonserina. "Estamos sendo arrasados. Fred, George, onde é que vocês estavam quando aquele balaço impediu Angelina de fazer gol?"
"Estávamos seis metros acima dela, impedindo outro balaço de matar Harry, Olívio." Respondeu George aborrecido. "Alguém alterou aquele balaço. Ele não deixa o Harry em paz. E não tentou pegar mais ninguém o tempo todo. O pessoal da Sonserina deve ter feito alguma coisa com ele."
"Mas os balaços estiveram trancados na sala de Madame Hooch desde o nosso último treino, e não havia nada errado com eles..." Disse Wood ansioso.
Madame Hooch veio andando em direção ao grupo. Por cima do ombro, Harry viu o time da Sonserina caçoando e apontando para ele.
"Escutem." disse Harry ao vê-la chegar cada vez mais perto. "Com vocês dois voando em volta de mim o tempo todo o único jeito de apanhar aquele pomo é ele entrar voando na minha manga. Se juntem ao resto do time e deixem que eu cuido do balaço errante."
"Não seja burro." Disse Fred. "Ele vai arrancar sua cabeça."
Wood olhava de Harry para os Weasley.
"Olivio, isso é loucura." Disse Alicia Spinnet zangada. "Você não pode deixar o Harry enfrentar aquela coisa sozinho. Vamos pedir uma investigação."
"Se pararmos agora, perderemos a partida! - disse Harry. - E não vamos perder para a Sonserina só por causa de um balaço maluco! Anda, Olivio, diz para eles me deixarem em paz!"
"Isto é tudo culpa sua!" Disse Jorge furioso com Wood. "'Apanhe o pomo ou morra tentando' que coisa idiota para dizer a ele."
Madame Hooch se reunira aos jogadores.
"Estão prontos para recomeçar a partida?" Perguntou a Wood.
Wood olhou para a expressão decidida no rosto de Harry.
"Muito bem. Fred, George, vocês ouviram o que Harry disse, deixem-no em paz e deixem que ele cuide do balaço sozinho."
A chuva caía mais pesada agora. Ao apito de Madame Hooch, Harry deu um forte impulso para o alto e ouviu o assobio que indicava que o balaço vinha atrás dele. Ganhou cada vez mais altura, fez loops e subiu, espiralou, ziguezagueou e balançou.
Mesmo ligeiramente tonto, mantinha os olhos bem abertos, a chuva molhando seus óculos e entrando por suas narinas quando ele voava de barriga para cima, evitando outro mergulho furioso do balaço. Ele ouvia as risadas do público. Sabia que devia estar parecendo muito idiota, mas o balaço errante era pesado e não podia mudar de direção tão rápido quanto Harry. O garoto começou a voar pela orla do estádio como se estivesse em uma montanha-russa, procurando ver as balizas da Grifinória através da cortina prateada de chuva. Adrian Pucey tentava ultrapassar Wood...
Um assobio no ouvido de Harry lhe disse que o balaço deixara de acertá-lo por pouco outra vez. Ele imediatamente deu meia-volta e disparou na direção oposta.
"Está treinando para fazer balé, Malfoy?" Berrou Zabini quando Harry foi obrigado a dar uma volta ridícula em pleno ar para evitar o balaço e fugir.
O balaço rastreando-o a pouco mais de um metro; e então, virando-se para olhar Zabini cheio de ódio ele viu... O pomo de ouro. Pairava poucos centímetros acima da orelha esquerda de Zabini, e o garoto, ocupado em rir-se de Harry, não o vira. Por um momento de agonia, Harry imobilizou-se no ar, sem ousar voar na direção de Zabini, com medo de que ele olhasse para cima e visse o pomo.
Permanecera parado um segundo a mais. O balaço, finalmente, atingi-o, bateu no seu cotovelo e Harry sentiu o braço rachar. Sem enxergar direito, atordoado pela terrível dor no braço, escorregou para um lado da vassoura encharcada, um joelho ainda enganchando-a por baixo, o braço direito pendurado inútil. O balaço retornava a toda para um segundo ataque, desta vez mirando o seu rosto, Harry desviou-se, uma idéia alojada com firmeza no cérebro entorpecido: chegar até Zabini.
Através da névoa de chuva e dor, ele mergulhou em direção à cara debochada abaixo dele e viu os olhos de Zabini se arregalarem de medo. O garoto achou que Harry ia atacá-lo.
"Que di-" Começou inclinando-se para longe de Harry.
Harry tirou a mão boa da vassoura e tentou agarrar o pomo às cegas. Sentiu os dedos se fecharem sobre a bola fria, mas agora só estava preso à vassoura pelas pernas, e ouviu-se um urro das arquibancadas quando ele rumou direto para o chão, tentando por tudo não desmaiar.
Olá, pessoas :)
Espero que tenham tido uma boa virada de ano. Tudo de bom para vocês, aliás. Altos e baixos, claro, mas que haja mais altos. Enfim, mais um capítulo. É, eu ando empolgada com a fic, além de querer muito chegar no terceiro livro -e olha que nem é meu preferido-. Podem adivinhar o motivo de eu querer chegar logo nele? Quem adivinhar, pode me perguntar três coisinhas qualquer que eu respondo.
Comentem que eu respondo.
Um aperto de mão e até o próximo capítulo.
