Assim que olhou para ela, James teve certeza de que não iria examinar-lhe os dentes. Não iria ao menos tentar.
— Lily... Acho que o dentista está de folga hoje...
Por mais que se esforçasse, não conseguia tirar o olhar do top da fantasia de odalisca que ela usava. Num impulso irresistível, colocou uma das mãos dentro do sutiã dourado e pôs-se a lhe acariciar o seio firme.
Percebendo os lampejos de paixão a iluminar os olhos castanhos dele, Lily sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha. Nervosa, remexeu-se sobre a cadeira odontológica e disse a primeira coisa que lhe ocorreu, sem sequer dar-se conta de que aquilo não fazia muito sentido:
— James, eu... Por que não se senta aqui? Esta cadeira é tão grande...
Virou-se, então, colocando as pernas para fora da cadeira. Ele acomodou-se a seu lado, sem parar de afagar-lhe o seio agora túmido de desejo.
— Adoro essa sua fantasia...
— Mas eu não gosto dessa roupa de dentista que você está usando...
Deixando-se guiar pelo instinto, ela começou a lhe desabotoar o jaleco branco. Instantes depois, James se livrava dele e o jogava no chão, passando a beijar Lily de uma forma ardente e sensual.
Ela se esqueceu de que estivera irritada, se esqueceu de seus compromissos, se esqueceu do mundo lá fora. Tudo o que importava era aquele beijo e, com o corpo em brasa, abraçou James com toda a força de que era capaz. Como que enfeitiçada, sentia as mãos dele em seus seios, em seu colo, ao longo das suas costas, Era uma sensação gloriosa, que fazia cada ínfimo pedacinho do seu ser vibrar por mais e mais.
James afastou-se por alguns instantes, o tempo necessário para desembaraçar-se da gravata e da camisa branca. Seus olhos não deixaram os dela um segundo sequer e, afundando os dedos entre os sedosos cabelos ruivos, ele murmurou:
— Você tem me levado à insanidade, Lily. Todas as noites, quando chego em casa e sinto seu perfume pelos quatro cantos daquele apartamento, tenho a impressão de que vou perder o juízo.
— E todas as manhãs, quando o aroma da sua loção pós-barba vaga entre as paredes do banheiro, tenho a impressão de que vou morrer de desejo por você.
James voltou a abraçá-la, mordiscando-lhe o lóbulo da orelha. Com mãos determinadas, pôs-se a abrir o fecho do sutiã dourado.
— James, isto é uma loucura. Nós moramos juntos e temos a casa para...
— Quer que eu a leve para lá agora? Prefere a sua cama... ou a minha?
Lily não conseguiu responder. Na verdade, não queria ir a lugar algum. Queria era ficar ali, trocando carícias ardentes com James, sentindo os beijos apaixonados com que ele ameaçava devorá-la.
Afagando-lhe os cabelos pretos, ela gemeu de prazer ao sentir que seu top dourado caía-lhe sobre o colo. Com a ponta dos dedos, James refez as curvas dos seios ingurgitados para depois, tomando o mamilo rijo entre o polegar e o indicador, massageá-lo com torturante delicadeza. Abaixando a cabeça, Lily viu-o levar a boca de encontro ao bico rosado, tomá-lo entre os lábios e sugá-lo suavemente, ao mesmo tempo em que o acariciava com a língua afoita. Um novo gemido de prazer escapou-lhe da garganta.
A emoção de que eram prisioneiros naquele momento havia se fortalecido por várias semanas, inflamando-se quando estavam juntos, ocultando-se quando ambos erguiam barreiras para afastá-la. Agora, contudo, estava presente e os dominava com toda a sua plenitude. Era algo tão forte, tão poderoso, que perpassava seus corpos como uma corrente elétrica a provocar deliciosos espasmos. James deitou-a de encontro à ampla cadeira, admirando-lhe as pernas bem-feitas através do tecido translúcido da calça de odalisca.
— Quer ir para casa, Lily?
— S-seria... seria mais sensato.
A resposta dela, porém, não era coerente com seus gestos. Erguendo um pouco o tronco, ficou de frente para James; depois de afagar abdômen definido, colocou as mãos sobre o cós da calça branca que ele vestia. No instante seguinte, abria-lhe o botão e fazia o zíper escorregar lentamente para baixo, expondo o saliente volume que se formara sob a cueca.
Ele deixou escapar um gemido rouco ao senti-la acariciar-lhe o membro rijo. Ofegante, disse:
— Acho que... que você acaba de responder à minha pergunta. Vamos ficar aqui, não vamos?
— Sim, sim. Quero ficar em qualquer lugar com você, desde que estejamos juntos... e sozinhos.
James acomodou-se ao lado dela e pôs-se a lhe retribuir os carinhos, passando a mão ao longo das pernas agora trêmulas, afagando-lhe as coxas entreabertas, tocando-lhe o sexo incendiado pela paixão.
Foi então que ela lembrou-se da caixa de preservativos que comprara na drogaria e deixara em sua mesinha-de-cabeceira.
— Oh, James, nós... Não podemos... Não nos prevenimos para...
— Não se preocupe com isso, querida. O que precisamos está no bolso da minha calça.
Dizendo isso, ele levantou um pouco o quadril, tirou a calça, apanhou o envelope com camisinhas que guardara ali havia dias e jogou a vestimenta, junto com a cueca, sobre as outras peças que já se amontoavam ao lado da cadeira odontológica. Colocando o pequeno pacote no braço da cadeira, passou então a dedicar sua atenção a Lily, voltando a acariciá-la. Suas mãos eram firmes e decididas; em poucos instantes, a calça semitransparente da fantasia de odalisca foi se unir aos trajes largados pelo chão. Ela arqueou o corpo ao senti-lo abaixar sua calcinha rendada. E gemeu de prazer quando ele lhe depositou um beijo apaixonado no sexo.
— Oh, James... Oh...
O desejo a consumia, mas os lábios de James pareciam insaciáveis. Por fim, ouviu-o murmurar de encontro ao seu ouvido:
— Agora, Lily, agora... Quero você... Preciso de você... Ele acomodou seu corpo ávido sobre o dela, calando-lhe os suspiros com um abrasado beijo. Lily abraçou-o, ao mesmo tempo em que lhe cingia a cintura com as pernas. Em questão de segundos, a penetração se consumava, arrebatando-os num ato de amor indomável.
O membro de James vibrava no interior do sexo dela como se tivesse vida própria; unidos, seus corpos se moviam no mesmo ritmo, que se acelerava à medida que o êxtase do prazer se aproximava. E, quando o clímax finalmente chegou, ambos sentiram-se levados ao estranho e misterioso mundo das estrelinhas que pairavam sobre suas cabeças.
Apoiando-se num cotovelo, ele fitou-a com um olhar repleto de ternura.
— Por que tivemos que esperar tanto tempo por um momento tão sublime, Lily?
Ela esboçou um sorriso meio acanhado.
— Não sei James. Há muita coisa que ainda não sei a respeito de nós dois.
— Então é melhor conversarmos a esse respeito, não acha?
— Prefiro não falar disso. Tenho a impressão de que tudo não passou de um sonho... e vamos acordar a qualquer momento.
James franziu as sobrancelhas, como se não entendesse. Então disse:
— Não existe retorno do ponto aonde chegamos. Ou será que você gostaria de voltar atrás?
— Não, claro que não. É que... Bem, somos muito diferente um do outro, James. Pertencemos a mundos que nunca se tocam. Se acabarmos nos envolvendo...
— Acho que já estamos envolvidos até o último fio de cabelo.
— Não é bem assim, Riquinho.
— Como é então?
— Não quero discutir esse assunto hoje. Aliás, se não me vestir e sair daqui a dois minutos vou chegar atrasada ao trabalho.
— Oh, não, não! Fique mais um pouco.
Percebendo que James iria tomá-la nos braços novamente, Lily levantou-se e pôs-se a juntar suas roupas.
— Esqueceu que ainda tenho infinitas parcelas do empréstimo para pagar?
— Mas...
— Esse é um dos aspectos que nos fazem tão diferentes, James. Você não entende que...
Ele sentou-se.
— Não me subestime, Lily. Entendo muito mais coisas do que você poderia supor.
— Tomara... Tomara que seja assim.
Fazia dois dias que, cumprindo suas obrigações como um autômato, Lily só tinha pensamentos para James, debatendo-se entre o absurdo de envolver-se com um homem da situação dele e, ao mesmo tempo, sentindo uma dificuldade imensa em apagar da memória o que havia entre ambos.
Na manhã de sexta-feira, assim que se aproximou do armário do banheiro, deparou-se com uma rosa vermelha sobre a pia, No espelho, havia um bilhete:
"Não me canso de pensar em você. Às oito da noite, não esqueça."
As palavras eram poucas, mas tinham um peso inestimável. Tanto quanto ela, James parecia ansioso pelo jantar programado para aquela data. Agora, era rezar para que tudo desse certo.
James terminava de fazer um tratamento de canal no último paciente agendado para aquela tarde, quando recebeu um telefonema da mãe. Ia pedir à recepcionista para que anotasse o recado, mas então lembrou-se de que a velha senhora telefonava do sul da França.
Embora a ligação estivesse péssima, não foi difícil perceber que estava tudo bem com ela. A Sra. Potter havia telefonado apenas para lhe pedir que desse uma passadinha na casa dela a fim de verificar se tudo estava em ordem, pois chegaria no dia seguinte. James concordou de má vontade, já que teria que levantar-se praticamente de madrugada para cuidar disso. Mas nem que o mundo lhe caísse na cabeça iria desmarcar o compromisso com Lily; aquela noite lhes pertencia.
Assim que ele acompanhou seu paciente até a porta, Ryan foi ao seu encontro:
— Sua mãe telefonou, não foi? Algum problema?
— Nada demais. Ela chega de viagem amanhã e quer que eu vá até sua casa, religar o gás, checar o aquecimento e coisas do tipo.
— Isso significa que a era do alpiste e da ração espalhados sobre nosso carpete vai acabar?
— Exato. E, como vim de carro, vou aproveitar e levar Tweety para casa hoje mesmo. Mas juro que é última vez que esse canário se interpõe entre mim e Lily.
— Humm... Do modo como fala, parece que sua vida afetiva e sexual está melhorando.
— Mais ou menos. Sabia que ela me chama de Riquinho?
— No meu tempo, elas costumavam nos chamar de benzinho, amorzinho, doce de coco...
— É que Lily tem uma espécie de idéia fixa com relação a dinheiro.
— Acho que todas as mulheres têm!
— Não é bem isso. Lily está dando um duro danado para resolver suas dificuldades financeiras, e acha que eu estou cheio da nota.
— Ela está atrás do seu dinheiro?
— Não, nada disso. O que acontece é justamente o contrário. Lily ressente-se do fato de eu estar numa situação financeira melhor do que a dela e... Bem, acho que se sente meio inferiorizada por causa disso.
— James, você está falando como um cara apaixonado sabia? Só espero que essa paixão lhe cause felicidade, e não dores de cabeça.
Ele não respondeu, mas, naquele começo de noite, enquanto estacionava seu Porsche próximo ao prédio onde morava com Lily, as palavras de Ryan ainda lhe faziam eco na mente. Descendo do carro com a gaiola de Tweety, sorriu para si mesmo quando chegou a uma conclusão um tanto animadora: não seria nada mal estar apaixonado por uma garota tão bela, tão batalhadora, tão sensível, tão sensual... Por que isso haveria de lhe trazer dores de cabeça?
— James?
Ouviu a voz dela vinda do quarto e correu deixar a gaiola na sala, antes de ir ao seu encontro.
Lily estava simplesmente deslumbrante num vistoso vestido de seda preta.
— Uau! Dê uma voltinha!
— Ora, deixe disso, James... Gostou mesmo da minha roupa?
— Claro que sim! Agora vamos, dê uma voltinha.
Ela fez o que James pedia e, após um longo assobio, ele comentou:
— Perfeito! Absolutamente perfeito!
— Então me ajude com o fecho, por favor.
James aproximou-se e encarregou-se dos delicados colchetes. Ia depositar-lhe um beijo na nuca quando, ao ajeitar-lhe o decote, viu a etiqueta com o nome de um famoso costureiro presa num arremate.
— Esse vestido é novo, Lily?
Ela virou-se depressa e pôs-se a enrolar algumas mechas de cabelos com os dedos.
— E-eu... ha... Bem, estou usando-o pela primeira vez.
— Não me diga que ganhou na loteria!
— Quem me dera! Já imaginou ganhar mais de dois milhões e meio de dólares de uma só vez? É dinheiro para dar jeito na vida de qualquer um!
— Você é uma sonhadora, isso sim. As chances de se ganhar na loteria são ínfimas. No seu lugar, eu esqueceria essa história de bilhetes e passaria a economizar o dinheiro gasto com eles.
— Ora, sonhar não faz mal a ninguém.
James tomou-a nos braços e beijou-a apaixonadamente. Depois, colando os lábios no ouvido dela, sussurrou:
— Tem certeza de que quer mesmo sair? Se ficássemos aqui, poderíamos...
— Nada disso, Dr. Potter. Vá trocar de roupa, enquanto termino de me arrumar.
Ele tomou um banho rápido e colocou um terno escuro. Mesmo apressado, não conseguia parar de pensar no vestido que Lily usava. Talvez devesse estar lisonjeado por ela ter gasto um dinheirão num traje que fosse agradá-lo, mas... De onde saíra essa quantia? E como ela pudera ser tão desmiolada a ponto de gastar o que não tinha numa roupa que vestiria em pouquíssimas ocasiões? Seria por coisas assim que Ryan havia lhe falado a respeito de certas "dores de cabeça"?
Quando James voltou para a sala de estar, ela estava na sua poltrona preferida e foi logo dizendo:
— Você trouxe esse maldito passarinho outra vez?
— Tweety? Ah, ele vai ficar muito pouco.
Como se percebesse que falavam dele, o canário começou a cantar. Lily, porém, não se deixou comover:
— Quanto é "muito pouco"?
— Apenas esta noite, já que minha mãe vai chegar de viagem amanhã... Por falar nisso, não quer ir até a casa dela comigo? As flores do jardim devem prestes a se abrir e o lugar é muito gostoso.
— Ela não estará lá?
— Não, mamãe chega no final da tarde. Por quê? Isso faz alguma diferença?
— Não, diferença nenhuma. Podemos ir, sim.
Ela deu um sorriso, tentando aparentar naturalidade. Apesar da contradição que isso representava, não queria envolvimentos com a mãe de James ou qualquer coisa que tivesse a ver com a vida ou o background dele.
Ao chegarem ao restaurante, porém, Lily já havia se esquecido de suas incoerências. James mostrou-se uma companhia inteligente e charmosa, conversando sobre os mais variados assuntos, emitindo opiniões interessantes a respeito de temas que variavam da política internacional à arte contemporânea, passando até mesmo pelas tendências da moda. Também o jantar em si foi simplesmente divino, desde o vinho branco servido com o antepasto até o delicioso creme que ele sugeriu por sobremesa.
Mais tarde, dançando nos braços de James num requintado night club das redondezas, Lily sentia-se no paraíso.
Aninhada ao peito dele, perguntou:
— Onde aprendeu a dançar tão bem?
— Por incrível que pareça, tive aulas de dança no ginásio. Você também?
Ela fechou os olhos, engolindo em seco. Naquela época da sua existência, seu pai tinha ido embora de casa, a vida se esvaía do corpinho magro de Petúnia dia a dia, sua mãe trabalhava em dois empregos e, às vezes, tudo o que tinham para comer eram sucrilhos doados pelos vizinhos.
— Não, James. Nunca tive aulas de dança.
Com medo de estragar aquela noite tão maravilhosa, Lily tratou de afastar aquelas lembranças, concentrando-se em acompanhar a cadência da música suave e romântica. Mesmo assim, uma dúvida não deixava de importuná-la: como uma mulher que tivera um passado quase miserável e vivia um presente repleto de dívidas podia ter um relacionamento feliz e tranqüilo com um homem que, desde a tenra infância, desfrutava de uma situação financeira invejável?
No começo da madrugada, quando finalmente chegaram em casa, ela teve vontade de conversar sobre aquela questão tão complexa. Mas, assim que fechou a porta atrás de si, James fez-lhe uma pergunta que dissipou qualquer vestígio de raciocínio que ainda lhe restava:
— Vamos dormir na minha cama ou na sua?
